Balada da Castidade
Estavam mesmo quase lá
O escuro a dar-lhes trela.
Ele a pensar: Vou-me a ela.
E ela a pensar: Anda, vá.
Mas só na testa ele a beija
Pra que impura ela não seja
– E assim é que certo está.
Ai se aparecesse alguém!…
Ai como o corpo aquece!…
Hoje ninguém adormece
Pensa ela e ele também.
Mas contrariando o gosto
Ela o beija só no rosto
Pra provar que é de bem.
E ele pra mantê-Ia pura
Foi à fêmea de mercado
Que lhe ensinou a cura
E as artes de ficar corado.
Mas aquilo era demais
E apesar de ter gostado
Jurou que assim nunca mais.
Qu’rendo esquecer este tema
Que ele ingénuo acordara
Foi-se ela a um, avara
Que não viu nisso problema.
(Logo a ela se atirou
Nos degraus a assaltou.)
A ela soube-lhe bem
Pois de freira pouco tem
E assim a fome matou.
Hoje ele acha a decisão
Sábia, esperta e ajustada:
Não ir conspurcar a amada
Em tempos de mês cristão.
E ele padre e ela puta
Defendem até à luta:
Abaixo a depravação.
A boda (peça de teatro), Bertolt Brecht, Edições Cotovia, 2003, tradução de Jorge Silva Melo

Não deve ser fácil, traduzir assim poesia mantendo a rima!