Da propriedade dos turistas


escafandro,

 

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AHAHAHAH

Acabámos de saber (estupefactos) por um Secretário de Estado, que o crescimento do turismo no Porto não se deve nem à política de promoção que a cidade tem feito nem ao extraordinário trabalho que os portuenses (empresários e cidadãos) têm feito.

A razão para o enorme sucesso do turismo deve-se ao trabalho deste Secretário de Estado e à presença do Porto na imprensa internacional que, por sua exclusiva e enorme competência, tem promovido a cidade no estrangeiro.

E é bem verdade, basta olhar para a capa do New York Times, para as centrais da Monocle, para a última página do Libération, para a página 4 do El País para se perceber a presença deste enorme Secretário de Estado e o competente trabalho que o seu Governo tem feito na promoção do Porto. Estão a vê-lo? Reconhecem-no? Chama-se Adolfo Mesquita Nunes… Palavras para quê, é um artista português.

 

Mudei-me de Gaia para o Porto no ano passado. Não votei, pois, em Rui Moreira – mas tê-lo-ia feito se já residisse no Porto em 2013. Isso não me impede de considerar absurda, para além de infantil, a reacção de Moreira às declarações feitas por Adolfo Mesquita Nunes, o secretário de Estado do Turismo, ao Jornal 2 da RTP da passada quinta-feira. Mesquita Nunes disse não apenas o que devia dizer mas o que qualquer portuense com dois dedos de testa sabe: o turismo no Porto cresceu em resultado de uma conjugação de factores, entre os quais se destacam a captação de voos de companhias low-cost para o aeroporto Francisco Sá Carneiro, a estratégia de promoção assente nos meios digitais e na publicação de artigos em revistas e jornais estrangeiros (em vez de em «eventos») e os investimentos privados na cidade, que a dinamizaram muito para além do que as «forças intelectuais» sedentas de subsídios públicos que se opuseram constantemente à acção de Rui Rio alguma vez conseguiram. Aparentemente, Moreira queria mais. Queria (como parece ficar óbvio pela colecção de imagens que afixou na sua página do Facebook) uma palavra de reconhecimento a quem é presidente da autarquia há pouco mais de um ano. Queria palavras bonitas sobre a capacidade de iniciativa dos portuenses (que existiram) mas não palavras realistas sobre outros factores (é evidente que a Ryanair desempenhou um papel crucial). Esta incapacidade para analisar fria e racionalmente os assuntos, prescindindo de vaidadezinhas que seriam estéreis se não fossem afinal prejudiciais, é um dos grandes problemas dos políticos portugueses (e não só deles; trata-se de uma característica bastante disseminada). Lamento que Moreira se esteja a deixar cair em reacções tão básicas, injustas e improdutivas. Até porque, não tendo tido oportunidade de votar nele em 2013, gostaria de poder fazê-lo no futuro.

 

P. S.: Não consegui encontrar o vídeo completo da entrevista. O excerto a que se pode aceder na página do Facebook de Rui Moreira é tão representativo como um quadradinho retirado bem do centro da bandeira portuguesa é representativo das cores que a compõem.

 

Disclaimer: Apesar de Adolfo Mesquita Nunes ser colaborador do Delito, os únicos contactos que mantive com ele foram através de emails genéricos, direccionados a todos os participantes no blogue. Ainda um dia hei-de ir a um almoço de delituosos mas, até lá, o único que conheço pessoalmente – e não tão bem quanto gostaria – sou eu.

Quantitative (Un)Easing


escafandro,

Os analistas já estão, contudo, a tentar antecipar o nível de eficácia que esta medida, a confirma-se, terá. Alberto Gallo, economista do Royal Bank of Scotland, diz que “por si só, o programa Q.E. terá um impacto limitado”. “Produzirá um efeito através das exportações e da desvalorização da divisa mas não tanto através do efeito-riqueza ou do ponto de vista do investimento/consumo ou, ainda, da expansão do crédito”.

