Submissão e luta


escafandro,

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O novo livro de Michel Houellebecq, Soumission (tradução de «Islão») acabou de chegar às livrarias mas é discutido pela intelligentsia francesa há várias semanas. Nele, com o apoio de PSF e UMP, o candidato de um imaginário partido muçulmano (a Fraternidade Muçulmana) derrota Marine Le Pen na segunda volta das eleições presidenciais de 2022 e começa a implementar um regime patriarcal baseado na religião que (porque as mulheres são empurradas de volta às tarefas domésticas) até faz diminuir a taxa de desemprego. Houellebecq defende a plausibilidade do aparecimento de um partido assim com o facto da maioria dos muçulmanos (já cerca de 10% da população francesa) não se identificarem com os existentes: os valores tradicionais do Islamismo afastam-nos da esquerda enquanto a política económica e de imigração os afastam da direita.

Houellebecq é um polemista formidável, que admite desprezar o Islamismo (despreza um pouco menos o Cristianismo e o Judaísmo apenas porque atribui valor literário à bíblia) mas também é alguém que toca frequentemente em assuntos que mereciam discussão menos entrincheirada do que a permitida pela força castradora do politicamente correcto. No livro anterior, apresentava uma França – e uma Europa – dependente do turismo, museu a céu aberto completamente irrelevante na cena mundial – uma visão que se vem tornando cada vez menos irrealista. Para além de temas habituais na ficção literária (as desilusões associadas ao processo de envelhecimento, por exemplo), é possível encontrar nas suas obras, bem como em algumas das suas entrevistas, uma preocupação (à primeira vista curiosa, em alguém que parece acreditar em tão pouco) com a barbárie a que a progressiva substituição de valores partilhados e intangíveis pela apatia, pelo individualismo e pelo medo de ficar mal visto pode conduzir a sociedade europeia. De resto, é esta perda de valores que justifica outro tema recorrente do francês: o carácter cada vez mais utópico das relações amorosas duradouras, baseadas em monogamia sexual, que tradicionalmente estruturavam a sociedade. Num toque irónico, o cenário apresentado em Soumission, de progressiva conversão ao Islamismo da sociedade francesa (sendo que a conversão – ou, mais propriamente, a resignação – de ateus e agnósticos parece fácil de conseguir porque os movem valores práticos, materiais), resolve essa questão, pelo menos a um nível superficial.

Como seria de esperar, Houellebecq tem estado debaixo de fogo da Esquerda desde que o tema do livro foi anunciado. E, contudo, numa época em que alemães protestam contra o aumento do número de muçulmanos e em que Paris limpa das ruas o sangue derramado por atentados em nome do Islão, chegou mesmo a altura de debater estas questões. Altura de assumir que estamos perante um choque de civilizações (em muitos apectos, entre a barbárie e a civilização ou entre a Idade Média e a Modernidade) e não apenas de efeitos da pobreza ou de complexos de inferioridade, como frequentemente se afadigam a explicar certas mentes oportunistas, mais preocupadas em justificar as acções daqueles que combatem os valores que afirmam defender do que em defendê-los efectivamente. Altura de procurar mitigar o risco, sem cair no tipo de medidas que configurariam capitulação. Acima de tudo, altura de afastar a apatia e de reforçar os valores que definem aquilo que a Europa aprendeu a representar nas últimas sete décadas – os mesmos valores que, adicionados a um nível de bem-estar económico ainda muito superior à média, a continuam a fazer atractiva para milhares de imigrantes: tolerância e liberdade. É imperativo descobrir a forma de, com eles, se possível através deles, combater todos os que praticam a intolerância e advogam a submissão. As manifestações de ontem foram um bom indício. Não bastam, porém. Mais importante é garantir diariamente o direito à crítica, à irreverência, ao mau-gosto. Não tergiversar e chamar a atenção de todos os que costumam fazê-lo, incluindo muitos líderes das comunidades islâmicas: um cartoon nunca justifica violência, uma opinião, por insultuosa que seja, nunca justifica ameaças e atentados. Quando Houellebecq afirmou que o Islamismo era a religião mais estúpida, foi processado por grupos de muçulmanos franceses. Seja. Os tribunais também existem para isso. E para decidir – como decidiram – que a opinião é livre.

Acima de tudo, é preciso demonstrar que a mesma liberdade individual que terá desempenhado um papel no desvanecimento dos tais valores intangíveis (ninguém é condenado à fogueira por recusar Deus, as mulheres podem ser independentes, etc., etc.)  é, em si mesma, suficientemente forte e agregadora. Deixar claro que, com ou sem atentados, fazemos questão de viver normalmente num certo estilo de sociedade. Embora – convém referi-lo – não haja insulto superior a esse.

 

Nota: Ainda não li Soumission mas apenas vários textos sobre ele.

Uns quantos álbuns de 2014 (4)


escafandro,

 

 True, de Legendary Tiger Man.

 

Comecemos por uma constatação: o lendário homem-tigre está domesticado. Basta comparar capas e folhetos dos seus álbuns. A nudez feminina (e, num dos casos, dele próprio) desapareceu. Títulos como Fuck Christmas, I Got the Blues foram substituídos por um singelo True, o qual levanta a questão se saber se era então falso o homem-tigre altamente sexuado e ligeiramente demoníaco do passado. Enfim, suponho que aos quarenta e tal anos um tipo tem direito a assentar. Tem direito a tornar-se um homem-gato ou, vá lá, um homem-lince (que os linces até podem ser selvagens mas não assustam ninguém). Felizmente, podemos limitar-nos a ouvir a música – e ela continua excelente, um pedaço dos confins dos Estados Unidos num Portugal fadista.

 

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Capas de outros tempos.

Uns quantos álbuns de 2014 (3)


escafandro,

  

The Future’s Void, de EMA.

