Carlos Drummond de Andrade


Patrícia Reis,

 

RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Fernando Pessoa


Patrícia Reis,

DEIXEI ATRÁS OS ERROS DO QUE FUI

Deixei atrás os erros do que fui,

Deixei atrás os erros do que quis

E que não pude haver porque a hora flui

E ninguém é exacto nem feliz.

Tudo isso como o lixo da viagem

Deixei nas circunstâncias do caminho,

No episódio que fui e na paragem,

No desvio que foi cada vizinho.

Deixei tudo isso, como quem se tapa

Por viajar com uma capa sua,

E a certa altura se desfaz da capa

E atira com a capa para a rua.

«23-8-1934 – Poesias Inéditas (1930-1935)

Um Santo Natal


Patrícia Reis,

Quero

 

Senhor neste

 

Natal, armar uma

 

árvore, dentro do meu

 

coração, e nela pendurar, em

 

vez de presentes, os nomes de

 

todos os meus amigos. Os antigos e os

 

mais recentes. Os de perto e os de longe.

 

Os que vejo a cada dia, e os que raramente

 

encontro. Os sempre lembrados e os que às vezes

 

ficam esquecidos. Os das horas difíceis, e os das horas

 

alegres. Os que sem querer magoei ou sem querer me magoaram.

 

Aqueles que pouco me devem e aqueles a quem muito devo. Meus

 

amigos humildes e meus amigos importantes. Os nomes de todos os que

 

já passaram pela minha vida.

 

Especialmente os que já partiram

 

e que me lembro com tanta saudade.

 

Que o natal esteja vivo,

 

em cada dia do ano novo.

 

 

(Desconheço a autoria deste postal de Natal, foi-me enviado pela Helena Sacadura Cabral há cinco anos e guardei-o para o partilhar convosco este ano. Obrigada Helena, um Santo Natal para todos)

Caio Fernando Abreu


Patrícia Reis,

“Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada “impulso vital”. Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te supreenderás pensando algo como “estou contente outra vez”. Ou simplesmente “continuo”, porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como “sempre” ou “nunca”. Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicidio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim – nós, não. Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fatais como “não resistirei” por outras mais mansas, como “sei que vai passar”. Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência.
Claro que no começo não terás sono ou dormirás demais. Fumarás muito, também, e talvez até mesmo te permitas tomar alguns desses comprimidos para disfarçar a dor. Claro que no começo, pouco depois de acordar, olhando à tua volta a paisagem de todo dia, sentirás atravessada não sabes se na garganta ou no peito ou na mente – e não importa – essa coisa que chamarás com cuidado, de “uma ausência”. E haverá momentos em que esse osso duro se transformará numa espécie de coroa de arame farpado sobre tua cabeça, em garras, ratoeira e tenazes no teu coração. Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer. E caminharás devagar pela casa, molhando as plantas e abrindo janelas para que sopre esse vento que deve levar embora memórias e cansaços.
Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, pensarás com alívio. E morbidamente talvez enumeres todas as vezes que a loucura, a morte, a fome, a doença, a violência e o desespero roçaram teus ombros e os de teus amigos. Serão tantas que desistirás de contar. Então fingirás – aplicadamente, fingirás acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja na largatixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os teus olhos já não acham graça.
Tão longe ficou o tempo, esse, e pensarás, no tempo, naquele, e sentirás uma vontade absurda de tomar atitudes como voltar para a casa de teus avós ou teus pais ou tomar um trem para um lugar desconhecido ou telefonar para um número qualquer (e contar, contar, contar) ou escrever uma carta tão desesperada que alguém se compadeça de ti e corra a te socorrer com chás e bolos, ajeitando as cobertas à tua volta e limpando o suor frio de tua testa.
Já não é tempo de desesperos. Refreias quase seguro as vontades impossíveis. Depois repetes, muitas vezes, como quem masca, ruminas uma frase escrita faz algum tempo. Qualquer coisa assim:
– … mastiga a ameixa frouxa. Mastiga , mastiga, mastiga: inventa o gosto insípido na boca seca …”

Posto 12


Patrícia Reis,

 

Foi um momento mágico que durou apenas um segundo. A onda vinha a nascer ali, a cinco metros, talvez sete, quem mede o mar?, a crescer desengonçada, mais alta do lado esquerdo, mais elegante na direita e a mulher viu o arredondar e a espuma a espreitar no topo do movimento da água, e aí, três peixes, talvez quatro, corpos no formato imaginado em prata a compor a moldura do topo da elevação de água. A mulher mergulhou e os peixes voltaram ao seu exercício invisível de existir sem se dar conta. O mar estava quente.

