Sobre as eleições na Grécia, com um pedido de desculpas aos verdadeiros cultores da democracia


escafandro,

1. Nuances da democracia

Alertar os eleitores para os riscos associados a determinadas opções é «condicionar as eleições», tentar fazer delas um problema, desrespeitar a democracia. Recusar a realidade (parcialmente positiva: a economia grega foi a que mais cresceu na zona euro ao longo do terceiro trimestre de 2014 e previa-se um crescimento de quase 3% em 2015), fazer promessas sem dinheiro para as concretizar (para mais, com eficácia muito para lá de duvidosa: só em «medidas para impulsionar a economia», o Syriza admite gastar 6,5 mil milhões de euros que, no futuro – e ainda segundo o Syriza -, permitiriam um reforço de receitas de 3 mil milhões), ameaçar com o colapso do euro sem ter coragem para assumir no programa político o eventual regresso a uma moeda própria, exigir que outros paguem dívidas contraídas não apenas de forma livre mas após aldrabar as contas para poder contraí-las e – ainda mais divertido – exigir instrumentos para poder continuar a fazê-lo, tudo isto é política digna, corajosa, verdadeira, cem por cento legítima.

 

2. A conta

Greece%20losses (2).pngDirectamente, os países da zona euro detêm hoje 62% da dívida grega enquanto o FMI detém cerca de 10% e o BCE aproximadamente 8%. O gráfico mostra o valor em milhares de milhões de euros de dívida grega detida por cada país (colunas a vermelho, escala da direita) e o peso que o montante representa no PIB (colunas a azul, escala da esquerda). Como se constata, Portugal seria o mais afectado. Se o primeiro perdão de dívida à Grécia afundou os bancos e a  economia de Chipre, o segundo… Bah, o segundo apenas terá vantagens. (Nota a Alexis Tsipras: agradeço factura com NIF.)

(Gráfico obtido no Zerohedge.)

0 comentários em “Sobre as eleições na Grécia, com um pedido de desculpas aos verdadeiros cultores da democracia”

  1. A saída eventual do euro ou da UE seria expor toda esta Europa às mãos de um novo mundo bipolar (EUA/RUSSIA) com as pressões de uma China poderosa financeiramente.
    Será colocar cada país Europeu, incluindo a Alemanha, à mercê de oportunismos. Ou a Europa muda a política e governa para os cidadãos ou implodirá pelo descontentamento destes.

  2. Muito boa tarde. Muito interessante e elucidativo. Se tal fosse possível, admito que não seja fácil, a meu ver seria ainda mais elucidativo detalhar por banco português essa “curiosa” exposição à dívida grega.
    António Cabral
    (chapéus há muitos)

    1. Quem está exposto à dívida grega não são os bancos portugueses, é o Estado português.
      O setor privado (bancos, seguradoras, etc) hoje em dia praticamente não tem exposição à dívida grega. Quem está exposição é o setor público: os restantes Estados europeus detêm 62% da dívida grega, o FMI detem 10% e o BCE detem 8%. Ou seja, apenas 20% da dívida grega é hoje detida por entidades privadas (bancos, etc). E, de entre esses 20%, certamente que as entidades portuguesas detêm uma parte negligenciável.

  3. Alertar eleitores para determinadas condições não é condicionar eleições. A menos que o alerta tome a forma de uma ameaça feita por quem tem poder para concretizá-la. Existe uma certa diferença entre emprestar dinheiro a um país e comprá-lo para se utilizar como quiser.
    Claro que o incumprimento grego vai traduzir-se em despesas para os outros estados, incluindo Portugal. Declaramos então que os gregos devem trabalhar como escravos para pagar as suas dívidas?
    Dizemos que as soluções do Syriza não servem como se as que a troica aplicou ao longo destes anos tivessem levado a alguma solução.
    Claro que como portugueses podemos mandar a solidariedade às urtigas e alinhar com os cães de fila. Até ao dia em que chegar a nossa vez e descobrimos que os cães de fila também comem caniches.

  4. Portugal seria o mais afectado

    Mas seria ainda assim muito pouco afetado. A dívida pública portuguesa é da ordem dos 140% do PIB português, creio. Se os gregos fizessem default, a dívida pública portuguesa aumentaria em cerca de 3% do PIB português, ou seja, passaria de 140% para 143%. Um aumento perfeitamente negligenciável, digo eu.

    Portanto, José António, obrigado por ter postado o gráfico: ele apenas exibe quão irrelevante seria, para a generalidade dos países, um default do Estado grego.

    1. Pois, Luís Lavoura. Mas há uns anos a estrutura da dívida não era essa e a exposição de alguns bancos *cof* alemães *cof* era significativa em termos de balanços internos.

      O problema agora é outro: se a Grécia não paga e se depois nós (vamos admitir com Costa) e os Espanhóis (se os tais do Podemos lá chegarem) não pagarem, podem outros ficar tentados à mesma manobra e com impactos um pouco superiores…

      1. Claro que se a Grécia fizer default e depois outros países como Portugal e a Espanha e a Itália a imitarem, isso será um problema bastante grave.
        Portanto o default da Grécia é perigoso como um precedente: concordo. Agora, só por si, ele não é muito grave. Ao contrário daquilo que o post argumenta.

    2. Sim tal como uma recessão de 3% do Pib seria “perfeitamente negligenciável”…

      3% do PIB -neste caso o valor é um pouco maior – são grosso modo 6-7% das despesas do Estado.

      Ou mais de metade do Orçamento da Saúde.

      Pois “perfeitamente negligenciável”…

  5. O ex-movimento partido declarou que se fosse grego votava no Syriza. Ele, que acha que 4800 euros por mês não dão para viver bem em Lisboa.

  6. “Germany could end up in a position where it would be constitutionally bound to leave the euro area…”
    http://www.zerohedge.com/news/2015-01-12/germanys-sinn-blasts-deflation-just-pretext-bailout-southern-europe

    Claro que há sempre esta outra hipótese.
    JAA. Nesta hipótese a Grécia (Portugal e os outros endividados), por sua vez, pagariam a sua dívida (de Euros) em que moeda ?. Com que cambio?.
    Não será esse um dos (ainda) receios da Alemanha que a leva a aturar a Grécia com muitos cuidados?.

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