Feriados móveis


eventhorizon,

Convencionou-se de tal maneira a “ponte” que liga os feriados mais convenientes ao fim-de-semana que, pelos vistos, ideias destas não fazem confusão a ninguém. Enfim, é uma medida para inglês ver – ou melhor, para alemão ver (alguém actualize o ditado, se faz favor). De uma penada, faz-se de conta que quando os feriados calham à terça ou à quinta o Governo é “obrigado” a dar a ponte de segunda ou de sexta, e coloca-se de lado a lógica subjacente ao próprio conceito de feriado. O que não deixa de ser interessante: por um lado, e com esta medida em prática, o Natal passa de facto a ser quando o Homem quiser (desde que queira entre 23 e 27 de Dezembro); por outro, vai ser divertido ver o velho slogan “25 de Abril, sempre!” quando o feriado for encostado a 24 ou a 26. 

Estorvo


eventhorizon,

Pergunto-me quando será possível consultar um site de notícias sem ver uma publicidade disforme cobrir quase por completo – quando não por completo – os conteúdos. Eu percebo que os media online necessitem muito de publicidade, mas não é preciso exagerar. Para o leitor – pelo menos para este leitor – é extremamente irritante abrir um site para ler notícias e, de repente, ver o ecrã coberto por publicidades, por vezes com botões de “fechar” bastante dissimulados e esquivos. Isto num computador rápido, atenção. Num computador mais lento, a experiência é quase tortura: ver uma publicidade a abrir lentamente, aos soluços, cobrindo as notícias (e abrandando o browser até quase ao ponto do desespero) até estar completamente carregada e podermos, então, fechá-la (quando acertarmos na cruzinha, claro). Banners laterais, estrategicamente colocados entre os conteúdos e as barras de scroll, que, quando o cursor passa sobre eles, abrem e “empurram” os conteúdos para fora do ecrã também são tudo menos simpáticos (o Público Online gosta muito destes banners armadilhados). Pior ainda: usar, por algum motivo, um browser mais antigo, que não consiga carregar anúncios em Flash – o que não impede o site de carregar uma janela em branco, impedindo porém que a dita janela seja encerrada.

 

Nada contra a publicidade – é um mal necessário em qualquer meio. Mas creio que seria bom que os meios online se lembrassem de que os seus leitores não frequentam os sites para ver anúncios, mas para aceder aos conteúdos – e quando aqueles se tornam num estorvo, estes perdem um pouco do seu interesse. Um pouco como os intermináveis intervalos dos canais privados na televisão. 

Isto da democracia verdadeira não é bem democracia nem bem verdadeira, estão a ver?


eventhorizon,

No Expresso: Democracia Verdadeira volta a ser exigida em Lisboa. Pergunta inocente: para os mentores deste “movimento” a “Democracia Verdadeira” é aquela em que todos debatem tudo e todos votam sobre tudo, mas na qual, à luz das explicações* do eufémio Guálter (a quem, com uma Justiça decente, a brincadeira do campo de milho teria saído cara), “a votação não é bem uma votação no seu sentido tradicional de contagem de votos, mas sim uma espécie de sondagem.” É isto a democracia verdadeira, não é?

 

*conferir do minuto 2:56 ao minuto 3:42

Pastilhas de Mordor


eventhorizon,

Encontro-me neste momento a (reler) O Hobbit, de Tolkien. Reparo, uma vez mais, nos hábitos tabagistas de Bilbo, Gandalf e Thorin. À luz deste exemplo que aqui apontei há tempos, é de esperar, mais dia menos dia, uma edição revista, moderna e muito politicamente correcta na qual os longos cachimbos dos personagens são substituídos por saudáveis pastilhas elásticas, e os belos anéis de fumo que fazem trocados por grandes e inchados balões. 

 

(Mas enquanto esse dia não chega, a leitura continua a ser excelente)

A rela


eventhorizon,

Disse há algum tempo não querer votar no PSD. O pretexto era Nobre, mas não só: apesar de não ter nenhum preconceito contra Passos Coelho (creio que a sua “inexperiência” pode mesmo ser uma vantagem), não gosto particularmente de alguns dos seus acompanhantes – em muitos casos, não me parecem substancialmente melhores que os acólitos de Sócrates. Para além disso, aborrecem-me as oscilações constantes, mesmo reconhecendo que a comunicação social é, em termos gerais, muito sacaninha com o candidato do PSD. Já no CDS, passa-se exactamente o contrário: não simpatizo por aí além com Portas, abomino-lhe a demagogia fácil, mas simpatizo bastante com o partido, e com algumas (excelentes) pessoas que por lá estão. Em circunstâncias normais, nestas eleições o meu voto iria direitinho para o CDS.

