Lá no meu armário, tem um vestido
antigo com desenho de sombras
azuladas. Flores apagadas em tons de
rosa chá e verde amanhecido. O mesmo
de décadas, que eu nunca usei. Enrugado
e triste, o vestido. Sempre ameaça cair
do cabide, a alça rota, o decote penso
à direita, as pregas desfeitas, o zíper
engastalhado. Ainda cheira a baunilha,
só na minha saudade. Nele penduram-se
todas as músicas que já dancei, o brilho
dos olhos meus quando reflectiam os
lustres acesos. Nele fica suspenso meu
namorado, aquele que desde sempre
nunca conheci. Vez ou outra, tiro do
armário. Coloco na cama, passo a mão
no tecido devagarinho. Bem pouco tempo,
porque saber o que não
foi costuma encher os olhos de água.
Pouco, mas dura tanto que chega a me
dar vontade de guardá-lo de novo. O
movimento dele na minha pele é segredo
todo meu. No espelho, ficamos sorrindo,
por instante curto. Fecho a porta do
armário, o último dos vestidos, do lado
esquerdo.
in Dedos de prosa em poesia, pag.145, Colecção Rascunho

Adorei.