onde a matermática não salva


Patrícia Reis,

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Seis meses? Não, não, as palavras atravessam a mente como picadas e ela agarra-se com mais força ao varão metálico da carruagem. Pode ser que parem. As dores. E as palavras. São seis meses, por ter sido ontem, e são seis anos se quiser ser exacta. Carmen despreza a exactidão. Faz contas. Todos os dias faz contas. Seis meses são 182 dias, 4368 horas, 262 080 segundos.

Alberto Vaz da Silva (1936-2015)


Patrícia Reis,


“O seu conhecimento enciclopédico permitia-lhe fazer compreender tudo para além do imediato e do simples. A poesia, a literatura, as artes, o diálogo das culturas e das civilizações.

 

O Alberto deixou-nos. Era uma personalidade fascinante. Uma conversa com ele era um motivo de luminosidade e de sabedoria. Conheci-o desde sempre, primeiro como jovem advogado brilhante que colaborou com o meu avô, mas depois, e com uma intensidade crescente, como um cultor da melhor amizade, como da melhor literatura e da melhor arte.

Ao lado de João Bénard da Costa, de Pedro Tamen, de Nuno Bragança e de António Alçada Baptista foi um dos grandes protagonistas de «O Tempo e o Modo». Como foi, mais tarde, de «Raiz e Utopia». Na crítica literária tornou-se uma referência de critério e de qualidade. Não é possível compreender a importância de Agustina Bessa Luís ou de Sophia de Mello Breyner sem ler o que Alberto escreveu. E, para tanto, teve de romper com conformismos, dos vários lados do espetro político.

Ao lado de Helena Vaz da Silva, foi uma peça-chave nos diversos projetos em que esteve envolvida. Admirava profundamente a inteligência de sua mulher, sabendo na antecâmara articular a imaginação e a racionalidade, a audácia e o senso comum.

Um dia disse que usava as palavras que estavam na sua alma. E José Tolentino Mendonça, há pouco, no Expresso comparou-o com Cristina Campo, a propósito de «Os Imperdoáveis». «Isto é, aqueles que possuem e definem um estilo, os habituados por uma força profunda, por um caráter próprio, por uma sabedoria irremovível, aqueles que desenham com as suas vidas um mapa de tal modo original que se torna necessário à viagem dos outros». E assim citava a frase de Saint-Martin: «Houve certos seres através dos quais Deus nos amou».

Era assim a sua fé, feita de afeto e espontaneidade. O seu conhecimento enciclopédico permitia-lhe fazer compreender tudo para além do imediato e do simples. A poesia, a literatura, as artes, o diálogo das culturas e das civilizações – tudo se somava à paixão pela astronomia e à experiência da grafologia. Psicólogo experimentado, conseguia na decifração da escrita entender a complexidade das personalidades humanas. E assim cultivou a psicologia das profundidades. Roseline Crepy abriu-lhe os horizontes.

A sua generosidade permitiu-lhe, entretanto, dedicar-se àquilo que lhe dava verdadeiro prazer: a descoberta da diversidade e a procura da luz. Oiçamo-lo sempre: «É com sorridente beatitude e uma ponta de inveja que hoje lemos os livros de viagens que foram moda no final do século passado. Já no século XVIII fazia parte da educação de qualquer jovem bem nascido correr mundo, isto é, percorrer longamente a Itália num Grand Tour que, depois de completado, lhe permitiria estabelecer-se com segurança no lugar que a Providência lhe designara».

Ah! O Alberto continua a despertar o gosto pela vida!

 

Texto de Guilherme de Oliveira Martins, Presidente do Centro Nacional de Cultura, publicado no  jornal O Observador

onde a memória nos mente


Patrícia Reis,

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Há seis meses, talvez ainda te recordes, trocávamos ideias sobre crianças. Uma gravidez. Uma adopção. Seis meses. Não é nada, é muito. É um pesadelo.

Carmen vê os minutos que faltam para o metropolitano chegar. Sabe que precisa de contar sete paragens e obriga-se a não ver nada, a não olhar para um rosto que a possa surpreender. Importa não se distrair. Primeira estação, segunda estação…

Xenófanes de Cólofon (séc VI-V a. C.)


Patrícia Reis,

 

Agora está o solo puro, e as mãos de todos nós

e os cálices. Um põe-nos as coroas entretecidas,

e outro oferece-nos numa taça a essência fragrante.

O crater está repleto de boa disposição.

Está já pronto outro vinho, que garante que jamais

abandona ao barro o cheiro a mel da sua flor.

No meio, uma árvore de incenso desprende um sacro aroma;

a água está fresca, doce e pura.

Aqui temos os fulvos pães e a mesa sumptuosa,

carregada de queijo e de pingue mel.

Ao meio, o altar está todo coberto de flores.

A música festiva domina o ambiente.

Ao deus devem os homens sensatos entoar primeiro um hino,

com ditos de bom augúrio e palavras puras.

Depois de fazer as libações e preces para procederem

com justiça — pois isso é a primeira lisa —

não é insolente beber até ao ponto de se poder voltara casa

sem ajuda de um escravo, a menos que se seja muito idoso.

 

(fragmento 1, ed. Diels-Kranz, versos 1-18,  tradução portuguesa de Maria Helena da Rocha Pereira, publicado na antologia de Cultura Grega, Hélade.)

