Medo + Ignorância = Ódio


Patrícia Reis,

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O estado do mundo. É este: medo + ignorância é igual a ódio. Não vou reproduzir o video da operadora de televisão húngara que tenta passar não uma, mas duas rasteiras, até conseguir o momento penoso de ver um refugiado cair. Não reproduzo por não me apetecer ficar mais triste do que estou. Entre o medo e a ignorância temos a manipulação, o desejo extremo de sangue, suor e lágrimas, o mau jornalismo que deixa o bom nome do jornalismo com qualidade por águas turvas, a total falta de humanismo, de solidariedade, a recusa da cidadania responsável e com princípios válidos. Bons princípios. Eduquei dois filhos para serem boas pessoas. Para saberem a diferença entre o bem e o mal. Tive muitas ajudas, felizmente. Até o Tolkien me ajudou! Sempre lhes disse que uma vida cheia de medo não é vida. Que a maior riqueza que temos é a educação e cultura geral. Que os ódios e equívocos, dogmas e fundamentalismos não colhem, não podem colher. Fazem o seu caminho, farão as suas escolhas, são do mundo, não são meus. Mas posso dizer que tentei, fiz um esforço, não me demiti da educação, da passagem de valores em que acredito e, caso hoje possamos discordar, pois concordamos que discordamos civilizadamente. Não discordamos dos princípios básicos. Ficaram lá. A mãe da operadora de televisão deve ter morrido de desgosto com as imagens divulgadas, com as atitudes da filha. Eu morreria. 

Ainda hoje digo que sou jornalista, é quem eu sou na essência e orgulho-me do bom jornalismo que se pratica em Portugal e no mundo. O que acontece com os refugiados e este video em particular – não me consola que a senhora tenha sido despedida, devo dizer! – é que me leva a perguntas como esta: quando é que a procura da verdade, o princípio básico e fundamental do bom jornalismo, faz com que as pessoas envolvidas tenham de perder a dignidade? Até onde podemos expor quem é protagonista do horror? E, por fim, a pergunta de sempre: onde estão as boas notícias? Existem? Existem, tenho a certeza, por acreditar piamente que não fui a única a tentar educar os filhos para serem boas pessoas; existem histórias de solidariedade, de companheirismo, de descoberta, de inovação que são extraordinárias, pena seja que o mundo queira ver o pior, pena seja que os profissionais de comunicação social vivam sobre a pressão das vendas e outras coisas e façam coisas como rasteiras desumanas. E não, não refiro a necessidade do outro lado da moeda para não ver o que pior há no mundo. Nada disso. Acredito que é essencial mostrar um pouco de bondade. Para que possamos restaurar a nossa fé nos outros.

quem somos? para onde vamos?


Patrícia Reis,

A morte de uma criança devia mudar o mundo. Devia ser tão simples quanto isso. A situação dos refugiados não se limita à morte de uma criança. Abomino as pessoas que escrevem e dizem coisas tão bárbaras – e pouco humanistas – como: temos que ter cuidado, os refugiados podem ser terroristas, não têm estudos. POR FAVOR! Não aguento a falta de humanismo, de solidariedade. É chocante como as pessoas dizem tanto e fazem o mínimo possível pelos outros. Alguns dizem-se crentes, meu Deus! Há uma série de linhas de apoio aos refugiados, por favor, especulem menos, estejam calados com o moralismo e tacanhez e apoiem. Trata-se do nosso caminho como Humanidade. Quem somos? Para onde vamos? O que queremos? Em pleno século XXI, uma fotografia de uma criança morta nas águas do mediterrâneo devia ter o poder de mudar o mundo? Somos nós que mudamos o mundo na forma como agimos, no que defendemos, no que dizemos e como nos manifestamos. É, no mínimo, bizarro ver países construir muros depois de terem manifestado imensa alegria com a queda do muro de Berlim. É mais sinistro perceber os que decidem que não querem perceber ao estado a que tudo isto chegou. A Europa dos valores morreu? Talvez nunca tenha existido.

