Como queiras, Amor, como tu queiras.
Entregue a ti, a tudo me abandono,
seguro e certo, num terror tranquilo.
A tudo quanto espero e quanto temo, entregue a ti,
Amor, eu me dedico.
Nada há que eu não conheça,
que eu não saiba, e nada, não,
ainda há por que eu não espere
como de quem ser vida é ter destino.
As pequeninas coisas da maldade,
a fria tão tenebrosa divisão do medo
em que os homens se mordem
com rosnidos de malcontente crueldade imunda,
eu sei quanto me aguarda, me deseja,
e sei até quanto ela a mim me atrai.
Como queiras, Amor, como tu queiras.
De frágil que és, não poderás salvar-me.
Tua nobreza, essa ternura tépida quais olhos marejados,
carne entreaberta, será só escárneo, ou, pior,
um vão sorriso em lábios que se fecham como olhares de raiva.
Não poderás salvar-me, nem salvar-te.
Apenas como queiras ficaremos vivos.
Será mais duro que morrer, talvez.
Entregue a ti, porém, eu me dedico àquele amor
por qual fui homem, posse e uma tão extrema sujeição de tudo.
Como tu queiras, meu Amor, como tu queiras.
Jorge de Sena, in ‘Post-Scriptum’

Um grande poema do autor de Metamorfoses e Arte de Música.