Esta é uma história entre um barco e eu.
Entre um barco que fica parado em frente da costa
e ameaça desfazer-se.
Este é um risco que tinha de assumir
para que o mundo continuasse a mover-se.
O fracasso dos meus pais foi a minha única história.
Nasci com um passado, quantos poderão dizer o mesmo?
A oportunidade de ter uma história sem fazer nada
só ocorre uma vez na vida.
Na escola aprendi como era o mundo.
Os que se riem de mim
são filhos dos que se riram dos meus pais.
Os que não viveram nada
invejam aqueles que viveram.
Os que têm uma história
não precisam de se rir de ninguém.
É a vossa palavra contra a minha.
O vosso silêncio contra o livro.
Os meus pais pensaram que certas coisas
não tinham de me ser contadas
e nunca esqueceram a única decisão
a que puderam chegar: silêncio.
A minha mãe e eu chegamos a um acordo
para nunca mais assentar as bases de nada.
(Tradução de Manuel de Freitas)
in Os meu pais: Romeu e Julieta, Averno, Lisboa, Setembro de 2015.
