O fim do Sol e do jornal I


Patrícia Reis,

A morte de um jornal é sempre triste. A morte de dois jornais duplica a tristeza? Não. Assusta. Assusta muito. Para os meus colegas de profissão, do jornal I e do Sol, fica a minha solidariedade. O jornalismo precisa de bons profissionais, de seguir o código deontológico, de ser sério. Quando os grupos económicos apostam na comunicação social e falham, a culpa não é dos jornalistas. Disso tenha a certeza.

Fernando Pessoa


Patrícia Reis,

(…)
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada –
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente
[o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais,
[se puder ser,

Ou até se não puder ser…

 

Fictiongram, continuação da continuação


Patrícia Reis,

Onde se esconde a dor; o caminho é desconhecido; o outro irmão também é central; não gostar é uma imposição; a mãezinha entra ao barulho; há uma liga de mães;

 

O olhar dela seria inesquecível se Jaime fosse esse tipo de homem. Não era. A insensibilidade podia ser uma acusação demasiado leviana, excessiva. Ele era comedido e tinha aprendido a isolar os episódios da vida, obrigara-se a uma memória selectiva. Não queria recordar os olhares de Carmen na dor, da mesma forma que não queria saber de certas coisas da mãe. Ou de Paulo.

Paulo deixou-se guiar pela cidade. Pouco importava onde fossem tomar o tal copo, não tinha nada para dizer a Carmen, porém estava satisfeito por estar ali. Sendo uma sensação quase inexplicável, era o caso: satisfeito. Odiava festas, não entendia a razão pela qual a Carlota estava tão desvanecida com o outro tipo, o tal de Martim, e foi isso que disse

 

Quem era aquele tipo? Armado aos cágados…

 

É o meu irmão.

 

Ah, desculpa.

 

Não peças. Se ele fosse só um homem com manias era mais simples, mas não é. É maquiavélico.

 

Como assim?

 

Paulo podia mostrar-se interessado, afinal era uma das suas técnicas de eleição, essencial para a sua vida profissional. Carmen não se fez rogada e, enquanto acelerava pela avenida mais larga de Lisboa, contou o que lhe ocorreu sobre Martim.

 

Podia ser boa pessoa. Nunca foi. Mesmo em pequeno sempre foi mau.

 

E Paulo ouviu, com mais atenção do que seria de esperar, os pequenos dramas da família de Carmen. O amor pela avó, a incompreensão da mãe, a rigidez do pai, o facto de Martim ter escapado a todas as ameaças paternas, castigos e rupturas.

 

Ele faz o que quer e, porque o mundo não é justo, tem sucesso. É um filho da puta com sucesso.

 

Não gostas mesmo do teu irmão.

 

Paulo, não gosto do meu irmão, já não gosto do teu irmão e também não gosto de ti.

 

Paulo sorriu. Carmen tinha qualquer coisa. Não era só a miúda da província com meia dúzia de traumas familiares, com necessidade de vingar para estar no jogo de competição com Martim, o irmão. Ela negaria. A vida não é um jogo, diziam-lhe os seus pacientes. Paulo estava convicto do contrário desde sempre. Culpa de quem? De Laura, é evidente, a mãe seria sempre o começo de tudo. Para Carmen, a mãe não parecia ser um problema e, por isso, perguntou

 

E da tua mãe, gostas?

 

Carmen olhou-o de lado, um nano segundo, sempre concentrada na estrada. Se amava a mãe? Se gostava dela? Se a admirava? Decidiu responder com honestidade

 

Respeito a minha mãe. É tudo o que posso fazer.

 

Respeitar já é muito.

 

Achas? Não sei, Paulo. A vossa mãe pertence a uma liga diferente da minha. Acredita no que te digo.

 

Não tenho a menor dúvida.

blogue da semana


Patrícia Reis,

http://livroindy.blogs.sapo.pt/tudo-isto-e-top-11518

 

O jornal que mudou a imprensa portuguesa nos anos 80 do século XX tem um nome: O Independente.

Não consigo ser imparcial quanto a esta matéria. É o meu jornal. Fui a estagiária que entrou por provas. Respondi a uma anúncio desenhado por Jorge Colombo que dizia: repórteres absolutamente excelentes precisam-se.

