Submissão e luta


escafandro,

charlie_hebdo_1489375.jpg

O novo livro de Michel Houellebecq, Soumission (tradução de «Islão») acabou de chegar às livrarias mas é discutido pela intelligentsia francesa há várias semanas. Nele, com o apoio de PSF e UMP, o candidato de um imaginário partido muçulmano (a Fraternidade Muçulmana) derrota Marine Le Pen na segunda volta das eleições presidenciais de 2022 e começa a implementar um regime patriarcal baseado na religião que (porque as mulheres são empurradas de volta às tarefas domésticas) até faz diminuir a taxa de desemprego. Houellebecq defende a plausibilidade do aparecimento de um partido assim com o facto da maioria dos muçulmanos (já cerca de 10% da população francesa) não se identificarem com os existentes: os valores tradicionais do Islamismo afastam-nos da esquerda enquanto a política económica e de imigração os afastam da direita.

Houellebecq é um polemista formidável, que admite desprezar o Islamismo (despreza um pouco menos o Cristianismo e o Judaísmo apenas porque atribui valor literário à bíblia) mas também é alguém que toca frequentemente em assuntos que mereciam discussão menos entrincheirada do que a permitida pela força castradora do politicamente correcto. No livro anterior, apresentava uma França – e uma Europa – dependente do turismo, museu a céu aberto completamente irrelevante na cena mundial – uma visão que se vem tornando cada vez menos irrealista. Para além de temas habituais na ficção literária (as desilusões associadas ao processo de envelhecimento, por exemplo), é possível encontrar nas suas obras, bem como em algumas das suas entrevistas, uma preocupação (à primeira vista curiosa, em alguém que parece acreditar em tão pouco) com a barbárie a que a progressiva substituição de valores partilhados e intangíveis pela apatia, pelo individualismo e pelo medo de ficar mal visto pode conduzir a sociedade europeia. De resto, é esta perda de valores que justifica outro tema recorrente do francês: o carácter cada vez mais utópico das relações amorosas duradouras, baseadas em monogamia sexual, que tradicionalmente estruturavam a sociedade. Num toque irónico, o cenário apresentado em Soumission, de progressiva conversão ao Islamismo da sociedade francesa (sendo que a conversão – ou, mais propriamente, a resignação – de ateus e agnósticos parece fácil de conseguir porque os movem valores práticos, materiais), resolve essa questão, pelo menos a um nível superficial.

Como seria de esperar, Houellebecq tem estado debaixo de fogo da Esquerda desde que o tema do livro foi anunciado. E, contudo, numa época em que alemães protestam contra o aumento do número de muçulmanos e em que Paris limpa das ruas o sangue derramado por atentados em nome do Islão, chegou mesmo a altura de debater estas questões. Altura de assumir que estamos perante um choque de civilizações (em muitos apectos, entre a barbárie e a civilização ou entre a Idade Média e a Modernidade) e não apenas de efeitos da pobreza ou de complexos de inferioridade, como frequentemente se afadigam a explicar certas mentes oportunistas, mais preocupadas em justificar as acções daqueles que combatem os valores que afirmam defender do que em defendê-los efectivamente. Altura de procurar mitigar o risco, sem cair no tipo de medidas que configurariam capitulação. Acima de tudo, altura de afastar a apatia e de reforçar os valores que definem aquilo que a Europa aprendeu a representar nas últimas sete décadas – os mesmos valores que, adicionados a um nível de bem-estar económico ainda muito superior à média, a continuam a fazer atractiva para milhares de imigrantes: tolerância e liberdade. É imperativo descobrir a forma de, com eles, se possível através deles, combater todos os que praticam a intolerância e advogam a submissão. As manifestações de ontem foram um bom indício. Não bastam, porém. Mais importante é garantir diariamente o direito à crítica, à irreverência, ao mau-gosto. Não tergiversar e chamar a atenção de todos os que costumam fazê-lo, incluindo muitos líderes das comunidades islâmicas: um cartoon nunca justifica violência, uma opinião, por insultuosa que seja, nunca justifica ameaças e atentados. Quando Houellebecq afirmou que o Islamismo era a religião mais estúpida, foi processado por grupos de muçulmanos franceses. Seja. Os tribunais também existem para isso. E para decidir – como decidiram – que a opinião é livre.

Acima de tudo, é preciso demonstrar que a mesma liberdade individual que terá desempenhado um papel no desvanecimento dos tais valores intangíveis (ninguém é condenado à fogueira por recusar Deus, as mulheres podem ser independentes, etc., etc.)  é, em si mesma, suficientemente forte e agregadora. Deixar claro que, com ou sem atentados, fazemos questão de viver normalmente num certo estilo de sociedade. Embora – convém referi-lo – não haja insulto superior a esse.

 

Nota: Ainda não li Soumission mas apenas vários textos sobre ele.

0 comentários em “Submissão e luta”

  1. apenas porque atribui valor literário à bíblia

    Este argumento é do mais cretino que já vi. O Corão é unânimemente reconhecido por ser um livro de enorme valor literário, aproximando-se em muitos casos da melhor poesia. Nada que se compare com a Bíblia.

    1. E isso prova o quê? Que há idiotas tendenciosos em todo o lado? Creio que ninguém alegará que o Charlie Hebdo era uma publicação perfeita nem que não existem judeus sem sentido de humor (apesar de, atendendo ao manancial de anedotas judaicas existente, até parecer mentira) – e capazes de manobras de bastidores. É condenável, deve ser criticado, mas não é bem a mesma coisa que fuzilar 12 pessoas.

        1. Não. Neste contexto, significa uma coisa bem precisa, que ultrapassa os erros (não configurando uma filosofia) cometidos no passado. Num momento ou noutro, todas as publicações – como todas as pessoas – cometem erros de julgamento.

          1. Os erros de julgamento tanto se aplicam ao passado como ao presente. Eu julgo todas as situações.
            E no presente não vi em Charlie Hebdo qualquer referência que envolva judeus. A cobardia denuncia-se a si mesma.
            Não é que eu deseje isto. A matriz de meu pensamento mantém-se. Não culto-o a cobardia e o desrespeito e nem tampouco faço heróis os que não o merecem.
            E não pactuando com mortandades não deixo de apontar as razões que as provocam.

          2. Que eu saiba (nunca fui um leitor), o Charlie Hebdo publicou muitas vezes cartoons referenciando judeus e o Judaísmo (p. ex., no primeiro post pós-ataque surgido no Delito, o José Navarro de Andrade apresentou três, visando Cristianismo, Islamismo e Judaísmo). Mas não é isso que está em causa. O Charlie Hebdo é, acima de tudo, o exemplo de algo que tem direito a existir. É nesse sentido que a maioria das pessoas se diz Charlie.

          3. E quem existe tem o direito e o dever de respeitar toda a existência. Quanto aos cartoons sobre judeus, acabaram quando Sié foi despedido.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *