Porto, 2004.
Fotografias tiradas por aí (136)
escafandro,
Seis milhões de portugueses reagem mal a descontos.

S. Pedro da Afurada, 2004.
Os Low (Mimi Parker e Alan Sparhawk, casados, mórmones, dois filhos, desde há uns anos acompanhados pelo baixista Steve Garrington) são uma paixão de meia dúzia de pessoas. Enfim, meia dúzia e eu. No início da carreira, ainda em plena onda grunge, a sua música lenta, embora intensa, foi muitas vezes mal recebida em concerto. Diz-se que eles reagiam reduzindo o nível da amplificação. Mais tarde introduziram algumas variações de ritmo e, desde Trust, de 2002, quase todos os álbuns incluem temas mais… hmmmm, digamos animados, com destaque para The Great Destroyer, de 2005, onde se encontra uma das (é verdade que muitas) canções da minha vida: When I go deaf (abaixo, em actuação ao vivo; aqui, em versão de estúdio, com melhor som de forma a nenhuma palavra ficar pelo caminho). No último álbum, The Invisible Way (single acima), Mimi canta mais do que é habitual mas isso está longe de ser um ponto negativo. A qualidade mantém-se.
Percorremos as ruas sem vermos as pessoas. Delineamos trajectórias pelos passeios de modo a contorná-las. Irritamo-nos quando elas, parecendo não se aperceber da nossa presença, bloqueiam a trajectória que definíramos. Mostramo-nos apressados e olhamos em frente quando passamos por pedintes ou por adolescentes fazendo inquéritos. Se assistimos a uma discussão ou a um acidente de automóvel, recusamos intervir ou ser testemunhas. Não queremos «envolver-nos» nos problemas alheios. Somos o nosso mundo, ameaçado por todos os lados pelos seus próprios problemas.
Na maior parte do tempo não sou excepção. Mas sou-o quando caminho pelas ruas com uma máquina fotográfica na mão ou pendurada ao pescoço. Em grande medida, aprecio a fotografia de rua porque ela me força a olhar para as pessoas. Mesmo que, hoje em dia, muitas não gostem que reparem nelas (excepto se for a televisão a fazê-lo, suponho; toda a gente parece desejar aparecer na televisão). A primeira reacção é, cada vez mais, de desagrado. Até certo ponto, percebo-a: quando um desconhecido nos aponta uma câmara a pergunta que surge é, inevitavelmente, «porquê eu?». Algo de peculiar se deve ter para nos quererem fotografar. Mas não. Não é a diferença que desejo fotografar. Pelo contrário. É o factor mais comum a toda a gente: a humanidade. O cenário, o enquadramento, a cor ou os jogos de luz e de sombra são apenas formas de a realçar.
(Publicado originalmente aqui.)
People who don’t have a past are the most fervent picture takers (…). Everyone who lives in an industrialized society is obliged gradually to give up the past.
Susan Sontag, On Photography.
Olho para estas frases uma e outra vez e penso no passado. No meu passado. Não me é fácil visualizá-lo. Ou melhor: não me é fácil visualizar momentos marcantes, que possam constituir verdadeiramente um passado. Há uma sensação, mais do que um conjunto de acontecimentos. (Terei vindo a apagar os acontecimentos deliberadamente e, se sim, porquê?) Não foi um passado rico – longe disso – mas também não foi especialmente pobre. Tive doenças mas não doenças graves. Houve momentos infelizes mas, fora dois ou três, tenho que fazer um esforço para me recordar deles. Na realidade, tenho que fazer um esforço para me lembrar de quase tudo. Não tenho sequer a certeza se foi um passado feliz, se infeliz. Foi um passado anónimo, apesar de ter sido – de ser – o meu. (Tavez isso seja bom: nem sempre a existência de momentos marcantes é um factor positivo.) De certa forma, o passado é para mim uma incógnita quase tão grande quanto o futuro. Pessimista e português que sou, é frequentemente para ele que olho em busca de momentos de esperança mas não tenho a certeza de os encontrar. Talvez Sontag tivesse razão. Por algum motivo gosto tanto de fotografias. Por alguma razão tiro tantas. Não exactamente a mim mas aos sítios por onde passo e às pessoas com quem me cruzo. As fotografias são uma confirmação de que algo aconteceu. São um substituto de memória. Ou os alicerces para a construção de uma. (São também outras coisas mas isso fica para uma próxima oportunidade.) Porque o conforto da velhice, não podendo já ser os sonhos para o futuro nem, muitas vezes, o conforto do presente, é o passado. Daqui a três ou quatro décadas espero poder olhar para as fotografias e confirmar a existência de momentos com interesse. Se as falhas e incertezas humanas, que ainda se vão sobrepondo aos avanços da tecnologia, não me traírem. Porque pode acontecer que, nessa altura, olhe para as fotos e nem sequer reconheça o que nelas vejo.
