Interferência (a propósito de tudo)


escafandro,

pois os pensamentos, sejam quais forem os aspectos positivos que possam enunciar-se a seu respeito, têm uma grande fraqueza, nomeadamente, que dependem de uma certa distância para efeito. Tudo o que se encontra no interior dessa distância está sujeito às emoções.

Karl Ove Knausgaard, Min Kamp 1 (A Death in the Family). Tradução minha a partir da versão inglesa. (Não faço promessas, que me deixam irritadiço, mas tentarei voltar a Knausgaard num dos próximos dias.)

Tudo correrá bem


escafandro,

Depois de andar a fazer voz grossa durante um par de semanas, Nuno Crato cede aos professores e mostra que nem sob intervenção externa o Estado português é reformável. A Troika percebe-o e, porque se não vai pelo anafado sector público, tem que ir pelo esganado sector privado, avança as propostas de diminuir o salário mínimo e cortar ainda mais nas indemnizações por despedimento. O Ministro das Finanças também o percebe e demite-se. Que a sua substituta esteja debaixo de fogo por causa dos contratos swap e não tenha peso no universo político interno nem no universo financeiro externo é, numa visão global das coisas, quase irrelevante.

A estranha surpresa


escafandro,

O texto que Helena Sacadura Cabral colocou no Delito há três dias pertence a uma categoria de textos que me confunde não pela informação apresentada, não pelas conclusões a que esta permite chegar, mas pela estranheza que os autores parecem revelar (e muitos leitores partilhar) perante uma e outras. É evidente que os governos alemão e francês quiseram dar tempo aos seus bancos para estes minimizarem a exposição à dívida dos países periféricos e, em particular, à dívida grega. Antes de qualquer outra, era obrigação dos governos alemão e francês protegerem as suas instituições, as suas economias, os seus cidadãos. Pode discutir-se se escolheram o modo mais eficaz de o fazer (os alemães, que são quem tem de avaliar a acção de Merkel, parecem achar que sim; há um ano, os franceses, que eram quem tinha de avaliar a acção de Sarkozy, pareceram achar que não e hoje parecem não saber o que pensar) mas é absurdo estranhar que tenham agido com tal motivação. Nenhum líder nacional, ainda que dentro de uma «união» de países «amigos» como a União Europeia, deverá defender os interesses de outras nações, expressos directamente ou por interpostas entidades, a não ser que coincidam com os interesses da sua própria.(*) Mais absurdo do que achar ilógico ou criminoso que Merkel tenha subalternizado os interesses dos gregos aos interesses dos alemães, só mesmo fazê-lo logo após recordar-lhe que não foi eleita pelos primeiros.

 

Assente este ponto, poder-se-á discutir se a reacção dos vários governos foi (é) a que melhor serviu (serve) os interesses das respectivas populações. E aqui, sim, há ampla margem para debate, discordância e estranheza. Por exemplo: teria um default grego, com subsequente colapso dos bancos alemães e franceses e quase inevitável desmembramento do euro, sido melhor para a Grécia? Ou: teria sido melhor para Portugal recusar o plano da Troika, anunciar um default que atingiria essencialmente instituições nacionais e acabar fora do euro? Ou ainda: é hoje do interesse da Alemanha avançar com as medidas de estabilização de mercados (a união bancária, os eurobonds) e de estímulo ao crescimento económico? Mas debatamos conscientes de que, por mais instituições e burocratas que amontoemos em Bruxelas, com esse pudim flan designado «Comissão Europeia» à cabeça, a União Europeia não é uma federação. (E ainda que fosse: há diferenças de rendimento gritantes entre estados de federações e até a reunificação alemã, processo interno de um único país, esteve longe de ser rápida ou indolor.) Debatamos conscientes de que o conceito de solidariedade faz pouco sentido, uma vez que a solidariedade ou é voluntária ou não é solidariedade; nenhum governo (como nenhum povo) pode forçar outros à solidariedade. Pensemos em termos de interesses. Os nossos. Os dos gregos. Os dos alemães. Os comuns. Tudo fará mais sentido, muitas desilusões serão evitadas e quiçá a economia até passe a funcionar melhor.

 


(*) É por isto que a «narrativa» que por aí corre tentando sacudir a responsabilidade da bancarrota portuguesa para os ombros da Comissão Europeia, devido às opções que esta defendeu na sequência da crise financeira de 2008, não convence: o governo português (como o grego, como o espanhol, como até o italiano e o francês) deveria ter percebido não possuir margem para fazer disparar défice e dívida; deveria ter percebido que era mantendo-os em valores razoáveis que melhor servia os interesses dos portugueses. O governo português (como o grego, como o espanhol, como até o italiano e o francês) seguiu entusiasticamente a opinião da Comissão Europeia porque era um mau governo, actuando num mundo onírico onde as fontes de dinheiro nunca secariam.