O Indy, como é conhecido, era mais do que um emprego, era mesmo a nossa vidinha. Conheci as pessoas mais maravilhosas nesse período, aprendi muito, cresci e descobri a política. Descobri ainda outra forma de escrever, de fazer fotografar, de editar, de fazer títulos.

Liliana Valente e Filipe Santos Costa, ambos jornalistas, também passaram, como tantos outros, por este jornal que se tornou de culto. Fizeram um pouco mais do que a maioria de nós, nós que nos limitamos a tecer memórias em jantares infinitos e a recordar histórias: escreveram um livro: O Independente – A Máquina de Triturar Políticos.

 

E como o mundo dos livros é hoje, necessariamente, uma plataforma multimodal de forma a garantir algum sucesso (a edição esgotou e ainda teremos um segundo volume com outras histórias desse período indyiano), os dois jornalistas criaram o blogue que promove o livro. Contudo, não é apenas um blogue para promoção e estratégias de marketing, garantindo que O Independente – A Máquina de Triturar Políticos anda nas bocas do mundo. No blogue podemos encontrar capas de edições exemplares do jornal, excertos de editoriais, de notícias, explicações. Um exemplo? Eis um excerto que pode encontrar no blogue e, depois, talvez tenha vontade de ler o livro:

O ano em que o semanário de Miguel Esteves Cardoso nasceu deu razões para questionar o mito da capacidade técnica de Cavaco. A meta de inflação – um dos dados mais relevantes num país que, pouco antes, a via galopar acima de dois dígitos – devia ficar, nesse ano, pelos 6%. Uma previsão lançada com espalhafato, e gorada com estrondo: no verão, já era certo que a evolução dos preços não ficaria abaixo de 9%. Para Portas, era a demonstração da qualidade dos «técnicos» que governavam. «Se há coisa que um governo de técnicos não pode fazer é enganar‑se nas contas».

«Todo o mundo sabe: as virtudes do governo são as do contabilista, não são as do filósofo. Se o povo está satisfeito, é porque come, não é porque sonha. […] A legitimidade deste governo, em suma, nada tem a ver com a alma. O seu negócio são os números. O que todo o cidadão previdente espera do poder é o que lhe foi anunciado de modo concreto, preciso e verificável. […] Quem promete números tem de os cumprir. […]»

Vale a pena? Tanto o livro como o blogue. Trabalho exemplar de dois jornalistas de mão cheia.

Fictiongram, continuação da continuação


Patrícia Reis,

Onde, de repente, Carlota se vê a receber um Oscar;  o filme continua; a festa também se faz com silêncios; o ódio é garantido; há impossíveis; o ódio é um espanto; gostar de alguém não tem relevância; um ritual aniquila uma mulher; esconde-se a dor; ser-se boa na cama não chega

 

Carlota cumprimentou Paulo com pouco à-vontade. Gostaria que desaparecessem, ele e a Carlota, tão idiotamente serena. Preferia não ver o Jaime, ficar ali com o Martim e perceber que a vida podia ser mais parecida com um automóvel de corrida. A metáfora era apropriada. Martim tinha esse jeito de carro desportivo. Rápido, dinâmico, bom design, solidez e modernidade. Uma cambada de clichés, é certo, porém Carlota estava como que presa a tudo aquilo e, se de repente, ele tivesse uma arma e começasse aos tiros para a salvar, seria apenas mais uma banalidade.

 

Martim, por seu turno, ciente de ter um palco só para si, um palco limpo de histórias para trás –  Carlota nem fazia ideia que era irmão de Carmen -, sentia-se a tecer as malhas da sedução com eficácia. Era o tipo de homem que conseguia perceber o efeito que tinha nas pessoas. Algumas mulheres eram imunes ao seu charme, em especial as mais pragmáticas. Carlota queria viver uma aventura com uma dose de perigo e, talvez por isso, ignorou a irmã e o cavalheiro ao seu lado, pegou na mão da sua donzela resgatada e encaminhou-se para as casas de banho. Carlota deixou-se levar e Carmen ficou a ver.