balanço


Patrícia Reis,

Querido trimestre, sendo certo que és o último, é igualmente verdade que não espero muito de ti. Não tarda estamos no desastre do natal, compras, laços e múltiplas incompreensões, a saga do bacalhau que me persegue e que não consigo apreciar em nenhuma das mil e uma versões existentes. Não tens, como podes ver, muita importância, o Setembro é o regresso às coisas da vida, trabalhos e escolas, Outubro escolhe correr à nossa frente, Novembro traz à memória coisas que se apressam a esfumar na neblina fria de Dezembro e eu cá ando com esta ideia de que podíamos ir directos para Janeiro, poupava-me imenso em esforço e em horas. A sorte, a tal que favorece os audazes, não está do meu lado, já se sabe. Pouca importa, este ano dou-te a volta, querido tempo, vou ali para terras de África falar de escritores e literatura, da importância dos livros e da potencial salvação do mundo em cada volume que pego desde criança. Estás surpreendido? É assim: habitua-te. Tenho que dizer que o verão foi estranho, no mínimo estranho, com demasiadas tarefas e exigências e demasiadas pessoas a pedirem que eu dê, dê e dê, mesmo que eu só dê e pouco mais faça além disso: dar. Dar é maravilhoso, dirás e com razão. Já o cobrar é imperativo dos que nada mais fazem além de viver intensamente os episódios da sua telenovela, na presunção de que todos – ou eu, especificamente – temos de acompanhar frame a frame o bom e o mal. Por vezes, confesso, faltam-me as legendas. Não posso, apesar de tudo, lamentar o trimestre que morreu num sun set na praia. Tivemos direito a miúdos à solta, a música, a risos, jogos e cinema ao ar livre. Passou demasiado depressa. Contabilizando os sucessos – afinal, o que importa – vivemos com alegria os 15 anos da revista Egoísta, os diferentes trabalhos, livros e exposições, reuniões com princípio, meio e fim, produtivas e conclusivas. Li menos livros do que gostaria e vi menos filmes do que seria desejável, mas vi o pôr do sol com calma e silêncio, ri e dancei e o resto? Que importa o resto se já estamos quase no Natal?

Fictiongram, continuação da continuação


Patrícia Reis,

Onde Jaime ocupa espaço na cidade

Jaime não pensa em Carmen. Não pensa sobre a Carmen. Ela é um não assunto. Conduz pela cidade sem perceber que os cabelos dela ainda sobrevivem nos estofos do automóvel. Enumera tarefas mentalmente sem entender que, nesse instante em que considera a sua agenda, o seu horário, as coisas da vida, Carmen medita nos contornos do rosto dos dois. Era uma fotografia que tinham tirado por mero acaso, parecia que se confundiam, duas sombras estranhas. Ela mantinha a imagem; ele eliminara tudo o que se relacionava com aquela mulher com quem gostaria de ter gritado e, afinal, fora bonzinho. Jaime estava convicto da sua gentileza, do seu estatuto de cavalheiro.

 

 

Onde o vermelho é sangue, só sangue

Agora que já se conseguia ver ao espelho, percebia que a vida podia ser outra coisa. Na cidade, sem se deter nos dramas do trânsito, rotunda, ultrapassagem perigosa, semáforo inesperado, peão fora da passadeira, Jaime percebeu que estava atrasado. Impaciente guinou o volante para a esquerda, subiu a avenida, considerou os dois parques de estacionamento, mas conseguiu um lugar para o automóvel acabado de comprar. Vermelho sangue. Carlota iria gostar.

 

Onde a mudança é uma ilusão

No pequeno restaurante bem afamado, Jaime manteve os óculos escuros. Carlota estava atrasada. Pediu uma cerveja. Depois considerou, voltou atrás, viu a carta de vinhos, escolheu um alentejano. Carlota gostava de bom vinho. Na penumbra segura das lentes graduadas, o restaurante era um enorme desconhecido, pessoas a comer e a falar, pessoas que não sabiam nada de nada sobre a forma como o mundo gira dentro da cabeça de Jaime. O irmão tinha-o avisado

És o que és, não vais mudar.

Preciso de mudar, Paulo.

Não funciona assim, Jaime, desculpa. Para mudares tens de querer mudar e tu não acreditas nisso. Não verdadeiramente.

Não sabes nada sobre mim.

Sei tudo, mano, sei tudo.