Um ódio dos últimos meses


escafandro,

Girl on fire, de Alicia Keys. Ainda que voluntariamente não ouça as estações de rádio onde o tema passa mil oitocentas e quarenta e nove vezes por dia, apanho o irritante refrão em todo o lado. Cheguei a pensar que vários bombeiros depressa procurariam apagar o fogo que consome a pobre rapariga [introduzir aqui piada sobre mangueiras compridas] mas depois percebi que, para um bombeiro, o refrão se confunde com o ruído da sirene, estando provavelmente a tentar descobrir-se em todas as corporações do país que filho da mãe está a fazer soar o alarme e a deixar o pessoal exausto de tanto correr para o quartel (felizmente para as nossas florestas, Junho tem sido fresco e chuvoso). Perdida essa esperança, limito-me agora a aguardar que o incêndio se extinga por falta de combustível. Mas nem Joana d’Arc aguentou tanto tempo.

Da greve dos professores


escafandro,

Sendo favorável à existência de um sistema público de ensino (e, mais ainda, de um sistema público de saúde), momentos como o actual fazem-me pensar que, tal como sucede noutros sectores (as empresas públicas de transportes, por exemplo), os inconvenientes podem afinal superar as vantagens. As medidas propostas pelo governo não são simpáticas (nunca o poderiam ser) e algumas talvez nem sejam justas. Mas – sabemo-lo há mais de uma década – o Estado tem de cortar na despesa e o sistema de ensino, com uma relação professores/aluno acima da média europeia (e, sim, eu sei que há mil e uma justificações para tal, todas dignas de reformas que as façam desaparecer), não pode ficar de fora dos cortes. Por outro lado, também no sector privado há centenas de milhares de trabalhadores insatisfeitos com decisões do seu empregador. Trabalhadores que, como os professores, viram os seus rendimentos diminuir e que, como os professores, receiam vir a perder o emprego (nem vale a pena mencionar os que já o perderam). E, contudo, não fazem greve. Porquê? Porque sabem que apenas se prejudicariam a eles mesmos; porque sabem que os contribuintes não salvarão a sua empresa. Revoltados ou resignados, essas centenas de milhares de trabalhadores estão a ajudar o país a sair da crise. Os professores (que gostam de afirmar ser a educação fundamental para atingir tal objectivo) necessitam de decidir se querem juntar-se-lhes ou continuar a exigir-lhes que paguem a factura. Mais importante: necessitam de pensar nos alunos que tiveram à frente durante nove meses e decidir se a luta, nos termos em que a delinearam, compensa sacrificá-los. Ainda por cima, provavelmente para nada. Os professores (ou, para ser mais preciso, os sindicatos dos professores) jogaram forte, ao escolher a data da greve. Mas talvez não tenham avaliado bem (ironias…) a firmeza do governo e as consequências deste não ceder. A perturbação de Mário Nogueira, na sexta-feira à tarde, ao sair da reunião no Ministério da Educação, mostra como os sindicatos estão conscientes de que, amanhã, e ainda que a greve tenha adesão elevada, poderão ter jogado a cartada mais forte sem outros resultados práticos que não alienar parte da opinião pública. O que farão a seguir? Boicotar outros exames? Nuno Crato e o governo parecem ter entendido que não podiam ceder. Ficaria tudo em causa: as reformas na Educação e em todos os outros sectores. Até onde estão os professores dispostos a ir?

Da data das autárquicas


escafandro,
Claro que PSD e CDS preferem que as eleições autárquicas estejam despachadas antes da apresentação do Orçamento de Estado para 2014. E claro que os partidos da oposição prefeririam uma data posterior à sua apresentação, na esperança do governo lhes fornecer argumentos extra para a campanha. Mais importante no caso do PS: de modo a não existir a mínima hipótese de ter que discutir seriamente o orçamento. É este ponto que faz com que a decisão de as marcar para Setembro seja a correcta. Tanto os partidos da oposição como os eleitores possuem argumentos mais do que suficientes para a campanha (haverá alguém que precise do orçamento de 2014 para decidir uma posição?) e a demagogia extra que qualquer campanha arrasta consigo é perfeitamente dispensável durante o debate orçamental. O nível habitual de demagogia (i.e., ligeiramente abaixo do patamar atingido este fim-de-semana por António José Seguro) bastará.

