Quando o Senhor Santo Cristo desembarcou em São Miguel


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Descrever o tradicional culto dedicado ao Senhor Santo Cristo dos Milagres e a importância da imagem bizantina que atrai tanta gente a Ponta Delgada no quinto domingo depois da Páscoa — dia da vistosa procissão que percorre a cidade durante várias horas sobre tapetes de flores — não é o mesmo que recordar a lenda em torno da origem dessa imagem, pretexto para o postal de memórias de hoje.

 

 

O Convento de Nossa Senhora da Conceição da Caloura fica na aldeia da Caloura, em Vale de Cabaços, uma espécie de vale à beira-mar que pertence à bonita freguesia de Água de Pau, localidade disposta em cascata e que integra o belo concelho de Lagoa, na costa sul da ilha de São Miguel.

 

 

Na fachada da capela do Convento da Caloura lê-se Dezembro 1684. Construído sobre rochedos, foi o primeiro convento na ilha, autorizado pelo Papa Paulo III (ou talvez pelo Papa Clemente VII). A autorização papal teria sido acompanhada pela oferta da imagem do Senhor Santo Cristo (Ecce Homo), mas as dúvidas históricas que envolvem o caso são “resolvidas” por outra história, popular e pragmática, como várias vezes acontece.

Diz essa história que as freiras da Caloura andavam tristes com a falta de fé do povo de Água de Pau, visivelmente afastado das coisas da Igreja, por muito que elas rezassem para unir o “rebanho” do Senhor. Ao mesmo tempo, escreviam ao Papa a pedir uma imagem nova para colocarem na ermida e que conseguisse atrair as pessoas.

 

 

Por essa altura, eram frequentes os assaltos de piratas e corsários nas costas açorianas e a zona da Caloura sofria tantos desembarques e pilhagens que acabaria por verificar-se posteriormente a retirada das freiras e da imagem, mudadas então para o Convento de Nossa Senhora da Esperança, em Ponta Delgada, o qual abriga até hoje a Igreja e Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres.

Mas a lenda conta coisa diferente. Conta que, um dia, uma nau foi atacada por piratas ao largo de São Miguel e que os destroços estiveram muito tempo a dar à costa sul. Foi aí que, uma manhã, as freiras viram um caixote a flutuar perto das rochas, de onde parecia emanar uma luz. Desceram à água, puxaram a caixa, abriram-na e deram com um busto de Cristo, cujo rosto apresentava um olhar vivo e uma expressão serena.

Para as religiosas, era um milagre: o Santo Cristo tinha escolhido São Miguel para aportar, onde o povo tinha fama de ser muito crente, e a população de Água de Pau, ao saber da imagem aparecida, cresceu na sua fé. Rapidamente, essa imagem foi também alvo do culto de toda a ilha, de todo o arquipélago, sem tardar a ser admirada por fiéis de tantas outras paragens.

 

 

Actualmente, no quinto domingo após a Páscoa, Ponta Delgada recebe devotos de muitas bandas e parece alargar-se para conseguir receber toda a gente.

 

 

Fotos (de cima para baixo, da esquerda para a direita):

• Caloura e o convento (ao centro, na foto);

• Convento da Caloura e fachada da capela do convento;

• Convento de Nossa Senhora da Esperança (Ponta Delgada)

com iluminações em véspera da procissão;

• O Senhor Santo Cristo em procissão e tapete de flores;

• Vai passar a procissão…

Cadáver Esquisito (14)


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1. UM LIVRO, 2. CA…… SARKIS G……..N, 3. OLHOS, 4. ESCAVAR, 5. IN VINO VERITAS, 6. TO THE LEFT, AS PERNAS DE STELLA, 7. O MEDALHÃO, 8. O SEGREDO, 9. LABIRINTOS, 10. FRAGMENTOS DE HISTÓRIA, 11. UMA VIAGEM, 12. REVELAÇÕES E MAIS DÚVIDAS, 13. NÃO PODES APAGAR UM FOGO COM CUSPO

14

A INSPECTORA SONHA COM UM ESQUELETO

 

“Alguns deles sabem mais do que dizem.” Enquanto pensava assim, Helena Portas deixava que os olhos voltassem a percorrer as paredes e o tecto do quarto minúsculo, iluminado pela lâmpada fraca do pequeno candeeiro de cabeceira. “Chega-se a inspectora com tanto trabalho e ainda a gente tem de sujeitar-se a ficar numa espelunca destas.“

A espelunca alvo da queixa que Helena acabava de apresentar aos seus botões era a única pensão da aldeia, cuja vantagem consistia simplesmente em ficar situada nas proximidades das ruínas d’ Os Freixos e de permitir que a inspectora se mantivesse perto dos envolvidos no caso.