 

O silêncio entre eles tinha mais impacto do que o som alto do hip-hop. Como se Carmen e Paulo estivessem num casulo. Jaime não iria aparecer, disso tinha ela a certeza. Vira-o, encara-o com a calma de desafio ganho e ele esfumara-se entre os que dançavam e os outros que tentavam falar e, por isso, eram obrigados a gritar. Olhou para Paulo na certeza de compreender na totalidade o seu desconforto.

 

Carmen disse:

 

E se fossemos beber um copo a outro sítio?

Nós?

Sim. O teu irmão não vai aparecer.

E tu queres ir beber um copo comigo?

Sim. Não gostas de mim. Eu não gosto de ti. Não há perigo.

 

Paulo riu. Não conseguiu evitar. Carmen estava já de pé e mostrava as chaves do carro.  

 

Jaime saíra da festa há algum tempo. Tinha ficado sentado dentro do carro a ver as pessoas a circular. Gostaria de ter festejado mais o facto espantoso de ter sido promovido. Sentia-se menos mal por ter falado com os seus colegas e patrões, logo no início. Mostrara a cara, era a conclusão. O divertimento que se prometera falhara ao ver Carmen com o irmão. A vida não seria nunca uma dedução óbvia. Devia ter estado mais atento às aulas de lógica? Pensava nisto, sem grande ordem, quando viu o corpo do irmão entrar dentro de um carro que conhecia de sobremaneira. Não havia impossíveis e Jaime acabara de testemunhar um impossível. Estava escrito.

 

Paulo odiava Carmen. Chegara a descrevê-la como alguém que, sendo da província e de boas famílias, podia ter nascido num país de Leste. Lembrava-se perfeitamente, o irmão dissera que Carmen tinha aquele ar de enfado e, ao mesmo tempo, de mistério, sempre carregando uma grande tragédia. Jaime gozara-o, como se as tragédias fossem apenas histórias terríveis com origem em países de leste e depois acrescentara uma estupidez

 

Ela nem é loira.

 

Não, Carmen não era loira, nunca fora loira. Podia envelhecer e começar a pintar o cabelo, primeiro de ruivo e depois de loiro, para parecer mais nova. Acontecia a muitas mulheres. Jaime repreendeu-se mentalmente, a sua cabeça desviava-se do assunto, da importância maior de ter visto Paulo entrar no carro de Carmen. A ex namorada tinha coleccionado, sem o saber, um conjunto apreciável de adjectivos qualificativos vários. Paulo era hostil, implacável.

 

Ela é um professoreca. Uma assistente, aliás. Não tem conversa. Ainda fala em Coimbra como se Coimbra fosse um lugar feliz. Olha, Jaime, desculpa, mas para namorada é um desastre.

 

Ninguém diria que és psicólogo.

 

Pois, Jaime, no que te diz respeito tenho o consultório fechado. E para a tua namorada mais ainda.

 

Não gostas dela.

 

Não.

 

OK.

 

Tinham deixado a coisa nesse pé e, às quartas-feiras, jantavam os dois, como se o ritual, sem Carmen, fosse o garante de uma certa normalidade. O ritual era ainda uma desvalorização do papel da mulher com quem Jaime dormia. Uma mulher que ele sabia estar num fio qualquer de destruição. Não foi preciso ninguém dizer-lhe que Carmen era auto destrutiva, a sua mãe era assim, ninguém melhor do que ele para entender o estrago emocional de uma mulher. Não sentia compaixão por Carmen; não a sentia pela mãe, Laura, tão-pouco por ele próprio ou por Paulo.

 

Jaime tentava encaixar a namorada na lista de afazeres e estava convicto de que tudo fluiria se tivessem muitas coisas para fazer, muitas ilusões colectivas, festas e jantares, nada de importante. Alimentou a situação o quanto lhe foi possível. O mais possível. Gostava de Carmen. Gostava dela na cama e isso não podia dizer em alta voz. Embora, se a memória não lhe falhava, o tenha dito na despedida

 

Só és boa na cama.