Então, a gaivota não conseguia voar. Não era motivo de festa. Junto ao posto, os nadadores salvadores a rondar a ave grande, penas pretas, bico branco, sem saber. Ela a tentar voar, uns metros, a salvação. O que querem estes? Um deu a volta, ficou nas costas da ave, na presunção de que assim escaparia e, num gesto súbito, agarrou-a e o outro homem apertou o corpo e as patas dançantes, desesperadas. Precisa de ser vista por alguém competente. A praia parou para ver a manobra de salvação na areia meio molhada, famílias e casais olhando os dois homens. No céu, as outras gaivotas afastaram-se e um miúdo pediu um mate sem limão, um surfista de cabelo comprido seguiu para as ondas pequenas mas velozes. Era o meio da tarde. O homem pediu uma caipirinha. Limão.

A cláusula podia ser legal ou nem por isso. Advogado serve para saber essas coisas, e a mulher ia vendo os emails, feliz com o facto de ter wi fi na praia. Era sexta-feira e, a teoria rezava a história meio parva de estar numa reunião de trabalho, mas atendia o telemóvel e do outro lado ouviam-se as ondas a rebentar, o homem que grita para quem o quer atender que há empadas de frango e de camarão. O homem viu a sua mulher ao longe. Ela a fazer de mãe, um saco cheio de comida. Um sorriso pequeno e os óculos escuros cheios de areia.

Eram duas pranchas de surf a combater o sol da tarde. A fazer toldo. Enterradas na areia como totems de uma religião desconhecida, os miúdos precisavam de sombra, de ficar deitados com os cabelos derretidos de suor e de água do atlântico quente, apenas encaixados no buraco escavado, à sombra das pranchas, sem um tostão. A ver as ondas. As pessoas. Os vendedores. Sem vergonha pediram um copo de limonada a um vendedor e o homem riu-se, fez conta da enorme lata, percebeu a falta de dinheiro, pegou num copo de plástico e encheu para os surfistas profissionais chegados à adolescência há dois minutos. Riu-se e lembrou que no dia seguinte cobraria os seus serviços, afinal andar na areia para ganhar a vida não é para todos e eles, os miúdos, estão apenas descontraídos, leves-leves, com as mãos bronzeadas a acariciar as barrigas, miúdos de famílias que até podiam ter muito. Muito, fosse do que fosse.

O casal estava sentado a beber um caipirinha. Não era a melhor caipirinha de todas, era a possível e o que podia ser era, mais do que qualquer outra coisa, o silêncio de estarem na festa da praia sem terem de dizer nada. Apareceu uma jovem com cara pintada de azul, meias roxas, uma mini saia branca, luvas pretas e uma camisola inesperada, de gola alta, mangas compridas. A jovem falou em inglês e o casal riu-se, o português servia. Ela encolheu as mãos junto ao peito num gesto coquete e depois riu-se, um riso pequeno. Disse ao que vinha, garantiu que os achava americanos, qual Paris Hilton e uma mistura de Vin Diesel com Denzel Washington e o casal riu. Deram-lhe uma nota e ela agradeceu e recomendou: atenção aos paparazzi, que também os há.

Ler Caio Fernando Abreu sem cuidado. Sem estar preparada para tanta tristeza, a mulher esmagada com cada frase, com todos os repentes, conseguindo sentir o cheiro da droga, depois do suor e do fim do sexo. A mulher aflita na praia a ler sem conseguir parar, porque seria assim, a escrita não merece tanta mágoa, não precisa de ir tão fundo, pois não? Caio não respondeu. Talvez estivesse numa nuvem sentado. A ver a mulher. A perceber como lhe podia partir o coração.