 

Ao segundo álbum, EMA (a americana Erika M. Anderson) continua mergulhada nas questões da identidade num mundo cada vez mais cibernético e impessoal, onde toda a gente cria alias virtuais para esconder a insatisfação da vida real, e onde a privacidade é um conceito cada vez mais difícil de apreender – e de defender. The Future’s Void (o título é claro sobre o nível de optimismo de Anderson) inicia-se com um tema que, não se aprofundando a letra, até soa upbeat (e a anos noventa), antes de mergulhar em sonoridades mais densas. A preocupação com a tecnologia, porém, é vista quase sempre a partir de um prisma emocional muito pessoal. Aqui e ali, é como se Anderson não estivesse apenas a cantar sobre assuntos que deviam preocupar toda a gente mas a tentar esconjurar o receio de constituir apenas mais uma peça na engrenagem: makin a living off of takin selfies; is that the way that you want it to be?

Uns quantos álbuns de 2014 (2)


escafandro,

 

Unrepentant Geraldines, de Tori Amos.

 

Se Blank Project, de Neneh Cherry, constituiu o regresso do ano, Unrepentant Geraldines foi o melhor regresso à boa forma de 2014. Tori Amos encontrava-se há muito naquele registo simpático em que o adjectivo é mais insulto do que elogio. Unrepentant Geraldines não atinge os píncaros dos álbuns da década de 90 mas recupera parte da simbiose um tudo-nada incongruente entre a voz (em excelente condição) de Tori e os sons que extrai do piano, para além de apresentar letras salpicadas de associações deliciosamente inusitadas (Before you drop another verbal bomb, can I arm myself with Cezanne’s 16 shades of blue?), menos focadas no plano sexual do que noutros tempos mas onde se continua a encontrar, para além de várias referências ao universo religioso, a preocupação em analisar as fragilidades e forças de ser mulher, agora menos nova (You say “Get over it; if 50 is the new black, hooray, this could be your lucky day”), mãe há já catorze anos (trouble needs a home, girls, soa a aviso à filha e respectivas amigas), com uma experiência totalmente diferente dos pontos positivos e negativos das relações amorosas (em Wild Ways, o I hate you, I hate you, I do, I hate that you’re the one who can make me feel gorgeous with just, just a flick of your finger alterna com I hate you, I hate you, I do, I hate that I turn into a kind, some kind of monster, with just, just a flick of your finger). Em certos momentos (a meio do primeiro tema, por exemplo) Tori nem se importa de voltar a arriscar comparações com Kate Bush (outro regresso de 2014, mas aos palcos). Podia ser embaraçoso, é apenas prova de confiança. 

Portugal, passado e futuro próximos


escafandro,

A grande diferença entre Portugal e a Grécia foi que, aqui, houve uma coligação de governo que, sob escrutínio do Presidente, durou e sustentou o ajustamento durante quatro anos. A actual maioria de direita teve ainda este efeito fundamental: dispensou o PS de se comprometer e deu-lhe uma razão para se impor, à esquerda e entre os descontentes, como o líder necessário de uma maioria alternativa. Deste modo, os partidos tradicionais do regime retiveram os seus eleitorados, sem deixar muito espaço até agora para novos populismos e extremismos.

[…]

Convém não esquecer como isto começou. O projecto do Euro pressupunha uma nova fase de modernização das sociedades inflacionistas do sul da Europa. Em vez disso, o crédito barato do euro serviu para alimentar o endividamento e adiar o confronto com os parasitismos (sindicais, empresariais e corporativos). O resultado foram economias ainda menos competitivas e sobrecarregadas com a incerteza das dívidas.

A questão continua a ser política: é preciso que o regime, se quer preservar o quadro da moeda única, adquira o poder necessário para resistir ao facilitismo e contrariar os interesses instalados. Ora, neste momento aproximamo-nos do prazo de validade das condições de estabilidade dos últimos quatro anos. Em 2015, a actual maioria pode não ser renovada. Em 2016 o Presidente será necessariamente substituído. Como será encontrada uma “solução governativa estável, sólida e consistente” numa assembleia em que, por hipótese, nem a aliança do PSD e do CDS, nem o PS sozinho possam garantir uma maioria absoluta?

Rui Ramos, no Observador.

 

E depois há a questão do PS, garantindo uma maioria absoluta, ter de esquecer o futuro cor-de-rosa com que anda a acenar (enfim, Costa pode sempre torcer para que a Grécia conquiste para os países do Sul o direito ao laxismo orçamental, à custa de transferências massivas de fundos a partir dos do Norte) e continuar (ou, em alguns casos, iniciar) reformas que actualmente contesta. A mudança (implícita no texto de Rui Ramos) apenas surpreenderia os ingénuos do costume mas são eles que lhe podem dar a vitória nas legislativas.

PPP à grande vitesse


escafandro,

25 O modelo para a implementação da rede ferroviária de alta velocidade em Portugal, sem paralelo em termos internacionais, assentava em seis contratos PPP cujos encargos para os parceiros públicos ascenderiam a 11,6 mil milhões de euros. 
26 Os riscos de procura relevantes recairiam sobre a CP e a REFER, empresas públicas economicamente deficitárias. Em contrapartida, os pagamentos pela disponibilidade da infraestrutura às concessionárias gozariam de estabilidade, característica típica das rendas. 

 

64 Os estudos preliminares demonstraram que o investimento na rede ferroviária de alta velocidade não apresentava viabilidade financeira.

65 Os mesmos estudos demonstraram que o eixo Lisboa-Madrid, o primeiro que se previa vir a ser implementado, também seria financeiramente inviável. 

 

77 Não há evidências de um plano de negócios, no âmbito do setor público, que tivesse contextualizado a viabilidade financeira do projeto, tendo em especial consideração a concreta situação económica e financeira das entidades do setor público direta e indiretamente envolvida.

 

83 No contrato da concessão Poceirão-Caia os fundos acionistas representavam menos de 4% do financiamento do projeto e previa-se uma TIR acionista de 11,9%.  
84 Tendo em conta que as receitas comerciais não financeiras corresponderiam a cerca de 0,073%, a rentabilidade acionista referida decorreria, quase totalmente, dos pagamentos dos parceiros públicos. 
85 Mais de 71% do total dos fundos aplicados no projeto corresponderiam a pagamentos dos parceiros públicos.