O próprio Mario Draghi, presidente do BCE, já reconheceu que a política monetária, por mais medidas que a instituição tome, não conseguirá, sozinha, acelerar a recuperação económica na zona euro. Em entrevista recente, Draghi disse que “são necessários mais progressos estruturais importantes – mercados de trabalho mais flexíveis, menos burocracia, impostos mais baixos”. O jornalista do Handelsblatt perguntou: “Pode ser um pouco mais específico, Sr. Presidente? Que países da zona euro precisam de fazer mais esforços?”. “Todos“, respondeu.

De um artigo no Observador, sobre o programa de compra de dívida pública por parte do BCE.

 

Já se percebeu que vários países apenas implementarão reformas significativas quando forçados a isso. Ao aliviar a pressão, não apenas o quantitative easing falhará como terá efeitos contraproducentes. A Europa poderia perder os anéis mas salvar os dedos. Fechando os olhos à realidade (a conjuntura económica e demográfica das décadas pós-Segunda Guerra Mundial já não existe) e recusando ajustar o modelo de organização pública então criado (serviços, prestações sociais, burocracia, estruturas políticas) às disponibilidades do presente, acabará perdendo também alguns dedos.

 

P.S.: Neste contexto, que António Costa (com entusiástico apoio de Rui Rio) tenha decidido voltar a propor a implantação de mais um nível político-administrativo em Portugal só pode constituir prova de insanidade.

Uns quantos álbuns de 2014 (14)


escafandro,

 

 Are We There, de Sharon Van Etten.

 

A carreira de Sharon Van Etten começou quando entregou um CD-R com músicas a Kyp Malone, dos TV on the Radio, e consolidou-se ao gravar Tramp, o álbum de 2012, no estúdio de Aaron Dressler, um dos gémeos (e principal compositor) dos The National. Como referências, seria difícil conseguir melhor. Em Are We There Van Etten justifica-as plenamente, criando sonoridades densas e melancólicas, com uma languidez constantemente ameaçada por vibrações subterrâneas – e pelas letras. Na verdade, se o álbum tem algum defeito, é poder constituir uma dose ligeiramente excessiva de melancolia e desencanto. Seja como for, e respondendo à questão posta no título, se Sharon não está lá, está certamente quase a chegar.

Desperdício


escafandro,

Diz-se que muitos homens ouvem «sim» quando as mulheres dizem «não». Sem dar azo a violência física (excepto, talvez, autoflagelações), o problema oposto é menos grave mas causa certamente inúmeras mágoas. Às vezes desconfio que sofro dele. Que passei a vida a ler «nãos» onde afinal estavam «sins».

(E depois fico sem saber o que é mais patético: ter desperdiçado as oportunidades ou estar agora a inventá-las.)

Uns quantos álbuns de 2014 (13)


escafandro,

 

Songs of Innocence, dos U2.

 

Bono não se me tornou insuportável na última dúzia de anos porque compensa a imagem de autoproclamado arauto da solidariedade entre nações polvilhando as letras que escreve e canta com lembretes de auto-ironia (em The Miracle: We got […] music so I can exaggerate my pain). A polémica em torno do lançamento de Songs of Innocence interessa-me fundamentalmente por ter dificultado a apreciação honesta dos temas que o compõem. E sobre estes já disse o suficiente. 

Uns quantos álbuns de 2014 (12)


escafandro,

 

Corrente, dos Clã.

 

O principal problema dos Clã não é de expressão mas conseguirem manter atractiva a pop inteligente e sofisticada que fazem quando a) já ultrapassaram os vinte anos de carreira (para mais, numa época e numa categoria de música em que a novidade impera), b) já surgiram em múltiplos projectos paralelos que lhes aumentaram a notoriedade mas também fizeram crescer o risco de muita gente se fartar deles, c) vários dos seus temas foram submetidos ao desgaste (o esforço que fiz para não escrever «ignomínia») de servirem de genérico a telenovelas e afins, d) a música é consumida de forma cada vez mais desatenta, circunstância que beneficia temas de subtileza mais limitada que os deles. Passando sobre tudo isto, nenhuma outra banda em Portugal tem conseguido manter consistentemente um nível tão elevado, balanço perfeito entre música ultra-burilada que consegue não soar excessivamente produzida, letras que moldam mas respeitam a língua portuguesa, e extraordinária presença em palco. E depois, claro, há Manuela Azevedo.

