Fictiongram, continuação da continuação


Patrícia Reis,

Onde a intimidade é isso: íntima; fumar podia ser bom; as chegadas são previsíveis; um marialva pode dar jeito

Jaime optou por parecer que não tinha pensado em nada, umas calças de ganga, camisa branca, casaco sem história. Esteve quatro minutos à espera que o creme depilatório lhe devolvesse a candura das orelhas, agora isenta de pelos. Perguntava-se se seria normal depilar assim as orelhas, nunca falara com Carmen sobre o assunto, muito menos com o irmão. Era uma coisa dele. Podiam dizer o que quisessem. Ele não gostava de pelos a sair das orelhas.

Paulo olhou para os fatos e escolheu o riscado por ser seguro. Precisava de​ um envelope que o mantivesse confortável e o fato cumpria a função. Experimentou colocar as mãos nos bolsos. Sentiu que as tinha suadas. Odiava a ideia da festa. Ensaiou dizer o seu nome em voz alta. Tirou os óculos e limpou-os. Gostaria, nestas ocasiões, de ser fumador. Entendia o conforto extraordinário de ter algo que fazer, de ter a hipótese de se escapulir para fumar fora do recinto.

Carlota encontrou o seu pequeno carro utilitário, citadino, a alguns metros da porta do prédio. Foi maldizendo os saltos agulha, embora feliz com a escolha das calças pretas de seda. Havia nela, apesar do batom roxo, uma garantia de profissionalismo e essa era a imagem que gostaria que tivessem dela. Guiou com destreza, sem hesitações. Havia um estacionamento improvisado, ela entregou o convite e as chaves do carro. Considerou o lado sofisticado de tudo aquilo. Depois tropeçou e caiu.

A mão que a amparou, no segundo exacto em que Carlota percebeu que o desastre tinha sido captado por um qualquer fotógrafo, pertencia a uma voz que dizia

 

Como facilmente perceberá, vai apagar essa fotografia.

 

Mas…

 

Não há mas nenhum, o senhor apaga a fotografia ou temos uma chatice e é já aqui.

 

Carlota não fazia ideia de quem era o seu salvador. A perna esquerda sangrava, as calças estavam irremediavelmente perdidas, percebeu que o telemóvel tocava no interior da sua clutch. Não ligou. Podia ser Jaime. Era ele, de certeza. Não atendeu. Levantou-se amparada àquele homem grande e ouviu-o perguntar

Está bem? Como se sente? Foi uma queda e tanto. Sou o Martim

um bilhete de avião chamado livro


Patrícia Reis,

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O meu tio-avô, homem de múltiplos talentos, deu-me os livros. Disse-me que podia viajar e conhecer o mundo sem sair de casa, a única ferramenta necessária não seria um bilhete de avião, mas um livro. Desde então ando com livros atrás, creio mesmo que há momentos na minha vida em que existem mais livros dentro do meu carro do que em muitas livrarias. Podia aborrecer-me e querer navegar nas redes sociais, prefiro um livro. Posso ir à Rússia, ao espaço, à terra do nunca e não tenho de sair do sítio, não preciso de fazer as malas. Acresce que ler é das poucas situações que, socialmente, nos protege. As pessoas tendem a não incomodar quem está a ler, têm um certo pudor. Fica-lhes bem e eu agradeço. Há alturas em que se decide seguir a máxima do filho, da árvore, do livro e quando se tenta escrever todos os outros livros se alinham na nossa cabeça, como um exército, e dizem: estamos aqui, estás a escrever, mas estamos aqui. Há uma esquizofrenia pura na escrita, digo-vos. Nada de gavetas padronizadas, o rótulo “normal” desfaz-se. Seja como for, ninguém é escritor sem ser leitor, portanto deixo o exército à porta e vou para dentro. 

Fictiongram, continuação da continuação


Patrícia Reis,

 

onde o mundo de Paulo não gira,  o silêncio e a imaginação não se controlam, a possibilidade da festa esmaga, uma mulher também pode ser uma desculpa, a mãe é motivo de discórdia, o caminho da festa é não é um vestido vermelho

 

 

Paulo mantinha um consultório com alguma facilidade. Já trabalhava há anos suficientes para saber como manter uma clientela. O que contava era o boca à orelha, portanto o profissionalismo importava, a par da empatia. Paulo, sempre tão fechado, era profundamente carismático na sua reserva e, por qualquer razão insuspeita, os doentes não sentiam nenhum constrangimento, podia dizer tudo, Paulo estava lá para eles, atento, capaz de fazer prosseguir as sucessivas narrativas de vida. Pouco falava, ou melhor, falava o estritamente necessário, mas a maioria dos seus doentes não o entendia assim. Paulo era o equivalente a um estado de conforto.