 

O olhar dela seria inesquecível se Jaime fosse esse tipo de homem. Não era. A insensibilidade podia ser uma acusação demasiado leviana, excessiva. Ele era comedido e tinha aprendido a isolar os episódios da vida, obrigara-se a uma memória selectiva. Não queria recordar os olhares de Carmen na dor, da mesma forma que não queria saber de certas coisas da mãe. Ou de Paulo.


Patrícia Reis,

 

Onde, de repente, Carlota se vê a receber um Oscar; o filme continua; a festa também se faz com silêncios;  o ódio é garantido; há impossíveis

 

Carlota cumprimentou Paulo com pouco à-vontade. Gostaria que desaparecessem, ele e a Carlota, tão idiotamente serena. Preferia não ver o Jaime, ficar ali com o Martim e perceber que a vida podia ser mais parecida com um automóvel de corrida. A metáfora era apropriada. Martim tinha esse jeito de carro desportivo. Rápido, dinâmico, bom design, solidez e modernidade. Uma cambada de clichés, é certo, porém Carlota estava como que presa a tudo aquilo e, se de repente, ele tivesse uma arma e começasse aos tiros para a salvar, seria apenas mais uma banalidade.

 

Martim, por seu turno, ciente de ter um palco só para si, um palco limpo de histórias para trás –  Carlota nem fazia ideia que era irmão de Carmen -, sentia-se a tecer as malhas da sedução com eficácia. Era o tipo de homem que conseguia perceber o efeito que tinha nas pessoas. Algumas mulheres eram imunes ao seu charme, em especial as mais pragmáticas. Carlota queria viver uma aventura com uma dose de perigo e, talvez por isso, ignorou a irmã e o cavalheiro ao seu lado, pegou na mão da sua donzela resgatada e encaminhou-se para as casas de banho. Carlota deixou-se levar e Carmen ficou a ver.

 

O silêncio entre eles tinha mais impacto do que o som alto do hip-hop. Como se Carmen e Paulo estivessem num casulo. Jaime não iria aparecer, disso tinha ela a certeza. Vira-o, encara-o com a calma de desafio ganho e ele esfumara-se entre os que dançavam e os outros que tentavam falar e, por isso, eram obrigados a gritar. Olhou para Paulo na certeza de compreender na totalidade o seu desconforto.

 

Carmen disse:

 

E se fossemos beber um copo a outro sítio?

Nós?

Sim. O teu irmão não vai aparecer.

E tu queres ir beber um copo comigo?

Sim. Não gostas de mim. Eu não gosto de ti. Não há perigo.

 

Paulo riu. Não conseguiu evitar. Carmen estava já de pé e mostrava as chaves do carro.  

 

Jaime saíra da festa há algum tempo. Tinha ficado sentado dentro do carro a ver as pessoas a circular. Gostaria de ter festejado mais o facto espantoso de ter sido promovido. Sentia-se menos mal por ter falado com os seus colegas e patrões, logo no início. Mostrara a cara, era a conclusão. O divertimento que se prometera falhara ao ver Carmen com o irmão. A vida não seria nunca uma dedução óbvia. Devia ter estado mais atento às aulas de lógica? Pensava nisto, sem grande ordem, quando viu o corpo do irmão entrar dentro de um carro que conhecia de sobremaneira. Não havia impossíveis e Jaime acabara de testemunhar um impossível. Estava escrito.

PabloFidalgo Lareo


Patrícia Reis,
 

Esta é uma história entre um barco e eu.
Entre um barco que fica parado em frente da costa
e ameaça desfazer-se.
Este é um risco que tinha de assumir
para que o mundo continuasse a mover-se.
O fracasso dos meus pais foi a minha única história.
Nasci com um passado, quantos poderão dizer o mesmo?
A oportunidade de ter uma história sem fazer nada
só ocorre uma vez na vida.

Na escola aprendi como era o mundo.
Os que se riem de mim
são filhos dos que se riram dos meus pais.
Os que não viveram nada
invejam aqueles que viveram.
Os que têm uma história
não precisam de se rir de ninguém.
É a vossa palavra contra a minha.
O vosso silêncio contra o livro.

Os meus pais pensaram que certas coisas
não tinham de me ser contadas
e nunca esqueceram a única decisão
a que puderam chegar: silêncio.
A minha mãe e eu chegamos a um acordo
para nunca mais assentar as bases de nada.

