Querido Eduardo
O verão tem sido estranho. Calor ou frio, dá para tudo, a dona Idalina, na aldeia, diz-me que estamos protegidos pela Nossa Senhora do Cabo Espichel. Talvez seja. MM assegura que Lisboa se torna afável em Agosto, embora a vida se faça em torno deste dia. Sempre este dia. Podia contar-te algumas coisas, porém suspeito que o bom já o saibas – e te alegres! – e que o mau seja de evitar. É um país cheio de inveja e coisa pouca, de muitas adversativas e hipocrisia. Este ano, com as eleições à porta e as presidenciais já firmes no horizonte, as línguas andam afiadas, o hate mail e comentários absurdos fazem a silly season com facilidade. Diria que te podias divertir com tudo isto. Mas não. Estou quase certa de que terias momentos de desalento. Há dias em que me interrogo se a bondade se desvaneceu, se a democracia é assim tão frágil, se haverá outro caminho que não este, sempre o mesmo, de ler os jornais e pasmar, de ver o facebook e pesar-me a solidão. Estou numa fase de buraco, terás de me perdoar.
Se desfiar as contas do rosário dos acontecimentos talvez fiques a ponderar que não foi má ideia partires quando o corpo decidiu que assim era. Fazes falta. Muita falta. Para pensar as coisas, para as dizer, para apresentar contraditório e bradar aos céus com a ferramenta tão inteligente da memória. Na gaveta dos bons acontecimentos, querido Eduardo, podes colocar os sucessos literários de quem amas, alguns encontros com risos e muita conversa sobreposta, sempre no intuito de dizermos o que pensamos ser importante, o que nos espanta. Não sendo um mundo novo, existem ainda algumas admirações. MM combate o horror todos os dias. Sabes como ela é. Eu procuro fazer o mesmo. Cada uma da sua maneira, é certo. E como nós, os outros que te lembram neste dia.
O tempo pesa de outra forma. A bungavília está pronta a despedir-se do verão. Já se sente o arrepio dos miúdos por saberem que a escola se aproxima. Descobriram um novo planeta, o 452b, demora 388 dias na sua rotação e, arrogantemente, designam-no como Terra 2. Mesmo que seja, assim o garantem os cientistas, um planeta mais velho do que o nosso, o pobrezinho é o segundo. Achas que alguém nos escuta ali, no 452b? E será o b o correspondente a planeta bom, planeta benéfico ou apenas a plano b? Divirto-me com isto, o que queres tu que te diga? É já tão tarde para te dizer tanta coisa e tão cedo para o resto.
Daqui te beijo, sem longe ou distância.

Que texto magnífico Patrícia, até me emocionei. O Eduardo foi meu professor na parte escolar do mestrado em Teoria da Literatura e são inesquecíveis os seminários em que nos falava de livros e de paixões. Ou quando, simplesmente, pegava num livro e lia poesia durante horas, como ninguém. E nós o ouvíamos maravilhados sem querer sair dali.
Faz muita falta, sim.
Um beijinho
Muito bom, Patrícia.
Patricia
Estou como a Isabel. Emocionada com este teu texto. Não devia, porque conheço a tua escrita.
Mas – há sempre um mas – eu conheci, tarde, o Eduardo. Talvez uns dois anos de ele adoecer. E fiquei maravilhada. Até à sua morte, nunca deixou de me maravilhar.
Por uns bons minutos fizeste-me recuar uns anos. Duros, porque ele e o Miguel adoeceram pela mesma altura. Mas a lembrança é boa. De ambos!
Errata
dois anos antes de ele adoecer.
O Eduardo era um homem divertido, culto, bom ouvinte. Podia dissertar sobre literatura ou divertir-se a ver o Malato no Quem Quer Ser Milionário. Era um entusiasta da vida. Das pessoas. Faz muita falta. Desde que morreu que lhe escrevo, sempre no dia em que decidiu partir. Tenho o seu número de telemóvel registado, incapaz de o eliminar e certa de que se ligar talvez me atenda. Coisas estranhas, mas é assim. Beijos a todos