 

Não havia no consultório nada que o identificasse, nem os seus gostos, nem a sua família. Havia doentes que interpelavam a assistente:

O senhor doutor é casado?

Não, minha senhora.

Ah… que estranho.

Estranho, minha senhora?

Um desperdício. Um homem tão bonito.

Paulo ignorava estás conversas. Podia imaginá-las, porém fazia todos os possíveis para não imaginar nada.

 

Paulo não queria ir à festa. Preferia estar com Jaime numa outra ocasião, mas era impossível recusar, inventar uma desculpa. A festa era importante para Jaime. Tratava-se de reconhecer o seu lugar na empresa, a sua ascensão. Seria um evento cheio de pequenos pormenores, pessoas da moda, tutti quanti, um disparate de álcool e de fotografias, falar-se-ia de tudo e, em especial, seria um antro de maledicência. Paulo conseguia antever tudo, só não esperava receber uma sms do irmão para o informar que Carlota também estaria presente.

 

Carmen. Paulo recordou com precisão todos os traços da amiga de Carlota. Uma vez, há muitos meses, Jaime mostrara-lhe uma fotografia e ele, ingénuo, delicado, de forma impensada, dissera:

Parece-me uma mulher interessante.

Agora, Jaime levava-lhe a mulher interessante para conhecer na festa onde não queria ir. Era uma maneira, a maneira de Jaime, de pedir desculpa.

 

Tinham trocado palavras desagradáveis. Nenhum se lembrava porquê, do início de tudo. Era um jantar normal, o das quartas-feiras, Jaime parecia recuperar da separação de Carmen. Paulo estava ocupado com um seminário que daria em formação para o luto em famílias com doentes oncológicos. Não tinham falado muito e, de repente, estavam a trocar aquelas palavras.

 

A mãe não é um problema.

 

Estás a brincar, Paulo?

 

A mãe sempre foi assim.

 

Tu não estás a perceber, a mãe não se lembra da maioria das coisas.

 

Isso é cansaço.

 

Paulo, não é cansaço.

 

Caramba, pára com isso. A mãe está óptima e não entendo a tua preocupação, nunca a vais ver, não queres saber, eu trato de tudo.

 

Jaime levantou-se sem ruído e, ofendido, saiu do restaurante. Nunca se tinham chateado antes. Os irmãos.

 

 Carlota experimentava um vestido vermelho com uma racha do lado direito. Era um vestido de marca, porventura demasiado comprido. Era bonito. Custara uma pequena fortuna e ela nunca encontrara a ocasião certa para o vestir. Ao espelho, descalça, o vestido a colar-se à pele, apanhou o cabelo num gesto que era apenas uma experiência. O vermelho ofendeu-a. Despiu-se.

Lucília Maria Souza


Patrícia Reis,
 

Lá no meu armário, tem um vestido
antigo com desenho de sombras
azuladas. Flores apagadas em tons de
rosa chá e verde amanhecido. O mesmo
de décadas, que eu nunca usei. Enrugado
e triste, o vestido. Sempre ameaça cair
do cabide, a alça rota, o decote penso
à direita, as pregas desfeitas, o zíper
engastalhado. Ainda cheira a baunilha,
só na minha saudade. Nele penduram-se
todas as músicas que já dancei, o brilho
dos olhos meus quando reflectiam os
lustres acesos. Nele fica suspenso meu
namorado, aquele que desde sempre
nunca conheci. Vez ou outra, tiro do
armário. Coloco na cama, passo a mão
no tecido devagarinho. Bem pouco tempo,
porque saber o que não
foi costuma encher os olhos de água.
Pouco, mas dura tanto que chega a me
dar vontade de guardá-lo de novo. O
movimento dele na minha pele é segredo
todo meu. No espelho, ficamos sorrindo,
por instante curto. Fecho a porta do
armário, o último dos vestidos, do lado
esquerdo.

in Dedos de prosa em poesia, pag.145, Colecção Rascunho

José Rodrigues dos Santos!!!!