A ex Primeira Dama que nunca abdicou do nome de solteira


Patrícia Reis,

Texto jornal Público, Catarina Gomes, Nuno Ribeiro, Bárbara Wong.

Fotografia de Rui Gaudêncio

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Maria de Jesus Simões Barroso Soares tinha o apelido do marido, mas nunca abdicou de ser conhecida pelo seu nome de solteira. Apesar de se ter tornado figura pública sobretudo por ter sido mulher de Mário Soares, a ex-primeira dama trilhou, a partir de certa altura, um caminho completamente divergente do do marido, um convicto agnóstico, ao converter-se ao catolicismo. A actividade pública que lhe ocupou a última parte da sua vida esteve ligada à defesa dos direitos humanos, sobretudo como presidente da fundação que criou, a Pro Dignitate.

Nasceu em Olhão, a 2 de Maio de 1925, filha de Alfredo José Barroso, oficial do Exército, e de Maria da Encarnação Simões, professora primária. Maria de Jesus Barroso Soares é a quinta de sete filhos. Morreu na madrugada desta terça-feira, com 90 anos, no Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa, na sequência de uma queda em casa, no passado dia 25 de Junho, que a deixou em estado de coma. 
Esta segunda-feira, a sua situação clínica deixou de justificar um internamento numa unidade de cuidados intensivos e Maria Barroso tinha sido transferida para um quarto particular, segundo a informação avançada pelo hospital. Dez dias após ter entrado no hospital pelo seu pé, Maria Barroso morreu na madrugada desta terça-feira.
Às 8h desta terça-feira, o porta-voz do hospital, José Barata, fez um comunicado aos jornalistas, informando que Maria Barroso morreu às 5h20, após um coma profundo e cabe agora à família informar sobre as cerimónias fúnebres. No edifício hospitalar estão os dois filhos, João e Isabel Soares. O marido, Mário Soares, ainda não chegou ao local.
Às 8h30, José Barata voltou a dirigir-se à comunicação social para informar que o corpo da ex-primeira-dama ficará no hospital até às 18h, seguindo para o Colégio Moderno, em Lisboa, onde estará em câmara ardente e poderá ser velado. As cerimónias fúnebres serão na quarta-feira, comerçarão às 10h, na igreja do Campo Grande, próximo da escola a que Maria Barroso dedicou a sua vida e que pertence à família Soares, com uma missa de corpo presente. O funeral seguirá para o cemitério dos Prazeres, também em Lisboa.
José Barata informou ainda que a família apela ao respeito pela dor e sofrimento por que está a passar e pede que não sejam recolhidas imagens durante o velório no colégio.
Entretanto, o Partido Socialista já manifestou a “profunda dor e sensação de perda” pela morte de uma das suas fundadoras e informou que as bandeiras do partido estarão a meia-haste.
O Presidente da República, Cavaco Silva, também já apresentou as condolências à família. “Mulher de cultura e de causas, Maria de Jesus Barroso distinguiu-se, ao longo de décadas, como uma lutadora pela liberdade e pela democracia, antes e depois do 25 de Abril”, sublinha o governante, na mensagem divulgada no site da Presidência da República.

