Deus está sempre calado?
Patrícia Reis,
A tua mãe vai ouvir-nos…
E?
É chato.
Para ela? Nah.
Dizes tu.
Vá lá, dá-me um beijo.
Dou-te um beijo se me deres um beijo.
Apesar da minha mãe?
Sim, sim, anda lá, despacha-te.
Ainda bem
que não morri de todas as vezes que
quis morrer – que não saltei da ponte,
nem enchi os pulsos de sangue, nem
me deitei à linha, lá longe. Ainda bem
que não atei a corda à viga do tecto, nem
comprei na farmácia, com receita fingida,
uma dose de sono eterno. Ainda bem
que tive medo: das facas, das alturas, mas
sobretudo de não morrer completamente
e ficar para aí – ainda mais perdida do que
antes – a olhar sem ver. Ainda bem
que o tecto foi sempre demasiado alto e
eu ridiculamente pequena para a morte.
Se tivesse morrido de uma dessas vezes,
não ouviria agora a tua voz a chamar-me,
enquanto escrevo este poema, que pode
não parecer – mas é – um poema de amor.
Nos dias tristes não se fala de aves
liga-se aos amigos e eles não estão
e depois pede-se lume na rua
como quem pede um coração
novinho em folha.
Nos dias tristes é inverno
e anda-se ao frio de cigarro na mão
a queimar o vento
e diz-se bom dia!
às pessoas que passam
depois de já terem passado
e de não termos reparado nisso.
Nos dias tristes fala-se sozinho
e há sempre uma ave que pousa
no cimo das coisas
em vez de nos pousar no coração
e não fala connosco.
in «A cidade líquida e outras texturas» – Deriva Editores, Porto/2006
A um Jovem Poeta
Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser
que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças
como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.
Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.
in “Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança”
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado
Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair
Deus lhe pague
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir
Deus lhe pague

Ana Vicente foi professora, tradutora, investigadora, e autora de mais de uma dezena de livros sobre questões de género, História, biografia, e obras para crianças.
A escritora, investigadora e defensora dos direitos das mulheres Ana Vicente, 72 anos, morreu no domingo, no Estoril, vítima de cancro, disse à agência Lusa fonte próxima da família.
De acordo com a mesma fonte, Ana Vicente morreu em casa, acompanhada pela família.
Nascida em 1943, Ana Vicente licenciou-se em Letras pela Universidade de Lisboa, foi professora, tradutora, investigadora, e autora de mais de uma dezena de livros sobre questões de género, História, biografia, e obras para crianças.
Entre outras atividades, trabalhou na Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres, à qual presidiu entre 1992 e 1996, e foi membro de várias Organizações Não Governamentais, incluindo o Movimento Internacional “Nós Somos Igreja”.
Entre outras obras publicou “As Mulheres em Portugal na Transição do Milénio” (1998), “As Mulheres Portuguesas vistas por Viajantes Estrangeiros, sec. XVIII, XIX e XX”(2000), “Arcádia — Notícia de uma Família Anglo-Portuguesa” (2006) na qual relata a história da própria família.
(excerto da notícia do DN)
Entrei e esperei pouco tempo, sempre em sobressalto dado a televisão estar aos altos berros e ter a Cristina Ferreira e o Goucha a pontificar para o país. Fiz o electrocardiograma e ainda tive direito a uma pérola:
– Anda acelerada?
A senhora perguntou, eu esbocei um fraco sorriso. Pensei: ando? Bom, ando sempre, tenho uma micro empresa, vivo em Portugal, dois filhos, um marido, um cão, uma avó com pouca saúde, uma mãe à beira de um ataque de nervos… Novidades?, nenhuma. Voltei para a sala de espera onde a manhã na TVI continuava animada e florida. Cinco minutos mais tarde, o médico estava pronto para me receber e, sendo simpático, muito simpático, limitou-se a reconhecer que a medicina do trabalho serve para pouco, ou mesmo nada (digo eu). Disse que não fumo, raramente bebo, que durmo o que posso e ele sorriu satisfeito, escrevinhou umas coisas e agradeceu.