Patrícia Reis,

Ontem, Telejornal da RTP, 20h42, peça sobre os novos deputados na Assembleia da República pós eleições de 4 de Outubro. José Rodrigues dos Santos, que terá mérito em muitos dos trabalhos feitos ao longos dos anos, diz algo absolutamente impensável, ofensivo, deontologicamente questionável, sem qualquer hesitação: “o deputado Alexandre Quintanilha foi eleito ou eleita…” vou repetir, para quem possa estar distraído: ELEITA!
Se Portugal fosse um país com coluna vertebral, se estivéssemos porventura nos EUA, havia um pedido de desculpa formal e este senhor seria despedido. Por favor, partilhem, vejam, comentem como entenderem. É preciso entender que há uma dimensão de serviço público, há jornalismo e depois há preconceitos, falso humor que nunca foi jornalismo (pese o facto de estar na moda ter humoristas a fazer de jornalistas dentro e fora do país). Não sou amiga de Alexandre Quintanilha, sou amiga do marido, Richard Zimler, porém tenho uma enorme admiração pelo percurso deste homem que tanto tem ensinado a muitas gerações. Podia ser outra pessoa qualquer? Podia. José Rodrigues dos Santos não tem este direito, nem como jornalista, nem como cidadão com visibilidade pública. Lamento, ganhei um inimigo? Não lamento nada, o senhor que vá para casa escrever romances que muitas pessoas comprarão e serão felizes assim. Aí pode tecer as suas considerações à vontade. Já se sabe que a escrita permite tudo, ou quase tudo. O jornalismo não.

Fictiongram, continuação da continuação


Patrícia Reis,

Onde Paulo é salvador, a perdição é pensamento, a amizade se estilhaça, não existem pensamentos felizes, a festa podia ser outra

 

Jaime tinha garantido a Carmen que devia tudo a Paulo.

O meu irmão salvou-me. Não preciso dizer mais do que isto. Se não fosse o Paulo nunca teria feito nada da vida.

E depois contou, em resumo, por lhe ser tão difícil falar da mãe, da infância, da adolescência, que acabaram por ficar sozinhos de novo. Laura encontrou uns amigos de juventude. Iam a França, visitar uns familiares, ela podia ir, porque é que não ia? E ela, contente com o verão, feliz sem esfregona e outros utensílios, garantiu que eram duas semanas e foi.

Voltou três anos e meio depois com o François, com quem se manteve durante algum tempo. Paulo e Jaime tinham andado para a frente.

 

A nossa vida é sempre distinta do que pretendemos que seja, fica aquém dos sonhos e ilusões possíveis. Sobre isto não havia a menor dúvida, assim o pensava Carlota, ela que não sabia se deveria dizer a Carmen que estivera com Jaime, ela que não sabia como seria a tal festa onde conheceria Paulo, o salvador. Sentia-se perdida. Uma bola fora do sítio.

 

Não era nada, era apenas o mundo que a atingia em todo o seu esplendor. Carmen ouvira uma Carlota titubeante do outro lado do telemóvel. Não podia dizer do outro lado da linha, pois não? Os pensamentos atropelavam-se em disparates. Conseguia ver Carlota a sucumbir nos braços de Jaime. Conseguia ver a boca de Jaime na dela. Pensou:

Não. Calma. Não é nada disso. É tua amiga. Foi só um almoço.

Um almoço. Uma refeição como aquela que partilhavam todos os meses? Não, Carlota não tinha nenhuma ligação a Jaime, ir almoçar com ele era uma agressão. Uma agressão como um tabefe bem dado. Ou pior.

 

Carlota dividiu-se. Havia uma dentro dela que ansiava pela aventura do proibido, do moralmente discutível; era aquela que sempre pensara em Jaime como sendo seu, fantasiando com o namorado da amiga, sem o dizer, lamentando que fosse fiel a um ser tão “certinho”. A outra nela, dentro dela, mais ou menos poderosa consoante o minuto de determinada hora, insultava-se com o absurdo de considerar Jaime um potencial candidato amoroso quando ela, Carlota, tinha algumas amizades coloridas que cumpriam os desejos curtos que a assaltavam.

