PT: a estratégia estava na cara


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Começa a justificar-se melhor que o primeiro-ministro tenha dito que puxou da golden share na PT por razões de estratégia. Desde logo, estava na cara que a PT encontraria outra posição no Brasil, ainda que menos favorável, e que iria agora investir mais no mercado angolano, o que já se desenha. O mundo dos negócios é assim mesmo: faz-se de estratégias.

Além disso, começa também a desenhar-se que os administradores da PT venham a ganhar um “prémio de gestão” extra pelo negócio da Vivo. O que José Sócrates não tinha explicado muito bem é que não se tratava de estratégia nacional, mas sim de estratégia da própria PT. Mas também estava na cara: se a PT fosse estratégica não teria sido privatizada, não é? A menos que a política nacional seja muito fraquinha.

Sabia que… (43)


jmmcc,

… a China vai avançar com um projecto arrojado de transportes urbanos que parece saído do futuro? Vai mesmo: trata-se de um veículo com cerca de seis metros de altura e outros tantos de largura, chama-se qualquer coisa como “autocarro rápido tridimensional” (3D Express Coach), não estorva nem é estorvado pelo trânsito (“engole-o” dois metros acima do chão) e também é não-poluente (tanto quanto possível). A primeira fase ainda deverá arrancar este ano, para funcionar num dos mais movimentados distritos de Pequim.

O motor combina a utilização de energia eléctrica e energia solar, pode atingir os 60 quilómetros por hora e transportar 1200 a 1400 passageiros.

Receosos e desconfiados, milhões de chineses têm procurado saber se a criação e produção deste transporte do povo estão a ser coordenadas pelo gabinete do revolucionário ministro Mein Dong Tza (Mendonça, em português), mas não se confirmam as piores suspeitas.

     

Sabia que… (42)


jmmcc,

… os cães também podem apresentar sintomas de stress pós-traumático? Já tinha ouvido dizer, se calhar, e pode acreditar. Um exemplo disso é a Gina, uma cadela de Pastor Alemão norte-americana com dois anos que fez uma comissão de serviço no Iraque. Altamente treinada para farejar bombas ao lado das tropas, conduzir buscas porta-a-porta e detectar toda a espécie de sons provenientes de detonações, rebentamentos e explosivos, voltou a casa, no Colorado, tímida e medrosa.

De regresso, quando tentaram fazê-la entrar num edifício, resistiu e não foi fácil obrigá-la a transpor a porta. Uma vez dentro de casa, manteve a cauda dobrada por baixo do corpo e passou a rastejar e a esconder-se debaixo dos móveis e a encolher-se nos cantos. Para o veterinário que a assiste, apresentou todos os sintomas e sinais correspondentes a trauma de guerra. Só agora, um ano depois, começa a recuperar alguma normalidade, à custa de andar com muita gente, para se habituar de novo à presença humana, e de ser reintroduzida em meios militares, com os ruídos que ela conhece.

Entre nós, a guerra é a do dia-a-dia, o que já não é coisa pouca. Por isso é que voltou a crescer, infelizmente, o número de animais domésticos abandonados. Mas — diga-se em abono da verdade — quem leva vida de cão são os contribuintes.

O governo dos Mendonças


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Estou absolutamente certo de que a ministra da Educação teve reacções variadas de cada vez que o ministro Mendonça (o Jamé II, sabem?) aparecia a fazer novo anúncio sobre o TGV, novo anúncio sobre a nova ponte, novo anúncio sobre as autoestradas, novo anúncio sobre o aeroporto, etc., etc., certeza a minha que se baseia no comportamento das pessoas que reagem dentro dos padrões da normalidade. Quem diz o ministro Mendonça, diz outros ministros seguidores do ministro Mendonça com outros tantos anúncios: fim das SCUT sem ser bem o fim das SCUT, portagens descontroladas, chips que não são bem chips, cobranças sem cobradores, pagamentos sem recebedores, datas de entrada em vigor à toa, medidas de austeridade que aumentam a despesa, genéricos obrigatórios sem obrigações, receitas médicas alteradas que ficam na mesma, impostos que sobem sem subir e por aí fora.

A ministra da Educação, como todos nós, deve ter sucessivamente sorrido com condescendência, rido até às lágrimas, corado de vergonha e chorado de desespero — e eu alimentei a secreta esperança de que, perante o continuado espectáculo da política em zigue-zague, a ministra nunca se prestaria a passar pelo mesmo que o ministro Mendonça e seus seguidores. Por exemplo: as escolas que são para fechar, são para fechar e pronto. Contra tudo e contra todos, mas fecham-se e não se fala mais nisso. Decidido um zigue, a ministra não viria com um zague — era assim que eu pensava.