 

86 A comportabilidade dos encargos, para o Estado e para a REFER, com a concessão Poceirão-Caia foi analisada no respetivo estudo estratégico.  
87 Esta avaliação teve caráter preliminar, não teve em conta o efeito do investimento na situação financeira da REFER e baseou-se em premissas que deixaram de se verificar, tais como as relativas às taxas de crescimento reais do PIB e aos limites admissíveis para o défice público. 
88 As estimativas não foram atualizadas durante o processo de contratação e em sede de visto não foi demonstrado o cabimento dos encargos do Estado, nem dos encargos a satisfazer pela REFER
 

Do relatório do Tribunal de Contas. Tem de se reconhecer, porém, que os juízes não tiveram em consideração o aumento de tráfego que uma oportuna paragem em Évora poderia trazer, agora que tantos residentes em Lisboa a elegeram como destino de peregrinação.

 

Uns quantos álbuns de 2014 (1)


escafandro,

 

Blank Project, de Neneh Cherry.

 

Comecemos pelo que, para mim, foi o regresso de 2014. Há um par de anos, em colaboração com o trio de jazz The Thing (cuja formação foi inspirada pelo trabalho do trompetista Don Cherry, padrasto de Neneh), Cherry lançara um excelente álbum de música muito pouco comercial (ainda que constituída na maior parte por versões), apropriadamente intitulado The Cherry Thing. Em nome pessoal, contudo, já não apresentava um trabalho desde 1996.

Para quem desejava temas com o imediatismo dos velhos êxitos (Buffalo Stance, Manchild, 7 Seconds), Blank Project terá sido uma desilusão. A jovem do final dos anos 80 e início dos 90 foi substituida por uma mulher madura, com prioridades diferentes e outra forma de colocar os assuntos. O primeiro tema, Across the Water (uma maravilha minimalista, com partes que são mais spoken word do que canção, centrada na perda da mãe e nos receios do que o futuro pode trazer às filhas) é um retrato perfeito do que move Neneh hoje em dia mas, colocado a abrir, é também uma uma forma de evitar ilusões. O resto, sendo até mais «normal», permanece pouco interessado em trajectos óbvios, capazes de conquistar rádios e tops. Nem sequer – e disso tenho pena – os tops dos melhores álbuns do ano.

Três filmes de 2014 (3)


escafandro,

 

Tracks, de John Curran.

 

Se Só os Amantes Sobrevivem e Debaixo da Pele partem de olhares externos sobre a condição humana (usando um par de vampiros e uma alienígena, respectivamente), Tracks usa a receita mais habitual de seguir as acções de um humano que se sente insatisfeito e desenquadrado, que não sabe o que quer da vida mas sabe que quer algo de diferente. Um humano que resolve tentar encontrar-se através de um desafio aparentemente sem sentido, exigindo isolamento e tenacidade.

Robyn Davidson, a protagonista, é uma pessoa real. Australiana, tem hoje 64 anos. Nos primeiros anos da década de 70 levou uma vida boémia em Sydney. Na de 80 manteve durante alguns anos uma relação com o escritor Salman Rushdie, a quem foi apresentada por Bruce Chatwin. (Pode ser vista nesta featurette sobre o filme, transmitindo uma mensagem adequada a qualquer época e lugar.) Em 1975, farta do contacto humano (pelo menos na forma como o vinha experimentando), mudou-se com o seu cão para Alice Springs, no centro da Austrália, determinada a caminhar os cerca de três mil quilómetros que separam Alice Springs da Costa Oeste australiana. Trabalhou durante dois anos até conseguir arranjar quatro camelos* (três adultos, uma cria) que pudessem apoiá-la na viagem. Escreveu à National Geographic pedindo financiamento em troca de acesso exclusivo ao relato. O «sim» veio com uma condição desagradável: o fotógrafo Rick Smolan encontrar-se-ia com ela em vários pontos ao longo do percurso. Depois da viagem, escreveu um livro que John Curran (realizador de Desencontros, O Véu Pintado e Stone – Ninguém é Inocente) adaptou agora ao cinema.

Há uma diferença fundamental entre, por um lado, Jim Jarmusch e Jonathan Glazer e, por outro, John Curran: para o bem e para o mal, Curran não é um “autor”. Isso evita-lhe toques que poderiam ser acusados de pretensiosismo mas não lhe permite escapar a um ritmo que, embora lento, é bastante mais hollywoodesco do que o de Só os Amantes Sobrevivem ou Debaixo da Pele. Não lhe permite também escapar a vários clichés. E se, considerando o tema, a tendência para mostrar paisagens deslumbrantes (ainda que frequentemente agrestes) até se justifica, a abordagem da relação entre Davidson e Smolan nem por isso. Sendo certo que, em boa medida, é através dela que o processo de (re-)socialização progressiva de Robyn nos é mostrado, a relação “soa” a falso e a evolução de Smolan, de cretino bem-intencionado (ao ponto de ofender a comunidade aborígena, forçando Robyn a efectuar uma alteração ao trajecto previsto) para alguém mais maduro, respeitador de esferas e decisões alheias, é demasiado rápida e esquemática. Mais conseguidas são as cenas em que Robyn estabelece contacto com os membros da comunidade aborígene ou os encontros com turistas (Davidson tornou-se notícia, sendo conhecida como a Camel Lady) e com um motociclista tentando bater um recorde qualquer, que admite nem sequer ter tempo para ver a paisagem. Acima de todos elas, porém, encontram-se as que a mostram sozinha no deserto com o cão e os quatro camelos. (Tracks é um filme que poderá desagradar a quem se irrita com pessoas que parecem preferir animais a humanos.) É aí que os planos metafísico e (extremamente) físico da viagem se impõem. É também aí que o trabalho de Mia Wasikowska surge em todo o esplendor.

