«Homem condenado a 19 anos de prisão por degolar a esposa». O título é da Lusa, que acrescenta o seguinte: «O Tribunal de Benavente condenou hoje a 19 anos de prisão o homem acusado de homicídio qualificado, por ter degolado a esposa.» Esposa? Que a Lusa é fracota já todos sabemos, mas escusava de ser pirosa.
Na mesma notícia, a Lusa diz também que «o tribunal determinou ainda que o arguido, de 26 anos, seja expulso do país após cumprir dois terços da pena». Por causa do desemprego? Porque os juízes do tribunal embirraram com a cara do homicida? Pelo receio de que ele volte a casar em Portugal e venha a reincidir no crime? Com base em alguma nova lei que obriga os homicidas a emigrar? Isso é o que a Lusa se esqueceu de dizer. Desmiolada, gostou de saber da expulsão, mas sem querer saber o motivo.

A palavra “esposa” é pirosa? Eu acho que é exata.
Como queria o João que a notícia tivesse sido redigida? “Por degolar a cônjuge”? “Por degolar a mulher” teria sido impreciso, dado que “mulher” se refere em princípio a qualquer adulto do sexo feminino.
Não, não acho que é: é.
“A mulher” de alguém não é “qualquer adulto do sexo feminino”, como V. já devia saber.
Em termos coloquiais, você tem razão.
Mas a notícia é um texto escrito, que se pretende exato. “Homem preso por matar a mulher” é indefinido, pois a “mulher” pode ser qualquer mulher. Deve-se escrever “esposa” ou “cônjuge” para que se saiba que a mulher em questão era a esposa dele.
Não se pode confundir a linguagem coloquial, falada, com a escrita.
Uma mulher também se pode referir coloquialmente ao “meu homem”, mas em linguagem escrita, rigorosa, tem que escrever “meu marido”.
Errado. “Homem preso por matar a mulher” não é indefinido. Indefinido seria “homem preso por matar mulher”.
Não. “A mulher” seria ainda assim indefinido, porque se poderia referir a qualquer mulher que estivesse próxima.
Por exemplo: “o comprador estava a discutir com a peixeira. De repente, o homem sacou de uma faca e matou a mulher”. Aqui, “a mulher” refere-se (em princípio) à peixeira. Está indefinido, mas subentende-se, coloquialmente, que a mulher é a peixeira.
O João parece ter dificuldade em discernir entre português falado, no qual “a mulher” se refere usualmente – mas não necessariamente – à esposa, e português escrito, em que a “mulher” é qualquer adulto do sexo feminino e a cônjuge deve ser designada por “esposa”, tal e qual como o cônjuge é designado por “marido”.
Já estou cansado.
Eu também.
Eu concordo com o João em que “esposa” é foleiro (ou “possidónio”, como diz o comentador abaixo), mas, no entanto, é o que e correto e exato.
O piroso, foleiro e possidónio tem pouco de correcto e exacto.
Eu às vezes gostava de tomar o que o Lavoura toma, mas só um bocadinho. Não vá ficar igual a ele.
Cuidado, então.
Esposa é posssidónio, por, entre outras coisas, ser inexacto, mas o comentador que descubra porquê.
Para enviar ambiguidades usa-se o pronome possessivo: a sua mulher, se bem que, sem mais nada, se perceba que não foi a mulher do próximo. Até o artigo definido, que é correcto e esclarecedor, acaba por ser dispensável.
A ignorância é complicativa!
Quanto ao marido termo correcto e “rigoroso” ( eheheh) não é um termo legal em Portugal há umas dezenas de anos. Legal e possidoniamente há cônjuges.
Embora a mulher não use, senão coloquialmente, faladal ou por escrito, a expressão “o meu homem” o homem usa sempre o termo ” a minha mulher” e quando quiser usar de cerimónia dirá, dirigindo-se a outrém “a senhora sua mulher”.
Nem mais.
Nem mais? Infelizmente, a evidência não existe neste lameiro. Valha-nos a esperança em melhores dias.
Neste lameiro? Qual? Não é evidente.
Lameiro em que estamos todos… 🙁
“Não se pode confundir a linguagem coloquial, falada, com a escrita.” Esta, vinda de quem vem, dá-me vontade não sei de quê – para não ser muito preciso.
Entende-se.
É verdade que o Zeinal Bava se chama assim e é português. Noutro contexto qualquer, os nomes dos cônjuges, Bouna Sackho e Helmina Biem, não me permitiriam tirar qualquer ilação sobre a nacionalidade deles. Mas se ao mesmo tempo a notícia me diz que o tribunal decidiu a expulsão do homicida blablabla, não preciso que me façam um boneco para perceber que se trata de um cidadão estrangeiro.
A Lusa comete todos os dias crimes infinitamente mais graves a meus olhos do que a omissão da nacionalidade dos implicados neste fait-divers (que pode bem ser Alzheimer ou PC-zisse.)
Não me diga.
É mesmo pirosa, lembro-me bem da primeira e única vez que me corrigiram, correcção essa que foi feita pela mulher da minha vida.
Vejo que fez a escolha da sua vida. Ainda bem.
Basta consultar um dicionário. “Mulher” tem também o significado de cônjuge. É tão simples quanto isto.
Mas “esposa” faz todo o sentido (todo…) num país de pedantes falidos. Onde, como se comprova à náusea , se tem que ser Eng. .” ou Dr. .” (mesmo que “apenas” se seja “lic.”, em versão pós-Bolonha e, como se isso não chegasse, forçada).
E onde, bem antes da crise, a casa podia estar nua, sem um livro – até porque ler cansa – ou um quadro decente na parede, a dieta podia ser a cafés e torradas, mas o BMW ou AUDI, ou as férias no Brasil ou Punta Cana, entre outras coisas, eram de regra.
Onde “mulher” é “a dias” (se ainda se lhe pode, claro, pagar).
Muita parra e pouca uva.
Costa
Pois.
Outra não menos horripilante é “a menina”, em vez de filha. Felizmente o GNR que ficou com a miúda de não-sei-quem já se calou, raios o partam que já não o podia ouvir. Isto para não ser impreciso.
SE é piroso ou não, custa-me dizer “a minha esposa”… e não “a minha mulher”…
Ainda bem.