Se estivesse a noite toda a desenhar na areia podia ser que acontecesse, a mulher entenderia que frequência e vibração, a água como condutor de som, a potencia do eco, a necessidade de barreiras, o espaço confinado ou aberto, podia ser que entendesse que era impossível existir som no espaço – excepto para as naves especiais dos filmes incríveis que ela preferia gostar para pertencer a um grupo determinado de pessoas que está pronta para o desconhecido. Podia ser John Williams. O homem desenhou na areia, o charuto terminado na mão, as luzes potentes a banhar a praia na noite quente. Passou uma camioneta desengonçada e havia uma criança que gritava, lá ao fundo. O som vinha da direita, mesmo lá ao fundo. A criança não gritava, ria. Ria alto.

Ana Hatherly


Patrícia Reis,

“Príncipe:
Era de noite quando eu bati à tua porta
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir
e não me conheceste.
Era de noite
são mil e umas
as noites em que bato à tua porta
e tu vens abrir
e não me reconheces
porque eu jamais bato à tua porta.
Contudo
quando eu batia à tua porta
e tu vieste abrir
os teus olhos de repente
viram-me
pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira
a derradeira
instância do momento de eu surgir
e tu veres-me.
Era de noite quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
e viste-me
como um náufrago sussurrando qualquer coisa
que ninguém compreendeu.
Mas era de noite
e por isso
tu soubeste que era eu
e vieste abrir-te
na escuridão da tua casa.
Ah era de noite
e de súbito tudo era apenas
lábios pálpebras intumescências
cobrindo o corpo de flutuantes volteios
de palpitações trémulas adejando pelo rosto.
Beijava os teus olhos por dentro
beijava os teus olhos pensados
beijava-te pensando
e estendia a mão sobre o meu pensamento
corria para ti
minha praia jamais alcançada
impossibilidade desejada
de apenas poder pensar-te.

São mil e umas
as noites em que não bato à tua porta
e vens abrir-me”

(Presentes Preciosos 2)

Samuel Beckett


Patrícia Reis,

a dizer outra vez
se não me ensinares eu não aprendo
a dizer outra vez que há uma última vez
mesmo para as últimas vezes
últimas vezes em que se implora
últimas vezes em que se ama
em que se sabe e não se sabe em que se finge
uma última vez mesmo para as últimas vezes em que se diz
se não me amares eu não serei amado
se eu não te amar eu não amarei

 


Patrícia Reis,

Onde a ironia toma conta; Laura compensa o vazio; os recados estão pela casa; o silêncio é a solução

 

Paulo podia ligar a Carmen mas para isso seria preciso ter o número de telemóvel da ex namorada do irmão, a ex namorada de um período longo, mesmo muito longo. Mas ele preferira ignorá-la. Maldizê-la. Não quis ver nada de bom em Carmen e, de ressaca, incapaz de dormir, bebendo cafés duplos na pastelaria do costume, a tentar acertar quantas consultas podia desmarcar, sentiu-se infantil. Precisava de saber o número daquela mulher.

Jaime tinha dois dias de férias. Estavam marcados há muito tempo. Deitara-se tarde, andara por aí e, pelas duas da tarde, tomou duche e decidiu que precisava de ver a mãe. Não havia nenhuma razão. Geralmente, visitava-a ao sábado, uma vez por mês. Não era muito, não era pouco, era o possível. Paulo raramente ia. Falavam ao telemóvel, explicava-lhe o irmão como se fosse natural. Jaime sabia que Laura lhe tinha falhado há muito tempo – porventura falhara aos dois, mas Jaime preferia não o entender assim. Estacionou a dois quarteirões da casa da mãe.

Laura não estava preparada para nenhuma visita. Não era sábado. A casa estava a desfazer-se, os dois gatos miavam à volta da tijela de água. O cabelo estava por lavar. O odor que saía dela era algo incompatível com a ideia que se tem de uma mãe. Jaime olhou à volta e percebeu várias coisas. O terceiro marido não vivia ali. Por todo o lado, em vários móveis, estão fixos post it com frases como

 

Comer

 

Lavar os dentes

 

Dar de comer aos gatos

 

Sábado Jaime

 

Era o caos. Laura tentou não olhar o filho mais novo, apressou-se a retirar algo de cima do sofá, um monte de coisas que Jaime não entendeu o que eram. Entre eles o espaço para palavras tinha sido eliminado. Incapazes de dizer. Confuso, Jaime deu água aos gatos. Tirou o casaco e começou a arrumar. Não sabia o destino da maioria das coisas e esse desentendimento com o mundo da mãe, levou-o a um caos ainda maior: cada gaveta era uma surpresa, um susto. Um cheiro repugnante vinha de algures. Laura manteve-se no sofá e, por momentos, fez-se adormecer.