Conversão ao catolicismo
Um ponto de viragem na sua vida foi, de forma assumida, o acidente quase mortal do seu filho João Soares, num acidente de avião na Jamba [território controlado pela UNITA, em Angola}, em Setembro de 1989. Maria Barroso disse sempre que não gostava de falar da sua conversão, por fazer parte da sua vida íntima, mas admitiu várias vezes que, nessa altura, muito mudou.
“Era de noite, o meu marido já se tinha deitado, e eu estava a fazer as malas, porque no dia seguinte partíamos numa visita de Estado à Holanda e à Hungria. Foi curioso… Nessa noite, não conseguia dormir. A certa altura, a minha filha telefonou a dar a notícia de que o João tinha tido um gravíssimo desastre na Jamba, em Angola, e que estava muito mal. E soube que o João tinha sido levado para a África do Sul, para um hospital em Pretória”, disse ao Expresso numa entrevista em 2009.
Já no hospital, continuou a contar, encontrou João Soares em estado grave. “Quase não reconheci o meu filho. E todos os dias perguntava ao médico: ‘Como está o meu filho?’ Ele dizia-me sempre: ‘Um bocadinho melhor, mas continua muito doente. Peça a Deus’”. E Maria Barroso conta que pediu. Mal recebeu a notícia do acidente, lembra que ligou a uma amiga: “’Vá ter com o senhor padre da igreja do Campo Grande [em Lisboa] e peça-lhe que reze pelo meu filho!’ Porque eu estava angustiadíssima. Foi um afastamento de muitos anos. Pode haver um fenómeno que nos toque, que nos fira, que provoque uma angústia, um desejo de nos agarrarmos a qualquer coisa que nos dê força para aguentar. Deus ajudou-me”, disse na mesma entrevista.
O pároco da igreja do Campo Grande, Vítor Feytor Pinto, não fala desse momento da vida passada de Maria Barroso e daquele seu momento de aproximação à fé, por fazer parte “da sua intimidade espiritual”. Prefere falar do presente. Maria Barroso ia à missa das 19h todos os domingos, mas “chegava sempre uma hora antes”. “Era de uma grande ternura, atendia e falava com toda a gente que vinha ter com ela. É um exemplo muito bonito de uma cristã que praticava o amor aos outros.”
O sacerdote disse ao PÚBLICO que a ex-primeira dama “era uma paroquiana que participava intensamente na vida da comunidade”. Usando os seus dotes de antiga actriz, “Maria Barroso ensinava a ler ao microfone a quem faz as leituras na missa”, tanto em termos de dicção como de projecção de voz, explicou. “Em festas da paróquia, declamava poesia, como fazia na sua juventude”.
Maria Barroso admitiu que passou por um longo período de “afastamento da fé”. Foi baptizada em criança, mas disse que a vida política contribuiu para a afastar da religião, assim como o facto de, na altura da ditadura, haver “uma discrepância muito grande entre a doutrina de Cristo que pregava a Igreja então em Portugal e a sua prática”, disse na mesma entrevista ao Expresso. “Parte da Igreja apoiou Salazar, aceitando medidas injustas e desumanas e permitindo que a polícia política se instalasse e cometesse os crimes que cometeu em relação à oposição.”
Na vida pública, a sua acção cívica das últimas três décadas ficou marcada pela ligação a instituições como a Cruz Vermelha Portuguesa, cuja presidência assumiu no ano seguinte ao fim do mandato de Mário Soares, e sobretudo a fundação Pro Dignitate, criada em 1994 e que se apresenta como “um grupo de personalidades com o objectivo de prevenir a violência e promover os direitos humanos”.
A vice-presidente do Instituto de Apoio à Criança (IAC), Dulce Rocha, diz que a manutenção do seu apelido de solteira na forma como era tratada era apenas um sinal que “demonstrava uma personalidade forte. Era uma mulher com vida própria, com um percurso de vida muito autónomo que não se confunde com o do marido. Tinha o seu próprio programa”.
A magistrada conhece de perto a actividade da fundação, com quem o IAC mantém uma parceria, notando que “a Pro Dignitate foi precursora nas questões em torno [da prevenção] da violência nos media”.
Maria Barroso divergiu de Mário Soares na fé e noutras questões. Por exemplo, afirmou-se a favor do sistema de quotas para as mulheres na política, ao contrário do ex-presidente da República que acredita que “as mulheres sobem pelo seu valor.” Maria Barroso disse: “Sei que é uma forma artificial, mas é a única que consegue ajudar a transformar mentalidades. Sobretudo as dos homens, para um dia admitirem que as mulheres têm os mesmos direitos”. Também discordou de Soares no momento nuclear da criação do PS. Votou contra a fundação do partido, em 1973, tal como defendia Salgado Zenha.
Ao longo da sua vida, manteve uma forma de independência discreta, bateu-se pelos direitos das mulheres mas viveu conformada com a ideia de que “as mulheres ficam sempre na sombra”. Gentil Martins, cirurgião católico que conhecia a ex-primeira dama, diz: “Sempre me fez confusão, como é que ela conseguia conciliar as suas crenças com as do marido, que eram antagónicas? Mantendo sempre a coerência com aquilo em que acreditava”, responde.

Única mulher na foto do PS
“Tive medo algumas vezes (…) mas também tinha a convicção de que era importante ter coragem”. Esta reflexão de Maria Barroso, em entrevista ao DN há dez anos, é a marca de uma geração. Da geração que lutou contra a ditadura. Muito antes de estar do lado da oposição ao Estado Novo na Faculdade de Letras de Lisboa, Maria Barroso já conhecera as privações impostas pelo regime de excepção.
O seu pai, oficial do Exército, esteve deportado no Forte de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, nos Açores, por ter participado na Revolta de Fevereiro de 1927, a primeira rebelião, liderada pelo general Sousa Dias, contra a Ditadura Militar instaurada a 28 de Maio de 1926. No mesmo forte de Angra, décadas mais tarde, o seu sogro também estaria preso.
Maria Barroso sempre recordava que o 74.º aniversário do seu pai fora passado em tortura de sono na sede da PIDE, na Rua António Maria Cardoso. Ela própria foi interrogada duas vezes pela polícia política, uma das quais depois de um recital de poesia revolucionária em Santarém.
Declamar publicamente o poema Prometeu, de Joaquim Namorado, valeu-lhe dois interrogatórios pela PIDE. “Ficavam furiosos com este poema”, disse numa entrevista ao jornal i, em Maio deste ano, por altura do seu 90.º aniversário, antes de o recitar: “Abafai meus gritos com mordaças/ maior será a minha ânsia de gritá-los/ amarrai meus pulsos com grilhões/ maior seria minha ânsia de quebrá-los/ Rasgai a minha carne/ triturai os meus ossos/ O meu sangue será a minha bandeira/ e meus ossos o cimento duma outra humanidade/ que aqui ninguém se entrega/ isto é vencer ou morrer…”