 

 

Onde as palavras são assinatura

Jaime ouviu a mulher falar sem entender uma palavra. Era bom estar assim, focado nos lábios dela, a dança dos lábios, da língua, da boca que engolia um risotto qualquer, o vinho tinto a ser pintor, roxo, roxo nos lábios que não se calavam. Jaime nunca gostara de Carlota. Nunca gostara muito, nem pouco. Não pensara nisso. Estava fascinado com a boca dela e percebia na sua entoação algo de familiar, um registo, uma forma de falar com certas palavras. Percebeu que as palavras

Evidentemente

Sabes?

Pois…

eram palavras que Carmen usava. O mimetismo das amigas perturbou-o. Manteve-se calado. Quando tirou os óculos, por fim, Carlota sobressaltou-se

Jaime! O que aconteceu?

 

 Onde uma história de violência toma conta do resto

Jaime exibia um olho emoldurado em sangue pisado. Carlota insistiu, ele suspirou e explicou que fora assaltado depois do ginásio, há dois dias. Ela, muito célere, advogada na sua essência, quis saber pormenores. Jaime fez o relato com o maior número de pormenores, ciente de que a história do assalto iria ocupar o resto do almoço e, consequentemente, não teriam a conversa esperada, o inevitável tira-teimas que as mulheres têm por hábito querer possuir: o conhecimento, o porquê das coisas. Jaime não queria falar de Carmen e continuava a sentir que os lábios de Carlota podiam ser outra coisa.   

Para Eduardo Prado Coelho


Patrícia Reis,

 

Querido Eduardo

O verão tem sido estranho. Calor ou frio, dá para tudo, a dona Idalina, na aldeia, diz-me que estamos protegidos pela Nossa Senhora do Cabo Espichel. Talvez seja. MM assegura que Lisboa se torna afável em Agosto, embora a vida se faça em torno deste dia. Sempre este dia. Podia contar-te algumas coisas, porém suspeito que o bom já o saibas – e te alegres! – e que o mau seja de evitar. É um país cheio de inveja e coisa pouca, de muitas adversativas e hipocrisia. Este ano, com as eleições à porta e as presidenciais já firmes no horizonte, as línguas andam afiadas, o hate mail e comentários absurdos fazem a silly season com facilidade. Diria que te podias divertir com tudo isto. Mas não. Estou quase certa de que terias momentos de desalento. Há dias em que me interrogo se a bondade se desvaneceu, se a democracia é assim tão frágil, se haverá outro caminho que não este, sempre o mesmo, de ler os jornais e pasmar, de ver o facebook e pesar-me a solidão. Estou numa fase de buraco, terás de me perdoar.

Se desfiar as contas do rosário dos acontecimentos talvez fiques a ponderar que não foi má ideia partires quando o corpo decidiu que assim era. Fazes falta. Muita falta. Para pensar as coisas, para as dizer, para apresentar contraditório e bradar aos céus com a ferramenta tão inteligente da memória. Na gaveta dos bons acontecimentos, querido Eduardo, podes colocar os sucessos literários de quem amas, alguns encontros com risos e muita conversa sobreposta, sempre no intuito de dizermos o que pensamos ser importante, o que nos espanta. Não sendo um mundo novo, existem ainda algumas admirações. MM combate o horror todos os dias. Sabes como ela é. Eu procuro fazer o mesmo. Cada uma da sua maneira, é certo. E como nós, os outros que te lembram neste dia.

O tempo pesa de outra forma. A bungavília está pronta a despedir-se do verão. Já se sente o arrepio dos miúdos por saberem que a escola se aproxima. Descobriram um novo planeta, o 452b, demora 388 dias na sua rotação e, arrogantemente, designam-no como Terra 2. Mesmo que seja, assim o garantem os cientistas, um planeta mais velho do que o nosso, o pobrezinho é o segundo. Achas que alguém nos escuta ali, no 452b? E será o b o correspondente a planeta bom, planeta benéfico ou apenas a plano b? Divirto-me com isto, o que queres tu que te diga? É já tão tarde para te dizer tanta coisa e tão cedo para o resto.

Daqui te beijo, sem longe ou distância.

