Ary dos Santos


Patrícia Reis,

Os putos

Uma bola de pano, num charco
Um sorriso traquina, um chuto
Na ladeira a correr, um arco
O céu no olhar, dum puto.

Uma fisga que atira a esperança
Um pardal de calções, astuto
E a força de ser criança
Contra a força dum chui, que é bruto.

Parecem bandos de pardais à solta
Os putos, os putos
São como índios, capitães da malta
Os putos, os putos
Mas quando a tarde cai
Vai-se a revolta
Sentam-se ao colo do pai
É a ternura que volta
E ouvem-no a falar do homem novo
São os putos deste povo
A aprenderem a ser homens.

As caricas brilhando na mão
A vontade que salta ao eixo
Um puto que diz que não
Se a porrada vier não deixo

Um berlinde abafado na escola
Um pião na algibeira sem cor
Um puto que pede esmola
Porque a fome lhe abafa a dor.

José Carlos Ary dos Santos

Vínícius de Moraes


Patrícia Reis,

AMIZADE: PROCURA-SE

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

o álcool que a lei deixa


Patrícia Reis,

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A miúda não entende a razão para não beber shots. A idade parece-lhe ser a apropriada. A lei diz que não. Tentou no primeiro bar. Depois decidiu tentar a sorte com uma amiga que parece mais velha. Nada. Sentada no lambril do passeio, as unhas dos pés pintadas de preto exibem-se com orgulho nas sandálias compensadas. Um rapaz com um sorriso torto mostra-lhe uma garrafa de litro de vinho e pergunta:

 “Queres?”

É sexta-feira à noite. É a noite. Só precisa de estar em casa às duas da manhã. Fica a olhar para o rapaz mais velho. É uma pena não gostar de vinho.

livros insuportáveis


Patrícia Reis,

A insónia tinha várias origens e a mulher contabilizava as ralações enquanto passava os olhos por um livro. Fazia questão de trazer um livro consigo, para matar o tempo, para não ter de falar com ninguém. É conveniente. As pessoas respeitam e, ao mesmo tempo, acha ela, confere um certo estatuto. Pelas noites, os livros são apenas objectos nervosos que não a acalmam, as letras a pularem umas nas outras, como quem joga num trampolim, a mulher incapaz de se concentrar numa única frase. Insiste. Não quer pensar no futuro, na decisão que terá de anunciar aos filhos no fim de semana. É melhor voltar ao princípio do livro. Ir para um lar não é nada de extraordinário. Talvez extraordinário seja o facto de ser ela, aos oitenta e dois anos, a decidir que vai sem pedir opinião. Terão biblioteca no lar? Ou será que lhe chamam casa de repouso? A insónia permanecerá. Não consegue dizer o nome do personagem principal do livro que tem nas mãos, mas sabe de cor o horário das visitas do lar.

 

vende-se vinho


Patrícia Reis,

O Senhor Adriano tem poucas coisas. Diz ele. Vende o vinho que faz lá atrás, num anexo que não tem nome, não é adega, nem lagar, nem casa de arrumos, serve para o que for. Depende da altura do ano. O Senhor Adriano gosta de conversar, em especial com o Pirolas, o cão minúsculo e nervoso que anda sempre a rondar. Diz-me

 “Sabe, o Pirolas também gosta de uma pinga de vinho. Quer experimentar?”

O homem, vizinho por circunstâncias especiais, estadia que se prevê de curta duração, sorri e encolhe os ombros. É o mesmo que dizer

 “Vamos lá a isso.”