Sou uma contradição. Penso mal da minha amiga, gosto dela e penso mal dela.

Carmen não suspeitava. Que a sua amiga partilhasse uma refeição com o seu ex, não era natural? Não, não era.

 

Dificilmente, Carmen podia compreender. Carlota não tinha como explicar e Jaime estava fechado no seu mundo impossível de interpretar pelas redes sociais. Paulo estaria na festa naquela noite. A existência da festa, uma festa à qual Jaime queria ir, levando a sua melhor amiga, era algo que Carmen tomava como uma ofensa. Fez alguns telefonemas, espreitou o facebook e percebeu. Percebeu o onde e o porquê da festa.

Fictiongram, continuação da continuação


Patrícia Reis,

onde a mãe entra num documentário,  recupera a liberdade, lavar escadas é trabalho de soldado, a esgrima verbal é uma opção

 

Não sendo certo, os dois fizeram um caminho e Laura foi-se desligando deles, não por opção, mas por causa do “tipo”, o terceiro marido que a impedia de telefonar, que lhe controlava a conta bancária, todos os seus movimentos. Os filhos não entendiam como é que alguém tão livre quanto Laura podia viver assim, não entendiam que não morresse como certos animais. Jaime viu um documentário sobre baleias suicidas na televisão do café perto da universidade. Nessa noite, sonhou que a mãe podia ter o mesmo destino, matar-se na praia por falta de liberdade.

 

Laura não teve esse sobressalto, mesmo que vestida de tristeza, deixou-se estar por muito tempo. No ano em que Jaime começou o estágio e regressaram a Lisboa, Laura quis recebê-los, dar-lhes uma morada.

Os meus filhos.

O “tipo” não discutiu a possibilidade de fingirem ser uma família, de brincarem com essa ideia. Houve gritos e gestos violentos. Laura saiu nessa noite de casa e ficaram os três na rua a ver o sol a pôr-se. Paulo tinha alugado um quarto.

Onde dormiam dois, dormem três.

Foi o que ele disse.

 

Como é que um miúdo tem mais dinheiro do que a mãe? Podia ser essa a questão, tantas vezes repetida por quem os conhecia, quem os observava e fazia comparações. Uma comparação é já uma crítica, pensava Jaime. Escolhia ficar calado, deixar o irmão decidir. A mãe vogava. Como um barco de papel. Começou a trabalhar a dias. Pendurava o cabelo no rabo de cavalo e dizia

Sou um bom soldado. É preciso lavar escadas, lava-se escadas.

 

 

O destino não era tão miserável, não podia ser. Paulo começou o estágio e teve sorte. Gostavam dele. Jaime estava no liceu. Laura tinha duas casas fixas onde limpava, passava a ferro, cozinhava. Os filhos sabiam, intuíam o disparate imenso que se adivinhava. Laura não era feita para tantas amarras, ou seria o tempo e o terceiro marido? O tal que a tinha colocado debaixo de água, sem respirar e ela, tanto tempo, demasiado tempo, aguentara sem dizer nada? Eles não sabiam. Laura estava contente. Tudo era um jogo.

 

 

Um dia, domingo de manhã, depois de um pequeno-almoço sem novidade ou sabor especial, Paulo decidiu fazer contas. Estava na altura de mudarem de sítio. Outra vez. Jaime quis dizer que gostava de estar por ali, perto do liceu, mas reteve as palavras na cabeça. Não queria fazer barulho, já era suficientemente mau ter de ver o bailado de esgrima verbal entre a mãe e o irmão.

Immaculata Ortner


Patrícia Reis,

O SILÊNCIO DE 23:23

Todas as luzes se apagaram
O meu coração pára de bater por um segundo
Fica a fixar o verso citado
” Podes ficar para sempre off line”
O meu coração arrancado do peito, sem piedade
Sem fala como se eu não tivesse falado antes
Murmurando com esperança
Volta, volta
Deixaste a porta fechada
Foste levado à deriva
Como uma canoa nos deltas Kavango
Fechando o capítulo da esperança e da afeição
Só eu e o meu quarto escuro
Frio nos seus quatro cantos
Não há calor para aquecer o amor
Não há vida, nem afeição
Só eu e o meu quarto escuro

Jorge de Sena


Patrícia Reis,

Como queiras, Amor, como tu queiras.