Fictiongram, continuação da continuação


Patrícia Reis,

onde um afago rápido podia ser a salvação dela

O pai jantava no escritório, pontualmente às oito, o tabuleiro seguia nas mãos da mãe, depois de verificar que Isabelinha não trocara a ordem dos talheres, que o guardanapo estava imaculado. Não olhava sequer para as crianças. E, sempre que o fazia, o alvo era Martim. O único alvo do seu afecto que se resumia a um gesto rápido, um afago na cabeça.

 

onde se explica o papel do pai e outras inconfidências

Carmen tinha com o pai uma relação distinta. Como se vivessem uma vida escrita em duas linhas paralelas. Quando o pai ia a casa da avó, brincava com Carmen, perguntava pela escola e ainda, um dia, atreveu-se a dizer em voz alta que seria bom ela estudar

Assim, filha, podes herdar o consultório e o esqueleto.

Carmen nunca considerara medicina, estava mais interessada em endireitar o mundo, tinha um fascínio pela lei e pelos contornos, curvas e contra curvas de um sistema que mal entendia. Lia de fio a pavio o jornal que a avó comprava todos os dias. Sabia coisas que os pais não sabiam, sabia pormenores da história actual que escapavam ao pai e, sinceramente, não considerava sequer possível estudar para ser médica e herdar o tal esqueleto que pendia os ossos logo na entrada do consultório. A avó, entendendo os seus silêncios, os ombros encolhidos, arrumava o assunto com alguma facilidade

Direito. Alguém tem de estudar Direito. O Martim que vá para Medicina. A Carmen seguirá o curso do teu pai, Deus o tenha.

O Martim? Ó mãe…

Se não têm mão no Martim, não mo digas. Avisei, avisei várias vezes que o teu casamento…

Mãe, por favor.

 

Onde a fé salva do convívio triste de uma família que não o é

A conversa entre a avó e o pai repetira-se algumas vezes e Carmen percebera que a avó não aprovava o casamento do filho. Não era apenas a conversa, era a impossibilidade de ir a casa dos pais, de preferir o almoço de Natal no hotel mais afamado de Coimbra a pretexto de que a consoada era um momento de pré reflexão para a missa do galo. Carmen fez a catequese, primeira comunhão, crisma. Não questionou. A avó ficava encantada com o seu silêncio, era uma menina dócil, uma jovem agradável, uma adulta pronta para ir para Lisboa, com boa cabeça. O contrário do irmão, já se sabe, mesmo que Martim não estivesse preocupado com nada.

 

onde se relata o sucesso de Martim, o irmão marialva

Com o dinheiro herdado do avô, o mesmo que podia aceder aos 21 anos, tal como a irmã, montou um negócio nocturno. Era assim que lhe chamava a avó: negócio nocturno, um bar com uma pista de dança cujo sucesso foi imediato. Depois deste bar, Martim abriu mais nove pelo país e tornou-se um empresário de sucesso, sempre desprezado pela família ​por falta de canudo e de estabilidade. Carmen explicara a Carlota o marialva que era o irmão

Ele sabe as regras. Tu para quebrares as regras tens de as saber e ele sabe, ignora por opção. Sempre escolheu a liberdade acima de tudo.

E tu escolheste o quê?

Escolhi não fazer barulho. Depois vim para Lisboa.

Aqui também não fazes muito barulho, Carmen, tens a melhor média da turma…

Isso não quer dizer nada.

És certinha.

Sou. Não faz mal.

 

onde a história de vida não interessa

Carmen revive tudo isto sem conseguir perceber onde a vida, aquela vida, terminou. Quando é que se tornara uma mulher sem normas, a cobrar e a dizer a Jaime tudo o que pensava, pela simples razão de não conseguir estar calada. A avó não a reconheceria. Em noites de enlevo amoroso, chegara a afirmar como teria sido importante ter a avó viva, como ela aprovaria a pessoa de Jaime na sua totalidade. Não era verdade. Agora podia pensar assim.

Roberto Juarroz


Patrícia Reis,

Hemos amado juntos tantas cosas
que es difícil amarlas separados.
Parece que se hubieran alejado de pronto
o que el amor fuera una hormiga
escalando los declives del cielo.

Hemos vivido juntos tanto abismo
que sin ti todo parece superficie,
órbita de simulacros que resbalan,
tensión sin extensiones,
vigilancia de cuerpos sin presencia.