 

(Tradução de Manuel de Freitas)

in Os meu pais: Romeu e Julieta, Averno, Lisboa, Setembro de 2015.

Sophia de Mello Breyner Andresen faria hoje anos.


Patrícia Reis,

Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.
*
Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só dos teus olhares me purifique e acabe.
*
Há muitas coisas que eu quero ver.
*
Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o teu reino antes do tempo venha.
E se derrame sobre a Terra
Em primavera feroz precipitado.

Fictiongram, continuação da continuação


Patrícia Reis,

 

Onde a queda é um frame cinematográfico; estar bem é um imperativo; comunicar é pouco;  a destruição pode ser um quadro perfeito; 36 é capaz de ser 40;  a festa é o que uma festa deve ser; as visões podem ser limitativas; a emoção é deficiente; a imaginação é um truque; o diálogo verdadeiro se dá;

 

Carlota deixou-se ficar apoiada a Martim. Havia uma familiaridade quase estranha no rosto daquele homem, ele que lhe pegava na perna, examinando a ferida no joelho como se fosse um médico. Era um frame de um filme mau, cocktails ao fundo, vestidos e pessoas aprumadas a passar por eles, quase invisíveis, desleixados, coitados. Iriam perder a festa. Carlota não ligara a Jaime, não avisara. Estava a ver o seu interlocutor e nem sequer o ouvia, tentava entender-lhe o corpo.

 

Carlota percebeu, nas redes sociais, que o irmão estava envolvido na festa, a festa onde Jaime iria. Decidiu-se sem ponderar, algo não habitual na sua conduta. Pensar, pensar em demasia, era um dos seus problemas. A avó tinha-lho dito, Jaime também, até Carlota, a traidora. Refez o pensamento, Carlota não a traíra. Fora almoçar com Jaime. Mais nada. Pois não? Chegou à festa com esses pensamentos sem sentido, sabendo que não tinha convite para apresentar. Não se importava muito com o constrangimento desse pormenor. Considerava o cabelo, o vestido e se o batom teria escorrido para os dentes. Queria estar bem. Era imperativo estar bem.

 

Primeiro viu Martim. O irmão, inconfundível, na altura, na estrutura. Um homem que podia quase tudo, uma ilha poderosa capaz de aguentar todas as tormentas apenas por o ter decidido quando era ainda um adolescente. A vida ser-lhe-ia fácil, era a opção tomada, mesmo que a família desaprovasse. A família contava pouco para Martim. Carlota apercebeu-se, subitamente, de que o irmão tinha alguns cabelos brancos, e ​que ela ​não o via desde a morte da avó. O facto de estar de relações cortadas com o pai de ambos facilitava a falta de comunicação. A mãe dissera a Carlota, ao telefone:

 

É melhor assim. O teu irmão é difícil. Às vezes, comunicamos tanto para dizer tão pouco, escusamos de fazer esse esforço. Somos só três no Natal.

 

Depois, em segundos – tudo decorreu em segundos -, Carmen viu Carlota sentada na beira do passeio, o joelho ensanguentado, as calças rasgadas, o cabelo esticado, os lábios vermelhos, perfeita na sua destruição. Podia ter ficado dentro do carro, segura, calada, sem dar nota de nada. Em vez disso, viu-se a caminho, a dizer:

 

Carlota? Martim! Está tudo bem?

 

A festa estava ao rubro. Martim fizera a sua magia. Carlota já tinha uma saia haute couture, preta, com laivos de cinzento, compondo uma figura muito mais elegante. Ele sabia quase tudo. Carmen assistira impávida ao telefonema dele:

 

Preciso de uma saia… Não, preta, pode ser a preta e cinza prata, veja só se é número 36 ou 38.

 

Carmen ainda esteve quase a dizer que Carlota é uma falsa magra, seria sempre um 38 ou 40, mas deixou-se ficar calada, a mão da amiga na sua, um som ligeiro de um telemóvel a vibrar dentro da clutch abandonada. Martim estava decidido a entrar com aquela mulher na festa mais badalada de Lisboa. Ao telemóvel, o irmão de Carlota era um homem feliz com uma missão, competente, com bom ar. Um ministro passou perto dele e apertaram as mãos. Carlota questionou Carmen com um olhar. Carmen nada disse, nem sobre a saia, nem sobre o ministro ou sobre o irmão. Estava calada. Por dentro e por fora….