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brilha apesar da maldade dos outros


Patrícia Reis,

 

Fictiongram

 

Deixa-te vestir de escuridão apenas para fora e ninguém verá que brilhas, podes tudo, pensa devagar, pensa depressa. Faz por dentro e mantém os gestos banais que te garantem o lugar no grupo, na dinâmica de grupo que brada pelo direito à diferença, mas que não tolera o que é impossível de descodificar. Constrói em ti sem ninguém ver. Aprende o sabor das palavras, uma a uma, cada letra com o seu sabor e, antes de dizeres em concordância com o mundo o que é suposto, ou apenas político e correto, invade-te com a verdade que ninguém entenderá. Importa pouco o que o mundo quer que sejas, sê para ti e tudo se tornará mais fácil. Brilha por dentro. Cá fora faz frio. Acredita em mim.

 

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Só sinto asco por si


Patrícia Reis,

A senhora irrita-me, nem penso em si como uma senhora, tudo me enerva: o que faz, o que acha que pode fazer, a vergonha de a deixarem fazer. E a senhora faz e eu, todos os dias, vou ver se a senhora continua a fazer o que me irrita e não posso deixar de partilhar com os meus amigos, de comentar a desgraça deste país que dá espaço a pessoas como a senhora, a senhora com o seu tom de voz arrepiante, as suas palavras ocas. Não tenho qualquer pretensão em fazer o que faz, não pense, nada disso, custa-me a sua existência e perco o meu tempo consigo por saber que ficarei de novo renovado na minha irritação. Não resisto a vê-la todos os dias, a gastar tempo a pensar no que podia ser e não é. A senhora não sabe quem eu sou e ignora este meu desvelo consigo, um desvelo que nada deve ao romantismo, apenas ao asco. Eu não podia imaginar que o asco dava tanto trabalho.

só isso


Patrícia Reis,

Sim, a mulher concordou, a vida é só isso. A personagem do filme interrogava-se e ela nem por isso, o filme era uma treta, a vida era o que era. Só isso? Pois, só isso. A ignorância era uma bênção, tinham-lhe garantido. O “só isso” era uma forma assertiva de manter a ignorância. A ver se a dor se afasta.

Carlos Drummond de Andrade


Patrícia Reis,

A MESA

E não gostavas de festa. . .
Ó velho, que festa grande
hoje te faria a gente.
E teus filhos que não bebem
e o que gosta de beber,
em torno da mesa larga,
largavam as tristes dietas,
esqueciam seus tricotes,
e tudo era farra honesta
acabando em confidência.

Ai, velho, ouvirias coisas
de arrepiar teus noventa.
E daí, não te assustávamos,
porque, com riso na boca,
e a média galinha, o vinho
português de boa pinta,
e mais o que alguém faria
de mil coisas naturais
e fartamente poria
em mil terrinas da China,
já logo te insinuávamos
que era tudo brincadeira.

Pois sim. Teu olho cansado,
mas afeito a ler no campo
uma lonjura de léguas,
e na lonjura uma rês
perdida no azul azul,
entrava-nos alma adentro
e via essa lama podre
e com pesar nos fitava
e com ira amaldiçoava
e com doçura perdoava
(perdoar é rito de pais,
quando não seja de amantes).
E, pois, tudo nos perdoando,
por dentro te regalavas
de ter filhos assim. . . Puxa,
grandessíssimos safados,
me saíram bem melhor
que as encomendas. De resto,
filho de peixe. . . Calavas,
com agudo sobrecenho
interrogavas em ti
uma lembrança saudosa
e não de todo remota
e rindo por dentro e vendo
que lançaras uma ponte
dos passos loucos do avô
à incontinência dos netos,
sabendo que toda carne
aspira à degradação,
mas numa via de fogo
e sob um arco sexual,
tossias. Hem, nem, meninos,
não sejam bobos. Meninos?
Uns marmanjos cinqüentões,
calvos, vívidos, usados,
mas resguardando no peito
essa alvura de garoto,
essa fuga para o mato,
essa gula defendida
e o desejo muito simples
de pedir à mãe que cosa,
mais do que nossa camisa,
nossa alma frouxa, rasgada. . .

