Já que amanhã é Dia dos Namorados…
Fotografias tiradas por aí (116)
escafandro,
A narrativa da crise de António Costa parte de um pressuposto simples: as políticas seguidas em Portugal foram instigadas pela União Europeia e, portanto, esta tem a obrigação de fazer tudo o que estiver ao seu alcance para nos ajudar. É uma narrativa que, condizendo com a tendência nacional para a desculpabilização (não por acaso tanta gente parece gostar de Costa):
1. Está errada: não foi a União Europeia que escolheu, delineou e implementou os projectos de investimento (as auto-estradas, os estádios, o Magalhães, as obras da Parque Escolar) nem que multiplicou observatórios, institutos e fundações, nem que autorizou prejuízos cada vez mais elevados nas empresas públicas, nem que fechou os olhos aos excessos do poder local e regional, nem que subiu prestações sociais e salários do sector público acima da taxa de crescimento económico.
2. Transforma Portugal num país de inimputáveis (parece que, com ou sem Troika, não temos vontade própria) e os governos Sócrates em fantoches de Bruxelas (nem a mim tal coisa me passaria pela cabeça).
3. Implica admitir que, fossem os estímulos bons ou maus, as políticas seguidas pelos últimos governos estavam erradas.
É mesmo isto que quer dizer, Dr. Costa?

São Pedro da Afurada, 2005.
O frio é mais democrático do que o calor. No Verão, os corpos adquirem todos os seus factores diferenciadores. Mulheres e homens comparam-se e, dependendo do resultado obtido, sentem vontade de sorrir em triunfo ou de se esconderem no ralo do passeio mais próximo. Uma mulher atraente conhece o efeito que as suas (dela, caro leitor do sexo masculino, dela) pernas tonificadas saindo de uma mini mini-saia exercem em homens heterossexuais e em mulheres com pernas menos tonificadas (oh, se conhece) e sente-se muito bem com isso (oh, se sente). O Verão faz-nos atingir os píncaros da vaidade e do egoísmo. (Disclaimer: as frases anteriores não significam que o autor destas linhas, doravante designado por autor destas linhas, seja incapaz de apreciar os meses de Verão, em especial quando mulheres atraentes com pernas tonificadas saindo de mini mini-saias andam nas suas redondezas, por doloroso que tal circunstância às vezes seja; o autor destas linhas está até disponível para admitir ser este o único tipo de masoquismo que aprecia.) Já durante o Inverno, enterradas em dezassete camadas de roupa grossa, as diferenças esbatem-se: existem muito menos factores diferenciadores entre pontas de nariz enregeladas, espreitando de golas, garruços, cachecóis e protectores de orelhas, do que entre pernas tonificadas saindo de mini mini-saias. No Inverno, encontramo-nos também disponíveis para um maior grau de empatia: sabemos o que as outras pessoas estão a sentir e sabemos que é exactamente o mesmo que nós próprios estamos a sentir. Acredito que algumas mulheres atraentes (e homens, que hoje em dia os há preocupados com cada coisa) encarem como um desperdício trazerem um corpo tão bem torneado por baixo de tanta roupa, não podendo assim esfregá-lo na cara das outras pessoas (imagem não-literal, embora passível de gerar efeitos literais). Poderá até ser por isso que muitas afirmam detestar o Inverno (aproveito para confessar que, levando em conta as demonstrações de sangue quente que as caracterizam, nunca percebi por que motivo as mulheres sofrem mais com o frio do que os homens) e que algumas procuram contrariar o poder do termómetro e manter bem visíveis as pernas tonificadas e todos (enfim, quase todos) os restantes argumentos que a genética e/ou dezenas de horas de ginásio lhes concederam, quanto mais não seja através de uma curiosa moda actual que consiste em usar uma espécie de collants grossos sem saia ou calças por cima (como, para mais, são usados com botas de cano alto, uns calçõezinhos tufados e, voilá, estaríamos perante a moda masculina do século XVI). Seja como for, mais leggings, menos leggings (é o nome certo, certo?), quase todos os assomos de vaidade são levados pela primeira rajada de vento cortante que obrigue a meter as mãos debaixo dos braços e bater com os pés no chão. (Fica difícil manter a altivez enquanto, mãos enfiadas debaixo dos braços, se bate com os pés no chão; quem não acreditar, que experimente em frente a um espelho.) O que nos traz de volta à questão da igualdade entre pontas de nariz. Colocando a coisa de modo tão directo e politicamente incorrecto quanto, com os dedos enregelados como estão (é segunda-feira de manhã e o aquecimento ainda não está ligado), consigo pôr: há por aí uma enorme quantidade de atraentes pontas de nariz femininas para cujas possuidoras – silly me, tão facilmente passível de ser distraído por pernas tonificadas saindo de mini mini-saias – eu não olharia duas vezes no Verão.
