Paraíso ou nem tanto…


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Portugal defende que a União Europeia passe a impedir que as suas instituições financeiras trabalhem com paraísos fiscais, mesmo que o G-20 não avance com a mesma prática. Porém, será uma medida duvidosa a UE fazê-lo sem que os países mais ricos do mundo o façam também, por forma a que o fim das off-shores tenha carácter efectivo e global.

Mais irrealista ainda seria o nosso país dar o exemplo sozinho, como Louçã chegou a sugerir. Até porque o único caso nacional, o da Madeira, costuma ser considerado um fraco exemplo desses paraísos, à luz dos condicionalismos em que funciona. Um desprestígio para Alberto João Jardim, que gosta de dar a entender que fez da Madeira um paraíso na Terra…

O segundo lamento


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Entre os que se revoltaram com o condenado spot de promoção da Antena-1 na RTP encontrei o lamento de Rogério da Costa Pereira. Semelhante a tantos outros, excepto no pormenor de encerramento a que chamou «adenda» e onde expõe um segundo lamento. Vejam só: «igualmente lamentável é o aproveitamento político que alguns blogues (os do costume) estão a fazer da situação, "revelando", ao melhor estilo vocês-sabem-do-que-é-que-eu-estou-falar, que a locutora do spot (Eduarda Maio) é autora duma biografia do PM.»

É caso para perguntar: a sério? E deviam ignorar isso ou apenas fingir que não sabiam?

Não sei se Costa Pereira seria capaz de se juntar aos "ingénuos" que noticiam que há chorudos investimentos angolanos em Portugal feitos em nome de Isabel dos Santos, sem dizer que se trata da filha de José Eduardo dos Santos. Não sei, mas parece ser homem para isso.

Provedor por telescópio…


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Sem qualquer avanço sobre a urgente substituição do Provedor de Justiça, o PS anunciou que rompeu as negociações (pasme-se!) com o PSD para assentarem numa personalidade consensual e com o perfil adequado.

De visita a Constância, onde presidiu à apresentação do maior telescópio público do País, o Presidente da República declarou aos jornalistas ser «difícil entender» que não tenha ainda sido encontrado o sucessor de Nascimento Rodrigues.

Parece que o mais indicado seria agora os parlamentares darem um pulo até Constância. Com a ajuda do novo telescópio gigante talvez vissem mais qualquer coisa para lá dos respectivos umbigos…

Bem prega Frei Tomás… (2)


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O ex-governador de Macau e presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo, Garcia Leandro, afirmou hoje, em declarações ao Rádio Clube, que «as leis contra a corrupção são mal feitas» e que todas as tentativas para as melhorar, como pretendeu o ex-deputado socialista João Cravinho, têm sido sistematicamente bloqueadas na Assembleia da República.

Garcia Leandro entende, por isso, que são os parlamentares que não querem alterar a situação actual, o que mantém a promiscuidade entre o poder económico e o poder político — designadamente, entre quem transita de um para outro em qualquer dos sentidos. Para ele, assim não é possível fazer praticamente nada que leve alguém a ser condenado por corrupção.

As afirmações de Garcia Leandro não têm em consideração que os vários tipos de corrupção, à luz da lei, são crimes e que, como tal, não há qualquer motivo para que não sejam punidos. No entanto, está cheio de razão no que concerne à promiscuidade e à facilidade com que certos responsáveis transitam da política pública para a economia privada (e vice-versa) e isso é que devia ser uma das vertentes a considerar, face a um quadro legal que é urgente melhorar e em que ninguém quer mexer.

Entre o que frei Tomás já prega há muito e o que o general Leandro pregou hoje, está um mundo opaco onde todos recusam acender a luz. É nesse mundo opaco que tem reinado a corrupção e crescido a suspeição. E parece que está para durar: alguém já viu algum partido do "arco do governo" prometer legislar a favor da melhor eficácia no combate à corrupção?