Ai, grande jantar mineiro
que seria esse. . . Comíamos,
e comer abria fome,
e comida era pretexto.
E nem mesmo precisávamos
ter apetite, que as coisas
deixavam-se espostejar,
e amanhã é que eram elas.
Nunca desdenhe o tutu.
Vá lá mais um torresminho.
E quanto ao peru? Farofa
há de ser acompanhada
de uma boa cachacínha,
não desfazendo em cerveja,
essa grande camarada.
ind’outro dia. . . Comer
guarda tamanha importância
que só o prato revele
o melhor, o mais humano
dos seres em sua treva?
Beber é pois tão sagrado
que só bebido meu mano
me desata seu queixume,
abrindo-me sua palma?
Sorver, papar: que comida
mais cheirosa, mais profunda
no seu tronco luso-árabe,
que a todos nos une em um
que a todos nos une em um
tal centímano glutão,
parlapatão e bonzão!

E nem falta a irmã que foi
mais cedo que os outros e era
rosa de nome e nascera
em dia tal como o de hoje
para enfeitar tua data.
Seu nome sabe a camélia,
e sendo uma rosa-amélia,
flor muito mais delicada
que qualquer das rosas-rosa,
viveu bem mais do que o nome,
porém no íntimo claustrava
a rosa esparsa. A teu lado,
vê: recobrou-se-lhe o viço.

Aqui sentou-se o mais velho.
Tipo do manso, do sonso,
não servia para padre,
amava casos bandalhos;
depois o tempo fez dele
o que faz de qualquer um;
e à medida que envelhece,
vai estranhamente sendo
retraio teu sem ser tu,
de sorte que se o diviso
de repente, sem anúncio,
és tu que me reapareces
noutro velho de sessenta.

Este outro aqui é doutor,
o bacharel da família,
mas suas letras mais doutas
são as escritas no sangue,
ou sobre a casca das árvores.
Sabe o nome da florzinha
e não esquece o da fruta
mais rara que se prepara
num casamento genético,
Mora nele a nostalgia,
citadino, do ar agreste,
e, camponês, do letrado.
Então vira patriarca.

Mais adiante vês aquele
que de ti herdou a, dura
vontade, o duro estoicismo.
Mas, não quis te repetir.
Achou não valer a pena
reproduzir sobre a terra
o que a terra engolirá.
Amou. E ama. E amará.
Só não quer que seu amor
seja uma prisão de dois,
um contrato, entre bocejos
e quatro pés de chinelo.
Feroz a um breve contato,
à segunda vista, seco,
à terceira vista, lhano,
dir-se-ia que ele tem medo
de ser, fatalmente, humano.
Dir-se-ia que ele tem raiva,
mas que mel transcende a raiva,
e que sábios, ardilosos
recursos de se enganar
quanto a si mesmo: exercita
uma força que não sabe
chamar-se, apenas, bondade.
Esta calou-se. Não quis
manter com palavras novas
o colóquio subterrâneo
que num sussurro percorre
a gente mais desatada.
Calou-se, não te aborreças,
Se tanto assim a querias,
algo nela ainda te quer,
à maneira atravessada
que é própria de nosso jeito.
(Não ser feliz tudo explica.)
Bem sei como são penosos
esses lances de família,
e discutir neste instante
seria matar a festa,
matando-te — não se morre
uma só vez, nem de vez.
Restam sempre muitas vidas
para serem consumidas
na razão dos desencontros
de nosso sangue nos corpos
por onde vai dividido.
Ficam sempre muitas mortes
para serem longamente
reencarnadas noutro morto.