(Reescrito a partir de uma versão anterior para espicaçar a Ana Vidal.)
Bolas, se tivesse ido aos almoços do Delito já conheceria pessoalmente um membro do governo. Quanto custará uma caixa de robalos?
Vejamos então, da frente para trás para que os nossos cérebros extenuados possam ir suavemente relembrando os gloriosos pormenores do passado recente. Os governos de José Sócrates constituíram o paradigma da teimosia suicida, tendo conduzido o país ao limiar da bancarrota. A curto prazo dificilmente serão ultrapassados em arrogância, miopia, estupidez. O governo de Santana Lopes foi um curto mas intenso concentrado de trapalhadas acerca do qual (e das quais) quanto menos se disser, melhor. O governo de Durão Barroso começou com o discurso certo e, perante a resistência dos poderes instalados e uma comunicação social ignorante e hostil, acabou em desistência e fuga. Os governos de António Guterres aproveitaram a abundância de dinheiro barato proporcionado pela descida das taxas de juros para distribuir benesses e fazer crescer o Estado. Fugiram sempre de qualquer medida que suscitasse pigarreio à oposição ou às corporações (as quais, pelo papel cada vez mais decisivo do Estado na economia, se iam tornando mais fortes) como o diabo foge da cruz (analogia em honra do catolicismo de Guterres que, talvez por causa dele, foi até agora o único a admitir pecados) e acabaram no famoso – mas largamente ignorado – discurso do pântano. Os governos maioritários de Cavaco Silva aproveitaram a abundância de dinheiro europeu para estabelecer o modelo baseado no Estado e nas obras públicas que nunca mais foi possível alterar. Ah, e também o modelo da arrogância, que Sócrates emulou e – no que parecia impossível – melhorou através da injecção de uma dose cavalar de histrionismo. O governo minoritário de Cavaco Silva foi excelente a aproveitar o trabalho do governo anterior (já lá vamos) e as primeiras consequências da entrada na então CEE. O governo de Mário Soares e Mota Pinto enfrentou uma situação de pré-bancarrota com coragem e determinação mas também mais instrumentos do que hoje se encontram disponíveis e um Estado que, por menos pesado (cerca de 36,5% do PIB), gerava menos inércia. O governo de Pinto Balsemão levou o país ao limiar da bancarrota e o melhor que se poderá dizer é que o fez com mais ingenuidade e muitíssimo menos arrogância do que o de Sócrates. O governo de Sá Carneiro e Freitas do Amaral estabilizou o sistema político ao demonstrar que a direita (uma direita muito centrista mas era a possível) podia ocupar o poder. A nível económico, porém, não merece os mesmos elogios, tendo aproveitado a retoma que se seguiu à pré-bancarrota de 1978 para políticas eleitoralistas (sensivelmente o mesmo que Cavaco faria em 1985). Os governos de Maria de Lurdes Pintassilgo, Mota Pinto e Nobre da Costa foram períodos da mais pura e inadulterada confusão política e económica. Por culpas próprias e inevitabilidades dos tempos conturbados que se viviam, os primeiros governos de Mário Soares (em 1978, com apoio parlamentar do CDS), conduziram o país ao limiar da bancarrota. Com os governos de Pinheiro de Azevedo, Vasco Gonçalves e Adelino da Palma Carlos não vale a pena perder tempo, até porque o meu cérebro extenuado foi ficando cada vez mais extenuado, encontrando-se agora tão lento como um computador de 1995 tentando correr o Windows 8. Ou se calhar o Vista. Ou o cérebro de António Guterres tentando calcular uma percentagem do PIB.
Primamos a tecla » de modo a fazer avanço rápido até ao presente e sejamos claros: como tanta gente afirma com admirável convicção, o governo actual é péssimo. Honestamente: péssimo. Usa e abusa dos aumentos de impostos, garante o que devia saber não poder garantir, adia medidas que não devia adiar, tem ministros que não deviam ser ministros há cerca de um ano e melhor seria nunca o terem sido, permite excepções a regras anunciadas como universais, faz reformas tímidas quando pagaria quase o mesmo preço fazendo reformas a sério, permite, por culpa própria, especulação em torno de processos que deviam ser transparentes, etc, etc. E, contudo, sendo péssimo, numa perspectiva de mérito (ou, se preferirem, da relação esforço desenvolvido / dificuldades encontradas), trata-se provavelmente – e ponderei o que vou escrever durante, sei lá, para cima de cinco segundos – do melhor governo que tivemos nas últimas duas dúzias de anos, quiçá em toda a Terceira República. Por mim, apenas o do Bloco Central e o primeiro da AD podem disputar-lhe o lugar. Os restantes ou foram catastróficos ou governaram em tempo de vacas gordas sem pensar no futuro – e assim é fácil. Apesar de todos os seus erros – muitos, enormes –, este é o único desde há décadas que se encontra verdadeiramente a procurar corrigir o modelo de funcionamento da economia portuguesa no sentido da sustentabilidade. Coisa de somenos, está bem de ver, destinada, como a história do pós-25 de Abril amplamente demonstra, ao mais tonitruante aplauso público e retumbante sucesso.
