O novo livro de Michel Houellebecq, Soumission (tradução de «Islão») acabou de chegar às livrarias mas é discutido pela intelligentsia francesa há várias semanas. Nele, com o apoio de PSF e UMP, o candidato de um imaginário partido muçulmano (a Fraternidade Muçulmana) derrota Marine Le Pen na segunda volta das eleições presidenciais de 2022 e começa a implementar um regime patriarcal baseado na religião que (porque as mulheres são empurradas de volta às tarefas domésticas) até faz diminuir a taxa de desemprego. Houellebecq defende a plausibilidade do aparecimento de um partido assim com o facto da maioria dos muçulmanos (já cerca de 10% da população francesa) não se identificarem com os existentes: os valores tradicionais do Islamismo afastam-nos da esquerda enquanto a política económica e de imigração os afastam da direita.
Houellebecq é um polemista formidável, que admite desprezar o Islamismo (despreza um pouco menos o Cristianismo e o Judaísmo apenas porque atribui valor literário à bíblia) mas também é alguém que toca frequentemente em assuntos que mereciam discussão menos entrincheirada do que a permitida pela força castradora do politicamente correcto. No livro anterior, apresentava uma França – e uma Europa – dependente do turismo, museu a céu aberto completamente irrelevante na cena mundial – uma visão que se vem tornando cada vez menos irrealista. Para além de temas habituais na ficção literária (as desilusões associadas ao processo de envelhecimento, por exemplo), é possível encontrar nas suas obras, bem como em algumas das suas entrevistas, uma preocupação (à primeira vista curiosa, em alguém que parece acreditar em tão pouco) com a barbárie a que a progressiva substituição de valores partilhados e intangíveis pela apatia, pelo individualismo e pelo medo de ficar mal visto pode conduzir a sociedade europeia. De resto, é esta perda de valores que justifica outro tema recorrente do francês: o carácter cada vez mais utópico das relações amorosas duradouras, baseadas em monogamia sexual, que tradicionalmente estruturavam a sociedade. Num toque irónico, o cenário apresentado em Soumission, de progressiva conversão ao Islamismo da sociedade francesa (sendo que a conversão – ou, mais propriamente, a resignação – de ateus e agnósticos parece fácil de conseguir porque os movem valores práticos, materiais), resolve essa questão, pelo menos a um nível superficial.
Como seria de esperar, Houellebecq tem estado debaixo de fogo da Esquerda desde que o tema do livro foi anunciado. E, contudo, numa época em que alemães protestam contra o aumento do número de muçulmanos e em que Paris limpa das ruas o sangue derramado por atentados em nome do Islão, chegou mesmo a altura de debater estas questões. Altura de assumir que estamos perante um choque de civilizações (em muitos apectos, entre a barbárie e a civilização ou entre a Idade Média e a Modernidade) e não apenas de efeitos da pobreza ou de complexos de inferioridade, como frequentemente se afadigam a explicar certas mentes oportunistas, mais preocupadas em justificar as acções daqueles que combatem os valores que afirmam defender do que em defendê-los efectivamente. Altura de procurar mitigar o risco, sem cair no tipo de medidas que configurariam capitulação. Acima de tudo, altura de afastar a apatia e de reforçar os valores que definem aquilo que a Europa aprendeu a representar nas últimas sete décadas – os mesmos valores que, adicionados a um nível de bem-estar económico ainda muito superior à média, a continuam a fazer atractiva para milhares de imigrantes: tolerância e liberdade. É imperativo descobrir a forma de, com eles, se possível através deles, combater todos os que praticam a intolerância e advogam a submissão. As manifestações de ontem foram um bom indício. Não bastam, porém. Mais importante é garantir diariamente o direito à crítica, à irreverência, ao mau-gosto. Não tergiversar e chamar a atenção de todos os que costumam fazê-lo, incluindo muitos líderes das comunidades islâmicas: um cartoon nunca justifica violência, uma opinião, por insultuosa que seja, nunca justifica ameaças e atentados. Quando Houellebecq afirmou que o Islamismo era a religião mais estúpida, foi processado por grupos de muçulmanos franceses. Seja. Os tribunais também existem para isso. E para decidir – como decidiram – que a opinião é livre.
Acima de tudo, é preciso demonstrar que a mesma liberdade individual que terá desempenhado um papel no desvanecimento dos tais valores intangíveis (ninguém é condenado à fogueira por recusar Deus, as mulheres podem ser independentes, etc., etc.) é, em si mesma, suficientemente forte e agregadora. Deixar claro que, com ou sem atentados, fazemos questão de viver normalmente num certo estilo de sociedade. Embora – convém referi-lo – não haja insulto superior a esse.
Nota: Ainda não li Soumission mas apenas vários textos sobre ele.


apenas porque atribui valor literário à bíblia
Este argumento é do mais cretino que já vi. O Corão é unânimemente reconhecido por ser um livro de enorme valor literário, aproximando-se em muitos casos da melhor poesia. Nada que se compare com a Bíblia.
Apenas uma entre as muitas opiniões polémicas de Houellebecq.
combater todos os que praticam a intolerância e advogam a submissão
Todas as religiões monoteistas advogam a submissão. Pretende combater os católicos?
Felizmente, já nem todas advogam a intolerância.
Excelente texto!
Obrigado.
Com certeza. Vamos lá falar sobre submissões:
http://economico.sapo.pt/noticias/charli e-hebdo-despediu-cartonista-por-antisemi tismo_209597.html
E isso prova o quê? Que há idiotas tendenciosos em todo o lado? Creio que ninguém alegará que o Charlie Hebdo era uma publicação perfeita nem que não existem judeus sem sentido de humor (apesar de, atendendo ao manancial de anedotas judaicas existente, até parecer mentira) – e capazes de manobras de bastidores. É condenável, deve ser criticado, mas não é bem a mesma coisa que fuzilar 12 pessoas.
Isto só significa que quem quiser ser Charlie o será em toda a sua dimensão.
Não. Neste contexto, significa uma coisa bem precisa, que ultrapassa os erros (não configurando uma filosofia) cometidos no passado. Num momento ou noutro, todas as publicações – como todas as pessoas – cometem erros de julgamento.
Os erros de julgamento tanto se aplicam ao passado como ao presente. Eu julgo todas as situações.
E no presente não vi em Charlie Hebdo qualquer referência que envolva judeus. A cobardia denuncia-se a si mesma.
Não é que eu deseje isto. A matriz de meu pensamento mantém-se. Não culto-o a cobardia e o desrespeito e nem tampouco faço heróis os que não o merecem.
E não pactuando com mortandades não deixo de apontar as razões que as provocam.
Que eu saiba (nunca fui um leitor), o Charlie Hebdo publicou muitas vezes cartoons referenciando judeus e o Judaísmo (p. ex., no primeiro post pós-ataque surgido no Delito, o José Navarro de Andrade apresentou três, visando Cristianismo, Islamismo e Judaísmo). Mas não é isso que está em causa. O Charlie Hebdo é, acima de tudo, o exemplo de algo que tem direito a existir. É nesse sentido que a maioria das pessoas se diz Charlie.
E quem existe tem o direito e o dever de respeitar toda a existência. Quanto aos cartoons sobre judeus, acabaram quando Sié foi despedido.