José Gomes Ferreira


Patrícia Reis,

Nunca encontrei um pássaro morto na floresta.

Em vão andei toda a manhã
a procurar entre as árvores
um cadáver pequenino
que desse o sangue às flores
e as asas às folhas secas…

Os pássaros quando morrem
caem no céu.

in Poemas Portugueses: Antologia da Poesia Portuguesa do séc. XIII ao séc. XXI, Porto Editora

O Público pronto para despedir amigavelmente até 6 de Janeiro


Patrícia Reis,

http://expresso.sapo.pt/sociedade/2015-12-10-Jornal-Publico-abre-programa-de-rescisoes-com-trabalhadores

 

Sim, é triste. Fica a pergunta: quando foi a última vez que comprou o Público? Ou outro jornal diário? Porventura estão, como muitos, rendidos ao on-line. O on-line não é negócio para a comunicação social, é um modelo que ultrapassa a possibilidade de angariar publicidade a determinados valores, as vendas são o que são. Tudo isto é triste, tudo isto é fado, canta-se por aí em noites vadias. Como jornalista, sinto que os tempos estão a mudar, a mudar rapidamente e lembro-me de Fernando Dacosta, há dias em Viseu, a dizer que os jornais perderam-se quando deixaram os escritores escapar, quando terminou o fumo e as bebidas. Rimos e eu até acrescentei as relações amorosas ao menu de ingredientes que faziam os jornais numa outra época, uma época em que os jornalistas eram formados por jornalistas mais velhos (muitos deles escritores). E ter a sorte de cruzar o nosso caminho, quando se é muito novo, com Assis Pacheco, Cáceres Monteiro, Afonso Prata, Helena Sanches Osório, Fernando Dacosta, Natália Correia, Vera Lagoa, Maria Antónia Palla, António Mega Ferreira – para dar alguns exemplos – foi um privilégio meu. Hoje ser jornalista continua a ser tão importante quanto era no fim dos anos 80, quando eu comecei, talvez mesmo mais importante. Não lamentem a morte dos jornais, comprem-nos sff.

Clarice Lispector


Patrícia Reis,

Clarice Lispector nasceu a 10 de Dezembro há 95 anos.

Saudades

Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida.
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros,
quando escuto uma voz, quando me lembro do passado,
eu sinto saudades…

Sinto saudades de amigos que nunca mais vi,
de pessoas com quem não mais falei ou cruzei…

Sinto saudades da minha infância,
do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro,
do penúltimo e daqueles que ainda vou ter, se Deus quiser…

Sinto saudades do presente,
que não aproveitei de todo,
lembrando do passado
e apostando no futuro…

Sinto saudades do futuro,
que se idealizado,
provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser…

Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei!
De quem disse que viria
e nem apareceu;
de quem apareceu correndo,
sem me conhecer direito,
de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.

Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito!

Daqueles que não tiveram
como me dizer adeus;
de gente que passou na calçada contrária da minha vida
e que só enxerguei de vislumbre!

Sinto saudades de coisas que tive
e de outras que não tive
mas quis muito ter!

Sinto saudades de coisas
que nem sei se existiram.

Sinto saudades de coisas sérias,
de coisas hilariantes,
de casos, de experiências…

Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia
e que me amava fielmente, como só os cães são capazes de fazer!

Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar!

Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar,

Sinto saudades das coisas que vivi
e das que deixei passar,
sem curtir na totalidade.

Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que…
não sei onde…
para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi…

Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades
Em japonês, em russo,
em italiano, em inglês…
mas que minha saudade,
por eu ter nascido no Brasil,
só fala português, embora, lá no fundo, possa ser poliglota.

Aliás, dizem que costuma-se usar sempre a língua pátria,
espontaneamente quando
estamos desesperados…
para contar dinheiro… fazer amor…
declarar sentimentos fortes…
seja lá em que lugar do mundo estejamos.

Eu acredito que um simples
“I miss you”
ou seja lá
como possamos traduzir saudade em outra língua,
nunca terá a mesma força e significado da nossa palavrinha.

Talvez não exprima corretamente
a imensa falta
que sentimos de coisas
ou pessoas queridas.