 

Gouveia, 2008. Dependendo do preço, posso fotografar casamentos e baptizados.

Vanguarda suíça ou o Draghi dos Cantões


escafandro,

O Banco Central da Suíça deixou ontem de defender a cotação do franco em relação ao euro, que desde 2011 mantinha em torno de 1,2. O franco valorizou quase 20%. Há três possíveis explicações para esta decisão:

 

1. Num país onde muitas vozes se opõem a políticas de estímulos financeiros (e onde até já se fez um referendo questionando os suíços acerca da conveniência do banco central reforçar as reservas de ouro), o Draghi dos Cantões pretendeu validar a posição mantida nos últimos anos (durante os quais comprou Eigers, Matterhorns e Jungfraus de euros com francos fresquinhos), mostrando aos cépticos quais as consequências de deixar os mercados funcionar livremente (atitude que, refira-se, muito desagradou a vários agentes dos mercados). Como tudo não passa de uma brincadeirinha (esta hipótese pressupõe que os banqueiros centrais têm sentido lúdico mas convém despachar a teoria da conspiração logo no início), deverão ser anunciadas medidas em sentido contrário a muito breve prazo.

 

2. Sabendo que o BCE vai iniciar um programa de compra de dívida, o Draghi dos Cantões (a minha inércia impede-me de lhe pesquisar o nome) decidiu que o esforço necessário para continuar a assegurar a cotação do franco era suicidário e abandonou o barco dos que acreditam que os estímulos financeiros vão resultar, aceitando as perdas a curto e médio prazo para os sectores exportadores da economia suíça.

 

3. Prevendo que o BCE não possa – ou, apesar de todos os soundbites em sentido inverso, não queira – iniciar o programa de compra de dívida, o Draghi dos Cantões (que, aposto, não fala cantonês) antecipou a subsequente queda do euro para, permitindo agora uma valorização do franco, conseguir que, apenas por acção dos mercados, ele acabe o processo com uma cotação não demasiado penalizadora para as exportações suíças.

 

No caso de qualquer uma das duas últimas hipóteses ser a verdadeira, a mensagem do Draghi dos Cantões é tão cristalina como pingentes de gelo em chalé alpino: o esquema de Ponzi com que tantos bancos centrais andam entretidos não funciona e tem de acabar. Esperemos que ele seja apenas um suíço pessimista.

Uns quantos álbuns de 2014 (11)


escafandro,

 

Tough Love, de Jessie Ware.

 

Em 2012, o primeiro álbum de Jessie Ware recebeu excelentes críticas mas não me convenceu por aí além. Estava cheio de temas bem feitos e ambiciosos, com ritmo dançável (à la Beyoncé, digamos), mas, no que me diz respeito, sem o que quer que fosse de verdadeiramente especial.

Em 2014, o segundo álbum de Jessie Ware recebeu críticas menos entusiásticas mas agradou-me bastante. Continuando a ser pop relativamente standard, afigura-se-me mais ponderado e subtil, fugindo a sonoridades e poses grandiloquentes.

O desempate deve acontecer lá para 2016.

Da privati… perdão, do… er… processo em curso na TAP


escafandro,

Deveres do vencedor

Não pode despedir. Fica obrigado a  ouvir os trabalhadores aquando da tomada de decisões. Respeitará todos os direitos adquiridos. Recorrerá ao outsourcing e ao trabalho externo apenas nas situações permitidas pelos trabalhadores. Capitalizará a empresa.

 

Direitos do vencedor

Pelo menos até às eleições legislativas, poderá dizer-se dono da TAP.

Do admirável mundo novo socialista ou nem por isso o ar está a ficar menos irrespirável


escafandro,

Primeiro, em nome do ambiente, dificulta-se a vida a todos os cidadãos sem posses para ter um automóvel recente e facilita-se a vida a todos os que têm. Depois oferecem-se excepções (e subsídios) a classes profissionais cujos veículos – pela utilização intensiva a que se encontram sujeitos – poluem muito mais do que qualquer veículo particular. Finalmente, estuda-se a implementação de um sistema de leitura automática de matrículas para cair em cima de eventuais prevaricadores (que, malandros que são os portugueses em geral e os dos arredores de Lisboa em particular, podem bem decidir usar a sua velha carripana em dia de greve dos transportes públicos).

