Quadratura da crise


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Entre outros valentes tabefes, Pacheco Pereira disse que o Governo está a menosprezar os efeitos das medidas de austeridade. Foi ontem à noite, no estafado programa que tem na SIC-Notícias, quando se falava do estado da nação e desta crise de quatro lados que nos aperta.

O longo percurso de Pacheco Pereira no PSD é espantoso. Na prática, só andou tranquilo quando Manuela Ferreira Leite foi líder do partido. Ou seja: só andou tranquilo durante um momento. Foi uma oportunidade de rara visão política, embora então se adivinhasse escusada e efémera.

No resto, o sofá de Pacheco Pereira no PSD é mais ou menos como um trono ocupado por um monarca republicano.

A Lusa pirosa e esquecida


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«Homem condenado a 19 anos de prisão por degolar a esposa». O título é da Lusa, que acrescenta o seguinte: «O Tribunal de Benavente condenou hoje a 19 anos de prisão o homem acusado de homicídio qualificado, por ter degolado a esposa.» Esposa? Que a Lusa é fracota já todos sabemos, mas escusava de ser pirosa.

Na mesma notícia, a Lusa diz também que «o tribunal determinou ainda que o arguido, de 26 anos, seja expulso do país após cumprir dois terços da pena». Por causa do desemprego? Porque os juízes do tribunal embirraram com a cara do homicida? Pelo receio de que ele volte a casar em Portugal e venha a reincidir no crime? Com base em alguma nova lei que obriga os homicidas a emigrar? Isso é o que a Lusa se esqueceu de dizer. Desmiolada, gostou de saber da expulsão, mas sem querer saber o motivo.

Ou???


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«Cadeiras produzidas em Paredes para personalidades como Cristiano Ronaldo, José Mourinho, Mariza, Maria Bethânia, Manoel de Oliveira, Souto Moura ou (ou?) Mia Couto». Ou? Se fosse para todos eles, seria notícia. Mas se a produção é só para um deles, para este ou para aquele, não tem qualquer interesse. Ainda por cima, o jornalista nem sequer conseguiu saber para qual deles eram as tais cadeiras.

Cheira-me que é um problema de bom português ou de bom jornalismo. O que vos parece?

Haja mais critério e respeito


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Começa a ser cansativo. Eu sei (sabemos todos por cá) que a expressão oral (e escrita, consequentemente) anda pelas ruas da amargura, mas não entendo que seja necessário bater sempre na mesma tecla. No Parlamento, por exemplo, fartei-me de ouvir hoje (como sempre): «Senhoras e senhores deputados.» É uma gritante falta de critério e até falta de respeito pelas senhoras, comum a todos os quadrantes representados no hemiciclo.

Em bom português, o masculino serve os dois géneros, quando é preciso. Por isso, o (dispensável e escusado) preciosismo obriga a dizer: “Senhoras deputadas e senhores deputados.” Quando não for assim, fica bem dizer apenas: “Senhores deputados.” Espero que aprendam de vez, mas cheira-me que estou a gastar o meu latim em vão.

O primor de Pininfarina


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Andei a rever alguns dos mais belos exemplares do legado de Sergio Pininfarina e cheguei à conclusão (discutível) de que é difícil bater a pureza de linhas deste Ferrari 250 GT Coupé de 1955. A elegância e sobridade combinam com potência e raça sem que qualquer das características se sobreponha. Digam lá se não é verdade que transpira o primor que foi colocado neste extraordinário design.

O fantástico design…


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… dos mundialmente admirados Ferrari Testarossa, concebido nos anos 80, foi um dos inúmeros pontos altos do engenheiro industrial e reputado designer de automóveis desportivos e descapotáveis Sergio Pininfarina, natural de Turim e ontem desaparecido aos 85 anos. O seu nome e o da casa que criou (Carrozzeria Pininfarina) ficam na História do automóvel, perpetuados pela reconhecida e diversificada marca deixada em grandes bólides ao longo da segunda metade do século XX.

O ilhéu que se partiu


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Na ilha Terceira, os ilhéus das Cabras constituem um alvo de polémicas sucessivamente renovadas ao longo de séculos, por causa da sua posse. Hoje em dia, são simplesmente vistos como importante reserva açoriana de espécies protegidas.