Na segunda metade dos anos 40 do século passado, Portugal vivia na ebulição da luta dos aliados contra o nazismo. Nas universidades sentia-se o fervilhar da esperança. Era assim na Faculdade de Letras de Lisboa onde Maria Barroso conheceu Mário Soares, então estudante de Letras e Filosofia: “Encontrei no meu marido o desejo de lutar por um mundo melhor, isso foi uma das coisas que me atraiu extraordinariamente”. Em Maio de 1945 participam, com muitos jovens convocados pelo Movimento Unidade Democrática, nas manifestações de júbilo pelo fim da Segunda Guerra Mundial.
Casariam em 22 de Fevereiro de 1949, por procuração, quando Soares estava preso na cadeia do Aljube. É o início de uma vida de casal fora do comum. Entre várias detenções pela polícia política, um dos momentos mais difíceis foi o tempo de deportação, em 1968, de Mário Soares em São Tomé e Príncipe. Com ele vive durante algum tempo na antiga colónia.
Em 1969, a oposição tenta aproveitar a abertura anunciada por Marcello Caetano. Soares, alguns sectores republicanos e elementos da Acção Socialista Portuguesa – fundada cinco anos antes em Genebra por Mário Soares, Manuel Tito de Morais e Francisco Ramos da Costa – criam a CEUD [Comissão Eleitoral de Unidade Democrática] que concorre às eleições à Assembleia Nacional nos círculos de Lisboa, Porto e Braga. Maria Barroso é candidata em Santarém pela CDE [Comissão Democrática Eleitoral], aliança de comunistas, católicos e independentes de esquerda.
Com o marido no exílio, em Paris, assume um duplo papel. Dirige o Colégio Moderno, pilar da economia familiar, e ocupa-se da educação dos dois filhos, João e Isabel, então adolescentes. “Falava-lhes do pai como um pessoa que desencadeava uma acção a favor da democracia, com o desejo de que os direitos humanos fossem respeitados”, recordaria. Em 1973, é, a única mulher na foto da fundação do PS, em Bad Münstereifel, na então República Federal da Alemanha.
Após o 25 de Abril de 1974, foi eleita deputada à Assembleia da República nas legislaturas iniciadas em 1976, 79, 80 e 83, pelos círculos de Santarém, Porto e Algarve.

onde o útero materno não chega


Patrícia Reis,

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Decide que importa regressar. São oito e quinze da manhã. No andar de cima, os vizinhos falam alto. Não é habitual. Tenta não antever uma discussão. Não quer ter vizinhos que discutem às oito da manhã. Lá fora chove e esse atirar, essa agressão, é-lhe suficiente. Consegue antecipar os movimentos rápidos para evitar a chuva, a inutilidade de tudo, o corpo a ficar encharcado, apesar da gabardine, das botas. Andar depressa assusta-a, mas tudo a assusta de momento, já sabe. Corre para a boca do metro e imagina-se a entrar numa cápsula, num útero materno. Afasta a ideia.

onde o som rasga a pele


Patrícia Reis,

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Carmen fica ao espelho e, imprudente, acende um cigarro que não fuma. Ela diz que não fuma. Vê o fumo, pequeno, um rasgo apenas, quebrar a sua imagem. Não se reconhece. Passa a mão esquerda por água, com a direita segura o cigarro. Fica assim algum tempo. Ouve o gato. Atravessou o corredor. Depois de ficar sozinha começou a temer o bicho. O silêncio dele. Comprou-lhe uma coleira com um guizo. Considerou várias vezes se o barulho não o irritaria, se não o levaria à loucura. Um som metálico, um tilintar que podia ser de fada ou de duende. De bailarina exótica. O gato salta para o parapeito da banheira. Com a pata procura água junto à boca da torneira. Carmen observa-o, sente o fogo das cinzas a arder perto da pele, o cigarro que termina.

Olhos de caramelo


Patrícia Reis,

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Sim. Olhos de caramelo.

Ao espelho, Carmen já não vê o caramelo, o dourado, a íris num rasgo de. Qualquer coisa. Não. Só vê o fundo escuro do castanho mais negro, cada vez mais negro. Tem tendência a repetir tudo várias vezes, é uma ajuda, para entender as palavras, para as ouvir. Fala alto. Baixinho, mas em voz alta. Para si. Por vezes, fala para os outros e parece que não a conseguem ouvir. Sente-se como um boneco animado, desesperada, incompreendida. Um boneco triste, de fazer rir de tão triste.


Patrícia Reis,

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Eu não sou o teu nome

Casámos há seis anos. Todos os dias penso em ti.
Carmen ouve-se e, na devolução do silêncio, sente que se perde como uma criança que larga a mão quente da mãe. Ainda pensa que pode o dia ser interrompido por outro som; aguarda. Ruídos da casa de banho, passos no andar de cima; fecha os olhos e deixa-se imaginar o barulho infernal da cidade condensado numa tortura que é só sua. Apenas sua.

Carmen.

Não pode perceber como o seu rosto chegou até ali. Por princípio evita os espelhos. Hoje não é um dia como os outros, qualquer outro dia em que consegue, apesar de tudo, consegue esquecer a solidão, a tristeza dos olhos… Como era que tu dizias?
Olhos de caramelo.

anda lá, vamos para casa


Patrícia Reis,

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Estás a ver alguma coisa? Não te preocupes, deve ser o camião do lixo. Ou outro carro. Estás a ouvir? Anda lá, despacha-te, está mais frio do que esperava, temos de ir para dentro. Estás a olhar para mim? Não, não me apetece andar mais, vamos voltar para casa. Não puxes a trela, espera aí. Não me puxes. Não aguento quando me puxam e passo o dia a sacudir essas violências. Anda, vamos para casa.

