Fictiongram, continuação da continuação


Patrícia Reis,

Onde a intimidade é isso: íntima; fumar podia ser bom; as chegadas são previsíveis; um marialva pode dar jeito

Jaime optou por parecer que não tinha pensado em nada, umas calças de ganga, camisa branca, casaco sem história. Esteve quatro minutos à espera que o creme depilatório lhe devolvesse a candura das orelhas, agora isenta de pelos. Perguntava-se se seria normal depilar assim as orelhas, nunca falara com Carmen sobre o assunto, muito menos com o irmão. Era uma coisa dele. Podiam dizer o que quisessem. Ele não gostava de pelos a sair das orelhas.

Paulo olhou para os fatos e escolheu o riscado por ser seguro. Precisava de​ um envelope que o mantivesse confortável e o fato cumpria a função. Experimentou colocar as mãos nos bolsos. Sentiu que as tinha suadas. Odiava a ideia da festa. Ensaiou dizer o seu nome em voz alta. Tirou os óculos e limpou-os. Gostaria, nestas ocasiões, de ser fumador. Entendia o conforto extraordinário de ter algo que fazer, de ter a hipótese de se escapulir para fumar fora do recinto.

Carlota encontrou o seu pequeno carro utilitário, citadino, a alguns metros da porta do prédio. Foi maldizendo os saltos agulha, embora feliz com a escolha das calças pretas de seda. Havia nela, apesar do batom roxo, uma garantia de profissionalismo e essa era a imagem que gostaria que tivessem dela. Guiou com destreza, sem hesitações. Havia um estacionamento improvisado, ela entregou o convite e as chaves do carro. Considerou o lado sofisticado de tudo aquilo. Depois tropeçou e caiu.

A mão que a amparou, no segundo exacto em que Carlota percebeu que o desastre tinha sido captado por um qualquer fotógrafo, pertencia a uma voz que dizia

 

Como facilmente perceberá, vai apagar essa fotografia.

 

Mas…

 

Não há mas nenhum, o senhor apaga a fotografia ou temos uma chatice e é já aqui.

 

Carlota não fazia ideia de quem era o seu salvador. A perna esquerda sangrava, as calças estavam irremediavelmente perdidas, percebeu que o telemóvel tocava no interior da sua clutch. Não ligou. Podia ser Jaime. Era ele, de certeza. Não atendeu. Levantou-se amparada àquele homem grande e ouviu-o perguntar

Está bem? Como se sente? Foi uma queda e tanto. Sou o Martim

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