Hemos andado tanto sin movernos
que los viajes ahora se descuelgan
como abrigos inútiles.
Movimiento y quietud se han desunido
como grados de dos temperaturas.

Hemos perdido juntos tanta nada
que el hábito persiste y se da vuelta
y ahora todo es ganancia de la nada.
El tiempo se convierte en antitiempo
porque ya no lo piensas.

Hemos callado y hablado tanto juntos
que hasta callar y hablar son dos traiciones,
dos sustancias sin justificación,
dos substitutos.

Lo hemos buscado todo,
lo hemos hallado todo,
lo hemos dejado todo.

Únicamente no nos dieron tiempo
para encontrar el ojo de tu muerte,
aunque fuera también para dejarlo.

 CUARTA POESÍA VERTICAL [1969]

Fictiongram, continuação da continuação


Patrícia Reis,

 

onde a hipótese de reabilitação é considerada

Uns meses depois, convenceu-se de ​que estava a perder a memória, não tinha tanta certeza das palavras atiradas no vazio da casa, na cama, no carro. Era como se ele se estivesse a desfazer e, apesar disso, sempre na sua pele. Jaime, a sua cicatriz.

Acedeu ao jantar com Carlota, ao ritual, mentalizando-se de que teria de explicar o mínimo, talvez fosse possível arranjar um pouco a cara, qualquer coisa passível de desfazer aquele terramoto em que tinha sucumbido. Carlota merecia algumas respostas. Carmen prontificou-se a verbalizar a separação. Era um passo concreto na direcção de qualquer coisa. Reconstrução. Reabilitação.

 

 

onde a lucidez se divide com o vazio

Reencontro. Carlota seria a sua salvação. Animou-se. Não tendo ninguém a quem provar que a vida é um acto de lucidez apesar de um coração desfeito, Carmen considerou o vazio instalado. O seu deserto humano. Com excepção dos alunos, que lhe permitiam a sensação inebriante de ter um palco, de brilhar através do conhecimento, não havia mais ninguém. Vítima de solidão ou vítima de pensamentos pouco realistas? Talvez ambas as teorias fossem válidas.

 

onde se explica o princípio da dor

Carmen saíra de Coimbra para estudar em Lisboa. Era uma jovem com boas notas de uma família com algumas posses. Tratava os pais na terceira pessoa do singular. Frequentara um colégio religioso. Mantivera um silêncio composto e muito cómodo, deixando ao irmão mais velho, Martim, o papel de rebelde e de coleccionador de castigos vários. Não se destacou em nada. Carmen frequentou aulas de ballet, mas nunca teve qualquer graciosidade. Experimentou, durante um trimestre, o piano, incapaz de entender uma palavra do que o professor dizia

Um tom? meio tom? A menina está a ouvir?

Martim ria-se sozinho. Chegava tarde. Não dava justificações. Quando chegou à adolescência, o irmão um ano mais velho do que ela, foi o responsável pela seguinte frase

A adolescência é a época mais infeliz de uma mãe.

 

onde o esforço não compensa

Carmen fez um esforço maior. Podia ser que a infelicidade da mãe conseguisse fazer com que visse que tinha uma filha, ela, Carmen, a menina que não se distinguia em nada, apenas nas notas medianas e altas a Português e História. Afinal, o irmão… Carmen herdara o nome da avó paterna e essa figura pequena, sempre vestida de negro, com rendas e cabelo num carrapito, uma personagem dos livros, era a salvação dos seus dias. Ia buscá-la ao colégio, faziam juntas os trabalhos de casa, lanchavam e Carmen regressava a casa dos pais apenas para o jantar, sendo certo que, durante a semana, jantava na cozinha com a Isabelinha, a empregada interna, e o Martim a fazer asneiras com a comida e a irritar a Isabelinha que quase chorava de desespero.

blogue da semana


Patrícia Reis,

http://turistacidental.com/

 Aqui se encontra o mundo e a riqueza de Marrocos. É um blogue assinado por Maria João Serra Pavão, ela que é mais viajante que turista e que se tem especializado no país do deserto, das especiarias, da música, das cobras encantadas.