Às tantas, os seus olhos já não passavam as imagens das paredes e do tecto ao cérebro, que estava cada vez mais ocupado com a tentativa de reunir elementos que fossem úteis para a investigação.

Helena insistia com os seus botões: “Alguns deles têm de saber mais do que dizem.” Mas não podia queixar-se: Helena não lhes dera conta do mínimo que os deixaria enquadrar o crime que a levara à aldeia, o que gerara certamente desconforto entre eles. Por isso, era natural que também eles a recebessem com frieza e desconfiança. Tinham-lhe até dito qualquer coisa sobre o facto de lhes ter aparecido à frente sem qualquer mandato. “Que atrevimento, o deles.” Mas estava visto que ia precisar de progredir com muito tacto, sem dúvida.

Pegou no telefone sobre a mesa-de-cabeceira. Nada. Estava mudo como as paredes e o tecto. Pousou-o, saiu do quarto, desceu os dois lanços de escada até ao balcão da entrada e dirigiu-se ao ensonado empregado.

— Queria um café no quarto, por favor.

— Café não é possível – respondeu o homem quase num bocejo. – A máquina está avariada.

— Podem levar-me um chá, então? – indagou Helena, contrariada.

— Está bem, minha senhora.

Novamente no quarto, a inspectora tentava reunir mentalmente o que sabia para mais tarde encaixar tudo com a lógica possível. O chá não era realmente o que queria, mas os goles pequenos na bebida que quase lhe queimava a boca estavam a despertar-lhe as celulazinhas cinzentas para relembrar os personagens com quem estivera nesse dia e aos quais iria seguramente dedicar toda a sua atenção por uns tempos. “Dois deles vão ter de me explicar muito bem o passado enevoado que procuram alegadamente disfarçar. Basicamente, dar-lhes-ei uma janela de oportunidade, mas eles terão de pôr a verdade em cima da mesa.“

Helena sabia bem o que queria arrancar desses dois. “João Cosme foi cego e vai ser preciso saber o que aconteceu durante o incêndio d’ Os Freixos para ele ter recuperado a visão sem mais nem menos nessa altura. Depois, há ainda aquela Valeriya, que se pensava ter morrido nas chamas e que agora está de regresso à vida sem que se perceba por onde andou. Correu à boca fechada na aldeia que ela costumava aparecer no bosque em noites de trovoada como uma alma penada, com uma caveira nas mãos. Uma caveira sorridente, imagine-se!“

Na cabeça da inspectora avolumava-se e adensava-se o turbilhão que lhe tomava os sentidos. “Alexander, o pianista que morrera, por exemplo: que saberão os outros dele? Alguém desconfiará que foi o homicida? Quem teriam sido os seus cúmplices?” O dia seguinte prometia ser duro e ia mesmo requerer grande tacto nas abordagens.

Tudo isto Helena desfiava pela noite adiante, até se recordar do pequeno segredo do professor José Augusto. “O homem faz uma vida recatada, quase humilde, mas esconde um velho e imaculado Bentley branco n’ Os Freixos, por trás daquela torre sinistra. Quem saberá disto? Por que esconde ele o carro e como é que o tem?” Na Judiciária tinham-lhe dito, antes de partir, que havia de aparecer algures uma luxuosa limousine clássica que já pertencera a uma ‘bifa’ chamada Stella. “Deve ser esse, o carro misterioso.“

Já deitada na cama, a inspectora decidira que, no dia seguinte, começaria a participar-lhes os dados mínimos que pudessem ajudá-la a tê-los na mão e a fazê-los abrir as bocas. E adormeceu para um sono irregular e agitado, com imagens que se confundiam e em que se destacava um cadáver esquisito. Por sinal, já mais esqueleto do que cadáver. Ainda por cima, um esqueleto com os olhos inflamados. Que sonho mais estranho. Um esqueleto com os olhos inflamados? Ninguém conseguiria dormir descansadamente com um pesadelo destes atravessado nos miolos, lá isso é certo.