Localizados junto à costa sul da Ilha Terceira, na freguesia de Porto Judeu, são os ilhéus maiores do arquipélago. Quem circula pela estrada marginal e olha para eles, parece uma ilhota que acabou de partir-se e se soltou em dois pedaços. De origem vulcânica, estão na verdade divididos há séculos, pelo provável desmantelamento da costa, em resultado da erosão e movimentações tectónicas.

Abrigam eles alguma fauna protegida, como o cagarro e o garajau-comum, além da garça-real, do pilrito-das-praias e do borrelho-de-coleira-interrompida. Juntamente com o cagarro e o garajau, também a gaivota faz parte das aves marinhas que procuram os ilhéus para nidificação.

Em torno dos dois ilhéus encontram-se ainda com frequência pequenos cetáceos, como a toninha-brava, bem como algumas tartarugas.

Em meados do século XVII, os ilhéus das Cabras estão nas mãos de um ramo da conhecida família Canto, nome secular muito respeitado em terras açorianas, assim como na Casa Real no continente.

De geração em geração, de descendente em descendente, as Cabras vão mudando de proprietário, mesmo quando estes estão em Lisboa, em Braga, em Amares, no Porto ou em qualquer outro lugar fora dos Açores onde têm morado.

Com o passar dos séculos, a polémica que vai envolvendo os ilhéus renova-se, ora por razões de direitos, ora por razões de direito público. Actualmente, porém, se são propriedade privada ou pública não parece ser tão importante. Na sua verdura pujante e recorte em falésia, constituem uma reserva natural que todos respeitam e admiram com gosto, porque fazem parte da bela diversidade que o arquipélago em geral oferece e de que a Terceira em particular cuida.

Além do mais, já o celebrado terceirense Vitorino Nemésio se referia aos ilhéus das Cabras como uma espécie de representação dos açorianos, chamando-lhes «a estátua da nossa solidão» (Corsário das Ilhas, 1956). Não poderia haver classificação mais pública e colectiva do que esta. A própria definição de Nemésio é património colectivo.

 

Elvas e as suas muralhas


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As muralhas de Elvas passaram a ser hoje património mundial classificado pela UNESCO na categoria de bens culturais. Uma classificação justíssima para um extenso conjunto de património histórico construído que inclui todas as fortificações da cidade, um forte do século XVII e outro do século XVIII, três fortins do século XIX, três muralhas medievais, uma muralha do século XVII e o aqueduto.

Trata-se da maior fortificação abaluartada do mundo. O conjunto remonta, nos seus primórdios, ao reinado de D. Sancho II e tem um perímetro com cerca de dez quilómetros e uma área que ronda os 300 hectares.

Cenário de contadas e recontadas batalhas e de encontros e desencontros luso-espanhóis, Elvas pode ser uma bela visita de férias, pela exemplar conservação patrimonial que versa grandes momentos da nossa História e agora com o interesse a que acresce a honrosa classificação.

Pontos nos is (16)


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CASOS

I

O caso Miguel Relvas/Público descambou para um novo caso inacreditável e inesperado: o caso Arons de Carvalho. O que distingue os dois casos é ainda mais incrível: se o primeiro é um caso real, o segundo é surreal.

Como se sabe, o «processo de averiguações relativo ao caso das alegadas pressões ilícitas do Ministro-Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, sobre o jornal Público», conduzido pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), culminou com uma contida deliberação do conselho regulador da mesma ERC. Em tudo quanto as duas partes, ministro e jornal, não coincidem e perante as posições de palavra contra palavra, o conselho regulador da ERC não elabora considerações inconsistentes, ficando-se pela matéria recolhida: «não se deu por provada a existência de pressões ilícitas da parte do ministro», «não se verificou a existência de um condicionamento da liberdade de imprensa» e outras conclusões de teor igualmente provado durante as averiguações, assinalando sem quaisquer devaneios as discrepâncias encontradas.

