balanço


Patrícia Reis,

Querido trimestre, sendo certo que és o último, é igualmente verdade que não espero muito de ti. Não tarda estamos no desastre do natal, compras, laços e múltiplas incompreensões, a saga do bacalhau que me persegue e que não consigo apreciar em nenhuma das mil e uma versões existentes. Não tens, como podes ver, muita importância, o Setembro é o regresso às coisas da vida, trabalhos e escolas, Outubro escolhe correr à nossa frente, Novembro traz à memória coisas que se apressam a esfumar na neblina fria de Dezembro e eu cá ando com esta ideia de que podíamos ir directos para Janeiro, poupava-me imenso em esforço e em horas. A sorte, a tal que favorece os audazes, não está do meu lado, já se sabe. Pouca importa, este ano dou-te a volta, querido tempo, vou ali para terras de África falar de escritores e literatura, da importância dos livros e da potencial salvação do mundo em cada volume que pego desde criança. Estás surpreendido? É assim: habitua-te. Tenho que dizer que o verão foi estranho, no mínimo estranho, com demasiadas tarefas e exigências e demasiadas pessoas a pedirem que eu dê, dê e dê, mesmo que eu só dê e pouco mais faça além disso: dar. Dar é maravilhoso, dirás e com razão. Já o cobrar é imperativo dos que nada mais fazem além de viver intensamente os episódios da sua telenovela, na presunção de que todos – ou eu, especificamente – temos de acompanhar frame a frame o bom e o mal. Por vezes, confesso, faltam-me as legendas. Não posso, apesar de tudo, lamentar o trimestre que morreu num sun set na praia. Tivemos direito a miúdos à solta, a música, a risos, jogos e cinema ao ar livre. Passou demasiado depressa. Contabilizando os sucessos – afinal, o que importa – vivemos com alegria os 15 anos da revista Egoísta, os diferentes trabalhos, livros e exposições, reuniões com princípio, meio e fim, produtivas e conclusivas. Li menos livros do que gostaria e vi menos filmes do que seria desejável, mas vi o pôr do sol com calma e silêncio, ri e dancei e o resto? Que importa o resto se já estamos quase no Natal?

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