Mas, na realidade, nem precisamos de ficar pelo 25 de Abril. Atendendo a que os governos imediatamente anteriores ao dito também não eram recomendáveis, para encontrar melhor (ou menos mau) teremos de recuar até… até… credo, é demasiado deprimente pensar nisso. Tal como constatar quão repletas de nada as alternativas permanecem, incluam ou não esse estandarte da boa gestão da coisa pública (é o que ouço dizer) chamado António Costa, devidamente acolitado pelos saudosistas do grande flâneur dos boulevards parisienses.
Cuide da saúde. Escolha os transportes públicos e ande a pé.
As soluções de Miguel Relvas eram péssimas. A solução de Paulo Portas mantém o status quo. Parabéns a ambos.
No emprego, enviam-me uma mensagem de correio electrónico com a informação de que algo é “mentira” (assim mesmo, com aspas).
Yes, that was done then, accomplished; and as with all things done, become solemn.
Virginia Woolf, To The Lighthouse.
Será mesmo com todas as coisas? Não haverá por vezes apenas alívio, até um pouco de desprezo? Uff, acabou, não penso mais nisto. Considerem-se, como exemplo, quase todas as tarefas domésticas ou muitas das associadas a qualquer emprego. E, na maioria dos casos em que a solenidade inegavelmente existe – ao terminar algo para que se fica um instante a olhar com orgulho, até uma pitada de estranheza por se ter conseguido chegar a bom porto –, não será ela efémera, depressa substituída por embaraço? Não, afinal ainda não estava pronto, podia ter feito melhor. No fundo, não deverá a solenidade ser conferida por (e lida nos olhos ou escutada nas palavras de) quem, não tendo feito, avalia o trabalho (e – muito importante – se respeita)? Por outras palavras: durante quanto tempo terá Virginia Woolf olhado para a versão final de To the Lighthouse com a solenidade com que eu ainda olho?
Por que é que «mariquinhas» e «coninhas» significam mais ou menos o mesmo?
Fiquei na dúvida se as duas senhoras de sessenta e tal anos que, numa manhã fresca de finais de Maio de 2010, passeavam com um cão (ou passeavam ocão?) nas ruas de Wengen seriam britânicas (pelas feições e sotaque, pareciam) e também se seriam lésbicas (pormenores desse género tendem a passar-me ao lado mas havia qualquer coisa que o sugeria). Em resposta à minha pergunta, uma delas voltou-se e apontou-me na encosta a zona de meta da pista de downhill.
(Fossem ou não inglesas lésbicas, é uma imagem curiosamente aconchegante, a de duas estrangeiras sexagenárias, suavemente apaixonadas uma pela outra, vivendo, na companhia de um cão, mais ou menos exiladas numa fria mas pitoresca povoação situada nas montanhas da Suíça Central. Acho eu. Mas avancemos.)
Fanáticos de futebol não considerariam completa uma primeira deslocação a Madrid sem uma visita ao Santiago Bernabéu. Do mesmo modo, fãs de desporto automóvel não se sentiriam bem dispensando, quando em viagem pela zona Oeste da Alemanha, uma visita ao Nürburgring Nordschleife. Encontrando-me em Wengen e ainda que, tal como sucede com quase todos os indivíduos nascidos e criados junto ao sopé da Serra da Estrela, nem sequer faça esqui (é entretenimento de fim-de-semana para lisboetas e portuenses), eu precisava de saber onde ficava a pista de downhill. Uma das duas mais famosas do mundo (a outra chama-se Streif e é – tinha de ser – na rival Áustria; mais exactamente na montanha Hahnenkamm, em Kitzbühel).
A Lauberhornrennen acontece amanhã de manhã, se o nevoeiro ou a queda de neve não complicarem. Dá no Eurosport às 11:30, com comentários de um senhor bem intencionado mas que diz sempre as mesmas coisas. Antes, às 9:30, com transmissão no Eurosport 2, realiza-se o downhill feminino de Cortina d’Ampezzo, outra pista espectacular (talvez a mais espectacular do sector feminino). E, já agora, dentro de uma semana ocorre o tal outro downhill mítico, na Streif de Kitzbühel, onde em 2008 o americano Bode Miller conseguiu imitar o Keanu Reeves sem recurso a efeitos especiais.