Mas estamos todos vivos.
E mais que vivos, alegres.
Estamos todos como éramos
antes de ser, e ninguém
dirá que ficou faltando
algum dos teus. Por exemplo:
ali ao canto da mesa,
não por humilde, talvez
por ser o rei dos vaidosos
e se pelar por incómodas
posições de tipo gaúche,
ali me vês tu. Que tal?
Fica tranquilo: trabalho.
Afinal, a boa. vida
ficou apenas: a vida
(e nem era assim tão boa
e nem se fez muito má).
Pois ele sou eu. Repara:
tenho todos os defeitos
que não farejei em ti
e nem os tenho que tinhas,
quanto mais as qualidades.
Não importa: sou teu filho
com ser uma negativa
maneira de te afirmar.
Lá que brigamos, brigamos,
opa! que não foi brinquedo,
mas os caminhos do amor,
só amor sabe trilhá-los.
Tão ralo prazer te dei,
nenhum, talvez. . . ou senão,
esperança de prazer,
é, pode ser que te desse
a neutra satisfação
de alguém sentir que seu filho,
de tão inútil, seria
sequer um sujeito ruim.
Não sou um sujeito ruim.
Descansa, se o suspeitavas,
mas não sou lá essas coisas.
Alguns afetos recortam
o meu coração chateado.
Se me chateio? demais.
Esse é meu mal. Não herdei
de ti essa balda. Bem,
não me olhes tão longo tempo,
que há muitos a ver ainda.

Há oito. E todos minúsculos,
todos frustrados. Que flora
mais triste fomos achar
para ornamento de mesa!
Qual nada. De tão remotos,
de tão puros e esquecidos
no chão que suga e transforma,
são anjos. Que luminosos!
que raios de amor radiam,
e em meio a vagos cristais,
o cristal deles retine,
reverbera a própria sombra.
São anjos que se dignaram
participar do banquete,
alisar o tamborete,
viver vida de menino.
São anjos. E mal sabias
que um mortal devolve a Deus
algo de sua divina
substância aérea e sensível,
se tem um filho e se o perde.
Conta: quatorze na mesa.
Ou trinta? serão cinquenta,
que sei? se chegam mais outros,
uma carne cada dia
multiplicada, cruzada
a outras carnes de amor.
São cinquenta pecadores,
se pecado é ter nascido
e provar, entre pecados,
os que nos foram legados.

A procissão de teus netos,
alongando-se em bisnetos,
veio pedir tua bênção
e comer de teu jantar.
Repara um pouquinho nesta,
no queixo, no olhar, no gesto,
e na consciência profunda
e na graça menineira,
e dize, depois de tudo,
se não é, entre meus erros,
uma imprevista verdade.
Esta é minha explicação,
meu verso melhor ou único,
meu tudo enchendo meu nada.

Agora a mesa repleta
está maior do que a casa.
Falamos de boca cheia,
xingamo-nos mutuamente,
rimos, ai, de arrebentar,
esquecemos o respeito
terrível, inibidor,
e toda a alegria nossa,
ressecada em tantos negros
bródios comemorativos
(não convém lembrar agora),
os gestos acumulados
de efusão fraterna, atados
(não convém lembrar agora),
as fína-e-meigas palavras
que ditas naquele tempo ,
teriam mudado a vida
(não convém mudar agora),
vem tudo à mesa e se espalha
qual inédita vitualha.

Oh que ceia mais celeste
e que gozo mais do chão!
Quem preparou? que inconteste
vocação de sacrifício
pôs a mesa, teve os filhos?
quem se apagou? quem pagou
a pena deste trabalho?
Quem foi a mão invisível
que traçou este arabesco
de flor em torno ao pudim,
como se traça uma auréola?
quem tem auréola? quem não
a tem, pois que, sendo de ouro,
cuida logo em reparti-la,
e se pensa melhor faz?
quem senta do lado esquerdo,
assim curvada? que branca,
mas que branca mais que branca
tarja de cabelos brancos
retira a cor das laranjas,
anula o pó do café,
cassa o brilho aos serafins?
quem é toda luz e é branca?
Decerto não pressentias
como o branco pode ser
uma tinta mais diversa
da mesma brancura. . . Alvura
elaborada na ausência
de ti, mas ficou perfeita.
concreta, fria, lunar.
Como pode nossa festa
ser de um só que não de dois?
Os dois ora estais reunidos
numa aliança bem maior
que o simples elo da terra.
Estais juntos nesta mesa
de madeira mais de lei
que qualquer lei da república.
Estais acima de nós,
acima deste jantar
para o qual vos convocamos
por muito — enfim — vos querermos
e, amando, nos iludirmos
junto da mesa
vazia.