Entregue a ti, a tudo me abandono,

seguro e certo, num terror tranquilo.

A tudo quanto espero e quanto temo, entregue a ti,

Amor, eu me dedico.

Nada há que eu não conheça,

que eu não saiba, e nada, não,

ainda há por que eu não espere

como de quem ser vida é ter destino.

As pequeninas coisas da maldade,

a fria tão tenebrosa divisão do medo

em que os homens se mordem

com rosnidos de malcontente crueldade imunda,

eu sei quanto me aguarda, me deseja,

e sei até quanto ela a mim me atrai.

Como queiras, Amor, como tu queiras.

De frágil que és, não poderás salvar-me.

Tua nobreza, essa ternura tépida quais olhos marejados,

carne entreaberta, será só escárneo, ou, pior,

um vão sorriso em lábios que se fecham como olhares de raiva.

Não poderás salvar-me, nem salvar-te.

Apenas como queiras ficaremos vivos.

Será mais duro que morrer, talvez.

Entregue a ti, porém, eu me dedico àquele amor

por qual fui homem, posse e uma tão extrema sujeição de tudo.

Como tu queiras, meu Amor, como tu queiras.

 

Jorge de Sena, in ‘Post-Scriptum’

Bocage


Patrícia Reis,

José Maria Barbosa du Bocage nasceu há 250 anos, em Setúbal, a 15 de Setembro de 1765. Viajou muito, fez tremer corações. O seu pai foi mandado prender por Pomba, mais tarde Bocage foi preso por Pina Manique. a acusação era quase a mesma, a desordem, o atentado aos costumes. Extraordinário, com aventuras dignas de qualquer romance do século XVIII, Bocage é hoje recordado na terra que o viu nascer e pouco mais. Sobre ele, escreveu, no seu jeito, Ary dos Santos:

Fazes falta ao Rossio. Falta ao Nicola.

Lisboa é uma sarjeta. É um vazio.

E é raro o poeta que entre nós faz escola.

Mastigam ruminando o desafio.

São uns merdosos que nos pedem esmola.

Aos vinte anos cheiram a bafio

têm joanetes culturais na tola.

Que diria Camões nosso padrinho

ou o Primo Fernando que acarinho

como Pessoa viva à cabeceira?

O que me vale é que não estou sozinho

ainda se encontram alguns pés de linho

crescendo não sei como na estrume!

 

Estou certa de que o poeta teria agradecido com uma vénia, teria rido e quem sabe? nasceria uma bela amizade, se o tempo não os tivesse separado. Deixo-vos – roubado indecentemente ao mural do FB de uma grande amiga, Helena Vasconcelos – uma fábula do aniversariante, na esperança de que o recordem, na esperança de que mais se escreva sobre a sua vida e obra.

 


O Leão e o Porco
O rei dos animais, o rugidor leão,
Com o porco engraçou, não sei por que razão.
Quis empregá-lo bem para tirar-lhe a sorna
(A quem torpe nasceu nenhum enfeite adorna):
Deu-lhe alta dignidade, e rendas competentes,
Poder de despachar os brutos pretendentes,
De reprimir os maus, fazer aos bons justiça,
E assim cuidou vencer-lhe a natural preguiça;
Mas em vão, porque o porco é bom só para assar,
E a sua ocupação dormir, comer, fossar.
Notando-lhe a ignorância, o desmazelo, a incúria,
Soltavam contra ele injúria sobre injúria
Os outros animais, dizendo-lhe com ira:
«Ora o que o berço dá, somente a cova o tira!»
E ele, apenas grunhindo a vilipêndios tais,
Ficava muito enxuto. Atenção nisto, ó pais!
Dos filhos para o génio olhai com madureza;
Não há poder algum que mude a natureza:
Um porco há-de ser porco, inda que o rei dos bichos
O faça cortesão pelos seus vãos caprichos.