(Publicado originalmente aqui.)
Um estudo da GfK indica que em 2012 se vendeu menos um milhão de livros em Portugal do que no ano anterior. Dificilmente alguém ficará surpreendido. Embora a crise force muita gente a permanecer mais tempo em casa, os livros estão caros, têm forte concorrência (telemóvel, cinema, TV por cabo, internet) e, não obstante as ilusões de quem gosta deles, dificilmente podem ser considerados bens de primeira necessidade. No que me diz respeito, tenho a sorte de ainda não ter sido forçado a comprar menos. Nem por isso editoras, gráficas e livrarias portuguesas mantiveram o nível de rendimentos que tradicionalmente obtinham comigo. Uma contagem rápida e aproximada (não anoto datas de compra) permitiu-me determinar que, desde o início de 2011, adquiri cerca de cento e setenta (há ainda os do kindle mas estes foram quase todos gratuitos ou a menos de cinco dólares). Dos cento e setenta, as editoras e livrarias portugueses venderam-me pouco mais de quarenta, metade dos quais em saldo. Numa inversão de hábitos (até 2011 fizera questão de privilegiar as edições nacionais), comprei os restantes em edição estrangeira, através da internet (quase todos na Amazon britânica). Porquê? Obviamente, por causa do acordo ortográfico. Não comprei nem – já o afirmei várias vezes – faço tenções de comprar nos próximos anos um único livro cuja edição lhe siga as regras. Who cares?, perguntarão alguns. (Peço desculpa pelo uso do inglês mas os hábitos vão-se instalando.) Pois, talvez seja irrelevante. Sou apenas um cliente. Perder um cliente e uma centena de vendas em dois anos e meio é capaz de não ser grave, mesmo em tempos de crise. A não ser que a crise não explique uma parte relevante do tal milhão de exemplares vendidos a menos. Se existirem mais novecentas e noventa e nove pessoas como eu, a crise não pode ser responsabilizada por várias dezenas de milhares dessas vendas perdidas. E bastará que, em resultado do acordo, vinte mil pessoas tenham comprado menos dez livros cada uma em 2012 para que a crise apenas represente uma quebra de oitocentos mil exemplares. Quem pode ter a certeza? Não eu – mas continua a parecer-me má ideia alienar clientes em época de crise económica.
Enfim, signifique a implementação do acordo uma quebra de quarenta ou cinquenta exemplares por ano (os que eu compro a menos) ou de várias centenas de milhares, uma coisa posso acrescentar – e muitos não gostarão das linhas que se seguem mas a intensidade da minha opinião é clara desde há bastante tempo: notícias sobre editoras em dificuldades apenas me causarão pesar se as atingidas estiverem entre as poucas que continuam a resistir; notícias sobre livrarias forçadas ao encerramento levar-me-ão (ou levam-me, porque já são uma realidade) a encolher os ombros. A forma como quase todo o mundo editorial português foi cúmplice desta reforma de mangas-de-alpaca, renegada ou adiada em todos os países de língua portuguesa excepto aquele onde ela nasceu, torna certas consequências merecidas. Ou, no mínimo, a encarar com a falta de boa vontade inevitável nos escorraçados.
Demasiado duro? Está bem, acabo com uma nota positiva: para além de ser bastante melhor ler as obras no original (e uma tradução para inglês não é necessariamente pior do que uma tradução para português), a implementação do acordo permitiu-me melhorar a leitura do francês e descobrir que consigo ler espanhol. Pelo que se calhar até devia estar agradecido a quem mo impôs. Obrigadinho. Ou melhor: thanks; merci; gracias.
Adenda
Obviamente, irei comprar este livro – e ainda hoje. Parabéns, Pedro.
