Porque fotografo: contacto


escafandro,

Percorremos as ruas sem vermos as pessoas. Delineamos trajectórias pelos passeios de modo a contorná-las. Irritamo-nos quando elas, parecendo não se aperceber da nossa presença, bloqueiam a trajectória que definíramos. Mostramo-nos apressados e olhamos em frente quando passamos por pedintes ou por adolescentes fazendo inquéritos. Se assistimos a uma discussão ou a um acidente de automóvel, recusamos intervir ou ser testemunhas. Não queremos «envolver-nos» nos problemas alheios. Somos o nosso mundo, ameaçado por todos os lados pelos seus próprios problemas.

Na maior parte do tempo não sou excepção. Mas sou-o quando caminho pelas ruas com uma máquina fotográfica na mão ou pendurada ao pescoço. Em grande medida, aprecio a fotografia de rua porque ela me força a olhar para as pessoas. Mesmo que, hoje em dia, muitas não gostem que reparem nelas (excepto se for a televisão a fazê-lo, suponho; toda a gente parece desejar aparecer na televisão). A primeira reacção é, cada vez mais, de desagrado. Até certo ponto, percebo-a: quando um desconhecido nos aponta uma câmara a pergunta que surge é, inevitavelmente, «porquê eu?». Algo de peculiar se deve ter para nos quererem fotografar. Mas não. Não é a diferença que desejo fotografar. Pelo contrário. É o factor mais comum a toda a gente: a humanidade. O cenário, o enquadramento, a cor ou os jogos de luz e de sombra são apenas formas de a realçar.

 

(Publicado originalmente aqui.)

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