Há dois tipos de pessoas que perdem a noção da realidade perante os produtos da Apple: os fanboys e, passe a generalização, os jornalistas. Não houve jornal cá no rectângulo que não publicasse pelo menos meia página sobre o iPad 2 – perspectivas de vendas, hype avulso, especificações técnicas, enfim, o diabo a quatro. Claro que, a bem do equilíbrio, não faltaram as comparações com a concorrência, e outros tablets são também mencionados. Diz que é o chamado “contraditório”. Mesmo que esse contraditório seja feito, como num diário generalista que li na semana passada, numa curiosa ilustração com os quatro aparelhos concorrentes… dentro do écrã do iPad. Ou em estreitas colunas para cada, após uma página inteira dedicada ao aparelho da Apple, com título aparatoso e “gordas” bem cheias. Não admira que a Apple não precise de investir muito em publicidade. Não precisa. Aos fanboys habituais, que defendem a marca da maçã com um fervor digno de um cruzado medieval, juntam-se os media e o seu turbilhão de euforia mediática. Compreendo muito bem a importância dos temas de tecnologia na agenda mediática, assim como percebo a relevância da Apple: goste-se ou não (e não é isso que está em causa), os seus produtos são incontornáveis. Só me incomoda ver o jornalismo virar evangelista.
A maçã
eventhorizon,

Sinceramente que me pergunto por vezes se a Apple não anda a pagar aos jornais para lhes fazerem esta publicidade. Isto pode soar maquiavélico, mas a fúria com que os jornais convertem tão depressa quanto possível as suas páginas de internet para aparecerem no iPad deixando-as horríveis nos browsers normais (o Público é um exemplo) e a vontade que têm em dar as notícias boas sobre a Apple ao mesmo tempo que ignoram as incómodas fazem-me pensar muito nas estratégias da maçã.
A verdade é que os tablet, Apple ou outros, são um bluff descomunal. São essencialmente brinquedos, na minha opinião. Não são confortáveis (demasiado grandes para serem agarrados com uma mão), não permitem grandes aventuras em termos de trabalho (a impossibilidade de multitasking do iPad é um impedimento incrível); são péssimos para se escrever (tenho que olhar para as teclas E para o ecrã para saber se carreguei nas teclas correctas e se o teclado as “sentiu”); a bateria não é particularmente poderosa; a memória também não; para se ler livros o ecrã é mau (os e-book readers com e-Ink são bem melhores) e para ver filmes não tem vantagens sobre laptops.
A verdade é que um netbook faz tudo o que um iPad faz e ainda lhe acrescenta funções, tudo a um preço bem mais agradável e com excelentes desempenhos.
iPads ou semelhantes? São como jóias: bonitos, mas inúteis.
O problema é que não precisam de pagar….
Nunca peguei num iPad, ou noutro tablet. Sei que não compraria um iPod, por vários motivos, do preço à dependência do iTunes. Acredito que os tablets sejam produtos muito interessantes, mas ainda estou muito longe deles (que diabo, até dos smartphones eu estou longe!). Quanto aos ebooks, apesar de a grande maioria da informação que acompanho ser online, não me estou a imaginar a trocar o bom e velho papel por um ecrã. Mas isto é uma opção pessoal e geral, não estando ligada a qualquer marca específica.
iPod já tive e até gostei, mas fartei-me. O iTunes é de facto altamente irritante, mas não foi o pior. A principal razão para deixar de o usar foi o facto de antes eu ter de fazer muitas viagens de comboio e agora ter que as fazer de carro. No carro tenho rádio…
Nos tablets ainda não entendi qual a utilidade. Como escrevi, os netbooks parecem-me consideravelmente melhores.
Já os eBook readers são uma conversa diferente. Ainda não vi mais nenhum, mas tive a nova versão do Kindle na mão e garanto que dá um certo prazer ler com ele. Tem um ecrã adequado à leitura, não cansa (com sol até se lê melhor por não ser iluminado por detrás do ecrã), é de fácil adaptação a diferentes formatos (pdf, mobi, etc), especiamente usando alguns softwares de conversão que existem, a compra de livros é simples e barata, o aparelho tem uma bateria extremamente duradoura (dias e dias sem usar wireless) e se comprarmos a capinha de couro (quase obrigatório) ficamos com um aparelho do tamanho de um livro de bolso mas muito mais elegante e capaz de levar vários livros. Desvantagem: não há muita oferta de livros em português. Mas um dia destes compro o aparelho para mim…
Na verdade, João, trabalhando eu em informática, já conclui haver um terceiro tipo de pessoa que perde a noção da realidade perante os produtos da Apple: os haterboys.
Aliás, de um modo geral, qualquer pessoa apaixonada por esta indústria parece-me tender para a alienação da objectividade. Tal como com qualquer outro exercício de fé: religião, clube de futebol, partido político. Fala-se muito da péssima qualidade nas caixas de comentários dos jornais online, mas passa-se o mesmo nas caixas de comentários da maioria dos sites de tecnologia: paupérrima capacidade de expressão, pouco conhecimento do que se está a comentar, imenso fundamentalismo.
Talvez seja impressão minha, mas estou-me a reconhecer um pouco nessa descrição. Não estou a “acusar o toque”, antes a reconhecer que talvez me enquadre nessa categoria.
O problema é saber quando se está perante um “haterboy” (gostei da expressão) ou alguém que até sabe do que fala. E é bem possível que um haterboy julgue que o sabe. É como o problema de alguém acusado de ser alcoólico: se disser que não é porque não reconhece o problema ou porque não o tem?…
Enfim, isto da applemania às vezes parece o alcoolismo. Há quem consuma por prazer e sem qualquer vício e há aqueles que estão completamente dependentes.
Applemania, Windowsmania, Googlemania, OpenSourcemania… sempre que me deparo com um membro destas congregações, recolho-me a um cauteloso silêncio. Caramba, alguns deles até fazem Augusto Santos Silva parecer uma pessoa ponderada.
E já agora, não quero criar um mal-entendido: aquele meu texto era um comentário genérico ao texto do João Campos, não uma resposta pessoal ao seu, João André. Por isso, caso se tenha sentido atingido por ele, digo como o Eça: “por obséquio retire-se do meu personagem”. (Caso necessário, imagine-se aqui um emoticon para dar a ideia de que estou a ser irónico).
Notei isso, por isso escrevi que minha reconhecia na descrição, não que me sentia acusado. Não há qualquer problema 🙂
Os “haterboys”, como o João os designa, são o movimento de sinal contrário que a Internet gera de forma quase invariável a um ritmo regular. Repare que todos os fenómenos de grande popularidade online – do Twilight e do Avatar ao Justin Bieber e à Lady Gaga, para dar exemplos óbvios – geram sempre um movimento de dimensão igual ou superior, mas de sinal oposto.
A paixão eu percebo. Para o adepto do Benfica, aquele fora-de-jogo foi roubado. Para o adepto do Sporting, era fora-de-jogo limpinho. Isto não me faz confusão. Faz-me confusão, sim, quando um jornalista – o sublinhado é intencional – opta por ignorar a linha do fora-de-jogo. A minha questão aqui é só essa – a do jornalismo. Os fanboys da Apple, ou do Linux ou do Windows, como quaisquer fanáticos, apenas me interessam enquanto pretexto humorístico.
Muito bem, João. Na ‘mouche’.
São coisas que me encanitam, Pedro, como se diz lá na minha terra…