A opinião mais sensata é aquela com que quase todos concordam, a mais gratificante – e intrinsecamente mais inteligente – é aquela de que quase todos têm dificuldade em discordar.
Ela diz que que um chulo vai lá almoçar, e também um traficante de droga, ambos em plena luz do dia. Apontou-mos, com muitos sussurros excitados. O chulo vestia um fato de três peças e parecia um corretor da bolsa. O traficante de droga tinha um bigode cinzento e roupa de ganga, como um sindicalista dos velhos tempos.
Margaret Atwood, O Assassino Cego. Tradução minha.
Isto admitindo que, por entre a contestação de funcionários públicos e pensionistas, os recursos para o Tribunal Constitucional e a má vontade de uma fracção do próprio governo, o discurso é para levar a sério. A «redefinição das funções do Estado» está longe de ser óbvia mas convenhamos que parte da utilidade do conceito é prolongar os debates, adiando o momento em que se faz realmente alguma coisa.
Há seis milhões de portugueses que hoje nem ele conseguirá fazer deixar de sorrir.
Zona vermelha vai adquirir outro significado. E provavelmente ganhar má fama.
O termo deriva do nome do primeiro-ministro japonês eleito em Dezembro passado, Shinzo Abe. Tentando contrariar duas décadas de marasmo da economia, afogada em dívida e deflação, presa a um iene demasiado forte para os interesses das empresas locais (quase todos os grandes grupos japoneses têm apresentado prejuízos e perdido terreno para os seus congéneres coreanos e chineses), Abe propõe-se aumentar a concorrência em sectores até agora protegidos (a energia, três vezes mais cara do que na Coreia do Sul, é fornecida em regime de quase monopólio por um conjunto de empresas regionais; existem barreiras à entrada de produtos agrícolas, sendo os agricultores o grupo que mais contesta a eventual adesão do país à Parceria Trans-Pacífico), bem como aplicar um conjunto de medidas radicalmente expansionistas, das quais se destacam um estímulo fiscal de 107 biliões de dólares e uma atitude mais interventiva por parte do Banco do Japão – cujo novo presidente, Haruhiko Kuroda (uma escolha de Abe), anunciou há cerca de um mês pretender comprar 70% de todos os novos títulos de dívida pública e duplicar o dinheiro em circulação no prazo de dois anos. Abe tem ainda pedido às empresas privadas para aumentarem salários mas sem grande êxito.
Como seria de esperar, Paul Krugman aplaudiu. Outros economistas da escola keynesiana também. Naturalmente, há vozes menos entusiásticas, algumas das quais afirmam que o Japão apenas acelerou o trajecto para a bancarrota. Veremos. Para já, tanto os mercados como os empresários locais estão satisfeitos. Desde Novembro, o iene desvalorizou cerca de 25% em relação ao dólar e o índice Nikkei subiu mais de 50%. Mas estas eram reacções expectáveis. Primeiro pela tão falada questão da psicologia dos mercados. Depois por quase ainda não se ter saído da fase da retórica. Finalmente porque, a existir, a factura demorará algum tempo a chegar. Seja como for, não obstante todas as particularidades da situação japonesa (deflação, mais de 90% da dívida detida internamente, capacidade de inovação de muitas empresas, diferenças culturais que se reflectem na preferência por produtos nacionais, forte possibilidade de atritos políticos e comerciais com a China, etc.), trata-se de uma experiência que outras partes do mundo, igualmente atoladas em dívida (e, no caso europeu, com assimetrias difíceis de gerir no quadro de uma moeda única), acompanharão com interesse. Seja para acabarem cedendo às vozes dos que nelas desejam fazer o mesmo (e entenda-se por «o mesmo» a parte pública e expansionista do plano, não a da liberalização de mercados), seja para validarem a posição oposta e aproveitarem os fluxos de capitais em fuga.
Dois artigos sintéticos sobre o assunto: um do Economist (razoavelmente entusiasta), outro da edição em inglês da Der Spiegel (razoavelmente neutro). Numa espécie de comentário à discussão sobre o estado da imprensa portuguesa que, entre outros colaboradores e vários comentadores do Delito, a Patrícia Reis e o João Campos tiveram mais abaixo (1, 2), devo dizer que encontrei muito pouca informação sobre este assunto nos sites dos principais jornais portugueses (a excepção será o Jornal de Negócios mas num artigo para assinantes).
Imagem daqui, através do Bing.