Jorge de Sena


Patrícia Reis,

Como queiras, Amor, como tu queiras.

Entregue a ti, a tudo me abandono,

seguro e certo, num terror tranquilo.

A tudo quanto espero e quanto temo, entregue a ti,

Amor, eu me dedico.

Nada há que eu não conheça,

que eu não saiba, e nada, não,

ainda há por que eu não espere

como de quem ser vida é ter destino.

As pequeninas coisas da maldade,

a fria tão tenebrosa divisão do medo

em que os homens se mordem

com rosnidos de malcontente crueldade imunda,

eu sei quanto me aguarda, me deseja,

e sei até quanto ela a mim me atrai.

Como queiras, Amor, como tu queiras.

De frágil que és, não poderás salvar-me.

Tua nobreza, essa ternura tépida quais olhos marejados,

carne entreaberta, será só escárneo, ou, pior,

um vão sorriso em lábios que se fecham como olhares de raiva.

Não poderás salvar-me, nem salvar-te.

Apenas como queiras ficaremos vivos.

Será mais duro que morrer, talvez.

Entregue a ti, porém, eu me dedico àquele amor

por qual fui homem, posse e uma tão extrema sujeição de tudo.

Como tu queiras, meu Amor, como tu queiras.

 

Jorge de Sena, in ‘Post-Scriptum’

0 comentários em “Jorge de Sena”

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *