Filosofia da velocidade


escafandro,

Há exactamente uma semana, o jornal Chicago Sun-Times, que teve entre os seus colaboradores o recentemente falecido crítico de cinema Roger Ebert, anunciou o despedimento de todos os fotógrafos do quadro, alegadamente por pretender dedicar mais atenção ao vídeo e, por conseguinte, ao online. Passará a recorrer a freelancers e propõe-se dar formação aos repórteres no uso do iPhone. É incrível como os jornais ainda não perceberam que serão incapazes de sobreviver reduzindo a qualidade do produto que oferecem. Um jornal, em papel ou na net, tem de fazer a diferença em relação aos blogues, ao Facebook, ao Twitter, pela fidedignidade da informação, pela profundidade das análises, pelo carácter profissional dos textos e das imagens. Não tem que cobrir tudo mas tem que cobrir bem. Não pode resignar-se a ser um banco de sound bites (para isso há os blogues) nem de vídeos (para isso há a televisão, com melhores meios e pessoal infinitamente mais bem preparado). Tem que apontar a um público exigente, ainda que isso signifique um enorme risco a curto prazo. Mais: tem que ajudar a formar esse público exigente, aumentando o número de consumidores potenciais. Quase todos os jornais têm feito o oposto. E, no entanto, há exemplos de publicações que obtiveram bons resultados sem sacrificar a qualidade: em 2010, as vendas do The Economist estavam a subir; em 2012, as vendas da The New Yorker também. Quando o lixo se encontra por todo o lado, existe mercado para a qualidade.

Há meia dúzia de anos, por alturas do lançamento do seu livro The World From My Front Porch, o fotógrafo Larry Towell (espreitem os álbuns que vale a pena) afirmava:

I just don’t shoot digital. I won’t. I like film. Photographers today have to compete. If a picture is six hours old, it’s too old to use. If you look at the coverage of the tsunami you can go on to any of the websites and there’s a catalogue there of 400 photographs all taken in the past 30 minutes for you to look through. And none of them will stay with you. They’re just news pictures. They’re not even good news pictures.

They’re nothing — they don’t have any meaning. There’s no time put in them, no thinking that’s put into them and when there’s no time and no thinking put into still photography or into photojournalism what does that say?

I think that’s damaging, and I think it also it destroys the notion that photography is reflective, that it’s about history, that it’s about self-contemplation. And it’s all being replaced by a sort of philosophy of speed which is only of fleeting significance. I think the news is killing journalism.

Desconheço se entretanto Towell se converteu ao digital e a sua opinião constituirá um exagero (ainda hoje certas fotografias permanecem na memória) mas ele estará tão mais perto de ter razão quanto mais jornais e revistas imitarem o Chicago Sun-Times. E descobrirem que não valeu a pena.

 

(Foto de Larry Towell, da série sobre os menonitas.)

5 comentários em “Filosofia da velocidade”

  1. Uma coisa é o suporte, outra coisa é a dedicação.
    A sua ligação é aparente no momento em que aparecem novos suportes.
    Imagine-se a crítica dos monges medievais à falta de qualidade na impressão de Guttenberg… para onde iria o tempo da cuidada caligrafia?
    Oh! Os tempos modernos…

    Perdeu-se a arte da cuidada caligrafia, mas seriam os textos antigos mais cuidados que os modernos?
    Tudo dependeria da dedicação. Houve quem publicasse um livro, outros centenas. Aos leitores de perceberem a dedicação colocada numas obras e nas outras.

    São coisas diferentes.
    Para a função dos tablóides ingleses, podemos ter hoje as redes sociais com os bebés que fazem proezas, com as aberrações e proezas.
    Ainda não se definiu o jornal-rede-social, porque ainda ninguém se lembrou… e os jornais antigos estão a servir esse papel.

    O jornal-rede-social estará sempre a publicar coisas “interessantes” e “novas”, fará mitos e irá desfazê-los em minutos. Será muito útil ao poder instalado…
    Precisa de muito mais autores e conteúdos.
    É um mundo novo que está por explorar, porque o financiamento da internet está baseado na publicidade e não no acesso-consumo de bytes.
    Vai ser inevitável, porque há pessoal colado à internet, insaciável de novidades…

    Os jornais actuais estão num processo misto – vêem-se confrontados com essa necessidade de colocar notícias novas – mas querem manter seriedade, e têm pruridos de colocar vídeos de bebés a babar-se, ou piadas de terceira categoria.
    Por enquanto há sites, blogues, ou contas youtube, dedicadas ao assunto… mas haverá quem vai ver uma oportunidade, juntar tudo… e fazer o “jornal ideal” para passar o tempo do “funcionário público” – especialmente agora, que tem mais uma hora de trabalho!

    Por isso, ou os jornais evoluem para maior dedicação, ou para esse tipo de novo tablóide instantâneo.
    Algum pessoal aprenderá a distinguir… saberá o que é fiável e lhe merece consideração, e o que é frugal.
    Só digo que há espaço para as duas coisas, e que a mistura é que acaba por destruir o sentido da diferença, que ainda não se fez.

  2. Chris Anderson do livro “A Cauda Longa” explica este fenómeno de forma perfeita.
    Os meios tradicionais não estão a saber lidar com o novo mundo de abundância que o suporte digital trouxe, pois erradamente julgam que é tentando chegar a tudo e todos que o fazem, quando na realidade estão a dispersar a sua acção, a desperdiçar recursos, mas, mais grave, a ignorar o seu nicho, quando era precisamente o oposto que deviam fazer: apostar na qualidade junto do seu público habitual, que este, pelo velho boca-a-boca ou pelas novas redes sociais, fará o resto.

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