todos temos bom gosto


Patrícia Reis,

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 O homem sabia que, realisticamente, era impossível que todos tivessem bom gosto, sentido de humor, um guarda-roupa impecável, corpos perfeitos e outras coisas. Olhou para a mulher, ela de riscas multicolores, camisa e colete, tudo baralhado, e pensou que seria uma bondade alguém alvitrar a possibilidade de ela não ver bem as cores. Hoje não era totalmente dramático, azul e rosa, enfim, admissível, mas a mulher, aquela mulher, só podia ser daltónica.

rosas, senhores, rosas


Patrícia Reis,

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Não vão durar mais do que dois ou três dias, mas são bonitas, não acha? Não as corto. Nunca corto. Limito-me a vê-las. Gosto desse nascer na primavera, a rosa dentro do botão, o atrevimento de querer ver o mundo e, depois, o seu esplendor, como numa manifestação de existência divina, a rosa diz:

” Estou aqui.”

E eu sento-me e vejo-a até as pétalas começarem a cair.

há luzes e depois há o futebol


Patrícia Reis,

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O carro não fala, não é uma ficção de televisão banal e datada, porém tem os seus momentos. De repente, uma luz. Uma luz que à mulher não quer dizer nada. O símbolo a que a luz está associada é apenas isso, uma coisa que parece a letra D e uns raios. Mais tarde, perguntará ao marido e ele dirá, sem a encarar, olhando para a televisão, que são os faróis de nevoeiro. Ela ainda sentirá a tentação de perguntar como é que se desligam, mas o futebol já começou.

são notícias, senhores, são notícias


Patrícia Reis,

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É a quarta vez que a jornalista lê a mesma notícia. As manhãs são assim. O trânsito lá andou e ela até fala do Porto como se conhecesse a via da circunvalação e outros pormenores. Não se aborrece com as notícias, ou melhor, com a repetição das notícias. O que a incomoda é não vislumbrar uma notícia que seja boa, que tenha a bondade por tema ou princípio. Mas quem é ela? Apenas uma jornalista a recibos verdes, certo? Certo.

sou apenas um tomate


Patrícia Reis,

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Não sou um tomate como os outros, sou o Cyrano Bergerac dos tomates, esta minha saliência perturba os mais puristas, diverte os mais otimistas e faz com que a imaginação seja um pouco mais perversa. Não sou um legume, já se sabe, sou uma fruta, faço parte dessa família e nasci assim. Em vez de ser discriminado, como acontece a tantos colegas de ofício ou espécie, pois sou exibido. Seja. Não aguentarei mais do que dois dias, mas as pessoas divertem-se.

sonhos perturbadores


Patrícia Reis,

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Se eu vivesse dentro do tecido, o tecido ao teu pescoço, eu num consolo contra um frio repentino, um aconchego, de volta do teu pescoço, a sentir o perfume, uma fragrância floral com um ligeiro toque a citrinos. Se eu vivesse nessa tua écharpe que teimas em usar às segundas-feiras, talvez não tivesse de te sonhar o fim de semana inteiro.

A felicidade de Deles


Patrícia Reis,

 