Ainda o caso do ministro-comentador


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Ministro dos Assuntos Parlamentares, Augusto Santos Silva

Depois do que o Pedro Correia escreveu aqui sobre a participação do ministro Augusto Santos Silva num programa regular da TVI, tudo indica que o caso está a adensar-se. O ministro tinha sido muito crítico relativamente à deontologia jornalística praticada na estação televisiva, pelo que já era estranho ter aceitado ser comentador no mesmo canal. Mas agora a TVI vai mais longe: promete dar luta à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), que também já se referiu a «várias queixas» sobre «a alegada violação de princípios éticos ou legais» da estação.

José Eduardo Moniz diz-se disposto a «um combate sem quartel» se os membros da ERC «alguma vez aceitassem ser cúmplices do amordaçamento da comunicação social ou servos do poder», numa alusão às críticas de que tem sido alvo por parte do poder político, o que inclui o próprio ministro e novo colaborador-residente do canal.

Independentemente do episódio que se seguir, há-de valer a pena ver a cara com que Santos Silva irá apresentar-se no próximo frente-a-frente da TVI em que participa com Morais Sarmento. A vida não está fácil para quem é membro do governo, comentador televisivo e crítico de televisão…

Blogue da semana


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Confrontado para seleccioná-lo, não pensei duas vezes: o blogue da semana é o Ilustração Portuguesa. Frequento-o há bastante tempo e as minhas visitas são regulares.

O que é que ele tem de especial? Nostalgia. Tem toneladas de nostalgia sob formas variadas. O próprio nome é sugestivo: o prato principal é feito com reproduções da velha revista Ilustração Portugueza. Mas andam por lá também O Século Ilustrado, Fungagá da Bicharada, Gente, Cinéfilo, Donas de Casa, Tele-Culinária, etc., com posts diários. Um manancial de memórias. Merece dizer que as reproduções podem ser puxadas para que todos os textos e detalhes sejam lidos (até os antigos anúncios).

No fundo, é como se fosse a nossa rubrica «Passado presente» feita em blogue. Parabéns à Mariana, que é quem se apresenta no sítio.

Vem aí mais urticária


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Vale a pena ler na Visão o que Nascimento Rodrigues diz sobre o «apetite» do PS pelo cargo de Provedor de Justiça e sobre a qualidade da nossa democracia e degradação da política. Não há-de faltar quem salte agora à praça pública para lamuriar-se, mas não devemos esquecer-nos de que a maioria parlamentar mantém Nascimento Rodrigues no cargo de Provedor de Justiça oito meses volvidos sobre o termo do seu mandato e ainda não obteve consenso para um substituto.

Se assim é, temos de concordar que o ainda Provedor de Justiça está necessariamente a ser justo quando lembra o refrão do Zeca Afonso para classificar a voragem socialista pela ocupação dos cargos de nomeação política: «eles comem tudo»! Injusto será deixarmo-nos embalar piedosamente pela urticária de algum Santos Silva que venha coçar-se para a praça pública. A urticária evita-se ou trata-se sem ser preciso dar espectáculo.

A massa de que são feitos


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Anda por aí um anúncio que diz assim: «O cartão Santander Totta dá-lhe 5% de desconto nas suas compras.» Não sei se é em todas ou apenas nas compras a crédito: convém ler o contrato com atenção. Se for a crédito tem importância sabê-lo, por ser o mesmo banco a que Francisco Louçã se referiu no Parlamento há poucas semanas: o Santander Totta está a oferecer crédito pessoal a 28 por cento!

Mesmo em tempos desfavoráveis para a sua imagem, a banca não aprende. Há bancos que não resistem: está-lhes no sangue. Ou melhor: está-lhes na massa.

Verdades inconvenientes (2)


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O post da Teresa Ribeiro aqui mais abaixo sugeriu-me voltar a lembrar uma coisa sobre a qual já escrevi algures em tempos e que vem muito a propósito da entrevista de Abel Mateus, antigo presidente da Autoridade da Concorrência, ao Público. Trata-se de recuar à eleição intercalar para a Câmara Municipal de Lisboa. Durante a campanha, recordo-me de ter acompanhado um debate na televisão com todos os candidatos (não sei se na RTP, mas tenho quase a certeza de ter decorrido na biblioteca da Câmara).