Filosofia da velocidade


escafandro,

Há exactamente uma semana, o jornal Chicago Sun-Times, que teve entre os seus colaboradores o recentemente falecido crítico de cinema Roger Ebert, anunciou o despedimento de todos os fotógrafos do quadro, alegadamente por pretender dedicar mais atenção ao vídeo e, por conseguinte, ao online. Passará a recorrer a freelancers e propõe-se dar formação aos repórteres no uso do iPhone. É incrível como os jornais ainda não perceberam que serão incapazes de sobreviver reduzindo a qualidade do produto que oferecem. Um jornal, em papel ou na net, tem de fazer a diferença em relação aos blogues, ao Facebook, ao Twitter, pela fidedignidade da informação, pela profundidade das análises, pelo carácter profissional dos textos e das imagens. Não tem que cobrir tudo mas tem que cobrir bem. Não pode resignar-se a ser um banco de sound bites (para isso há os blogues) nem de vídeos (para isso há a televisão, com melhores meios e pessoal infinitamente mais bem preparado). Tem que apontar a um público exigente, ainda que isso signifique um enorme risco a curto prazo. Mais: tem que ajudar a formar esse público exigente, aumentando o número de consumidores potenciais. Quase todos os jornais têm feito o oposto. E, no entanto, há exemplos de publicações que obtiveram bons resultados sem sacrificar a qualidade: em 2010, as vendas do The Economist estavam a subir; em 2012, as vendas da The New Yorker também. Quando o lixo se encontra por todo o lado, existe mercado para a qualidade.

Há meia dúzia de anos, por alturas do lançamento do seu livro The World From My Front Porch, o fotógrafo Larry Towell (espreitem os álbuns que vale a pena) afirmava:

I just don’t shoot digital. I won’t. I like film. Photographers today have to compete. If a picture is six hours old, it’s too old to use. If you look at the coverage of the tsunami you can go on to any of the websites and there’s a catalogue there of 400 photographs all taken in the past 30 minutes for you to look through. And none of them will stay with you. They’re just news pictures. They’re not even good news pictures.

They’re nothing — they don’t have any meaning. There’s no time put in them, no thinking that’s put into them and when there’s no time and no thinking put into still photography or into photojournalism what does that say?

I think that’s damaging, and I think it also it destroys the notion that photography is reflective, that it’s about history, that it’s about self-contemplation. And it’s all being replaced by a sort of philosophy of speed which is only of fleeting significance. I think the news is killing journalism.

Desconheço se entretanto Towell se converteu ao digital e a sua opinião constituirá um exagero (ainda hoje certas fotografias permanecem na memória) mas ele estará tão mais perto de ter razão quanto mais jornais e revistas imitarem o Chicago Sun-Times. E descobrirem que não valeu a pena.

 

(Foto de Larry Towell, da série sobre os menonitas.)

Notas de viagem: perder a inocência sem perder a alma


escafandro,

Sábado, 25 de Maio, à noite. Nos ecrãs do comboio que liga o aeroporto de Estocolmo à cidade, informa-se – em inglês – que grupos de «pais» patrulham as ruas dos bairros onde se têm verificado confrontos e que o acto recebeu elogios da polícia. Porque os fait divers são hoje tão importantes como as notícias «sérias» (com a necessidade de escape que parecemos ter, é possível que até sejam mais importantes), a notícia seguinte é acerca de um acidente rodoviário causado por uma fêmea de alce que decidiu dar à luz no meio de uma estrada.

Domingo, 26 de Maio, à tarde. A campa de Olof Palme encontra-se numa pequena praça situada a menos de duzentos metros do local onde ele foi assassinado, ao regressar do cinema com a mulher. É uma praça rectangular, com uma igreja rodeada por um pequeno cemitério. Quase todas as campas têm cruzes mas não a dele. A dele tem uma pedra. É uma campa bonita. Foi vandalizada, há uns tempos, com graffiti. Não consigo lembrar-me se, desde a morte de Palme, mais algum líder europeu de uma nação em paz foi assassinado. Certamente o último caso não poderá ter sido aqui, num país rico, evoluído, tolerante.

Quarta-Feira, 29 de Maio, ao fim da tarde. O Mercado de Peixe é um dos pontos de interesse da cidade de Bergen, na Noruega. Porém, como muitos outros locais em países desenvolvidos, trata-se hoje de uma área para consumo turístico. Há bancadas ao ar livre, cobertas por toldos, onde são preparadas refeições na hora. Numa delas, uma rapariga sorridente responde ao inglês com castelhano. Explica que é uma de duas espanholas a trabalhar naquela banca e que entre os colegas estão um italiano, uma francesa, dois brasileiros e uma uruguaia. Nos países desenvolvidos não apenas as tradições foram convertidas em atracções turísticas como, ainda por cima, são mantidas por imigrantes.