Wasikowska (também australiana) vem fazendo escolhas sui generis desde que chamou a atenção como Alice, no filme de Tim Burton. Em Tracks, é inteiramente credível, na forma como lida com os animais, com as consequências físicas da viagem, com os momentos de dúvida, exasperação, dor, apatia, medo e tristeza.

O filme evita alongar-se sobre possíveis motivações. Excepto por uma série de flashbacks que nos levam à infância de Robyn (a mãe suicidou-se quanto ela tinha 11 anos mas o filme não explora demasiado essa perda, parecendo até considerar outra, ocorrida por essa altura, como mais importante), não conhecemos Robyn antes de chegar a Alice Springs. A única alusão aos anos de vida boémia é a visita (insuportável para Robyn) de um grupo de amigos, logo no início do filme. Mesmo assim, talvez tivesse sido preferível nem sequer incluir esses momentos. Ainda que seja a primeira pergunta a sair dos lábios de quase toda a gente confrontada com decisões difíceis de entender, o «porquê» é frequentemente desnecessário. Num momento ou noutro, todos os seres humanos sentem vontade de se afastar de tudo – e em especial dos outros humanos. Interessante é perceber se a viagem funciona como meio de reaproximação.

Tracks é ligeiramente fragmentado e incoerente, por vezes banal. Um realizador mais destemido talvez pudesse ter extraído da história uma obra-prima. Ainda assim, inclui momentos sublimes e, ao contrário de tantos outros filmes, ficou-me na memória. Provavelmente por apelar à minha bem desenvolvida costela de eremita – uma vez que (e ainda que o filme me tenha levado a apreciá-los um pouco mais) fã de camelos não sou.

 

* Os camelos foram introduzidos na Austrália pelo homem. Com o desenvolvimento do automóvel, a sua utilidade desapareceu e muitos foram libertados, multiplicando-se em estado selvagem.

Três filmes de 2014 (2)


escafandro,

 

Debaixo da Pele, de Jonathan Glazer.

 

O livro de Michel Faber no qual o filme se baseia é excelente. Foi editado em Portugal pela Difel há cerca de uma dúzia de anos e fez-me ler quase tudo o resto escrito por Faber: as novelas The Courage Consort e The Hundred and Ninety-Nine Steps, a recolha de contos The Fahrenheit Twins e o gigantesco romance The Crimson Petal and the White, um Dickens pós-moderno com a linguagem e o sexo que os tempos de Dickens não autorizavam, convertido em honorável mas não excepcional mini-série pela BBC. (Faber publicou um novo romance, The Book of Strange New Things, há cerca de 3 meses mas ainda não o li.)

Se Debaixo da Pele e The Crimson Petal and the White revelavam uma fraqueza em Faber era a dificuldade em encontrar finais à altura do que os precedera. Debaixo da Pele, o filme, não sofre desse mal. Mas é bastante diferente do livro e, no início, isso constituiu um problema. Assistir a adaptações cinematográficas pouco fiéis de livros que se apreciaram é complicado. Glazer transferiu a maioria da acção das highlands escocesas para ruas citadinas. Eliminou as explicações (ainda que Faber também tenha deixado muito à imaginação). Eliminou grande parte de diálogo. Eliminou a terminologia, incluindo os nomes dos alienígenas (à la Anthony Burgess em A Laranja Mecânica, Faber inventou parte de uma linguagem, de que relembro – não tenho o livro comigo – vodsel para «humano», vodissin para «carne humana» e Isserly para o nome da protagonista). Debaixo da Pele, o filme, é abstracto e exigente. Acompanha os passos de uma alienígena (uso «ela» embora não faça muito sentido atribuir-lhe um género só porque assumiu a forma de Scarlett Johanssen) que, transmutada em fêmea humana (atraente mas com um corpo onde algo parece sempre ligeiramente deformado – o que, em tempos de operações plásticas e «correcções» digitais, só o torma mais real), percorre as ruas ao volante de uma carrinha em busca de homens cujo desaparecimento não suscite atenções. A finalidade permanece pouco clara (o livro é muito mais explícito) mas a forma como os domina é uma tremenda metáfora visual para o modo como os homens (os «machos» talvez fosse mais exacto) esquecem tudo o resto perante a promessa de sexo. Debaixo da Pele tem uma Johanssen que não era assim tão sublime desde Lost in Translation mas também tem poucas palavras, pouca acção, imagens estranhas (nas quais a música minimalista e inquietante criada por Mica Levi, dos Micachu & The Shapes, encaixa de forma brilhante), movimentos de câmara ponderados, sem um milímetro de exagero. Houve quem mencionasse Kubrick e existem de facto pontos em comum entre este universo e o de 2001 ou The Shining (também Laranja Mecânica, mas menos). A câmara, os silêncios, o uso da música, a recusa em dar explicações claras. A metafísica do que constitui um ser humano.

Vi Debaixo da Pele em casa mas trata-se de um filme a ver no cinema. Torna-se necessário manter disponibilidade total. Persistir. Entrar no ritmo. Aprender a perceber a alienígena à medida que ela, indiferente e maquinal no início, vai ficando intrigada pela espécie humana. Pela sua (nossa) fragilidade. Pelas suas (nossas) motivações e contradições. Pelos comportamentos e pelas injustiças que advêm das diferenças morfológicas (e, mais especificamente, da dicotomia beleza/fealdade), que se percebe no final não existirem no mundo dela. Pela capacidade para amar e odiar.

Os últimos vinte minutos, quase sem diálogo, são assombrosos. A alienígena corta com o seu mundo e tenta perceber o nosso. Está completamente impreparada para o conseguir e, no entanto, de certa forma vai consegui-lo. Vai perceber que uma das características humanas mais fortes é a aleatoriedade dos comportamentos, mesmo quando nascidos de impulsos similares (neste caso – como tantas vezes –, de índole sexual). Que um ser desamparado e estranho tanto pode encontrar a bondade (a qual, ainda assim, traz consequências) como a violência. Assistir a Debaixo da Pele é como ver um animal selvagem ganhar progressivamente consciência. E pagar o preço inevitável.