Para o Elvis e o Luís, dois homens à beira da água

A sala estava repleta de computadores. Era branca e infinita. Em mesas corridas, os ecrãs e os teclados eram utilizados por homens e mulheres sem distinção, todos vestidos de azul escuro com sapatos confortáveis. Sem serem exactamente iguais, clones uns dos outros, eram similares, de uma forma invulgar, fixavam os ecrãs e escreviam com todos os dedos. A sala, estranhamente, mantinha-se silenciosa. A meio havia um corredor, uma espécie de divisória, apenas uma passagem. As mesas não acabavam. Ao fundo, distinguia-se um vulto que, em passo lento, seguia junto às mesas de trabalho, por vezes parando, olhando, verificando, dizendo algo em surdina. Era um local inesperado. Não tinha um nome atribuído; enfim, possuía uma designação quase hilariante que “os outros” construíram ao longo dos tempos. Para homenagear essa fonte extrema de imaginação do Homem, alguém poderia ter escrito na parede: céu. Porém, não existia por ali ninguém com esse sentido de humor, excepto Deus, claro, mas esse estava extremamente ocupado. Gostava de citar Estaline, um ditador perdido na história “dos outros” – assim eram conhecidos os seres da raça humana – que dizia que mandava fazer, mas gostava de conferir. Deus verificava tudo. Ninguém sabia como é que ele conseguia, afinal eram muitos ecrãs, cada um representando, pelo menos, cem vidas distintas. Os operadores eram responsabilizados pelas vidas que tinham em mãos. Sabiam ao pormenor os aspectos mais bizarros das histórias dos homens e das mulheres que, na Terra, repetiam as instruções que eles ditavam nos seus computadores supersónicos e avançados. Os operadores eram, portanto, uma espécie de escribas supremos, servindo um Deus que podia ter os seus momentos de ira e de bondade, misturando emoções com uma violência tal que, por vezes, aconteciam desastres. A estes desastres “os outros” chamavam catástrofes e atribuíam à Natureza um papel determinista nos sucessivos azares. A verdade era diferente. Na sala branca, os operadores escreviam e escreviam, incansáveis, dormindo apenas quando as pessoas que estavam sob a sua alçada faziam o enorme favor de adormecer.
Numa sala ao lado, em tudo igual a esta, outra equipa de operadores, também supervisionados por Deus, embora de forma mais errática, eram responsáveis pelos sonhos. Escreviam-nos num registo de alguma estranheza e, como não causavam tantos conflitos na vida real, davam-se ao luxo de brincar e misturar vidas e eventos. Nos sonhos, tudo é possível e a coerência não impera. Os operadores da sala dos sonhos eram considerados aprendizes. Ainda faziam muitas asneiras, não podiam ser autores da vida de ninguém. Os sonhos pouco importavam, a maioria esfumava-se ao acordar e “os outros”, mesmo tentando fixá-los, enfrentavam uma dificuldade enorme ao fazê-lo. Alguns insistiam e escreviam anos a fio sobre o mistério maior dos sonhos, sobre o funcionamento inexplicável do cérebro. Deus achava alguma graça a esta tentativa dos humanos de decifrarem os sonhos, como se chegassem a uma consciência. Ora, a consciência ditava-a Ele na sala ao lado, nos pequenos gestos que cada criatura produzia na vida que Lhe destinara. O resto eram lérias.
Foi muito cedo que Deus percebeu que a vida não teria significado sem dor, sem revezes, altos e baixos que levariam “os outros” a entender que viver é uma construção com o propósito único de aprender algumas lições básicas. Sim, a lengalenga sobre a bondade, paridade, amor e sinónimos. O problema com “os outros” começara com o excesso de imaginação de alguns operadores. Era preciso toda a sua atenção para que nada descambasse. Deus não gostava de ver “os outros” sofrer, nada disso, mas entendia ser necessário sublinhar amiúde a pequenez de tudo o que existia. Não estava preocupado com as potenciais queixas. Não existia, ao contrário do que “os outros” pensavam, uma sala para o atendimento de queixas. Ele não tinha tempo para ouvir preces ou pedidos especiais. Estava demasiado ocupado a ver que tipo de vida é que os seus milhares de operadores desenvolviam consoante o tempo, a zona geográfica, a raça, o sexo, a etnia, a religião. Achava alguma piada a intervir, aqui e ali; a sugerir uma redenção a um operador que tinha levado “um outro” até ao poço mais fundo. Dizia, magnânimo, que as oportunidades dão-se para serem desperdiçadas, existirão sempre novas oportunidades. Deus era, assim, a favor das novas oportunidades. Sabia que a Terra se desenvolvera de forma a criar guettos e outras maleitas. Culpa dos seus operadores? Sim, em parte, contudo essa irregularidade também era uma forma de equilíbrio.
Deus possuía os tais momentos de ira e de emoção. Deus era todo-poderoso, sem dúvida, estava ao seu alcance criar e destruir. Julgava a parte da construção como algo de mais interessante. Todavia, nos momentos de desalento, perdia a vontade e destruía. Ou mandava destruir. Os operadores eram eficazes e rápidos, entendiam com facilidade o que Ele pretendia. Só não compreendiam o capricho de possuir um computador à parte, mais luzidio, com um ecrã de definição total, onde tomava conta, pessoalmente, da vida de quatro ou cinco criaturas, de “outros” sem significado específico. Não eram pessoas dignas de nota, homens no poder, mulheres com ideias e empreendedoras, crianças dotadas. Deus entretinha-se com a classe média ou baixa. Com os que não tinham ambições de maior.
Para citar um caso específico, Deus desenvolvera uma fixação numa história particular de uma miúda com catorze anos, apostada em fazer vencer a ideia de felicidade. Para Ele era estranho que alguém concebesse a felicidade de uma forma singela e tangível. A felicidade era um dos seus jogos, ou promessas, como diriam “os outros”. E aquela miúda decidira baralhar tudo sozinha, sem que Ele, como operador supremo, conseguisse controlar fosse o que fosse. A miúda dera um salto de fé tão violento que derrubara a Sua vontade.
Ela estava determinada a ser feliz como outras pessoas estão convictas do seu caminho para o sucesso financeiro. Não pretendia possuir casas e contas em bancos diversos; não era sobre isso. A felicidade residia na redenção da sua mãe e, só isso, era um projecto com ambição suficiente para se ocupar dele uma vida inteira. Não cometeria os mesmos erros, seria perspicaz e cultivaria a bondade de uma forma misteriosa e altruísta sem se perder nas malhas da ingenuidade. Ao mesmo tempo, arrastaria, como um barco de pesca, a mãe e a irmã nesta intenção de ser distinta e de ver na vida o que tão facilmente se esconde. Quando terminou de dedilhar estas convicções que incorporaram a mente de Teresa, Deus surpreendeu-se. Não era o seu tipo de história. Ele era mais dado a épicos de vontade e de teimosia, tinha-os criado com enorme valentia ao longo dos tempos e alguns exemplos ainda prevaleciam como modelos a seguir. No caso de Teresa, deixou a coisa correr, sentindo, é certo, um certo embaraço no caso de ser apanhado por um operador mais curioso. Olhando à sua volta, a sua sala permanecia tranquila, todos os olhos fixos nos diferentes ecrãs, nada de novo. Uma rebeldia seria impensável. Deus suspirou e regressou à história de Teresa. Sentia-se lamechas nessa tarde, embora nunca o admitisse.
A decisão sobre o exercício de felicidade – ou sobre o índice dessa sensação na vida de Teresa – foi tomada quando esta completou catorze anos. Deus considerou que a idade era justa. Não era uma criança, não era exactamente um adulto. O pai acabara de deixar a casa em silêncio, retirando-se à força, escoltado por dois polícias à paisana. Para se entreter, ela decidira fazer arroz doce sem ovos, com raspas de limão e açúcar amarelo, distraindo a irmã mais nova nas delícias do tacho, mexer, mexer com cuidado. A mãe permanecera no quarto de casal, paredes-meias com a sala. Ouviu-a gemer quando a porta da rua se fechou com o fim da violência. Com o seu corpo franzino, cabelo preso na nuca com um elástico velho,  Teresa abandonou a cozinha dizendo para a irmã
Não deixes de mexer o arroz, não se pode queimar no fundo do tacho. Se parares de mexer estragas tudo.
Aproximou-se do quarto da mãe, bateu à porta, apenas um toque ligeiro, uma intenção. Sentou-se na cama ao seu lado e começou a contar.

