Pontas de nariz


escafandro,

O frio é mais democrático do que o calor. No Verão, os corpos adquirem todos os seus factores diferenciadores. Mulheres e homens comparam-se e, dependendo do resultado obtido, sentem vontade de sorrir em triunfo ou de se esconderem no ralo do passeio mais próximo. Uma mulher atraente conhece o efeito que as suas (dela, caro leitor do sexo masculino, dela) pernas tonificadas saindo de uma mini mini-saia exercem em homens heterossexuais e em mulheres com pernas menos tonificadas (oh, se conhece) e sente-se muito bem com isso (oh, se sente). O Verão faz-nos atingir os píncaros da vaidade e do egoísmo. (Disclaimer: as frases anteriores não significam que o autor destas linhas, doravante designado por autor destas linhas, seja incapaz de apreciar os meses de Verão, em especial quando mulheres atraentes com pernas tonificadas saindo de mini mini-saias andam nas suas redondezas, por doloroso que tal circunstância às vezes seja; o autor destas linhas está até disponível para admitir ser este o único tipo de masoquismo que aprecia.) Já durante o Inverno, enterradas em dezassete camadas de roupa grossa, as diferenças esbatem-se: existem muito menos factores diferenciadores entre pontas de nariz enregeladas, espreitando de golas, garruços, cachecóis e protectores de orelhas, do que entre pernas tonificadas saindo de mini mini-saias. No Inverno, encontramo-nos também disponíveis para um maior grau de empatia: sabemos o que as outras pessoas estão a sentir e sabemos que é exactamente o mesmo que nós próprios estamos a sentir. Acredito que algumas mulheres atraentes (e homens, que hoje em dia os há preocupados com cada coisa) encarem como um desperdício trazerem um corpo tão bem torneado por baixo de tanta roupa, não podendo assim esfregá-lo na cara das outras pessoas (imagem não-literal, embora passível de gerar efeitos literais). Poderá até ser por isso que muitas afirmam detestar o Inverno (aproveito para confessar que, levando em conta as demonstrações de sangue quente que as caracterizam, nunca percebi por que motivo as mulheres sofrem mais com o frio do que os homens) e que algumas procuram contrariar o poder do termómetro e manter bem visíveis as pernas tonificadas e todos (enfim, quase todos) os restantes argumentos que a genética e/ou dezenas de horas de ginásio lhes concederam, quanto mais não seja através de uma curiosa moda actual que consiste em usar uma espécie de collants grossos sem saia ou calças por cima (como, para mais, são usados com botas de cano alto, uns calçõezinhos tufados e, voilá, estaríamos perante a moda masculina do século XVI). Seja como for, mais leggings, menos leggings (é o nome certo, certo?), quase todos os assomos de vaidade são levados pela primeira rajada de vento cortante que obrigue a meter as mãos debaixo dos braços e bater com os pés no chão. (Fica difícil manter a altivez enquanto, mãos enfiadas debaixo dos braços, se bate com os pés no chão; quem não acreditar, que experimente em frente a um espelho.) O que nos traz de volta à questão da igualdade entre pontas de nariz. Colocando a coisa de modo tão directo e politicamente incorrecto quanto, com os dedos enregelados como estão (é segunda-feira de manhã e o aquecimento ainda não está ligado), consigo pôr: há por aí uma enorme quantidade de atraentes pontas de nariz femininas para cujas possuidoras – silly me, tão facilmente passível de ser distraído por pernas tonificadas saindo de mini mini-saias  – eu não olharia duas vezes no Verão.

 

(Reescrito a partir de uma versão anterior para espicaçar a Ana Vidal.)

5 comentários em “Pontas de nariz”

  1. Isso agora depende. Se os sem-abrigo se vêem á rasca com o frio, porque não nos veremos nós?

  2. Eu explico-lhe porque é que as mulheres têm mais problemas com o frio. Não tem nada a ver com o sangue, mas com a massa muscular. Quanto mais massa muscular possuimos, mais calorias queimamos, isto é, mais calor produzimos. Como as mulheres, por razões anatómicas, têm menos massa muscular que os homens (salvaguardadas as exceções), queimam menos calorias e têm mais frio.

    Um excelente texto, que li com um sorriso no rosto 😉

  3. Andam todos atrás do mesmo, sejam eles, sejam elas, e os quem não andam, tende misericórdia de suas simples almas(é pouca ou nenhuma).
    Hoje, no presente, os valores estão numa bolsa, numa bolsa que esta no mercado. Lógico fica que quando a tal nos prestamos – vale tudo; desde um bronzeado até uma caixa cheia de merda ou mesmo de nada. Tudo é um negocio e no final se faz com pouco e muitas vezes com nada, porque seja como for o que se quer é ganhar. O prémio, entre muitas formas, a mais cobiçada é em dinheiro, de preferencia muito e sem trabalhar, mas do qual ningém possa duvidar.
    Podia continuar, mas para quê?
    -Não há espelho que mostre a vaidade e a luxuria aos olhos de quem vive infectado com ela.

  4. Mas eu concordo absolutamente contigo, Jaa! Prefiro, de longe, paisagens tonificadas a cumes enregelados e fungosos. Quem não achava o mesmo era a Agatha Christie: o nosso amigo Poirot desvendou um crime (Morte no Nilo, se não me engano) partindo da tese de que “todos os corpos nus se assemelham”. Mas o homenzinho sofria, evidentemente, de excesso de células cinzentas e de falta de testosterona.

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