Gosto de vir aqui espreitar os riads, os bons preços, as dicas para restaurantes e compras. Acabei de marcar uma viagem através desta Turista Acidental e, não sendo uma agência de viagens, a simpatia, transparência e capacidade de comunicar o se pode ajustar a cada viajante surpreendeu-me. Conclusão? Ver o blogue, seguir o Instagram e descobrir esta mulher que faz uma vida de andarilho mas em bom!

Bertolt Brecht


Patrícia Reis,

 

Vou às vezes ao vazio;
volto do vazio cheio.
Quando me acerco do Nada,
redescubro o necessário.
Na sensação derramada,
sou sempre um pouco usurário.
Mas do meio do meu frio
nasce um calor, me incendeio.

Nota: o poeta e dramaturgo Brecht escreveu este poema pouco antes da sua morte, que ocorreu no dia 14 de agosto de 1956.

Fictiongram, continuação


Patrícia Reis,

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onde o futuro será político apesar de mulher

Carmen vislumbrava pontualmente uma Carlota de fato saia e casaco, formal, em comentários na televisão, sempre naquele tom rápido de quem já pensou em argumentos e contra-argumentos. Mais tarde ou mais cedo, o partido onde milita iria convocá-la para outros voos. Mas não falavam sobre política. Agora, Carlota ainda tinha trinta e poucos anos e, como se sabe, nessa idade ainda se é pouco. Ou quase pouco. Em especial na política, para mais sendo mulher.  

 

 

onde a amizade obriga

Carmen sentiu-se velha. Hesitou na resposta. Consciente das ferramentas de fiscalização do facebook, sabendo que a mensagem seria vista como tendo sido lida pelo receptor, um “v” de “visto”, sem qualquer vitória, que a atraía e obrigava a uma resposta. Suspirou.

Iria jantar com Carlota e teria, por fim, de a enfrentar. Até ao momento não tinham falado sobre Jaime ou a separação. Não era um tabu. Carlota respeitava o silêncio e o tal desgosto.

 

 

Onde se chega a um ponto em que não se sabe de nada

A primeira vez que jantaram, pós separação, a destruição era tão evidente no rosto da amiga, que Carlota começara por perguntar

O que foi? Carmen, o que foi?

Encolhera-se no cadeirão confortável, acendera um cigarro e fizera sinal ao empregado para dizer que era o costume e um cinzeiro, se faz favor. Depois, tentara olhar para a amiga, os olhos caíram em lágrimas e Carlota teve o bom senso de dizer

Falamos de outra coisa. Já te contei que inventaram uma conta com o meu nome no Yahoo? Imagina! Além de ser perigoso, é muito perigoso, pergunto-me o que escreverão fazendo-se passar por mim. Enfim, fiz uma denúncia e agora é esperar e ver. Já te contei que temos um novo colega lá no escritório? Pois temos, e já é sócio. Há coisas que deixam uma mulher simplesmente cansada…

 

 

onde falar é impossível

E continuou a palrar, a encher o silêncio, sabendo que não estava a ser ouvida. A amizade também é isso. Carmen mal tocou na carne, bebeu o vinho a copo e pediu um segundo apenas com um gesto e olhou pela montra, ficam sempre perto de uma mesa que dá para a rua, olhou sentindo que estar ali era uma forma de morte. Carlota não se atemorizou. No dia seguinte mandou sms

Estás bem? Precisas de alguma coisa? Queres falar?

Carmen respondeu

Ainda não consigo falar.

 

 

onde tudo é obrigação

E passou trinta dias, até ao jantar seguinte, numa não-existência de repente possível por terem terminado as aulas. Ser professora assistente não era uma tarefa fácil. Carmen controlava minimamente o que tinha em mãos e o professor estava desejoso de rumar a Guimarães onde tinha uma quinta de família. Não se preocupou com as olheiras da assistente, a súbita magreza, a falta de palavras. O Verão estava aí. Se havia problemas, pois que os resolvesse e, de preferência, longe dele. Alguns alunos mandaram emails, Carmen esforçou-se por responder. A sua existência ter sido derrotada pela separação não podia significar mais do que isso, ou seja, estava ciente de que era preciso viver e manter um determinado registo.