Aquela deliberação, porém, não mereceu unanimidade na ERC: dos cinco votos do conselho regulador, dois foram contra. Um dos vencidos foi Alberto Arons de Carvalho, que entendeu pronunciar-se através de uma declaração de voto.

II

É essa declaração de Arons de Carvalho que constitui um caso que, por qualquer motivo ainda por explicar, não está a merecer o relevo que devia ter. O extraordinário pensamento de Arons de Carvalho devia dar que pensar. Devia dar que pensar, desde logo, à própria ERC, dar que pensar porventura ao ministro Miguel Relvas (para quem a comunicação social não é totalmente alheia às suas funções), dar que pensar talvez ao jornal Público (que aparenta preocupar-se com a ética e deontologia do jornalismo) e dar que pensar seguramente a todos nós.

Sem querer ser exaustivo, fico-me pelas duas razões de fundo apresentadas por Arons de Carvalho no voto de vencido, para que melhor se avalie a sua espantosa posição.

Inclina-se Arons de Carvalho para o juízo que diz fazer «da verosimilhança das declarações» da directora e da editora de política do jornal, que refere serem «duas experientes e prestigiadas jornalistas, sendo absolutamente inimaginável que tivessem inventado as frases que atribuem ao ministro». Está visto que Arons de Carvalho não é um admirador de Miguel Relvas, o que parece legítimo, ou não lhe reconhece experiência e prestígio, o que continua a ser legítimo, mas não deixa de ser uma deselegância inadequada ao promover as qualidades de duas intervenientes da parte contrária.

Além disso, de discordância em discordância com aquela deliberação da ERC votada por maioria, Arons de Carvalho dedica o seu derradeiro pensamento a Miguel Relvas, nestes termos: «Uma ameaça não é grave pelo efeito que tem, mas pelo efeito que se pretendia que viesse a ter…»

III

Arons de Carvalho, ex-secretário de Estado socialista que teve o pelouro da RTP, não é magistrado judicial, o que prova que o mundo ainda não está todo às avessas.

Contudo, se ele fosse juiz, podia condenar um tipo por verosimilhança: tem cara de homicida e tem uma arma, logo é assassino. Não houve homicídio? Não interessa. O tipo com cara de homicida e uma arma de fogo é uma ameaça e, se a sua existência ainda não teve qualquer efeito mortal em alguém, vai dentro na mesma porque a ameaça indica que há-de vir a ter esse efeito, que é o que um tipo com cara de homicida e uma arma pretende que venha a ter.

IV

Espero que a vontade insistente do PS para ter Miguel Relvas de novo na Assembleia da República a responder sobre este caso se centre em argumentos mais sólidos do que as surrealistas subjectividades de Arons de Carvalho. Até porque a gente precisa de ministros a governar como de pão para a boca, não para andarem a responder repetida e infinitamente sobre casos que já cheiram mal.

Como se Arons de Carvalho e o PS tivessem um manual para ensinar como ser ministro e gerir as relações com os jornalistas. O mundo ainda não está todo às avessas, é verdade, mas aproxima-se perigosamente quando as pessoas deixam de respeitar os limites do mero senso comum. Condenar com base numa imaginada verosimilhança e no pretenso efeito não verificado de uma suposta ameaça? Não há paciência para este bafio socialista carregado de poeira, que não vai ser grave pelo efeito que terá, mas que deve dar-nos que pensar pelo efeito que Arons de Carvalho pretendia que viesse a ter…

Alegada injustiça


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Paulo Pereira Cristóvão não só está indiciado de práticas ilícitas, como também está com a vida muito limitada pela determinação da Justiça de não contactar sportinguistas e o clube.

Portanto, se ele quiser confessar-se, não poderá ir ao encontro do padre Vítor Melícias, que terá de manter à distância mesmo perante o segredo sagrado da confissão a que está obrigado o sportinguista franciscano. Por outro lado, se sentir algum problema hepático, Pereira Cristóvão não deverá recorrer aos conhecimentos de Eduardo Barroso, por muito especialista que seja o consumidor de charutos e presidente da assembleia geral do SCP.

Veja-se bem como a alegada Justiça pode ser alegadamente injusta. O alegadamente sportinguista e alegado Cristóvão que o diga.