Para o ano há mais? Para o ano há mais, é obrigatório. O Estado vive melhor sabendo que a malta fez um electrocardiograma. E, todos os meses, a minha micro empresa paga um contrato com uma empresa prestadora de serviços médicos para garantir que estamos dentro da lei, que vamos alegramente, qual Goucha ou Cristina Ferreira, à Medicina do Trabalho. Por favor…
De Rui Azeredo, jornalista, revisor de texto, tradutor, “bloguista”. Rui Azeredo foi jornalista d’ “O Comércio do Porto”, sempre com um pendor especial para as questões da literatura, da cultura em geral.
O blogue Porta-Livros é um diário das suas leituras com análise e comentário.
O último post refere-se ao livro “Ferrugem Americana” de Phillip Meyer. Diz o autor deste blogue:
“Este romance da América desiludida é, acima de tudo, um livro que sente. Ao lê-lo, estamos próximos das personagens, da paisagem, daquela América contemporânea com tanto de rural como de industrial, mas já numa fase de fábricas desativadas e em pré-ruína.
Em Ferrugem Americana (título muito apropriado) não estamos só a observar a vida de terceiros, parece sim que nos encontramos lá com eles, se não a participar, pelo menos muito próximos, a sentir cheiros, sons, pensamentos, aflições. Curiosamente, o estreante Phillip Meyer para obter esse feito nem precisou de recorrer ao artifício da narração na primeira pessoa, onde é mais «simples» exprimir sentimentos. «Serve-nos» antes essas emoções através das descrições de lugares e situações, ou até de meras falas.
A obra, que aborda uma América destroçada pela crise económica, é sobre amor, amizade, família e, principalmente, os sonhos não vividos. É sobre vidas não vividas que com a passagem do tempo se tornam cada vez mais um pesadelo em lugar de um sonho. Daí a constante comparação deste romance com o fim do sonho americano. Houve coisas que nunca chegaram a acontecer, promessas por cumprir. Há uma frase marcante que resume bem esta minha ideia: «… todos lhe recordavam tempos em que gostava de pensar, tempos que se tinham tornado melhores do que deviam.» A não concretização do futuro esperado fez enaltecer mais do que seria suposto o valor do passado que seria para esquecer.”
Além do blogue, pode verificar o Porta-Livros no Facebook.
Balada da Castidade
Estavam mesmo quase lá
O escuro a dar-lhes trela.
Ele a pensar: Vou-me a ela.
E ela a pensar: Anda, vá.
Mas só na testa ele a beija
Pra que impura ela não seja
– E assim é que certo está.
Ai se aparecesse alguém!…
Ai como o corpo aquece!…
Hoje ninguém adormece
Pensa ela e ele também.
Mas contrariando o gosto
Ela o beija só no rosto
Pra provar que é de bem.
E ele pra mantê-Ia pura
Foi à fêmea de mercado
Que lhe ensinou a cura
E as artes de ficar corado.
Mas aquilo era demais
E apesar de ter gostado
Jurou que assim nunca mais.
Qu’rendo esquecer este tema
Que ele ingénuo acordara
Foi-se ela a um, avara
Que não viu nisso problema.
(Logo a ela se atirou
Nos degraus a assaltou.)
A ela soube-lhe bem
Pois de freira pouco tem
E assim a fome matou.
Hoje ele acha a decisão
Sábia, esperta e ajustada:
Não ir conspurcar a amada
Em tempos de mês cristão.
E ele padre e ela puta
Defendem até à luta:
Abaixo a depravação.
A boda (peça de teatro), Bertolt Brecht, Edições Cotovia, 2003, tradução de Jorge Silva Melo
Mad Girl’s Love Song
I shut my eyes and all the world drops dead;
I lift my lids and all is born again.
(I think I made you up inside my head.)
The stars go waltzing out in blue and red,
And arbitrary blackness gallops in:
I shut my eyes and all the world drops dead.
I dreamed that you bewitched me into bed
And sung me moon-struck, kissed me quite insane.
(I think I made you up inside my head.)
God topples from the sky, hell’s fires fade:
Exit seraphim and Satan’s men:
I shut my eyes and all the world drops dead.
I fancied you’d return the way you said,
But I grow old and I forget your name.
(I think I made you up inside my head.)