E é por isso que eu tenho mais saudades…
Porque encontrei uma palavra
para usar todas as vezes
em que sinto este aperto no peito,
meio nostálgico, meio gostoso,
mas que funciona melhor
do que um sinal vital
quando se quer falar de vida
e de sentimentos.

Ela é a prova inequívoca
de que somos sensíveis!
De que amamos muito
o que tivemos
e lamentamos as coisas boas
que perdemos ao longo da nossa existência…

Fictiongram, continuação da continuação


Patrícia Reis,

Onde a ambição é a hipótese real; vencer a família é o ponto de ordem; Paulo faz as perguntas; Carmen se esconde num casulo de fruta; Jaime se perde na desistência; o dia seguinte é o cliché do costume até…; há um amanhã

 

Carlota pensava o mesmo. Estavam de acordo sem o saberem. Apesar daquela coisa entalada entre os dentes – seria alface? Um pedaço de um charuto? -, Martim tinha algo que lhe agradava sobremaneira. Talvez fosse a ambição assumida. Lembrou-se de algumas histórias que Carmen tinha contado. Talvez fossem exagero. Ou ciúme. Carmen não podia conviver com um irmão com sucesso, teria de o superar e ela, como se sabe, não tem ambição para tanto.

Paulo teria de discordar. A ambição de Carmen – na perspectiva de profissional de saúde mental – estava focada apenas numa perspectiva da vida: emocional. Carmen queria superar todos os fantasmas, esquecer o impacto do irmão, a sua figura sempre vencedora, e provar-se que, como tantas outras mulheres, o amor da mãe e do pai era dispensável. Carmen queria vencer e sobre isso foi discorrendo enquanto bebiam bellinis de pêssego, escolha sui generis, que Paulo não entendeu ter sido possível. Ela falava calmamente.

 

Desculpa, Carmen, mas a família é assim tão importante? Não és uma adolescente.

 

Sou. É estúpido dizer que sim, mas sou. Depois da minha avó ter morrido, a porta ficou semi-aberta. Só me restam os meus pais e o meu irmão, só eles é que podem testemunhar que venci.

 

É uma forma derrotista de colocar as coisas? És tu a fazeres um papel trágico? Ou de diva?

 

Partimos para as ofensas?

 

São perguntas.

 

As perguntas ofendem, Paulo.

 

A cabeça estava entornada com álcool. Queria fumar cigarros, ela que não fumava, queria falar mais sobre as maldades da mãe, a sua coleção de anéis comprados a prestações, sobre as piroseiras do irmão que continuava a levar mulheres para dormir na casa de Coimbra como se a casa da avó, agora fechada, fosse uma pensão. Estava disposta a despir-se para aquele Paulo tão sério e engravatado, tão profissional, tão pouco bebido.

 

A noite podia seguir longa, desmultiplicada, espelho das realidades de todos eles. Ficava o silêncio de Jaime, um homem sem festa, companhia ou possibilidade de reconciliação com o irmão. O que os afastava não era uma mulher, Carmen ou Carlota. Não, era a mãe, era a estranheza da mãe que um aceitava e o outro repudiava, embora inconsciente. Seria uma falha? Talvez um cansaço, desistência.

 

Carlota acordou na cama de Martim e quase teve vontade de rir. Os lençóis eram de cetim, pirosos, cinzentos quase prata escuros. O corpo dele mantinha o ritmo da respiração profunda de quem bebeu de mais, ou seja, o corpo inteiro ressonava. Carlota voltou a conter o riso e saiu da cama sem se preocupar com potenciais ruídos. Pegou no telemóvel e tinha uma sms de Carmen

 

Espero que a tua noite tenha sido tão boa quanto a minha. Fica o aviso: não há pior do que o meu irmão.

 

Carlota tinha publicado no Instagram algumas fotografias, semi desfocadas, dos diferentes bellinis que tinha bebido. Guardara uma fotografia de Paulo, havia um certo sorriso no seu rosto, algo que lhe parecia familiar, aquela genética que a levava a recordar certos momentos com Jaime. Não tinham dormido juntos. Estavam demasiados bebidos, Paulo mandara vir um táxi e tinha-a deixado à porta de casa, dizendo

 

Ficas bem, Carmen?

 

Liga-me amanhã. Informo-te.