Acontece que para mim estas eleições estão condicionadas, digamos assim, por uma particularidade geográfica: o meu círculo eleitoral é em Beja. Com muito gosto, acrescento, pois mesmo vivendo em Lisboa, o Alentejo continua a ser a minha casa. No entanto, Beja elege apenas três deputados. A menos que algo de extraordinário aconteça – algo como um fenómeno do Entroncamento, versão política, situado entre Vila Nova de Milfontes e Mértola -, um deputado neste círculo está garantido para a CDU, outro para o PS; e o terceiro será certamente disputado entre estes dois partidos.

Se a possibilidade de o PSD eleger um deputado por Beja é reduzida – mas existente, os tempos estão estranhos -, então a probabilidade de o CDS conseguir tal feito é tão pequena que nem o acelerador de partículas do CERN seria capaz de a detectar. Se é certo que não votarei à esquerda (a única excepção a esta regra são as eleições para a minha junta de freguesia), resta-me decidir entre um voto útil – no PSD, na vaga esperança de “roubar” um deputado ao PS (e à CDU) – ou um voto mais convicto (falta-me uma palavra melhor, desculpem), mas inútil, no CDS. 

No fundo, o que está em causa nestas eleições não é tanto a eleição dos deputados como a remoção, higiénica e tardia, de Sócrates. Este é o critério fundamental. Obviamente que, para tal, o voto mais lógico em Beja seria na CDU, mas não conseguiria engolir tão grande batráquio. Ficarei com um mais pequeno – uma daquelas relas cor-de-laranja, que espero não se revelar muito venenosa.

 

Quando fosse grande


eventhorizon,

Houve um momento da minha infância – não sei precisar quanto tempo durou – em que dizia querer ser, quando fosse grande, maquinista de comboios. Gostava de comboios, nada a fazer. Foram muitas as viagens até Beja (ainda sou do tempo em que os comboios chegavam a Beja, vejam bem) e até ao Algarve nas velhinhas automotoras. É certo que, durante a infância, momentos houve em que outras opções profissionais também se afiguravam fascinantes, como a paleontologia (obrigado, Spielberg), mas olhando hoje para trás, a mais viável teria sido mesmo a carreira de maquinista. Enfim, chegada a adolescência optei pelas Humanidades, e mais tarde pela Comunicação. Má escolha. Tivesse eu ingressado na CP e não só teria uma vida mais simples, certinha entre carris e o pouca-terra pouca-terra da locomotiva, como também estaria agora de papo para o ar, a gozar umas belas férias greves desde finais de Fevereiro, o que seria excelente para voltar a colocar os meus sonos em dia. Ainda irei a tempo de uma transição de carreira?

1825 dias depois, não há ciclovia que lhe valha


eventhorizon,

1825 dias de derrapagem nas obras do Metro de Lisboa que estoiraram a Avenida Duque D’Ávila. São apenas mais cinco anos – mais coisa menos coisa – do que o previsto. A derrapagem orçamental também deve ter sido grande, já que os comerciantes ficaram praticamente só com… poeira. É um bom retrato de como são feitas muitas obras públicas neste país.

Já vai sendo tempo de aprender


eventhorizon,

É também por isto – e para ver se o povo português mete na cabeça, de uma vez por todas, que nas Legislativas não vota no Sócrates, no Passos Coelho ou noutro tipo qualquer, mas nos deputados que o vão representar na Assembleia da República – que seria muito interessante que o PS até fosse o partido mais votado a 5 de Junho, mas que fosse empossado um governo maioritário PSD+CDS. 
Evidentemente que, dado o que foram os seis anos de Sócrates, o PSD de Passos Coelho tinha a obrigação de sozinho conseguir maioria absoluta, mas isso seria pedir demasiado à actual direcção do partido. 