 

Nota: João Campos escreveu sobre o filme aqui no Delito em Maio passado.

Três filmes de 2014 (1)


escafandro,

Foram os três de que me lembrei mais rapidamente. Isso não faz deles os melhores do ano porque vi relativamente poucos filmes estreados em 2014 (por exemplo, ainda estou para ver Interstellar – referido duas vezes no Delito – e Ida). Nem sequer estou certo de que faça deles os melhores de entre esses poucos. Depois de os escolher, apercebi-me que partilham uma característica: são olhares alienígenas sobre a condição humana – mesmo no caso em que a protagonista pertence à espécie (e até se baseia numa pessoa real).

 

 

Só os Amantes Sobrevivem, de Jim Jarmusch.

 

Jarmusch é pessimista e, com frequência, pretensioso. Esta história de dois vampiros transbordantes de estilo e ennui tinha todos os ingredientes para exasperar. Adam e Eve (pun claramente intended) estão vivos e – não obstante viverem em cidades diferentes no início do filme – apaixonados um pelo outro há centenas de anos. Conheceram poetas, dramaturgos, filósofos. Adam é músico. Chegou a oferecer um adágio a Schubert (que o melhorou). Evitam o contacto com os humanos (a que se referem como zombies) e até com outros vampiros, menos intelectuais, mais impulsivos, simultaneamente mais perigosos (a discrição é fundamental, numa época em que andar por aí a beber sangue humano dá demasiado nas vistas) mas também mais integrados nos tempos actuais. Tempos incultos, de espectáculos básicos e reality shows, que Eve suporta à base de leitura, estoicismo e pragmatismo mas que deprimem Adam profundamente. De entre os poucos vampiros com que se dão, realça-se um idoso Kit Marlowe, o – como poderia ser de outra forma? – verdadeiro autor das peças atribuídas a Shakespeare.

Por atraente que a premissa seja, o filme tem problemas. Um deles está em raramente admitir que na actualidade ainda são produzidas obras culturais dignas de registo. Há uma cena na qual Eve mete livros numa mala e The Infinite Jest, de David Foster Wallace, é claramente visível. Há outra, em Tânger, perto do final, na qual Adam e Eve assistem mesmerizados a um espectáculo da libanesa Yasmin Hamdan. Pouco mais. Outro está na forma glorificada como o passado nos é apresentado. Se o Renascimento e o Iluminismo foram épocas de avanços nos campos político e cultural, não deixaram por isso de ser tempos em que, percentualmente, muito mais gente estava impedida de aceder à cultura (e mesmo à literacia) e vivia sob regimes autoritários altamente classistas. Jarmusch parece assim lamentar o processo de democratização da cultura, por – segundo ele – induzir um decréscimo de qualidade. Trata-se de uma tendência comum em que eu próprio já caí. Mas, ainda que possa ter uma componente de verdade, é simplista.

O que salva o filme? Acima de tudo, o romantismo. A relação intensa, paritária, separada do mundo, entre Adam e Eve. O estilo, também – é mais um Jarmusch nocturno, desolado mas belo, em que os bairros abandonados de Detroit surgem como paradigma da decadência humana e as ruas de Tânger como uma hipótese de comunidade. Os actores, excelentes, ainda que desempenhando papéis que se prestam a tal. Tilda Swinton, Tom Hiddleston, John Hurt e a ubíqua Mia Wasikowska (seis filmes nos últimos dois anos, sendo que abordarei outro no terceiro texto desta mini-série) agarram com unhas e dentes papéis que (nos casos de Swinton, Hiddleston e Hurt) lhes permitem exprimir de forma inteligente e plena de estilo (estes são vampiros tão cool que até dói) a propensão para o pessimismo – para o niilismo, mesmo – que afecta a parte bem pensante da sociedade actual.

Para o espectador (para mim, em todo o caso), Só os Amantes Sobrevivem é um mergulho culposo no prazer do pessimismo e da depressão, em nome da capacidade salvífica da cultura (como elemento verdadeiramente diferenciador do ser humano) e de um romance belíssimo, resistente à passagem dos séculos, que (e será esse o verdadeiro raio de luz do filme) permite acalentar esperanças na existência de uma versão à escala humana, com a duração de algumas décadas.

Conto de Ano Novo


escafandro,

«Cinco. Quatro. Três. Dois. Um. Feliz Ano Novo!»

Os quatro homens e as duas mulheres deslizaram suavemente uns até junto dos outros e abraçaram-se. Um dos americanos mantinha o olhar no painel de instrumentos.

«OK. Já chega. Estamos de volta a 2014.»

 

«Cinco. Quatro. Três. Dois. Um. Feliz Ano Novo!»

Os dois americanos trocaram um high-five. Os dois russos bateram no ombro um do outro e abraçaram a colega russa. A italiana, mais efusiva, fez questão de abraçar toda a gente.

«OK. Já chega. Estamos de volta a 2014.»

 

«Cinco. Quatro. Três. Dois. Um. Feliz Ano Novo!»

Excepto por uns quantos sorrisos, ninguém se manifestou. Um dos russos perguntou: «Dá tempo para abrir a garrafa?»

O americano que vigiava o painel abanou a cabeça. «Não. Ainda estamos em 2015 mas não vai durar.»

Ficaram todos em silêncio durante algum tempo.

«OK. Estamos de volta a 2014.»

 

«Cinco. Quatro. Três. Oh, que se lixe. Feliz Ano Novo.»

Ninguém se mexeu. Ouviu-se uma voz: «Alfa, tudo bem?»

O americano respondeu: «Tudo normal.» Depois acrescentou: «Da próxima vez abrimos a garrafa.»

Passaram alguns minutos. A italiana disse qualquer coisa sobre uma tradição milanesa. A russa comentou que em Vozdvizhenka os costumes eram mais asiáticos do que europeus. Um dos americanos perguntou: «Isso é mesmo ao lado da Coreia do Norte, não é? Como é que eles celebram a passagem do ano?» A russa não sabia. O outro americano disse: «Vêem The Interview na internet.» Os americanos riram, a italiana também.