Uns quantos álbuns de 2014 (10)


escafandro,

 

St. Vincent, de St. Vincent.

 

Annie Clark incomodou muita gente em 2014. Produziu um vídeo tão estilizado e cerebral que mestres zen e especialistas em feng shui ainda estão a reordenar ideias. Respondeu às acusações de ser uma tipa fria e cerebral – a repetição do termo é propositada – com uma actuação no Saturday Night Live que incluiu sons à guitar hero, executados (por uma mulher, valha-nos deus) com passinhos de bebé e expressão impassível (o vídeo acima permite uma ideia, embora aproximada). Cantou – com aquele tom (e pose) de quem percebeu a piada três quartos de hora antes de todos os outros – acerca do momento em que sentiu vontade de se despir em pleno deserto, acabando a fugir nua de uma cascavel (a história foi apresentada como verdadeira – mas será?). Também cantou (em pose e tom similares) a tirada do ano (de acordo com a votação de um membro do Delito de Opinião) : Oh, what an ordinary day, take out the garbage, masturbate… I´m still holding for the laugh. Tudo isto partindo de um álbum a que decidiu não dar outro título que não o seu nome artístico, sabe-se lá se por pretender garantir que tudo o que lá vem são reflexos genuínos de quem ela é na verdade, se por ter chegado à conclusão de que chamar-lhe Actor (como o que lançou em 2009) ou algo parecido se tornou redundante. Quando a pose (para mais, ferozmente inteligente) é mantida em permanência, ainda faz sentido chamar-lhe pose?

Uns quantos álbuns de 2014 (9)


escafandro,

 

Sylvan Esso, dos Sylvan Esso.

 

Sylvan Esso é um duo composto pela cantora folk Amelia Meath, das Mountain Man, e pelo produtor de música electrónica Nick Sanborn. A sonoridade do seu primeiro álbum pende para o lado electrónico da balança mas a voz de Meath, bem como alguns ritmos (mais evidentes no tema de abertura, um daqueles casos em que a primeira reacção tende a ser «WTF?» mas depois não apenas tudo encaixa como parece estranho ter parecido estranho), conferem ao projecto um sabor levemente peculiar que me agrada bastante.

Uns quantos álbuns de 2014 (8)


escafandro,

 

A Bunch of Meninos, dos Dead Combo.

 

Podia ter constituído um epifenómeno, com a duração de um par de álbuns. A música podia ter estagnado, não ultrapassando o efeito de novidade. A imagem, elaborada mas altamente irónica e artificial, podia não ter resistido ao desgaste. E, contudo, Tó Trips e Pedro Gonçalves têm conseguido expandir e variar a sua música de modo a não dar espaço a acusações de rentabilização de uma fórmula esgotada, impedindo de caminho que a imagem surja como simples truque de marketing. A Bunch of Meninos segue uma direcção menos claro do que Lusitânia Playboys ou Lisboa Mulata, contendo uma amálgama ainda mais abrangente de fado, western spaghetti, jazz, rock’n’roll, sonoridades mariachi e africanas. Aqui e ali tem bateria e percussões mas, globalmente, parece mais simples e descarnado do que os discos anteriores, sendo por isso menos imediato. Fica a pergunta de sempre – e agora, para onde? -, feita com muito mais curiosidade do que cepticismo.

 

(Porque os temas que ilustram são bastante diferentes, incluo dois vídeos.)

Sobre as eleições na Grécia, com um pedido de desculpas aos verdadeiros cultores da democracia


escafandro,

1. Nuances da democracia

Alertar os eleitores para os riscos associados a determinadas opções é «condicionar as eleições», tentar fazer delas um problema, desrespeitar a democracia. Recusar a realidade (parcialmente positiva: a economia grega foi a que mais cresceu na zona euro ao longo do terceiro trimestre de 2014 e previa-se um crescimento de quase 3% em 2015), fazer promessas sem dinheiro para as concretizar (para mais, com eficácia muito para lá de duvidosa: só em «medidas para impulsionar a economia», o Syriza admite gastar 6,5 mil milhões de euros que, no futuro – e ainda segundo o Syriza -, permitiriam um reforço de receitas de 3 mil milhões), ameaçar com o colapso do euro sem ter coragem para assumir no programa político o eventual regresso a uma moeda própria, exigir que outros paguem dívidas contraídas não apenas de forma livre mas após aldrabar as contas para poder contraí-las e – ainda mais divertido – exigir instrumentos para poder continuar a fazê-lo, tudo isto é política digna, corajosa, verdadeira, cem por cento legítima.