Bocage, in ‘Fábulas’

Fictiongram, continuação da continuação


Patrícia Reis,

onde o amor é nómada

Jaime e Paulo. A mãe espalhava as fotografias dos filhos pelas divisões todas. Nasciam nas casas onde moravam. Mudavam-se muitas vezes a pretexto de uma renda mais barata, do desejo de ter um espaço maior, uma varanda, uma determinada vista para o rio, do pouco dinheiro que existia na carteira de Laura. Os miúdos não se queixavam, eram nómadas mas tinham amor; eram diferentes, mas tinham amor; eram desregulados nos horários, mas tinham amor. Tudo se complicou quando Paulo foi para a escola primária. Laura, a mãe, era incapaz de o entregar a horas. Jaime chorava o dia inteiro.

onde a mãe é diferente das outras

A mãe dizia

 

Não chores, não chores.

 

Jaime sentia a falta do irmão. Deixou de falar. Paulo diria, muito mais tarde, que era um cenário “clássico” de abandono. Laura podia ser diferente de todas as outras mães, podia ser “saliente” – assim a designara a directora da escola -, porém era solidária. Durante meses, para que Jaime não chorasse tanto, Laura ficava à porta da escola com ele. Sentavam-se debaixo da árvore gigante que, reflexiva, deixava a sombra a protegê-los até às quatro da tarde. Paulo saía a correr, a bata cor de laranja cheia de nódoas. Jaime levantava-se e o abraço era imenso, não tinha fim. Era mais do que irmãos, eram protectores de Laura. Do céu que tinham em cima da cabeça.  

 
onde a cumplicidade dos irmãos assusta

Carlota não sabia nada da história aflita dos irmãos pequenos. Carmen suspeitara. Durante o tempo em que namorara com Jaime, via-o a falar com o irmão ao telemóvel. Várias vezes por dia. Eles tinham silêncios que eram momentos de cumplicidade que ela, a namorada, não entendia. Depois havia as brincadeiras que eram só deles e um jantar, matemático, infalível, às quartas-feiras, que não permitia qualquer intruso. Carmen contara a Carlota

 

Jantam. Até podem ver um jogo de futebol no restaurante e não dizer nada, mas jantam. Toda as quartas-feiras. É muito irritante.

Eu acho querido.

Pois.

onde a mãe se tenta organizar

Quando Jaime chegou aos dezasseis anos, Laura acabara de fazer trinta e três anos. Mantinha o mesmo emprego há meses. Uma novidade. Gostava de trabalhar no café, era uma estrutura de madeira com vista para o Tejo, uma pequena zona com livros e almoços tardios aos domingos. Laura sorria e bailava entre os pedidos, de mesa em mesa, como se fosse o seu destino dizer coisas como

 

O sumo do dia é maçã​e laranja.

 

A festa de Jaime foi no café onde a mãe trabalhava. O actual​ marido era dono do estabelecimento e estendeu-lhe a mão.

 

Parabéns, miúdo.

 

onde a coisa não se dá

Paulo detestava este terceiro marido. Nunca diziam o seu nome. Era “o tipo”. Com uma bolsa de estudo, na Faculdade, o irmão de Jaime optou por sair de casa e fez um ultimato à mãe

 

Vou levar o Jaime. Tu não tens condições.

Não vais nada.

Vou, mãe, é melhor.

Paulo…

Assim a coisa não dá, percebes? É melhor para ele.

 

Saíram os dois, um no liceu, outro na faculdade. Os jantares eram feitos com latas de atum e salsichas. Jaime dava explicações. O dinheiro era inexistente. Viviam num quarto de estudante. Na Faculdade, Paulo era considerado um aluno brilhante ​em Coimbra. Ninguém sabia que com ele vivia o irmão que gostava de ver as estrelas deitado no alcatrão.   

Ignacio Martínez de Pisón, escritor espanhol, artigo La Vanguardia


Patrícia Reis,

O que é ser um bom político, análise do autor espanhol partindo de três séries de televisão: Os Homens do Presidente, House of Cards e Borgen. Ignacio Martínez de Pisón escreve sobre a nossa visão política, necessariamente diferente depois de conhecermos Josiah Bartlet, Frank Underwood e Birgitte Nyborg. Lamentavelmente não há tradução. Para quem queira, aqui fica.