Instalou-se o silêncio. Apesar do espaço ser exíguo, os três russos formavam um grupo ligeiramente à parte. Nas últimas semanas, os dois homens, pilotos da força aérea, vinham-se perguntando qual a forma adequada de lidar com os americanos, agora que os problemas na Ucrânia haviam levado não apenas a um arrefecimento nas relações entre os dois países como a uma crise económica na Rússia. A colega, engenheira, tendia a contemporizar. Dizia que a política não era para ali chamada.

«OK. Estamos de volta a 2014.»

 

«Feliz Ano Novo. Acho que podemos abrir a garrafa.»

O outro americano disse: «Mas a passagem ainda não é definitiva.»

Um dos russos disse: «Para a Rússia, é.»

O americano que anunciava as passagens replicou: «Essa é uma posição egoísta. Se era para ser assim, mais valia não nos termos reunido.»

O outro americano resmungou entre dentes: «E ainda faltam cinco meses.»

A italiana tentou contemporizar: «Alora, calma.»

O primeiro americano disse: «Podes falar. Itália também está quase. Aliás, já está.»

A italiana sorriu e levantou os braços, numa celebração irónica. O americano cedeu e deixou escapar um sorriso.

O russo que falara antes disse: «Estamos a demorar demasiado.»

A russa aproveitou: «Pois estamos. Fica para a próxima.»

«дерьмо», resmungou o colega.

O silêncio caiu de novo. A italiana teve a impressão de que passavam horas sem ninguém o voltar a quebrar. Evidentemente, tratava-se apenas de uma sensação.

«OK. Estamos de volta a 2014.»

 

«2015 outra vez.»

O russo mais impaciente pegou na garrafa.

«Cuidado com a rolha. E não deixes sair champanhe. Parece que no ano passado deu merda.»

A italiana sorriu. «Deve ser giro beber champanhe em suspensão no ar.»

«Pois. O problema é quando atinge os instrumentos.»

Tudo correu bem e o champanhe pareceu suavizar o ambiente – de tal modo que, bastante mais tarde, o americano que anunciava as passagens admitiu: «Raios, distraí-me. Estamos outra vez em 2014.»

Ninguém lhe ligou.

 

«2015.»

«Oh, cala-te.»

 

 

A Estação Espacial Internacional tem a bordo seis astronautas: dois russos, uma russa, dois americanos, uma italiana. Demora 92,74 minutos a dar a volta ao planeta, rodando com uma inclinação orbital de 51,65º. Como o movimento rotacional da Terra é bastante mais lento, na noite de passagem de ano a Estação vai ficando cada vez mais tempo em fusos horários que já se encontram no ano que entra, antes de voltar a fusos ainda no ano que sai. Isto se não me enganei na lógica da coisa. Em qualquer dos casos: Feliz Ano Novo, Happy New Year, Felice Anno Nuovo e С Новым годом.

Aviso


escafandro,

Na sequência da aplicação de um coeficiente de sustentabilidade, a partir de 2015 os anos apenas poderão retirar-se sem penalizações após o cumprimento integral de 366 dias (367 se forem bissextos).

Conto de Natal


escafandro,

Era de prever. Levava-a fisgada, claro. Logo que a sentaram ao colo do Pai Natal, na praça do Centro Comercial, olhou para cima, para a imensa barba branca, e franziu ligeiramente os olhos, numa expressão que o pai conhecia bem: usava-a sempre que um plano dava certo. O Pai Natal fez-lhe uma pergunta que ela ignorou. Em vez de responder, estendeu a mão, agarrou-lhe a barba e puxou com força. A barba afastou-se cerca de dez centímetros da cara do Pai Natal. Ela sorriu em triunfo. As crianças que aguardavam vez gritaram. O Pai Natal sobressaltou-se e quase a deixou cair. Isto fez com que ela largasse a barba, a qual, pelo efeito do elástico, embateu com força na cara espantada do Pai Natal. Ele soltou um grito estranhamente agudo e tê-la-ia deixado cair dos joelhos se o pai não a estivesse já a agarrar. Quando a levou dali, ela não parava de dizer: «Não é verdadeira. É falsa. O Pai Natal é falso.»

Soube há pouco da história, durante o almoço de Natal. Fui ter com ela. Sentei-a no sofá a meu lado. «Tenho que contar-te um segredo.» Disse-lhe:

«Foi no ano passado. Estava tudo pronto no Pólo Norte: os presentes embrulhados e metidos no saco; o trenó com patins novos e a revisão dos cinco milhões de quilómetros efectuada; as renas bem alimentadas, bem penteadas e em excelente forma física: tinham andado a ser treinadas durante meses, fazendo provas de força contra ursos polares e voando até mais de um quilómetro de altura por várias vezes; no sistema GPS do trenó (GPS é uma maneira de se encontrarem os sítios, como no carro dos teus pais) tinham sido introduzidas as moradas de todas as crianças cristãs, e de todas as crianças que, mesmo não sendo cristãs, tinham sido muito boazinhas durante o ano, e de todas as crianças que podem vir a ser cristãs no futuro (sabes que o aumento do número de casamentos entre pessoas de religiões diferentes dificultou muito o trabalho de selecção do Pai Natal nos últimos anos) e de todas as crianças que, apesar de se terem portado mal, são familiares dos principais financiadores do Pai Natal, com a rota definida de modo a aproveitar os ventos e a evitar as tempestades. Tudo pronto, apesar das dificuldades encontradas durante o ano anterior.»

«Dificuldades?»

