Decide que importa regressar. São oito e quinze da manhã. No andar de cima, os vizinhos falam alto. Não é habitual. Tenta não antever uma discussão. Não quer ter vizinhos que discutem às oito da manhã. Lá fora chove e esse atirar, essa agressão, é-lhe suficiente. Consegue antecipar os movimentos rápidos para evitar a chuva, a inutilidade de tudo, o corpo a ficar encharcado, apesar da gabardine, das botas. Andar depressa assusta-a, mas tudo a assusta de momento, já sabe. Corre para a boca do metro e imagina-se a entrar numa cápsula, num útero materno. Afasta a ideia.
onde o útero materno não chega
Patrícia Reis,

![2015-06-19-Onde-o-utero-materno-nao-chega-1[1].jpg 2015-06-19-Onde-o-utero-materno-nao-chega-1[1].jpg](http://7.fotos.web.sapo.io/i/Ba906fff9/18605816_s6LaC.jpeg)
teve sorte de apanhar um dos poucos dias em que não há greve