 

Los buenos políticos

Las series de televisión accedieron a la mayoría de edad cuando renunciaron al simple entretenimiento para asumir como propia una función tradicionalmente asociada a la literatura: la de ser una herramienta con la que interpretar la realidad. Nuestra percepción de la política, por ejemplo, no es la misma ahora que antes de la emisión de El ala oeste de la Casa Blanca, ese curso intensivo acerca de la gobernanza de la compleja y diversa sociedad norteamericana. Hasta entonces, nadie nos había contado tan bien cómo era la política vista desde dentro: los tejemanejes y pasteleos que a veces se hacen necesarios para sacar adelante una medida justa, los dilemas éticos a los que un estadista tiene que enfrentarse, las intromisiones de la pequeña prosa de la vida en la gran poesía de la Historia, las deslealtades que menudean en los aledaños del poder… No sin un optimismo ciertamente ingenuo, la serie transmite los clásicos valores norteamericanos: la fe en el progreso y en el potencial del pueblo estadounidense, el orgullo de sentirse centinelas del mundo libre, una vocación de liderazgo unida al concepto de responsabilidad colectiva.

Nadie que no sea ambicioso llegará jamás a dirigir los destinos de un país como Estados Unidos, así que hemos de suponer que Josiah Bartlet, el honesto e ilustrado presidente interpretado por Martin Sheen, lo fue alguna vez: su acceso al Despacho Oval viene a satisfacer unas aspiraciones que la concesión previa de un premio Nobel no parecía haber colmado. Pero la suya es una ambición puesta al servicio del bien común, el obsequio de sí mismo que el gran hombre hace a sus compatriotas. En House of Cards, por el contrario, es el bien común el que desde el principio está al servicio de la desmedida ambición de su protagonista, el maquiavélico Frank Underwood al que da vida Kevin Spacey. House of Cards es el envés de El ala oeste de la Casa Blanca. Donde antes había ejemplaridad y vocación de servicio, ahora hay hipocresía y tendencia a la manipulación. Donde había fe en la dignidad natural del ser humano, hay cinismo. Donde había alta política, sólo hay politiquería. En House of Cards, los políticos íntegros y honrados van quedando por el camino, y el bueno de Bartlet nunca habría pasado de ser un miembro más de la Cámara de Representantes.

Frente a El ala oeste de la Casa Blanca, que mantiene una confianza plena en el sistema, House of Cards exhibe las vergüenzas de un parlamentarismo reducido a la función de cómplice y tapadera de los omnipotentes lobbies. A su manera, es una serie antisistema. ¿Con cuál de las dos interpretaciones quedarnos? Por desgracia, no existe la democracia ideal, invulnerable, así que tendremos que convenir que en buena medida la política son las personas que la hacen. Personas que tienen o no la formación y el empuje necesarios. Personas que aciertan o se equivocan. Personas que creen de verdad en la democracia o que no: imagínense el desastre si un individuo como Donald Trump acaba sucediendo a Obama.

Otra de las grandes series políticas de los últimos años es Borgen, protagonizada por una presidenta danesa llamada Birgitte Nyborg. El partido que lidera es minoritario en el parlamento, de modo que la labor de gobierno la obliga a un constante ejercicio de equilibrismo político. A veces esos equilibrios provocan la deserción o el sacrificio forzoso de algunos de sus colaboradores más cercanos, y Nyborg suele despedirse de ellos con las siguientes palabras: “Eres un buen político.” ¿Qué entenderíamos nosotros por un buen político? Seguramente, una persona que aspira a mejorar las condiciones de vida de sus conciudadanos sin excluir a ninguno, que antepone los intereses públicos a los privados, que genera consensos y mantiene abiertas las vías de diálogo, que no inventa enemigos a los que echar las culpas de sus fracasos, que está dotada de la energía y la preparación necesarias para llevar adelante las reformas, que sabe comunicar las bondades del proyecto que lidera… Así es Nyborg precisamente, y el espectador desea desde el principio que esa mujer honesta y decidida supere todos los contratiempos que se interpongan en su camino. Pero nadie sigue siendo el mismo tras un período de intimidad con el poder, que aislándote de la sociedad limita tu visión de la realidad, que te apea de tus principios y distrae de tus objetivos, que altera definitivamente tu escala de valores… ¿En qué momento el buen político, aunque mantenga intactas sus capacidades, deja de serlo? Cuando el propósito de mantenerse en el poder desplaza al de servir al interés general. A partir de ese momento, ya no hay consensos sino componendas, no estrategias sino triquiñuelas, y el arte de la política degenera en simple politiqueo. Para entonces suele ocurrir que el buen político, que en el trayecto ha tenido que ir desembarazándose de sus mejores colaboradores, se ha quedado solo, y no hay nadie a su lado para advertirle: “Eras un buen político pero ya no.”