I should have loved a thunderbird instead;
At least when spring comes they roar back again.
I shut my eyes and all the world drops dead.
(I think I made you up inside my head)
O actor acende a boca. Depois os cabelos.
Finge as suas caras nas poças interiores.
O actor põe e tira a cabeça
de búfalo,
de veado,
de rinoceronte.
Põe flores nos cornos.
Ninguém ama tão desalmadamente
como o actor.
O actor acende os pés e as mãos.
Fala devagar.
Parece que se difunde aos bocados.
Bocado estrela.
Bocado janela para fora.
Outro bocado gruta para dentro.
O actor toma as coisas para deitar fogo
ao pequeno talento humano.
O actor estala como sal queimado.
O que rutila, o que arde destacadamente
na noite, é o actor, com
uma voz pura, monotonamente batida
pela solidão universal.
O espantoso actor que tira e coloca
e retira
o adjectivo da coisa, a subtileza
da forma
e precipita a verdade.
De um lado extrai a maçã na sua
divagação de maçã.
Fabrica peixes mergulhados na própria
labareda de peixes.
Porque o actor está como a maçã.
O actor é um peixe.
Sorri assim o actor contra a face de Deus.
Ornamenta Deus com simplicidades silvestres.
O actor que subtrai Deus de Deus
e dá velocidade aos lugares aéreos.
Porque o actor é uma astronave que atravessa
a distância de Deus.
Embrulha. Desvela.
O actor diz uma palavra inaudível.
Reduz a humanidade e o calor da terra
à confusão dessa palavra.
Recita o livro. Amplifica o livro.
O actor acende o livro.
Levita pelos campos como a dura água do dia.
O actor é tremendo.
Ninguém ama tão rebarbativamente
como o actor.
Como a unidade do actor.
O actor é um advérbio que ramificou
de um substantivo. E o substantivo retorna e gira,
e o actor é um adjectivo.
É um nome que provém ultimamente
do Nome.
Nome que se murmura em si, e agita,
e enlouquece.
O actor é o grande nome cheio de holofotes.
O nome que cega.
Que sangra.
Que é o sangue.
Assim o actor levanta o corpo,
enche o corpo com melodia,
corpo que treme de melodia.
Ninguém ama tão corporalmente como o actor.
Como o corpo do actor.
Porque o talento é a transformação.
O actor transforma a própria acção
da transformação.
Solidifica-se. Gasifica-se. Complica-se.
O actor cresce no seu acto.
Faz crescer o acto.
O actor actifica-se.
É enorme o actor com sua ossada de base,
com suas tantas janelas,
as ruas.
O actor com a emotiva publicidade.
Ninguém ama tão publicamente como o actor,
como o secreto actor.
Em estado de graça. Em compacto
estado de pureza.
O actor ama em acção de estrela.
Acção de mímica.
O actor é um tenebroso recolhimento
de onde brota a pantomima.
O actor vê aparecer a manhã sobre a cama.
Vê a cobra entre as pernas.
O actor vê fulminantemente
como é puro.
Ninguém ama o teatro essencial como o actor.
Como a essência do amor do actor.
O teatro geral
O actor em estado geral de graça.
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
in ‘No Reino da Dinamarca’
O jovem disse que o seu desejo era criar um partido neo liberal. O jovem falou sobre a Grécia, o estado ca . . .
Se fechasse os olhos podia imaginar o vestido a rodopiar, violinos e outros pares a dançar, uma …
“queria fechar-se inteiro num poema
lavrado em língua ao mesmo tempo plana e plena
poema enfim onde coubessem os dez dedos
desde a roca ao fuso
para lá dentro ficar escrito direito e esquerdo
quero eu dizer: todo
vivo moribundo morto
a sombra dos elementos por cima”
“A Morte sem Mestre”.
E eu digo: a Primavera começa triste.
Então, mas tu deixas os livros assim? Achas normal? Tudo espalhado, os livros, a roupa, os sapatos . . .
http://expresso.sapo.pt/-a-bodega-dos-livros=f916401#comentarios
Primeiros colhes um ramo de manjericão fresco. Pimenta, calda de qualquer coisa, deduzo que de … http://expresso.sapo.pt/-es-um-hulk=f916398