Charles Baudelaire, tradução de Fernando Pinto do Amaral


Patrícia Reis,

 

domingo, 31 de janeiro de 2010

CHARLES BAUDELAIRE – ABSINTO E FLORES DO MAL


Hymne à la Beauté

Viens-tu du ciel profond ou sors-tu de l’abîme,
O Beauté? Ton regard, infernal et divin,
Verse confusément le bienfait et le crime,
Et l’on peut pour cela te comparer au vin.

Tu contiens dans ton oeil le couchant et l’aurore;
Tu répands des parfums comme un soir oraguex;
Tes baisers sont un philtre et ta bouche une amphore
Qui font le héros lâche et l’enfant courageux.

Sors-tu du gouffre noir ou descends-tu des astres?
Le Destin charme suit tes jupons comme un chien;
Tu sèmes au hasard la joie et les désastres,
Et tu gouvernes tout et ne réponds de rien.

Tu marches sur des morts, Beauté, dont tu te moques;
De tes bijoux l’Horreur n’est pas le moins charmant,
Et le Meurtre, parmi tes plus chères breloques,
Sur ton ventre orgueilleux danse amoureusement.

L’éphémère ébloui vole vers toi, chandelle,
Crepite, flambe et dit: Bénissons ce flambeau!
L’amoureux pantelant incliné sur belle
A l’air d’un moribond caressant son tombeau.

Que tu viennes du ciel ou de l’enferm qu’importe,
Ô Beauté! Monstre enorme, effrayant, ingénu!
Si ton oeil, ton souris, ton pied, m’ouvrent la porte
D’un Infini que j’aime et n’ai jamais connu?

De Satan ou de Dieu, qu’importe? Ange ou Sirène,
Qu’importe, si tu rends, – fée aux yeux de velours,
Rythme, parfum, lueur, ô mon unique reine! –
L’univers moins hideux et les instants moins lourds?

Hino à Beleza

Virás do céu profundo ou surges do abismo, ´
Beleza? O teu olhar, infernal e divino,
Gera confusamente o crime e o heroísmo,
E podemos, por isso, comparar-te ao vinho.

Conténs no teu olhar o poente e a aurora;
Expandes os teus odores qual noite de trovoada;
Teus beijos são um filtro e uma ânfora, a boca
Tornando o herói covarde e a criança arrojada.

Vens da treva mais negra ou descerás dos astros?
Encantado, o Destino é um cão que te segue;
Semeias ao acaso alegrias, desastres,
E por dominares tudo é que nada te interessa.

Caminhas sobre os mortos, que são o teu gozo;
Das tuas jóias, o Horror é das que mais fascina,
E entre tais enfeites, o próprio Assassínio,
Vai dançando feliz no teu ventre orgulhoso.

O inseto, deslumbrado, procura-te a chama,
Arde crepita e diz: Benzamos esta Luz!
O apaixonado trêmulo, aos pés da sua dama,
Parece um moribundo a afagar o sepulcro.

Mas que venhas do céu ou do inferno, que importa,
Beleza! Monstro ingênuo, assustador, excessivo!
Se o teu olhar, teus pés, teu riso, abrem a porta
De um Infinito que amo e nunca conheci?

De Satanás ou de Deus, que importa? Anjo ou Sereia,
Se tu tornas – ó fada de olhos de veludo,
Ritmo, perfume, luz, ó rainha perfeita! –
Mais leve cada instante e menos feio o mundo?