 

Nenhuma tradução disponível

11 de setembro, 11 curtas-metragens


Patrícia Reis,

Onze curta-metragens sobre o 11 de setembro de 2001. Danis Tanovic e Ken Loach relacionam a data do atentado a outros acontecimentos. Tanovic lembra-se do dia 11 de julho de 1995, quando ocorreu o massacre em Srebrnica e Loach rememora que Salvador Allende foi deposto do governo chileno em 11 de setembro de 1973. Idrissa Ouedraogo opta por uma comédia reflexiva sobre Burkina Faso. Samira Makhmalbaf mostra uma professora que tenta explicar o ataque a um grupo de crianças. Sean Penn evoca a vida de uma viúva que morava à sombra das duas torres desabadas. Claude Lelouch descreve as reações de vários surdos ao evento ou que testemunharam o evento. Shonei Imamura recorre às memórias japonesas da Segunda Guerra Mundial e Mira Nair mostra os problemas das minorias étnicas. Amos Gitai dá a sua interpretação sobre o papel da mídia em uma informação de significado internacional. Alejandro González Iñárritu apresenta 11 minutos de preces na escuridão, enquanto Youssef Chahine reflete a perspectiva do Oriente Médio.

Fictiongram, continuação da continuação


Patrícia Reis,

onde Laura começa a trazer destroços

Paulo e Jaime tinham crescido numa família pouco convencional. A mãe casara três vezes, eles eram fruto do seu amor de adolescência, aquele com quem casou aos dezassete anos para se separar três anos depois. Paulo tinha dois anos, Jaime tinha dez meses. O pai decidiu-se pelo Brasil e, até aos 12 anos do filho mais velho, manteve-se fora do radar dos afectos e das necessidades. A mãe, Laura, ria-se com facilidade, deixava os miúdos em casa dos amigos, dos tios, e trabalhava no que havia. Depois do amor que se esgotou nos dias mais jovens, Laura teve mais dois maridos, Jaime tentava não pensar nisso. Paulo tinha assumido o papel de pai. Laura brincava

O meu mini marido

 

 

onde assim não dá

Jaime não entendia a mãe, amava-a e isso era o bastante. Paulo entendia a mãe com facilidade estranha, até nos silêncios a conseguia ouvir pensar. Paulo amava a mãe e conseguia manter um nível de ódio latente, sempre pronto para a criticar.

 

Mãe, não vês que assim não dá?

Assim não dá era a expressão-chave da relação entre os dois.

 

 

onde o lençol esconde o medo

Jaime observava. Mantinha a sua distância, sempre resguardado pelo irmão, afastado dos melindres do dia a dia. A primeira vez que Paulo ficou sozinho com Jaime tinha cinco anos. A mãe tinha um trabalho, relações públicas num festival de música e de moda. Jaime não se recordava exactamente. A memória devolvia-lhe apenas a ideia de um lençol em cima da cabeça, o corpo quente do irmão ao lado, ele que repetia

Ninguém vem cá a casa, ninguém vem cá a casa

 

onde um clássico é um clássico

A mãe. Paulo convencera-se de ​que Laura era o motivo para o desarranjo emocional de Jaime.

Estás sempre à procura da mãe.

Lá estás tu…

Diz-me que não é verdade. Nenhuma mulher te serve. É um clássico.

Maldita a hora em que foste estudar psicologia, Paulo, não há pachorra.

Desculpa, mas tenho razão. Queres fazer uma lista das tuas namoradas e ver como são todas do mesmo modelo da mãe?

Do mesmo modelo?

Do mesmo género.

Paulo, ficamos por aqui.

Assim, a coisa não se dá, Jaime.

 

onde o sabor não é doce

OK, a coisa não se dá, Jaime acatava e, recolhido, dentro de si, revia as namoradas. Todas parecidas com a mãe. Sem a gargalhada e aquele ar de eterna menina, a brincar com a colher de pau pela casa

Anda cá, anda cá que eu vou mostrar-te como é que se faz um bolo.

Os bolos da mãe sabiam sempre a farinha.