«Sim. Muitas dificuldades. Tudo começou com os problemas de financiamento – quer dizer, era muito difícil arranjar dinheiro para fabricar os brinquedos. As empresas que costumavam dar dinheiro à empresa do Pai Natal tinham cortado nas doações, apesar dos seus chefes terem pedido muitas desculpas. O aumento do preço dos combustíveis tinha levado a uma enorme subida da factura de energia, que é uma das fatias maiores dos custos de operar a partir do Pólo Norte. Tornou-se difícil pedir dinheiro emprestado aos bancos porque os spreads (sabes o que são spreads? Não importa, é uma coisa má que os adultos têm de suportar quando pedem dinheiro emprestado) eram cada vez mais elevados. A situação agravou-se ainda mais quando duas das três agências internacionais de notação (não posso evitar as palavras difíceis, querida, mas vais ver que no fim percebes) baixaram o rating da empresa de fabrico e distribuição de brinquedos do Pai Natal, por considerarem que uma empresa com problemas de localização e que não cobra dinheiro pelos produtos que faz estava especialmente mal preparada para enfrentar tempos de crise. (Já ouviste falar na crise, não já? Óptimo.) Em Março, o Pai Natal foi forçado ao despedimento colectivo de dois terços dos duendes, que ficaram muito zangados porque não há outras empresas no Pólo Norte nem sistemas de segurança social.»

«Então o Pai Natal é mau?»

«Não, as pessoas às vezes têm que fazer coisas que parecem más mas é por um bom motivo. Se ele não fizesse isso todos ficariam no desemprego e os meninos do mundo inteiro não recebiam os presentes de Natal.»

«Ah.»

«Em Abril, o fabrico da maioria dos brinquedos foi transferido para a China e isso trouxe muitas complicações (foi o que os adultos chamam um pesadelo logístico). O sistema de qualidade da empresa do Pai Natal obriga a que nenhum brinquedo para crianças com menos de três anos – tu já tens mais, não já? Já és uma menina crescida –, nenhum brinquedo, dizia eu, pode ter peças que possam ser engolidas e as tintas usadas em todos os brinquedos (mesmo todos) não podem fazer mal à saúde e, se possível, até devem ser gostosas. Assim, de modo a garantir a qualidade da produção, os duendes restantes eram forçados a muitas viagens à China, onde alguns desapareceram, não se sabe se por terem-se apaixonado por meninas orientais, acontecimento muito comum devido – é o que se pensa – a serem da mesma altura, se por terem sido mortos e servidos como pratos afrodisíacos em restaurantes de Pequim.»

«O que é afrodisíacos?»

«É a mesma coisa que ‘muito bom’. São pratos que dão um grande prazer durante muito tempo.»

«Como chocolate?»

«Exactamente. Como chocolate.»

«Ah. Mas então os chineses comem duendes?»

«Não se tem a certeza.»

«São maus?»

«Os chineses?»

«Sim.»

«Não. Quer dizer, mais ou menos. Mas podes estar descansada que eles não comem criancinhas. Isso era mais os russos. Acho eu.»

«Ahn?»

«Nada, esquece. Vou continuar a história, está bem?»

«Está.»

«O desaparecimento de tantos duendes deixou ainda mais trabalho para os restantes. Alguns exigiram subsídios de deslocação, que o Pai Natal foi obrigado a recusar porque as despesas com viagens tinham quadruplicado em relação aos anos anteriores e ele estava a tentar poupar para outra coisa: desde que tivera de dispensar o pessoal doméstico, a Mãe Natal exigia uma série de electrodomésticos para lhe facilitar a vida em casa e ameaçava passar a dormir noutro quarto, que era uma coisa que o Pai Natal não queria porque depois a rena Rodolfo ia querer dormir com o Pai Natal e o Pai Natal sabia que ela ressonava.»

«Como o papá?»

«Er, sim, provavelmente.»

«A mamã também diz que vai dormir para outro quarto.»

«Er, ok. Vamos continuar, está bem?»

«Está.»

«As despesas com viagens tinham então aumentado imenso, até porque não há companhias de aviação low cost (são as que fazem preços mais baratos) a operar no Pólo Norte. O único ponto positivo era que, com as milhas acumuladas, o Pai Natal esperava poder oferecer à Mãe Natal uma viagem de sonho às Maldivas (que são umas ilhas com praias bonitas) depois do Natal. A situação estava neste ponto quando os brinquedos chegaram da China e o Pai Natal teve mais uma péssima surpresa: o papel em que vinham embrulhados tinha a imagem de pequenos Confúcios, que é como se fosse um Deus chinês, em vez de Meninos Jesus. Foi preciso desembrulhar todas as prendas e voltar a embrulhá-las com um papel mais adequado: como já era Novembro e não havia dinheiro, usou-se papel de patrocinadores, lojas como a Toys ‘r’ Us e a Worten ou empresas como a Coca-Cola, que sempre manteve uma excelente relação com o Pai Natal. Para que tudo estivesse pronto a tempo, foi preciso readmitir parte dos duendes despedidos. Fizeram-se contratos com a duração de apenas um mês mas foi preciso pagar-lhes um valor muito elevado, quase o triplo do que eles ganhavam antes.»

«Bem feito.»

«Exacto. Chama-se a isto ‘economia de mercado’. Em meados de Dezembro chegou a última crise: a Mãe Natal, ainda sem os electrodomésticos que desejava, recusou-se a preparar a roupa vermelha e branca do Pai Natal. ‘Não a vou lavar à mão e secar à lareira’, disse. O Pai Natal contactou novamente as tais lojas de patrocinadores mas havia tempestades fortes nos céus da Europa e da América do Norte e era muito difícil fazer os electrodomésticos chegar ao Pólo Norte. Tentou convencer as renas a irem buscá-los mas elas recusaram. Se o tempo estava mau para os aviões, argumentaram, imagine-se o esforço que seria para elas. A menos, claro, que o Pai Natal pagasse a deslocação. Por uma questão de princípio, o Pai Natal recusou. Finalmente conseguiu que, por um preço quase tão elevado quanto o que as renas pediam, lhe enviassem por trenó puxado por cães (que são animais que trabalham por pouco dinheiro, desde que sejam levados a pensar que estão a divertir-se) uma máquina de lavar e outra de secar roupa de uma fábrica da Electrolux, perto de Estocolmo (que é uma cidade da Suécia, não muito longe do Pólo Norte). A Mãe Natal não ficou totalmente satisfeita (queria também uma máquina de lavar louça, um microondas e um ferro de engomar com caldeira) mas acabou por ceder e tratou da roupa do Pai Natal.»