Lisboa no coração


Patrícia Reis,

O casal de turistas chegara a Lisboa para ver se se mantinham como casal, se sobreviviam ao desgaste de dez anos de relação, de equívocos, de imensos silêncios. Na Baixa Pombalina, cada um em seu passeio, viram as montras, compraram algumas recordações sem importância. Olharam o rio e o arco da Rua Augusta e passaram o dia inteiro a passear sem trocar uma palavra digna desse nome. Quando voltaram ao seu país, elogiaram Portugal, a comida, o vinho e recordaram uma viagem idílica que nunca  existiu. Mostraram as fotografias e garantiram, via twitter, via facebook, que a viagem foi uma lua-de-mel. Francamente, Lisboa merecia um casal melhor.

 

Frases que nos salvam de dias sem sentido


Patrícia Reis,

Mãe, devíamos dar mais beijos à esquimó.

 

Compra os sapatos todos que quiseres.

Desculpe, desculpe, eu tiro já daqui o carro, deixe-me só dizer que adorei o seu livro

 

O Camané a cantar “e a minha boca até quando, ao separar-se da tua…”

 

Sms a dizer estás bem?

 

 

Menina, precisas de alguma coisa?

 

Li a crónica da Ana Sousa Dias no Diário de Notícias sobre a Maria Nobre Franco e tens de ler.


 

Nasceu o Santiago, a Catarina e o Tiago têm mais um irmão.

 

A Maria Teresa faz anos.


Há um romance que acabou mesmo que me digam que, talvez, quem sabe, porventura…


Deixei-te uma caixa de victans.


Há cigarros escondidos na mala preta

 

Faço-te um gin?

 

Estou aqui, estou aqui querida P.

Rainer Maria Rilke tradução de Vasco Graça Moura


Patrícia Reis,


Sein Blick ist vom Vorübergehn der Stäbe
so müd geworden, dass er nichts mehr hält.
Ihm ist, als ob es tausend Stäbe gäbe
und hinter tausend Stäben keine Welt.


Der weiche Gang geschmeidig starker Schritte,
der sich im allerkleinsten Kreise dreht,
ist wie ein Tanz von Kraft um eine Mitte,
in der betäubt ein grosser Wille steht.


Nur manchmal schiebt der Vorhang der Pupille
sich lautlos auf -. Dann geht ein Bild hinein,
geht durch der Glieder angespannte Stille –
und hört im Herzen auf zu sein.

A pantera

De percorrer as grades o seu olhar cansou-se
e não retém mais nada lá no fundo,
como se a jaula de mil barras fosse
e além das barras não houvesse mundo.

O andar elástico dos passos fortes dentro
da ínfima espiral assim traçada
é uma dança da força em torno ao centro
de uma grande vontade atordoada.

Mas por vezes a cortina da pupila
ergue-se sem ruído – e uma imagem então
vai pelos membros em tensão tranquila
até desvanecer no coração.

estás tão atrasado, estúpido


Patrícia Reis,

O relógio mostra e garante o massacre do tempo, a impossibilidade de gerir melhor a vidinha, os horários, as obrigações, por isso, perto das dez da manhã, o homem pensou que já tinha subido o Everest. A saber: acordou os filhos, deu-lhes pequeno-almoço, levou-os à escola, foi ao dentista e rumou ao emprego com a cara ainda dormente. Em surdina, só para si, olhando para o relógio castigador, lamentou a estupidez de não conseguir paralisar os segundos. Ele? Estava anestesiado, só não conseguia parar de pensar que estava atrasado. Estúpido, concluía.

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só pode usar a casa de banho se for cliente, sim?


Patrícia Reis,

sim, sim, mas olhe que eu vou fazer nas calças, pela simples razão de que ao fim de oito meses de gravidez será complicado ser cliente primeiro e urinar a seguir, portanto aconselho vivamente o seguinte: alguém vá buscar uma esfregona. E traga-me uma garrafa de água, se faz favor, sim? Natural, sem gás.

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