Notas de viagem: perder a inocência sem perder a alma


escafandro,

Sábado, 25 de Maio, à noite. Nos ecrãs do comboio que liga o aeroporto de Estocolmo à cidade, informa-se – em inglês – que grupos de «pais» patrulham as ruas dos bairros onde se têm verificado confrontos e que o acto recebeu elogios da polícia. Porque os fait divers são hoje tão importantes como as notícias «sérias» (com a necessidade de escape que parecemos ter, é possível que até sejam mais importantes), a notícia seguinte é acerca de um acidente rodoviário causado por uma fêmea de alce que decidiu dar à luz no meio de uma estrada.

Domingo, 26 de Maio, à tarde. A campa de Olof Palme encontra-se numa pequena praça situada a menos de duzentos metros do local onde ele foi assassinado, ao regressar do cinema com a mulher. É uma praça rectangular, com uma igreja rodeada por um pequeno cemitério. Quase todas as campas têm cruzes mas não a dele. A dele tem uma pedra. É uma campa bonita. Foi vandalizada, há uns tempos, com graffiti. Não consigo lembrar-me se, desde a morte de Palme, mais algum líder europeu de uma nação em paz foi assassinado. Certamente o último caso não poderá ter sido aqui, num país rico, evoluído, tolerante.

Quarta-Feira, 29 de Maio, ao fim da tarde. O Mercado de Peixe é um dos pontos de interesse da cidade de Bergen, na Noruega. Porém, como muitos outros locais em países desenvolvidos, trata-se hoje de uma área para consumo turístico. Há bancadas ao ar livre, cobertas por toldos, onde são preparadas refeições na hora. Numa delas, uma rapariga sorridente responde ao inglês com castelhano. Explica que é uma de duas espanholas a trabalhar naquela banca e que entre os colegas estão um italiano, uma francesa, dois brasileiros e uma uruguaia. Nos países desenvolvidos não apenas as tradições foram convertidas em atracções turísticas como, ainda por cima, são mantidas por imigrantes.

Sexta-Feira, 31 de Maio, ao fim da tarde. Do lado de dentro do balcão do McDonald’s de Aker Brygge, em Oslo (Aker Brygge é uma zona nova, de prédios de vidro e metal, com bares e restaurantes e passadiços junto à água), encontram-se três jovens de pele negra, um que parece indiano ou indonésio, e uma rapariga com traços que lembram os nativos da América Latina. Cabeças louras apenas do lado de fora do balcão.

Sábado, 1 de Junho, à tarde. Na estação de metro de Majorstuen, em Oslo, cinco rapazes de quinze ou dezasseis anos e aparência sul-americana envolvem-se numa discussão com um rapaz de aproximadamente vinte, alto e louro. Não percebo quem começou nem porquê mas o incidente só não descamba em violência física porque a acompanhante do rapaz louro – tão loura quanto ele – se interpõe. Seguem todos pela plataforma em direcção à saída, trocando frases em tom agressivo.

 

Em qualquer das três cidades (Estocolmo, Bergen, Oslo), é notório o elevado número de pessoas com ascendência noutras paragens – em África, na América Latina, no Extremo Oriente. Pessoas habituadas a temperaturas de trinta e tal graus, forçadas a suportar menos dez ou menos vinte (no Inverno; agora andam pelos dezoito, dezanove e está-se bem), ocupando os empregos a que os nórdicos já não precisam de se submeter. Em teoria, os imigrantes são bem tratados. Estes são países com leis evoluídas. Mas com que olhos verão os imigrantes – e em especial os filhos dos imigrantes – as diferenças de rendimento? Não será a pobreza (ainda que relativa, tão inferior à que experimentariam nos países de origem que talvez o termo nem faça sentido) uma condição especialmente frustrante quando se está rodeado por gente rica (e, ainda por cima, atraente)? E depois há a reacção dos nórdicos. Gostamos de pensar neles como tendo uma mentalidade aberta, tolerante, progressista. É uma visão demasiado benigna mas comecemos por algo que sucede em todos os países onde os imigrantes preenchem os tais empregos que os autóctones recusam (logicamente, uma vez que dispõem de melhores alternativas): a presença deles, que a cor da pele e os hábitos culturais tornam indisfarcável, constituiu uma acusação silenciosa (ainda que injusta) de egoísmo. São um lembrete constante de que o igualitarismo é sempre mais teórico do que real (mesmo em países que se orgulham dele), de que, por mérito ou por sorte (normalmente por uma mistura dos dois factores), há sempre privilegiados. Na nota inicial de Child Wonder, um dos livros de autores nórdicos contemporâneos que enfiei no Kindle para a viagem, o norueguês Roy Jacobsen escreve: Os meus heróis são crianças. Crianças corajosas, lutadoras. Crescendo numa área de operários nos arredores de Oslo no início dos anos sessenta – uma época de confusão, excitação e experiências sociais violentas. Antes do petróleo. Antes de alguém ter qualquer dinheiro. Quando um estado social social-democrata não passava de uma ideia vaga e desesperada, pouco condizente com a sociedade noveau-riche que produziu em poucas décadas. Esta foi uma mudança tão abrupta, radical e inédita na história da Noruega que tudo o que resta é uma nostalgia ambígua e histórias reais acerca desse eterno assunto: como perder a inocência sem perder a alma. Este romance é dedicado àqueles miúdos que conseguiram. E aos que não conseguiram. Amo-os a todos. (Tradução minha, a partir da versão em inglês.) A memória dos anos de penúria continua presente e assusta ou, pelo menos, confunde. Das tramas dos policiais de Henning Mankell aos recentes motins em Estocolmo, passando pelo assassinato de Palme e pelos resultados eleitorais de alguns partidos extremistas, abundam indícios de que, no instante em que nível de vida actual ficar em risco, todo o cosmopolitismo se desvanecerá. Sendo que, mesmo agora, uma época de riqueza e abertura, uma época em que a cada instante nos cruzamos com casais homossexuais nas ruas, certas diferenças continuam a assustar muita gente. Afinal, foi em Oslo que, faz este mês dois anos, um fanático assassinou dezenas de pessoas em nome da ideia da separação cultural.

 

Quarta-feira, 29 de Maio, à noite. No exterior da sala de espectáculos Edvard Grieg, em Bergen, um grupo de jovens diverte-se bebendo cerveja e dançando o Charleston. Observo-os durante alguns minutos. Mais tarde, ocorrer-me-á que os roaring twenties, a década em que o Charleston esteve na moda, foram seguidos pela Grande Depressão e pela Segunda Guerra Mundial; mas, no momento, o ambiente de descontracção nem me leva a reparar na cor do cabelo deles.

 

Na foto: a campa de Olof Palme.

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