MUDANÇA DE ESTAÇÃO
para te manteres vivo – todas as manhãs
arrumas a casa sacodes tapetes limpas o pó e
o mesmo fazes com a alma – puxas-lhe brilho
regas o coração e o grande feto verde-granulado
deixas o verão deslizar de mansinho
para o cobre luminoso do outono e
às primeiras chuvadas recomeças a escrever
como se em ti fertilizasses uma terra generosa
cansada de pousio – uma terra
necessitada de águas de sons de afectos para
intensificar o esplendor do teu firmamento
passa um bando de andorinhões rente à janela
sobrevoam o rosto que surge do mar – crepúsculo
donde se soltam as abelhas incompreensíveis
da memória
luzeiros marinhos sobre a pele – peixes
que se enforcam com a corda de noctilucos
estendida nesta mudança de estação
Horto de Incêndio, Assírio & Alvim, p. 52

Excelente escolha.
“a poesia talvez seja esta célula do corpo que em vez de viver se transformou em escrita.”
Diários, Assírio & Alvim, pag. 272.
🙂 Antonieta