«Ele não podia tratar dela sozinho?»

«Boa pergunta. E tens razão: ele devia saber fazer essas coisas. Mas o Pai Natal é velhote e nunca lhas ensinaram.»

«Mas podia aprender.»

«Talvez ainda aprenda. Vamos continuar, está bem? Estava, pois, tudo pronto na tarde do dia vinte e quatro. Foi então que o Pai Natal decidiu ir arranjar a barba e o cabelo, para estar bonito na noite mais importante do ano. Sentou-se na cadeira do barbeiro da pequena aldeia do Pólo Norte e, como costumava fazer, adormeceu de imediato. Nessa altura os duendes despedidos, há muito decididos a vingarem-se, invadiram a barbearia, arrastaram o barbeiro para a sala dos fundos e ataram-no com restos do fio de embrulho. Depois subiram para cadeiras e raparam o cabelo e a barba ao Pai Natal.»

«Então os duendes são maus?»

«Não. Às vezes as pessoas que têm pouco poder têm de defender os seus interesses e mostrar que não gostaram do que lhes fizeram. E eles não aleijaram o Pai Natal; apenas lhe cortaram a barba e o cabelo. Quando acordou e se viu ao espelho, o Pai Natal apanhou um grande susto e quase teve um ataque cardíaco (que era uma coisa que ele sabia poder acontecer-lhe, porque o médico lhe dizia há anos para comer menos e emagrecer). Saiu da barbearia a gritar e, enterrando as pernas na neve, observado por todos os habitantes da aldeia que se riam às gargalhadas, correu para casa. ‘Está tudo perdido’, lamentou-se. ‘Não é possível que o Pai Natal não tenha barba nem cabelo. O que vou fazer?’ A Mãe Natal não se alarmou. Foi buscar duas esfregonas de limpar o chão (uma nova, a outra já um pouco usada) e construiu uma cabeleira e uma barba falsas. Colou-as à cabeça do Pai Natal com fita adesiva e disse-lhe: ‘Pronto, servem muito bem e até te dão um aspecto mais moderno.’ O Pai Natal não ficou totalmente convencido mas nada podia fazer. Duas horas depois saiu para a sua volta da noite de Natal e desde então (lembra-te que isto foi no ano passado), usa barba e cabeleira postiças enquanto o seu próprio cabelo e barba não voltam a crescer (vão ser precisos muitos anos). É por isso que elas se soltam quando alguém as puxa. Mas isso não significa que não se esteja perante o verdadeiro Pai Natal. E também já percebes por que é que ele fica envergonhado quando alguém faz o que tu fizeste.»

Os olhos dela estavam agora brilhantes. Receei que chorasse. Sorri-lhe.

«Mas tu não voltas a fazê-lo, não é? E vais ser especialmente boazinha para ele, quando o vires?»

Fez que sim com a cabeça.

«Óptimo. E também há boas notícias, pequenina, sabes? Para agradecer à Mãe Natal, o Pai Natal ofereceu-lhe a melhor máquina de secar roupa, o melhor microondas e o melhor ferro de engomar com caldeira que encontrou. E prometeu que este ano iam às Maldivas – onde, a esta hora, devem estar quase a chegar.»

«Com as renas?»

«Er, sim, claro. As renas também gostam de praia.»

«E os duendes?»

«Acho que os duendes ficaram a tomar conta das coisas no Pólo Norte. Mas os duendes não podem apanhar muito sol. Faz-lhes mal à pele. E também não podem tomar muitos banhos de mar. Correm o risco de encolher ainda mais, como às vezes acontece à roupa depois de ser lavada.»

Ficou em silêncio, pensativa. Sorri-lhe. Hesitante, retribuiu. Aproveitei e devolvi-a aos pais.

 

(Republicado.)

 

 

TAP


escafandro,

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A posição de António Costa apenas demonstra como são dúcteis as suas convicções (vai-se a ver e, nele, é qualidade). O debate em torno da interpretação do texto do memorando seria anedótico se não fosse ridículo. Qualquer discussão tem de começar num ponto assente: a TAP não sobreviverá sem uma injecção de capital (500 milhões de euros, segundo leio). Ainda que as regras europeias o permitissem (e fazem bem em não permitir), estão os portugueses (e não me refiro apenas a uma mão-cheia  de situacionistas bem instalados na vida) disponíveis para pagar o custo da manutenção da empresa na esfera pública? Eu não estou. Como portuense, há anos que a TAP não representa para mim qualquer vantagem em relação a outras companhias, obrigando-me invariavelmente a fazer escala em Lisboa. Mas isto é um pormenor (ninguém me obriga a viver no segundo mundo). Podiam existir razões de fundo para manter a TAP na posse do Estado. Não há. Quase todas as companhias aéreas europeias são maioritária ou totalmente privadas. Nada obsta a que o serviço seja prestado por uma empresa privada (a privada Lufthansa até vai pegar em parte dele nos dias da greve). Pode ser (e é) uma exigência do processo de privatização que a base de operações e alguns serviços sejam mantidos em Lisboa. O que resta são interesses individuais e corporativos. Compreensíveis. Quem, na prática, controla uma empresa com recursos aparentemente ilimitados (os bolsos dos contribuintes) não deseja mudanças. É assim na TAP como o é nas restantes empresas públicas de transportes ou na RTP. E que trabalhadores e sindicatos pareçam recear tanto as decisões de um proprietário que, obviamente, desejará obter lucro mostra apenas que entendem bem quão contrárias a esse objectivo foram inúmeras decisões do passado, nascidas de braços de ferro que se habituaram a vencer. A quilométrica (atendendo à empresa, talvez devesse usar milhas) e absurda lista de exigências que apresentam constitui, aliás, um perfeito exemplo disso mesmo.