Ana Hatherly (1929-2015)


Patrícia Reis,

 

Esta Gente / Essa Gente

 

O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente

Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente

Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente

Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente

O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente

Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer
ser dominada por gente

NENHUMA!

A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente

  in “Um Calculador de Improbabilidades”

onde se explica o começo da amizade


Patrícia Reis,

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Aquela relação começara na faculdade, Carmen com vontade de ser professora; Carlota decidira guerrear – e vingar – no Direito Fiscal. Além de ser, já na época, militante de um partido de esquerda com raízes históricas e outras características, boas ou más, pouco importava, Carlota era o oposto de Carmen: viva, corajosa, saliente, capaz de falar sobre qualquer assunto, driblando a ignorância com uma qualquer graça. Raramente, falavam de política.

onde se pensa na importância da amizade


Patrícia Reis,

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As relações precisam disso, dizia Carlota. Trabalhar, manter o contacto, saber estar com as pessoas. Para que a amizade não seja apenas virtual, incapaz de grandes feitos. Há mais de dez anos que jantavam todos os meses. Com ou sem Jaime na vida de Carmen sempre jantaram. O menu era indiscutível: bife grelhado, batatas fritas, um copo de vinho tinto, vários cigarros, um café para Carmen, um descafeínado para Carlota. Não demoravam mais de uma hora e quarenta, duas horas no máximo.

onde a imaginação continua a dar mais trabalho que a vida


Patrícia Reis,

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Embora não fosse capaz de concordar com todas as opiniões de Jaime, era capaz de fazer like e gostara do nome, Portugal em Construção. Jaime sempre optara por um idealismo quase quixotesco que tinha o dom de a comover. Carmen conduziu lentamente o cursor até às mensagens privadas.

“Jantamos?”

Carmen esboçou um sorriso triste. Um desapontamento, outro desgostamento. A mensagem chegara acompanha de uma fotografia da sua amiga Carlota, uma mulher que sendo a única advogada num escritório de homens, tinha a paciência para escapar às obrigações e manter a amizade.

onde a mensagem pode ser mais um estalo


Patrícia Reis,

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Avançar significa sempre que se está preparado para deixar o sítio onde se está. Não és uma pedra, portanto mexe-te, pensava Carmen. Sentada em frente ao computador, a ver o mural de facebook de outras pessoas, de novo o dele, depois o dela, sem grande historial, excepto a colecção – cada dia mais extensa – de poemas de todas as proveniências. Mais uma volta no feed de notícias. O computador emite um estalido e percebe que recebeu uma mensagem no privado. Antes de abrir consegue imaginá-lo a escrever para ela. Ele, ponderado, com alguns remorsos, sem saber como alinhavar o português. Escreveria:

“Carmen, podemos falar? Com calma, sem cenas? Preciso de te dizer uma coisa.”

Ou então escreveria:

“Estás bem?”

Ou outra coisa mais prosaica:

“Convido-te a fazer like na página Portugal em Construção.”

Ela faria like.

onde a relação sobrevive no facebook


Patrícia Reis,

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Por isso, escolhe os poemas e coloca-os. Não tem muitos amigos. Ele nunca faz um like. Não sabe sequer se irá ver o mural dela, a página onde já não se diz que vive numa relação. Apagou todas as fotografias que o traziam, o corpo dele, os seus gestos fixos no momento, a sua cara. O cheiro. Eliminá-lo não foi fácil e, no fim, uma forma de branqueamento que lhe servia bem na dor. Apesar disso, foi incapaz de o bloquear e ele também a manteve no leque dos amigos. Ao fim de dois meses, um post anunciava que havia uma festa. Depois um jantar. Uma frase de um treinador de futebol. Um cartoon.

W. B. Yeats, 1865 – 1939


Patrícia Reis,

An Irish Airman Foresees His Death I know that I shall meet my fate Somewhere among the clouds above; Those that I fight I do not hate Those that I guard I do not love; My country is Kiltartan Cross, My countrymen Kiltartan’s poor, No likely end could bring them loss Or leave them happier than before. Nor law, nor duty bade me fight, Nor public man, nor cheering crowds, A lonely impulse of delight Drove to this tumult in the clouds; I balanced all, brought all to mind, The years to come seemed waste of breath, A waste of breath the years behind In balance with this life, this death.