Azul


eventhorizon,

 

Frequento desde criança a praia da Zambujeira do Mar. É verdade que não sou grande adepto de “fazer praia”, mas a haver uma praia da qual gosto incondicionalmente, é a Zambujeira do Mar. Gosto das escarpas em permanente ameaça de desabamento. Gosto das rochas traiçoeiras que dão acesso a outras pequenas praias, encaixadas nas falésias. Gosto do mar, invariavelmente agressivo (nunca vi aquela praia sem ondulação). Por tudo isso, e por me recordar de aquela praia ser muito suja em tempos não muito distantes, fico muito contente por saber que este ano, a praia da Zambujeira do Mar vai exibir a bandeira azul.

 

(fotografia de cioska, no flickr)

Primeiro estranha-se, não é?


eventhorizon,

Nunca tive especial admiração jornalística por Judite de Sousa, apesar de não a achar má jornalista, e de há muito estar habituado a vê-la na RTP, sobretudo nas grandes entrevistas a algumas das mais importantes personalidades deste país. Por isso, foi com muita estranheza que, numa destas manhãs, entre um mil folhas e uma bica, a vejo de manhã na TVI a fazer um directo absolutamente ridículo para o programa do Goucha. É certo que provavelmente é preferível isso a aturar Sócrates em estúdio durante uma hora, mas que raio: o programa do Goucha? 

A virgindade política


eventhorizon,

Isto já foi dito e escrito por imensa gente e com várias palavras, mas dadas as circunstâncias – e a insistência da personagem – creio não ser excessivo repetir: se o ex-Presidente da República Jorge Sampaio tivesse um pingo de vergonha na cara, estava caladinho, com esperança de que ninguém se lembrasse dele. Como não tem, anda por aí a arrotar postas de pescada do alto da sua imaginada virgindade política. Por acaso, Sampaio não foi PR durante dez anos, não proferiu em tempos a frase assassina “há vida para além do défice” (do orçamento, seja) e não dissolveu uma Assembleia com maioria por um qualquer motivo obscuro que, estou em crer, nunca ninguém percebeu. É verdade que a situação actual não é apenas culpa de José “Calimero” Sócrates (apesar de nenhum outro ter escavado o buraco com tanta determinação), mas ao contrário do que o cândido Sampaio provavelmente julgará, numa “lista” de responsáveis do atoleiro em que estamos enfiados a sua iluminada figura ocuparia um lugar bastante alto. 

A maçã


eventhorizon,

Há dois tipos de pessoas que perdem a noção da realidade perante os produtos da Apple: os fanboys e, passe a generalização, os jornalistas. Não houve jornal cá no rectângulo que não publicasse pelo menos meia página sobre o iPad 2 – perspectivas de vendas, hype avulso, especificações técnicas, enfim, o diabo a quatro. Claro que, a bem do equilíbrio, não faltaram as comparações com a concorrência, e outros tablets são também mencionados. Diz que é o chamado “contraditório”. Mesmo que esse contraditório seja feito, como num diário generalista que li na semana passada, numa curiosa ilustração com os quatro aparelhos concorrentes… dentro do écrã do iPad. Ou em estreitas colunas para cada, após uma página inteira dedicada ao aparelho da Apple, com título aparatoso e “gordas” bem cheias. Não admira que a Apple não precise de investir muito em publicidade. Não precisa. Aos fanboys habituais, que defendem a marca da maçã com um fervor digno de um cruzado medieval, juntam-se os media e o seu turbilhão de euforia mediática. Compreendo muito bem a importância dos temas de tecnologia na agenda mediática, assim como percebo a relevância da Apple: goste-se ou não (e não é isso que está em causa), os seus produtos são incontornáveis. Só me incomoda ver o jornalismo virar evangelista.

Copo meio cheio


eventhorizon,

Vai para três semanas que tento ir visitar a terra, sem sucesso. A CP decidiu meter férias em Março, que é como quem diz, decidiu fazer uma greve intermitente que, para cristalizar a minha crença nas Leis de Murphy, tem “suprimido” os únicos comboios que posso apanhar para Sul sem necessidade de faltar ao trabalho (o último de sexta e o primeiro de sábado). Tem sido irritante, é verdade, mas também tem um lado positivo. Com a crise que para aí vai, se de repente avistar uma luz no fundo do túnel posso respirar de alívio. Um comboio não será de certeza.