Cecilia Meireles


Patrícia Reis,

Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz.,
Sem dizerem que a esperam,
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.

Sophia de Mello Breyner Andresen


Patrícia Reis,

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens…
Há mulheres que são maré em noites de tardes
e calma.

 

Fictiongram, continuação da continuação


Patrícia Reis,

Onde a sombra dela se mostra; o fio da roca não é um conto de fadas; Carlota é a coisa estúpida que não arfa; o fim do sexo demora a passar;  passamos aos negócios

 

Carmen sorriu. Não tinha nada a perder. Estava convencida de que Jaime nada teria contado sobre a sua vida ao irmão. Era essa a pouca importância que ela tinha: uma vida que não interessava. Talvez fosse pouco importante. Talvez a sua história não tivesse os contornos apropriados. Jaime pouco sabia das sombras que desciam sobre ela. Paulo estava a ouvir. Carmen decidiu aproveitar.

 

Queres saber da minha mãe? Ama o meu pai. Cumpre as tradições. Tem imenso brio nas suas baixelas de loiça. Alterna no Natal. Faz questão de só beber gin e, mesmo assim, só depois das seis da tarde. Não tem conversas com o meu pai. Não é possível ter conversas com o meu pai. Ouve o seu querido marido com certo enlevo e a concentração que lhe dedica é semelhante à das mães que dão de mamar.

 

Carmen, tu precisas de fazer terapia.

 

Não precisamos todos?

 

Entretanto, Carlota tinha pensado em todas as coisas obscenas possíveis​, cenários, palavrões, ordens, tudo isso na cabeça dela a correr como uma legenda de uma série de origem estranha, dinamarquesa, sueca, qualquer coisa. Não podia dizer a Martim que o sexo, se mental, para ela era auditivo e, para tudo isso, para conseguir chegar lá, precisava de mais do que só o ouvir arfar, precisava de palavras concretas. Se lho dissesse iria pensar que ela, ela na sua saia de haute-couture, era uma puta? Provavelmente. Pensou em tudo e percebeu o corpo dele terminar o orgasmo em cima do seu corpo como quem percebe que perdeu qualquer coisa: as chaves de casa, o táxi da esquina, o elevador. Carlota e as coisas estúpidas de se ser apenas Carlota.

 

Martim sorriu-lhe e ela viu como os seus dentes, imaculados, tinham um resto de qualquer coisa. O feio pareceu-lhe mais feio por causa disso, porém devolveu o sorriso. Não queria sair de dentro dela, ele, o seu sexo a cair, a diminuir. A coisa humilhante de ser bem educada e esperar. Carlota concluiu

 

Não servias para puta.

 

Martim aprendera pouco sobre as mulheres. Não era sensível como Jaime, instruído nas emoções como Paulo. Não. Era um homem de negócios, pragmático, alguém que decidira que a vida teria de lhe sorrir por ser incapaz de se imaginar pobre ou medíocre. Assim, depois do sexo, rápido, eficaz, acreditou que falar sobre as operações complexas do stock de bebidas das discotecas era um tema como qualquer outro. Carlota fez duas perguntas inteligentes e deu consigo a sorrir. Talvez não fosse apenas um encontro de uma noite. Carlota podia ser mais.

Sylvia Plath


Patrícia Reis,

Sou de prata e exacto. Não tenho preconceitos.
Tudo o que vejo engulo imediatamente
Tal qual é, desenevoado de amor ou desagrado.
Eu não sou cruel, só verídico –
O olho de um pequeno deus, enquadrado.
A maior parte do tempo medito sobre a parede oposta.
É rosa, com salpicos. Observei-a por tanto tempo
Creio que faz parte do meu coração. Mas tremeluz.
Uma e outra vez rostos e escuridão nos separam.

Agora sou um lago. Uma mulher aproxima-se de mim,
Procurando nos meus recantos pelo que ela realmente é.
Depois volta-se para esses mentirosos, as velas ou a lua.
Vejo as suas costas, e reflito-as fielmente.
Ela recompensa-me com lágrimas e uma agitação das mãos.
Sou importante para ela. Ela vem e volta.
Cada manhã é o seu rosto que substitui a escuridão.
Em mim afogou uma jovem rapariga, e em mim uma velha mulher
Ergue-se para ela dia após dia, como um terrível peixe.

in Crossing the water – transitional poems