 

Tudo aconteceu relativamente depressa. Carmen não se recorda dos pormenores que hoje a ajudariam a descodificar a situação. Estava sentada numa mesa de canto, a festa estava ao rubro. O dj fazia a sua encenação e era mais importante observá-lo do que dançar.  Martim enfeitiçado por Carlota, ela impecável na sua saia que tapava o joelho ferido; ele capaz de falar, de rir das próprias piadas e ignorar a irmã.

 

Jaime, com um copo na mão, descobriu-os naquele​ canto depois de varrer a sala à procura da sua supos​ta acompanhante. Viu Carmen com espanto e depois receio e depois com imensa coragem. Era só uma ex-namorada, dizia o néon exposto em cima da sua cabeça. Jaime considerou a quem falar primeiro: a Carmen que o olhava de forma impossível de classificar; Carlota que se ria de forma quase obscena para um homem demasiado próximo do corpo dela, o corpo dela que ocupava, decerto, os sonhos de outros tantos homens?

 

A questão ficou resolvida por Paulo que, no seu fato-envelope-armadura surgiu como que por magia. Uma enchente de gente obrigava a movimentos involuntários e Paulo ficou perto de Carmen, ajeitou os óculos, reconheceria aquele rosto em qualquer lado, aquela cicatriz andante, uma deficiente emocional. Não reparou em Carlota ou em Martim, menos ainda em Jaime. O irmão ficou a vê-lo ao longe.

 

Paulo beijou Carmen numa única face, um gesto que Jaime sabia que a irritava; Carmen era o tipo de mulher que fora educada no sentido de dar dois beijos. Mesmo que para o ar. Paulo disse qualquer coisa. Jaime imaginou o diálogo impossível:

 

Carmen. Que bom ver-te.

Olá, Paulo. Como estás?

Viste o meu irmão?

Não, não vi.

 

Carmen a olhá-lo, como alguém especial, alguém com poderes reais, o olhar a queimar-lhe a pele e Jaime a abandonar a festa.

 

Carmen…

Paulo.

Estranho encontrar-te aqui.

Sim, não é um sítio onde uma pessoa como eu pudesse estar.

Não sejas irónica.

Porquê? Tens alguma coisa contra a ironia?

Não… É cansativo.

Cansativo é viver com o teu fantasma.

Ah, então eu sou responsável pelo fim da tua relação com o Jaime?

Tu és o macho alfa.

Tu não sabes o que dizes.

Pois, parece que não.

Al Berto


Patrícia Reis,

MUDANÇA DE ESTAÇÃO

para te manteres vivo – todas as manhãs
arrumas a casa sacodes tapetes limpas o pó e
o mesmo fazes com a alma – puxas-lhe brilho
regas o coração e o grande feto verde-granulado

deixas o verão deslizar de mansinho
para o cobre luminoso do outono e
às primeiras chuvadas recomeças a escrever
como se em ti fertilizasses uma terra generosa
cansada de pousio – uma terra
necessitada de águas de sons de afectos para
intensificar o esplendor do teu firmamento

passa um bando de andorinhões rente à janela
sobrevoam o rosto que surge do mar – crepúsculo
donde se soltam as abelhas incompreensíveis
da memória

luzeiros marinhos sobre a pele – peixes
que se enforcam com a corda de noctilucos
estendida nesta mudança de estação

 Horto de Incêndio, Assírio & Alvim, p. 52

e. e. cummings


Patrícia Reis,

que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas
aves que são os segredos da vida
o que quer que cantem é melhor do que conhecer
e se os homens não as ouvem estão velhos

que o meu pensamento caminhe pelo faminto
e destemido e sedento e servil
e mesmo que seja domingo que eu me engane
pois sempre que os homens têm razão não são jovens

e que eu não faça nada de útil
e te ame muito mais do que verdadeiramente
nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse
chamar a si todo o céu com um sorriso

, in “livrodepoemas”