Quando tinha dois anos caí ao rio. Era muito pequena. Andava de fralda.

Sim, filha.

O cão salvou-me.

Pois foi. Eu lembro-me.

Isso faz de mim uma pessoa diferente, mãe. Sei coisas que tu não sabes e vou-te dizer agora como vais fazer a tua vida.

Está bem.

A mãe passou a mão pela cara, um gesto cansado, uma intensa dor indizível. Tudo o que fizera para proteger as filhas terminara naquele dia, no minuto anterior. Não queria falar sobre isso. Estranhava o cheiro adocicado que invadia a casa. Quis levantar-se, mas sem coragem, encarou a filha mais velha com os olhos azuis sem fim. Deus sentiu um aperto no peito. A menina-mulher disse

Estamos sempre sós, mãe. Sempre. Mas estamos sempre juntas, não é? E agora vamos ser felizes.

E o que é ser feliz?

Vamos fazer uma lista. Ser feliz é o arroz doce que vamos comer ao jantar. Ser feliz é o conjunto de lençóis brancos que vais estrear hoje na tua cama de solteira. Ser feliz é saberes que estás aqui.

Onde é que tu descobriste essas coisas? Essas ideias?

Nos livros. Quando quiseres estar triste e chorar dou-te livros para chorares. Na vida vais ser feliz.

Assim de repente?

Assim de repente.

A decisão foi tomada sem grandes preceitos ou mais discursos. Deus encarregou-se disso. A decisão não iria, de forma alguma, esmorecer; pelo contrário, iria engrandecer e ser central na vida daquelas mulheres.  Hoje, Teresa já não se recorda das palavras que disse, tudo aquilo que somou para mudar a vida, mas a mãe sabe dizê-las com exactidão. Recita cada palavra de cor, como uma oração. Diz às amigas que a filha é o seu anjo da guarda o que, obviamente, não é possível, porque os anjos da guarda nunca foram inventados por Deus. Nunca teve tempo para isso e nunca os considerou necessários. A ideia filosófica e artística dos anjos, essa sim, fora criada por um dos operadores mais veteranos, há muito tempo, quando o mundo estava imerso numa enorme treva. Fora uma ideia feliz, por assim dizer.
Dos catorze aos dezoito, Deus decidiu que Teresa ensinaria a mãe a viver em felicidade, de tal forma que um bolo desenformado com categoria e sem erros passou a ser motivo de aplauso; uma ida a supermercado perdeu a banalidade para se transformar na preparação de um festim, mesmo que parco; uma série de televisão seria a companhia perfeita e a origem de conversas interessantes que, mais tarde, se expandiriam para os livros. A literatura – aliás, as Artes – sempre tiveram imensa importância para Deus. Pequenas coisas, sem importância na vida das pessoas comuns, adquiraram uma proporção esmagadora para Teresa, para a mãe e para a mais pequena, a cara de bebé, Joana. Três mulheres estranhas que coincidiam nesta aprendizagem forçada de ver o mundo pelo avesso. Sempre que surgia um problema, treinavam-se para o desprezar, encarando-o como um mal menor, uma erva daninha incómoda e sem importância. Nada as demovia do plano da felicidade. Deus certificava-se disso. Aos jantares, como um ritual quase religioso, a Teresa começava

Qual foi o ponto alto do teu dia, mãe?

E as histórias desfiavam-se como contas perfeitas, criando um colar forte e coeso, lindo e brilhante, cheio de momentos raros e estranhos.

Hoje no estacionamento faltavam-me cinquenta cêntimos e um senhor, muito amável, deu-mos.

Que sorte.

É verdade, filha. E sorriu-me. Foi bom.

Joana entendia que as história do jantar eram uma espécie de competição, por isso tomava nota de todos eventos que podiam ser considerados bons ou felizes. Deus ajudou-a a criou um método de avaliação do momentos eficazes de vida, um método capaz de surpreender a mãe e a irmã com pequenos episódios onde a pureza ressaltava inesperada.

Hoje assisti a dois surdos mudos a discutir no metro. Não sei nada de linguagem gestual, mas percebi que era uma coisa de namorados. Cheguei ao pé deles e dei-lhes um beijo na cara. Riram-se e ficaram melhor.