Quando esse debate tocou no tema do aeroporto de Lisboa, um dos candidatos (não me lembro qual) puxou de umas folhas a cores que as câmaras focaram e que ele disse ter acabado de imprimir do site da ANA na Internet. Explicou ele então o que mostrava: nessas folhas estavam os slots (em linguagem de leigo, é a capacidade não-ocupada para aterragem, estacionamento na placa e levantamento de voos) do actual aeroporto. Isto é: demonstrava-se ali que o aeroporto tinha capacidade para crescer em movimento e, mais ainda, até ao ano não-sei-quantos, de acordo com as previsões à época.

Sabemos hoje que essas previsões estão completamente alteradas pela conjuntura internacional. Mas aquilo a quero chegar é o seguinte: as tais páginas do site da ANA, mostradas e comentadas publicamente naquele debate, tinham sido retiradas no dia seguinte!

Nunca mais me esqueci disso. Se havia alguma coisa a esconder, ela foi escondida. E só o teria sido por contrariar a argumentação governamental e desaconselhar qualquer pressa em avançar para um novo aeroporto. Tudo indica que Abel Mateus e o estudo que ele refere têm acrescidas razões sobre a manutenção do actual aeroporto e sobre as suas reservas em relação ao novo.

… marchar, marchar!


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Os números oficiais indicam que há em Portugal 61 mil seguranças privados e 48 mil agentes da PSP e GNR. Com o crime a crescer, ainda não ouvimos o actual ministro dizer que «esta não é a minha polícia», mas nós podemos sempre dizer que aquela é a nossa segurança.

Conhecida esta estranha realidade, a partir de agora já sabem: se alguma autoridade mandar as forças policiais carregar sobre cidadãos civis, manifestações, ajuntamentos, protestos, desfiles, etc., basta mandar os seguranças privados para cima deles!

Escola discrimina etnias


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Numa escola de Barcelos, há 17 alunos de etnia cigana com aulas separadas dos restantes colegas. PSD, PCP e BE querem ver a ministra da Educação na Assembleia da República, para explicar esta atitude de discriminação racial.

Aqui para nós, se é de preconceito racial que se trata, a verdade é que a própria escola se chama Lagoa Negra. Afinal, uma lagoa é sempre uma lagoa. Ou não?

De volta ao século XIX


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Portugal continua entre os países da Europa com mais novos casos de tuberculose e a fraca tendência para que diminuam, segundo os responsáveis pelo Programa Nacional de Luta Contra a Tuberculose, pode até inverter-se face às implicações sociais da crise que vivemos. Ora, a verdade é que o crescimento galopante dos casos de tuberculose em Portugal constituem uma vergonha que se acentua há anos sem qualquer explicação razoável. Não só por estar acima dos níveis europeus (como sempre), mas porque esta doença estava praticamente erradicada há décadas.

Lembro-me de ser garoto e das carrinhas que visitavam todas as escolas do País para aplicação ambulatória da vacina contra a tuberculose, que era obrigatória. As aulas eram interrompidas e todos faziam fila à porta da escola para ir à carrinha da Saúde apanhar a vacina Bacillus Calmette-Guérin (BCG, como era conhecida e se lia em letras garrafais naqueles veículos).

O programa era do Estado Novo e a BCG devia ser uma vacina fascista, porque depois isso desapareceu e nunca mais se viu. Actualmente, o caso é uma das vergonhas nacionais. Porventura escusada, esta. Ainda por cima, nem de perto nem de longe este cenário está sequer controlado. Uma vergonha (e gravidade, bem entendido) tanto maior quanto se sabe que a tuberculose é própria dos países em vias de desenvolvimento, praticamente confinada aos meios sociais de acentuada pobreza e de condições de vida deploráveis.

Estamos nisto há anos. Reapareceu, cresceu, agravou-se, está a espalhar-se descontroladamente e ninguém consegue estancar a situação. No século XXI como no século XIX. E ainda vai piorar com a crise — dizem.