Portugal continua entre os países da Europa com mais novos casos de tuberculose e a fraca tendência para que diminuam, segundo os responsáveis pelo Programa Nacional de Luta Contra a Tuberculose, pode até inverter-se face às implicações sociais da crise que vivemos. Ora, a verdade é que o crescimento galopante dos casos de tuberculose em Portugal constituem uma vergonha que se acentua há anos sem qualquer explicação razoável. Não só por estar acima dos níveis europeus (como sempre), mas porque esta doença estava praticamente erradicada há décadas.
Lembro-me de ser garoto e das carrinhas que visitavam todas as escolas do País para aplicação ambulatória da vacina contra a tuberculose, que era obrigatória. As aulas eram interrompidas e todos faziam fila à porta da escola para ir à carrinha da Saúde apanhar a vacina Bacillus Calmette-Guérin (BCG, como era conhecida e se lia em letras garrafais naqueles veículos).
O programa era do Estado Novo e a BCG devia ser uma vacina fascista, porque depois isso desapareceu e nunca mais se viu. Actualmente, o caso é uma das vergonhas nacionais. Porventura escusada, esta. Ainda por cima, nem de perto nem de longe este cenário está sequer controlado. Uma vergonha (e gravidade, bem entendido) tanto maior quanto se sabe que a tuberculose é própria dos países em vias de desenvolvimento, praticamente confinada aos meios sociais de acentuada pobreza e de condições de vida deploráveis.
Estamos nisto há anos. Reapareceu, cresceu, agravou-se, está a espalhar-se descontroladamente e ninguém consegue estancar a situação. No século XXI como no século XIX. E ainda vai piorar com a crise — dizem.

Mais uma conquista da brilhante dupla Correia de Campos- Ana Jorge.
Que diabo! É de tuberculose que estamos a falar, compadre; não é de mortalidade rodoviária. O crescimento da tuberculose, que chegou a ser debelada, é algo que devia revoltar-nos seriamente.
Não percebo. Se os novos casos de tuberculose têm vindo a diminuir, como é que há um crescimento galopante deles?
Outra questão: as crianças já não são vacinadas? Quando eu era criança era vacinado (pós 25 de Abril). E fui vacinado até à adolescência (confesso que deixei de controlar isso quando cheguei à idade adulta, depois das micro-radiografias obrigatórias nos dois primeiros anos da universidade).
Uma nota: na Holanda e na Alemanha a vacina não é obrigatória. Aliás, obrigam pessoas de países não UE onde a vacina é obrigatória a fazer a micro.
E é normal que piore com a crise: quanto maior a pobreza, menor a atenção à saúde e à higiene e outras coisas que tais.
Também não percebo. Afinal, o que é que não percebe e onde é que quer chegar?
Quero chegar ao seguinte. A notícia do Público apresenta: «A tendência é de diminiuição (menos sete por cento quando comparado com os valores de 2007)». O João escreve «fraca tendência para que diminuam [os novos casos de tuberculose]». Estas duas afirmações concordam que há menos novos casos de tuberculose no passado, ou seja, que a tendência é para uma diminuição de novos casos de tuberculose.
Só que depois o João escreve «crescimento galopante dos casos de tuberculose em Portugal», o que subentende que os novos casos de tuberculose estarão a aumentar.
É esta aparente contradição que eu não entendi.
Tentarei fazer-me entender.
É de novos casos que estamos a falar. Os dados oficiais (que me merecem grandes reservas, aliás) indicam que há uma diminuição de novos casos. Logo, há novos casos e a tuberculose está a crescer. Mas devia era estar a diminuir.
A realidade é que o crescimento, mesmo que agora seja porventura menor, tem sido galopante nestes últimos anos. E, ainda que se confirme alguma diminuição (que continua a ser crescimento), as próprias autoridades já vão dizendo que vai novamente crescer mais.
Consegui explicar-me? É que já há anos que se fala neste regresso assustador da tuberculose e, ao contrário do que aconteceu no passado, ainda não se viu um plano sério e eficaz que a debele.
Repare que, quando a BCG ambulatória e obrigatória desapareceu, podia dizer-se que já não havia tuberculose em Portugal.
Nesta interessante troca de opiniões, partilho dos pontos de vista do J. André. Nas 2 últimas décadas tem havido uma descida consistente do número de casos de tuberculose registados no nosso país ( na última década, a média foi de menos 7,2% por ano). Claro que há sempre novos casos, mas, sempre menos que no ano anterior. E, as previsões parecem apontar para que esta tendência se venha a manter nos anos vindouros.
É sempre muito complexa a interpretação dos indicadores epidemiológicas disponíveis em matéria de tuberculose. Esta complexidade radica, entre muitos outros factores, essencialmente nas características da própria doença. Explicitando: quando contactamos com o bacilo que provoca a doença, somos infectados, mas nem sempre desenvolvemos a doença; mas, uma vez infectados, o bacilo permance no nosso organismo, em estado de latência, para o resto da nossa vida. Provavelmente nunca viremos a desenvolver a doença (calcula-se que esta posssibilidade seja de, aproximadamente 10%). Contudo há uma série de factores que podem vir a aumentar essa probablidade. Além de situações “médicas” (são muitas, mas como traço comum têm o facto de cursarem com perturbações da nossa imunidade), há outra mais “gerais” tais como as más condições socio-económicas. de higiene, nutrição, habitabilidade, o “stress”, falta de acesso aos cuidados de saúde, convulsões sociais, etc, etc, que podem acelerar a possibilidade de vir desenvolver/contair a doença.
Portanto, quando somos confrontados com o facto de, em Portugal, no ano de 2008 se terem registado 2686 novos de tuberculose teremos de admitir que:
1)- uma grande parte desses doentes terão sido infectados há muito tempo atrás, por vezes décadas
2)- esse número não reflecte nem de perto nem de longe a total dimensão do problema, uma vez que existe um enorme “pool” de pessoas infectadas com o bacilo da tuberculose, e que poderão vir a desenvolver a doença no futuro.
Sendo assim, parece óbvio, que, apesar das medidas de controlo e de luta contra a tuberculose em curso parecerem adequadas (e a tendência para a descida persistente no número de novos casos/ano assim o parece comprovar), nunca poderemos esperar que os resultados sejam dramaticamente espectaculares a curto prazo.
Por outro lado, e, assumindo importância decisiva há que ter em linha de conta, que, sem uma uma melhoria substancial das nossas condições de vida, esta luta será inglória.
Volto a enfatizar, que, é um aspecto positivo esta descida constante no número de novos casos/ano, a qual, nos deve dar um sentimento de optimismo moderado e especialmente realista. Por outro lado, desejo salientar a competência das pessoas que integram o Núcleo de Tuberculose da Direcção-Geral de Saúde e que, o combate à pobreza e exclusão social, sâo (serão) factores decisivos no controlo da tuberculose no nosso país