Teresa espantava-se com o crescimento da irmã, com a sua invulgaridade. Joana não era uma miúda como as outras. Possuía um dom: o do apaziguamento. Trazia com ela um misto de calma e sabedoria que tornava a vida mais fácil. Além desse dom, Joana cantava e todos os pretextos eram válidos para encher a casa com música. Concordaram que as canções tristes não perdiam validade, eram permitidas, apesar de intervalarem com poemas mais alegres, em fado ou em canções da moda, dessas que se aprendem nas telenovelas. Teresa não se preocupava com Joana. Deus também não. Havia um operador que desenhara há muito um percurso razoável para Joana. Deus estava satisfeito. Por ora, ela cantava e seguia a sua rota no mundo com uma segurança invejável. Não tinha más recordações. Ou, se as tinha, estavam guardadas num baú escondido, como os baús dos soldados de outras guerras.
Teresa concentrava as suas energias na mãe e no combate à tristeza.  Acreditava que a existência da tristeza era um oleado não iluminado que podia alastrar como uma doença terminal. Deus sabia que uma tristeza era capaz de abafar tudo o resto; um vírus feroz e aceite socialmente com uma facilidade assustadora. Teresa passou a saber também. As amigas perguntavam muitas vezes

Tu não choras? Não ficas triste, Teresa?

Para quê? De que serve a tristeza se posso rir até chorar?

Nos dias bons, Teresa levava a mãe a passear à beira mar, um dos passeio de eleição de Deus. Ficavam a ver os outros, a vida dos outros. Como naquele dia em que dois homens, calados há já um tempo, olhavam o mar e elas decidiram ficar a medir a extensão da felicidade que transbordava deles.  Teresa acreditou que, naquele preciso momento, o universo se tinha desligado. Estava suspenso. De certa forma, era verdade, porque Deus tinha-se esquecido dos seus múltiplos deveres e estava há horas dedicado à Teresa e à mãe. Nada mais o comovia. O que importava – tudo o que importava – concentrava-se na visão do mar e no barulho crescente dos risos e mergulhos, ondas que se confundiam com corpos, mãos e pés que surgiam, improvisos, peixes-crianças que se mexiam numa dança sem coreografia. “A praia deserta, zumbir na areia, concha de mel”, o vento cantarolando um clássico brasileiro para que não existissem surpresas. A mãe a acompanhar, cantando baixinho, coisas de meninice. E os dois homens,  junto à margem, olhando em silêncio os oito miúdos que, dentro de água, atiravam os corpos para as profundezas, peixes-crianças que são a glória do fim de Verão. Com um sorriso ligeiro os  homens comentaram, por fim, as brincadeiras aquáticas, talvez recordando tempos preciosos em que também tinham sido assim, tal e qual assim. De súbito, os corpos dos miúdos transformaram-se em voadores e saltavam com energia, num impulso mais forte vindo de dentro de uma gargalhada interrompida pelo rebentar da água. Deus, Teresa e a mãe, mudos, observavam com encanto o fascínio dos homens, as brincadeiras dos filhos dentro do mar bondoso. Os cabelos molhados das crianças exibiam algumas algas e o jogo do atira-vê-se-ficas-com-cabelos-verdes era uma constante. Os homens romperam o silêncio.
 
Daqui a pouco estaremos sozinhos.

Sim. Eles terão outros programas.

Estaremos  mais sossegados.

E cheios de saudades.

A mãe apertou o braço da filha e sussurrando, vaticinou

Só se tem saudades de quem se gosta.

Os dois homens ficaram a ver as crianças e Teresa pegou na mão da mãe, tirou o chapéu de palha e desafiou-a a procurar conchas perfeitas, milagres do Atlântico que se espalhavam no início do areal, onde o mar ainda vem fazer das suas. Alegrava-se com o amor dos pais pelos filhos, sem nunca pensar no seu próprio pai. O amor daqueles homens reconfortava-a nas coisas da sua vida antes de ter decidido ser feliz. Andaram durante muito tempo, os pés a imprimir a areia, a água a escapar-se até aos joelhos num assomo de força. Quando o céu ficou cor-de-rosa e laranja, a mãe deixou escapar uma lágrima. Teresa estacou

Estás triste?

Não, Teresa, estou contente. O céu está lindo, tão lindo e eu acho que nunca o tinha visto assim.

Então por que choras?

Por alegria. Ou por melancolia. Mas não por tristeza, não penses.

Teresa considerou o seu plano de felicidade e como era frágil essa perseguição quase nefasta e inútil. Deus seguiu-lhe os pensamentos. Tudo no mundo parecia mostrar que seria mais simples inverter as ideias, seguir as pisadas dos demais. Dizer mal. Acumular queixas em camadas sucessivas. Desprezar os tons únicos do céu, as estrelas a piscar, as gargalhadas dos miúdos e outras coisas. Sentiu-se pequena. Deus, por seu turno, sentiu uma dor ligeira no braço esquerdo.

Estou a obrigar-te a ser feliz, mãe?

Não, Teresa, estás a fazer com que eu tenha uma vida, estás a fazer com que mais tarde possa dizer que vivi.

E achas que isso é a felicidade?

Não pode ser outra coisa, pois não?

Deus sorriu. Um dos operadores mais novos fez-lhe sinal. Estava com problemas, havia questões prementes a resolver. Levantou-se do seu lugar sem grande vontade. Hoje estava satisfeito Consigo. Amanhã seria outro dia.

Islantilla, 6 de Setembro de 2009