Enganei-me: anunciado o fim dos chumbos dos alunos, afinal vai-se ver e não é bem dos alunos, também não é bem dos chumbos e nem sequer é bem o fim. Até porque ainda é só o princípio. Portanto — reconheço agora — enganei-me. Não por ter avaliado mal a ministra. Não. Apenas me faltava um dado importante: estamos perante o governo dos Mendonças. Está explicado.

O comentário da semana


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«Justa lembrança deste mendigo da vida, para quem todos os segundos, minutos, horas, dias, meses eram ouro, até tudo findar.

Como ele próprio dizia, devemos aproveitar todos os tempos da vida, como se fosse o fim.

Que ele possa continuar por onde vai passar, na mesma alegria e com o mesmo riso…

Sorte daqueles que a partir de agora vão partilhar essa vida num outro estado de “existência”.»

 

Do nossa leitora CR. A propósito deste texto da Leonor Barros.

Tiro-e-queda


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Depois do que escrevi aqui (às primeiras horas do dia) sobre as permanentes mudanças de posição do Governo e sobre a expectativa de ver hoje a ministra da Educação desdizer-se em relação ao fim dos chumbos que ontem anunciou, confesso que fiquei com dúvidas. Estamos em férias, é fim-de-semana, o Verão está quente, as pessoas estão cansadas, portanto… pareceu-me que teria de esperar por amanhã para assistir ao desmentido. Afinal, tive razão no que escrevi e não tive razão na dúvida que me assaltou mais tarde: a ministra já correu a corrigir imediatamente o que ainda ontem quis que o País soubesse.

Com este Executivo é tiro-e-queda: disse ontem, desmente hoje. Não há que termos dúvidas. Só me parece enfadonho que o Governo seja tão repetitivo, tão previsível. Não nos oferece uma pontinha de surpresa, um restinho de emoção. É maçador, mas voltou a cumprir-se.

Já toda a gente sabe


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«Não passa um dia sem que o Governo mude de posição sobre qualquer coisa.» Não é uma conclusão brilhante do Daniel Oliveira, porque já toda a gente sabe isso, mas veio dar novo alento a este país que ainda ontem apanhou mais um murro no estômago. É que a única posição relevante do Governo anunciada ontem foi a da ministra da Educação sobre o fim das reprovações. Portanto, aguarda-se com grande expectativa a mudança de posição que há-de surgir hoje.

Aproveito para deixar uma sugestão ao Governo. Como se sabe, a mudança de posição diária tem tendência para desacreditar quem governa. De cada vez que um ministro anuncia qualquer coisa, no dia seguinte é invariavelmente dado o dito por não-dito. Ora, isso é escusado. Basta que os ministros deixem de falar e que seja sempre e só o primeiro-ministro a anunciar tudo. Se for apenas ele, não será preciso voltar atrás, pois já toda a gente sabe que não é para levar a sério.

Taralhoco


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Deve ser do calor. Imaginem que sonhei que a ministra da Educação quer acabar com os chumbos no ensino. O sol a mais fez-me tanto mal à cabeça que até fiquei taralhoco.

Um episódio do ‘salazarismo’


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Só há pouco li, na revista “Actual” do Expresso, um extenso artigo de Rui Ramos sobre Salazar e o Estado Novo, no qual esbarrei com este período: «Perseguiu e exilou o bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, em 1958-1959.» É um simples detalhe retirado do todo, mas chamou a minha atenção. Como a História não se inventa e como já me tenho dedicado ao assunto, retirarei de um livro que publiquei há meia dúzia de anos um excerto em que narro o episódio.

 

«Em 1958, D. António Ferreira Gomes (1906–1989), bispo do Porto, depois de duas intervenções entendidas como críticas à situação, dirige uma carta a Salazar em que reclama a liberdade de os católicos defenderem os princípios sociais da Igreja. Considerado incómodo para o regime e aconselhado a afastar-se, o bispo desloca-se a Roma no ano seguinte e, na volta, é impedido de entrar no País, ficando em Tuy (na Galiza) e passando depois a viver entre Espanha, França (Lourdes) e o Vaticano. Em rigor, não tem o estatuto de exilado político e não chega a ser substituído como bispo do Porto. O Papa João XXIII — Ângelo Giuseppe Roncalli (1881–1963) — nomeia-o para uma das comissões que preparam o concílio Vaticano II e o seu regresso só vai ser possível dez anos mais tarde, em 1969, na sequência de um movimento em que sobressai o advogado portuense Francisco Manuel Lumbrales de Sá Carneiro (1934–1980), num envolvimento que o transporta à política, para se destacar depois como deputado da “ala liberal” nos finais do Estado Novo.»