Sexta-Feira, 31 de Maio, ao fim da tarde. Do lado de dentro do balcão do McDonald’s de Aker Brygge, em Oslo (Aker Brygge é uma zona nova, de prédios de vidro e metal, com bares e restaurantes e passadiços junto à água), encontram-se três jovens de pele negra, um que parece indiano ou indonésio, e uma rapariga com traços que lembram os nativos da América Latina. Cabeças louras apenas do lado de fora do balcão.

Sábado, 1 de Junho, à tarde. Na estação de metro de Majorstuen, em Oslo, cinco rapazes de quinze ou dezasseis anos e aparência sul-americana envolvem-se numa discussão com um rapaz de aproximadamente vinte, alto e louro. Não percebo quem começou nem porquê mas o incidente só não descamba em violência física porque a acompanhante do rapaz louro – tão loura quanto ele – se interpõe. Seguem todos pela plataforma em direcção à saída, trocando frases em tom agressivo.

 

Em qualquer das três cidades (Estocolmo, Bergen, Oslo), é notório o elevado número de pessoas com ascendência noutras paragens – em África, na América Latina, no Extremo Oriente. Pessoas habituadas a temperaturas de trinta e tal graus, forçadas a suportar menos dez ou menos vinte (no Inverno; agora andam pelos dezoito, dezanove e está-se bem), ocupando os empregos a que os nórdicos já não precisam de se submeter. Em teoria, os imigrantes são bem tratados. Estes são países com leis evoluídas. Mas com que olhos verão os imigrantes – e em especial os filhos dos imigrantes – as diferenças de rendimento? Não será a pobreza (ainda que relativa, tão inferior à que experimentariam nos países de origem que talvez o termo nem faça sentido) uma condição especialmente frustrante quando se está rodeado por gente rica (e, ainda por cima, atraente)? E depois há a reacção dos nórdicos. Gostamos de pensar neles como tendo uma mentalidade aberta, tolerante, progressista. É uma visão demasiado benigna mas comecemos por algo que sucede em todos os países onde os imigrantes preenchem os tais empregos que os autóctones recusam (logicamente, uma vez que dispõem de melhores alternativas): a presença deles, que a cor da pele e os hábitos culturais tornam indisfarcável, constituiu uma acusação silenciosa (ainda que injusta) de egoísmo. São um lembrete constante de que o igualitarismo é sempre mais teórico do que real (mesmo em países que se orgulham dele), de que, por mérito ou por sorte (normalmente por uma mistura dos dois factores), há sempre privilegiados. Na nota inicial de Child Wonder, um dos livros de autores nórdicos contemporâneos que enfiei no Kindle para a viagem, o norueguês Roy Jacobsen escreve: Os meus heróis são crianças. Crianças corajosas, lutadoras. Crescendo numa área de operários nos arredores de Oslo no início dos anos sessenta – uma época de confusão, excitação e experiências sociais violentas. Antes do petróleo. Antes de alguém ter qualquer dinheiro. Quando um estado social social-democrata não passava de uma ideia vaga e desesperada, pouco condizente com a sociedade noveau-riche que produziu em poucas décadas. Esta foi uma mudança tão abrupta, radical e inédita na história da Noruega que tudo o que resta é uma nostalgia ambígua e histórias reais acerca desse eterno assunto: como perder a inocência sem perder a alma. Este romance é dedicado àqueles miúdos que conseguiram. E aos que não conseguiram. Amo-os a todos. (Tradução minha, a partir da versão em inglês.) A memória dos anos de penúria continua presente e assusta ou, pelo menos, confunde. Das tramas dos policiais de Henning Mankell aos recentes motins em Estocolmo, passando pelo assassinato de Palme e pelos resultados eleitorais de alguns partidos extremistas, abundam indícios de que, no instante em que nível de vida actual ficar em risco, todo o cosmopolitismo se desvanecerá. Sendo que, mesmo agora, uma época de riqueza e abertura, uma época em que a cada instante nos cruzamos com casais homossexuais nas ruas, certas diferenças continuam a assustar muita gente. Afinal, foi em Oslo que, faz este mês dois anos, um fanático assassinou dezenas de pessoas em nome da ideia da separação cultural.

 

Quarta-feira, 29 de Maio, à noite. No exterior da sala de espectáculos Edvard Grieg, em Bergen, um grupo de jovens diverte-se bebendo cerveja e dançando o Charleston. Observo-os durante alguns minutos. Mais tarde, ocorrer-me-á que os roaring twenties, a década em que o Charleston esteve na moda, foram seguidos pela Grande Depressão e pela Segunda Guerra Mundial; mas, no momento, o ambiente de descontracção nem me leva a reparar na cor do cabelo deles.

 

Na foto: a campa de Olof Palme.