De manhã, ainda cedo e já a pé, Helena parecia o Zorro. Ou um dos irmãos Metralha. Era das olheiras.

 

(Este é o décimo quarto capítulo do nosso ‘cadáver esquisito’, explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é a da Laura Ramos.)

Cada vez mais nódoas


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A notícia é de ontem e não deve ter escapado à maioria dos portugueses: Portugal passou a ser o quinto maior exportador mundial de tomate concentrado. Ou seja: já não nos chegava o lodo em que estamos enterrados, para agora sermos vítimas deste cenário tão incómodo. Concentrado, ainda por cima. E o que isto agrava, senhores, as nódoas nacionais? Livra!

Isaltinar compensa


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Condenado por corrupção passiva, fraude fiscal, abuso de poder e branqueamento de capitais? Esqueçam. «Isaltino Morais já não pode ser condenado por corrupção no processo das contas da Suíça, apesar de este crime ter ficado provado quando foi julgado». O processo «acaba de ser arquivado». O Ministério Público podia fazer uma nova acusação, mas a verdade (que já se esperava há muito) é esta: «os factos já prescreveram». A Justiça pode, uma vez mais, limpar as mãos à parede, ao confirmar o que já toda a gente sabia que ia acontecer.

A propósito, escrevi aqui há mais de seis meses o seguinte: «Dou por mim a pensar que deve haver muita gente em instituições judiciais dispensadas de pagar impostos. Alguém que os pague e que esteja no seu perfeito juízo consegue tolerar que a sua qualidade de contribuinte seja insultada e continuar a dormir com o trabalho por fazer?» Afinal, parece que isto também fica confirmado, não é?

Vasco Lourenço, o pensador


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«O coronel Vasco Lourenço considerou hoje que o ex-Presidente da República Mário Soares “está pujante e no seu melhor” ao ter desafiado o PS a romper com o acordo da Troika.» Conhecido pela sua perspicácia, Vasco Lourenço pôs o dedo na ferida: Soares, ex-Presidente da República, “está pujante e no seu melhor” por defender que o PS rompa o acordo que assinou com a Troika? Se o popular Vasco Lourenço o diz, então deve ser mesmo isso.

“Concordo com Mário Soares — afirmou o ex-capitão de Abril e coronel na reserva. — Aliás, penso que ele está pujante e no seu melhor.” A frase revela ainda outra coisa: Vasco Lourenço pensa.

À primeira vista…


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… parece um conjunto de trabalhadores na linha do Poceirão. Mas não é. Trata-se de um grupo de inspectores a ver se descobre onde é que Mário Lino, António Mendonça e Paulo Campos enterraram tantos milhões em tão pouco tempo.

Pelo estado em que se encontra o traçado da linha, devem estar perto. Vê-se logo que ali há buraco.

Soares virou à esquerda


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Mário Soares não se limitou a ir buscar o socialismo à gaveta: já declarou que o primeiro-ministro está a governar mal, juntou-se aos que faltaram ao 25 de Abril (mais parecido com o sempre perspicaz Vasco Lourenço e menos com o faustoso Presidente da República que foi) e agora até diz que o País deve romper com a Troika e que o PS deve mandar às urtigas o acordo que subscreveu.

Enfim: Soares virou tanto que, para voltar a levantar ambos os punhos fechados (como se vê ali em cima), até os seus dois braços já são esquerdos. E ainda se ri.

Blogue da Semana


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A é muito mais do que uma frequentadora atenta do DELITO DE OPINIÃO, sempre muito bem-vinda pela disponibilidade e dedicação que nos dispensa: é também uma valiosa co-autora na “concorrência”, para nossa inveja, e gosta de ilhas pequeninas e livros.

Mas a Ana Cristina é ainda — e sobretudo, para este efeito — a autora de um espaço muito recomendável, que toda a gente tem obrigação de saber que se chama Meditação na Pastelaria, uma casa onde se medita enquanto se respiram temas variados, muitas vezes envolventes e doces, sem ligar peva ao desgraçado «acordo ortográfico».

Ainda por cima, escolher uma pastelaria para meditar e escrever tem o seu quê de elegância e de bom-gosto — é quase snob e elitista, o que contribui para elevar o padrão cultural que tão rasteiro anda na nossa sociedade. Por isso tudo, Meditação na Pastelaria vai muito bem como Blogue da Semana no DO. Vai muito bem e vai com amizade e apreço.