O ilhéu que se partiu


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Na ilha Terceira, os ilhéus das Cabras constituem um alvo de polémicas sucessivamente renovadas ao longo de séculos, por causa da sua posse. Hoje em dia, são simplesmente vistos como importante reserva açoriana de espécies protegidas.

Localizados junto à costa sul da Ilha Terceira, na freguesia de Porto Judeu, são os ilhéus maiores do arquipélago. Quem circula pela estrada marginal e olha para eles, parece uma ilhota que acabou de partir-se e se soltou em dois pedaços. De origem vulcânica, estão na verdade divididos há séculos, pelo provável desmantelamento da costa, em resultado da erosão e movimentações tectónicas.

Abrigam eles alguma fauna protegida, como o cagarro e o garajau-comum, além da garça-real, do pilrito-das-praias e do borrelho-de-coleira-interrompida. Juntamente com o cagarro e o garajau, também a gaivota faz parte das aves marinhas que procuram os ilhéus para nidificação.

Em torno dos dois ilhéus encontram-se ainda com frequência pequenos cetáceos, como a toninha-brava, bem como algumas tartarugas.

Em meados do século XVII, os ilhéus das Cabras estão nas mãos de um ramo da conhecida família Canto, nome secular muito respeitado em terras açorianas, assim como na Casa Real no continente.

De geração em geração, de descendente em descendente, as Cabras vão mudando de proprietário, mesmo quando estes estão em Lisboa, em Braga, em Amares, no Porto ou em qualquer outro lugar fora dos Açores onde têm morado.

Com o passar dos séculos, a polémica que vai envolvendo os ilhéus renova-se, ora por razões de direitos, ora por razões de direito público. Actualmente, porém, se são propriedade privada ou pública não parece ser tão importante. Na sua verdura pujante e recorte em falésia, constituem uma reserva natural que todos respeitam e admiram com gosto, porque fazem parte da bela diversidade que o arquipélago em geral oferece e de que a Terceira em particular cuida.

Além do mais, já o celebrado terceirense Vitorino Nemésio se referia aos ilhéus das Cabras como uma espécie de representação dos açorianos, chamando-lhes «a estátua da nossa solidão» (Corsário das Ilhas, 1956). Não poderia haver classificação mais pública e colectiva do que esta. A própria definição de Nemésio é património colectivo.

 

9 comentários em “O ilhéu que se partiu”

  1. Gostei de ler este post. Sou natural da ilha Terceira, onde vivo, e foi com agrado que vi reconhecidos este ilhéus, quando na realidade quase ninguém os refere. Estão lá, simplesmente, e pronto.
    Para terminar, recomendo um mergulho junto aos ilhéus das Cabras. É uma experiência única.
    Abraço da ilha
    – m

  2. Ah, é o eterno mistério dos Açores: até os ilhéus se partem, de solidão não partilhada. Impartilhável. E no entanto tudo é tão tristemente deslumbrante.

    (gosto de saber que voltaste à tua terra de adopção 🙂

  3. As minhas visitas a S. Miguel foram no meio de trabalho, e ainda não fui às outras ilhas…
    Há muito Portugal esquecido, por via de rotinas, não só de trabalho, mas também de programação turística.

    Bom, graças a esta sua bela posta fui dar com outro Ilhéu das Cabras, mas em S. Tomé e Príncipe.
    Para grande surpresa minha, encontrei depois uns incríveis monólitos naturais em S. Tomé, que passam quase para segundo plano a Torre do Diabo, ou o Pão de Açucar:
    http://odemaia.blogspot.pt/2012/07/cao-grande-e-monolitos.html

    Será que o governo de S. Tomé e Princípe não pode usar certas imagens como atracção turística?
    É espantosa a pouca informação que há na internet sobre o assunto.

  4. Bem… eu vi, revi, fotografei e voltei a fotografar os ilhéus as cabras mas, na verdade, ninguém vai ver essas fotos; só gostam de selfies… E eu ralado! Revejo-as eu mais tarde…
    Mas eu comecei a aqui a escrever com a intenção de dizer: estou a tentar uma explicação para a fractura do ilhéu primitivo e nada: nem wikipédia, nem nada! Vou tentar mais uns minutos e desisto…

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