 

2. A conta

Greece%20losses (2).pngDirectamente, os países da zona euro detêm hoje 62% da dívida grega enquanto o FMI detém cerca de 10% e o BCE aproximadamente 8%. O gráfico mostra o valor em milhares de milhões de euros de dívida grega detida por cada país (colunas a vermelho, escala da direita) e o peso que o montante representa no PIB (colunas a azul, escala da esquerda). Como se constata, Portugal seria o mais afectado. Se o primeiro perdão de dívida à Grécia afundou os bancos e a  economia de Chipre, o segundo… Bah, o segundo apenas terá vantagens. (Nota a Alexis Tsipras: agradeço factura com NIF.)

(Gráfico obtido no Zerohedge.)

Uns quantos álbuns de 2014 (7)


escafandro,

 

The Both, dos The Both.

 

Quando, há pouco mais de um ano, Aimee Mann passou por Portugal, Ted Leo já a acompanhava, fazendo a primeira parte dos concertos. Cantavam mesmo juntos alguns temas desenvolvidos pelos dois, os quais iriam fazer parte de um álbum a lançar em 2014. O álbum saiu e, apesar de ter sido muito pouco publicitado, é talvez o melhor de Aimee em vários anos. A carreira de Ted Leo foi feita à base de sonoridades mais agressivas do que as habituais na música da ex-Till Tuesday e a nota que ele introduz, sem alterar decisivamente o estilo de Mann, confere-lhe não apenas um poder acrescido (conferir o segundo tema, por volta dos 4’45”, no mini-concerto acima) mas, curiosamente, também um elevado grau de leveza. Não apenas a conjugação de vozes funciona bem como – era visível em palco e é visível nos videoclips oficiais – existe uma verdadeira cumplicidade entre ambos, baseada numa assinalável – por vezes quase adolescente – dose de humor.

Uns quantos álbuns de 2014 (6)


escafandro,

 

LP1, de FKA Twigs. 

 

Quase todas as listas de melhores álbuns do ano que vi foram encimadas por uma de duas obras: Lost in the Dream, dos The War on Drugs, e LP1, de FKA Twings. Ambos me deixaram com sensações contraditórias mas, sensivelmente pelos mesmos motivos que tanta gente pareceu apreciá-lo, Lost in the Dream cansou-me depressa (soa-me a rock clássico com uma pitada de psicadelismo – combinação nada recente – e outra de presunção). O caleidoscópio de sons (onde se inclui a voz, por vezes mecânica, por vezes carnal) erigido pela britânica Tahliah Barnett, no entanto, ainda me deixa a pensar que muito está a escapar-me. E, no que me diz respeito, isso costuma ser uma coisa boa.

 

P. S.: Este é certamente um dos vídeos mais polémicos do ano.

Uns quantos álbuns de 2014 (5)


escafandro,

 

Down Where the Spirit Meets the Bone, de Lucinda Williams.

 

Lucinda Williams manteve-se sempre ligeiramente na sombra de outros nomes da country, nunca tendo atingido o estatuto de estrela. A partir de certa altura, esse estatuto também já não seria adequado, uma vez que a música dela se espraiou em direcção aos outros géneros tipicamente americanos. Down Where the Spirit Meets the Bone é um álbum duplo com 20 temas e mais de uma centena de minutos, facto só por si assinalável numa época em que muitos álbuns não atingem os trinta. Não tem propriamente surpresas mas inclui rock clássico, country-soul, blues em que se sente a humidade dos pântanos do Louisiana. E a voz rouca de Lucinda, que nunca foi especialmente forte mas exsuda genuinidade e experiência de vida.