 

Não deve dizer-se, portanto, que o bispo do Porto foi perseguido e exilado de facto e menos ainda que isso ocorreu em 1958/59. Na verdade, o plano foi mais bem urdido: esperaram que ele fosse ao estrangeiro e criaram uma teia artificial de dificuldades administrativas na fronteira para impedir a sua reentrada em Portugal. O afastamento do bispo durou uma década, mas foi em vão que o Estado Novo pressionou a Igreja para que o substituísse na diocese do Porto.

 

(V. Carta a Salazar, de 13 de Julho de 1958, uma “pró-memória” para uma entrevista com Salazar que nunca veio a acontecer.)

Imagem — Estátua de D. António Ferreira Gomes (Porto, Clérigos)

Freeport: só mais uma nota


jmmcc,

A talhe de foice sobre um ponto tocado pelo José Gomes André aqui mesmo por baixo, registo explicitamente uma conclusão tirada aqui por um tal José Albergaria, que publicita as abrantices do costume e que João Galamba correu a publicar em segunda mão sem trabalho nem imaginação própria: «Acham que algum desses senhoritos (Zé Manel Fernandes, Pacheco Pereira, Moura Guedes, Ana Leal, Eduardo Moniz, José António Saraiva, os bloguistas do 5 dias, do Mar Salgado, do Corta Fitas, do Delito de Opinião, do, do…) vão apresentar desculpas a José Sócrates? Podemos, todos, ficar à espera e sentados.»

 

Estamos a falar do mesmo Sócrates? Bem me parecia. Pela nossa parte e relativamente ao que escrevemos ao longo do tempo, podem mesmo ficar todos à espera. Mas não é sentados, ouviram? Ou alguém vos deu autorização para preguiçar? É em pé, que é bom para as pernas. E bem vão precisar delas não há-de faltar muito.

Bem-vindo


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Macau Passado é um novo blogue do João Severino, a quem até fica mal dar as boas-vindas, pelas suas vivas andanças na blogosfera. Mas fica feito o acolhimento ao novo espaço, que promete ser um repositório de muitas memórias dos vários anos passados no “último reduto do Império Português“.

Um abraço ao João e longa vida ao projecto.

Inglês técnico


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Freepór? Ah, pois, o Freepór. Não deixaria a noite chegar sem fazer um comunicado sobre o Freepór, claro. O dia tivera uma agenda apertada com o seu ponto alto em Sines, no seu seapór e no futuro Harbor Freight Transpór. Tivera de falar na alta velocidade, mas sem se referir ao novo airpór. A seguir, dispensaria o motorista para dar uma volta no seu carro de spór. Depois de jantar, iria calhar bem um cálice de Pór wine doce. Onde é que se produz? Será em Pór-au-Prince? Ou em Davenpór? Não interessava. Esperava-o uma noite bem dormida. Queria levantar-se cedo, chamar o transpór oficial e ir fazer uma corridinha junto ao cais, lá para as bandas do Taguspór. Se o dia fosse mais calmo, aproveitaria para rever aquele velho compêndio de inglês técnico.

Dúvidas varridas


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«Em 2013, haverá uma linha de alta velocidade Poceirão–Madrid, que servirá também para mercadorias.» Estas palavras foram proferidas hoje pelo primeiro-ministro. Já não me lembro qual tinha sido a última versão e também ficou por se saber como é que a obra irá ser paga, mas agora varreram-se quaisquer dúvidas, porque a frase foi claríssima. Mais a mais, quem fez a afirmação foi o próprio José Sócrates. Portanto, pode dar-se como certo que a linha não será para mercadorias, não será Poceirão–Madrid e não será de alta velocidade. Nem será em 2013.

Ainda bem que terminaram todas as dúvidas, não é?

O problema constitucional — 2


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«Para Mouzinho da Silveira, os grandes vícios do País estão nas instituições vigentes, caducas e obsoletas, o que lhe permite expressar a ideia de que, para benefício dos cidadãos, é mais importante reformar as estruturas do Estado do que proceder à mudança do sistema de governar. Verdadeiro estadista fundamentado no conhecimento profundo das causas públicas, até a Constituição lhe parece supérflua: com ou sem ela, é possível fazer mais e melhor, alterando radicalmente a teia institucional em que Portugal está enredado.»

 

(O autor in O Supremo Tribunal de Justiça em Portugal: Dois Séculos e Quatro Regimes de Memórias; STJ, 2003)