Vai à carteira


Patrícia Reis,

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 Tinha tudo.

A carteira com os cartões, o pequeno porta-moedas vermelho, um bloco, duas canetas, as chaves de casa, as chaves do carro, a carta da edp para pagar no multibanco, um batôn sem história, uma lima para as unhas, um rebuçado de mentol.

Não tinha nenhum dinheiro na carteira, apesar disso enfrentou o centro comercial com o seu melhor ar, imaginando-se poderosa.

e vem aí o dia da poesia


Patrícia Reis,

O Poema Ensina a Cair é uma rubrica semanal do Expresso Diário, uma edição online do semanário Expresso, que começou no dia 8 de Agosto de 2014.
Todas as sextas-feiras dá a conhecer um poeta português através das respostas a um questionário, de um texto que pretende traçar-lhe o perfil, e das leituras de dois poemas – um do poeta convidado, e outro de um poeta morto sugerido pelo poeta convidado.
A jornalista da SIC Raquel Marinho conduz as conversas e faz as leituras com os poetas. A imagem dos vídeos é da jornalista do Expresso Joana Beleza. Para quem quiser deixar recados, pois aqui fica o endereço electrónico:
opoemaensinaacair@gmail.com

Vínícius de Moraes


Patrícia Reis,

AMIZADE: PROCURA-SE

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Maria do Rosário Pedreira


Patrícia Reis,

O meu amor não cabe num poema

O meu amor não cabe num poema ― há coisas assim,
que não se rendem à geometria deste mundo;
são como corpos desencontrados da sua arquitectura
os quartos que os gestos não preenchem.

O meu amor é maior que as palavras; e daí inútil
a agitação dos dedos na intimidade do texto ―
a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías
nem a candura a mão que protege a chama que estremece.

O meu amor não se deixa dizer ― é um formigueiro
que acode aos lábios com a urgência de um beijo
ou a matéria efervescente os segredos; a combustão
laboriosa que evoca, à flor da pele, vestígios
de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo,
ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo.

O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras
com a nudez do teu nome ― é um fantasma que estrebucha
no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.
Um verso que o vestisse definharia sob a roupa
como o esqueleto de uma palavra morta. nenhum poema
podia ser o chão a sua casa.

Beber três ou quatro cafés por dia pode reduzir risco de enfarte, escreve-se no DN


Patrícia Reis,

“Quantidade moderada de café pode prevenir a obstrução das artérias, defende estudo realizado por cientistas sul-coreanos com mais de 25 mil homens e mulheres.

O consumo de três ou quatro cafés por dia poderá reduzir o risco de enfarte por obstrução arterial, segundo um estudo realizado por cientistas sul-coreanos publicado hoje na revista especializada britânica Heart.

A equipa de cientistas, do Hospital Kangbuk Samsung, em Seul, concluiu que uma quantidade moderada de café reduz a presença de cálcio nas artérias coronárias, um elemento considerado responsável pela aterosclerose.

Os cientistas disseram que, no entanto, serão necessárias mais investigações para confirmar este estudo e determinar a explicação biológica dos supostos efeitos do café para prevenir a obstrução das artérias.

A investigação foi realizada com base numa amostra de mais de 25 mil homens e mulheres sul-coreanos com idade média de 21 anos e sem sintomas de doenças cardiovasculares.

A aterosclerose, que consiste na acumulação de lipídeos na parede vascular, pode causar o estreitamento e endurecimento das artérias, formando perigosos coágulos de sangue capazes, em última instância, de desencadear um derrame cerebral ou enfarte.”

Mia Couto


Patrícia Reis,

 

Todas as vidas gastei
para morrer contigo.

E agora
esfumou-se o tempo
e perdi o teu passo
para além da curva do rio.

Rasguei as cartas.
Em vão: o papel restou intacto.
Só os meus dedos murcharam, decepados.

Queimei as fotos.
Em vão: as imagens restaram incólumes
e só os meus olhos se desfizeram, redondas cinzas.

Com que roupa
vestirei minha alma
agora que já não há domingos?

Quero morrer, não consigo.
Depois de te viver
não há poente
nem o enfim de um fim.

Todas as mortes gastei
para viver contigo.

 

in IDADES CIDADES DIVINDADES (Ed. Caminho, 2007)

 

Excertos (20)


Patrícia Reis,

«Quando me dirigia para o autocarro, uma mulher de 30 anos magros e trigueiros, deteve‑me com esta pergunta, perto do Café Biarritz:
– Sabe‑me dizer onde fica a rua Alexandre Ferreira?
– No Lumiar, minha senhora.
– Mas disseram‑me que era aqui, em Alvalade.
– Não, não é.
Teimou, renitente:
– Mas disseram‑me que…
Como percebi que não estava disposta a acreditar em mim, com cara de mau informador, resolvi empregar um argumento decisivo:
– É que eu sou filho de Alexandre Ferreira.
– Oh! Que coincidência!… – exclamou a mulher, pasmada.
Acreditou logo, claro. E à despedida apertámos as mãos – ela vagamente vaidosa de conhecer o filho do nome de uma rua.»
José Gomes Ferreira, Dias Comuns VII – RASTO CINZENTO (11 de Junho)