Limites


cronicasnofeminino,

Em Março último, Cavaco Silva afirmava que havia limites para os sacríficios exigidos aos portugueses. Além dos limites aos sacríficios devia haver limites à paciência dos portugueses e ainda limites à distinta lata do primeiro ministro. E depois querem convencer-nos de que não há alternativa à austeridade. Esqueceram-se de um adjectivo possessivo de extrema importância. Não há alternativa à nossa austeridade, já que a vossa, senhores governantes, vai continuando a ser uma miragem. Tenham vergonha.

Confissões de uma mulher perdida


cronicasnofeminino,

Descobrimos que só pensamos no mesmo quando até nos momentos tranquilos do quotidiano encontramos marcas, indícios, evidências da nossa nova condição de depauperados e humilhados. E não, não se pense que foi quando passei por uma montra decorada de Natal cheia de bolas reluzentes e pais natais pachorrentos e me impus o treino forçado para combater o próximo Natal e o outro, talvez ainda o outro e quem sabe todos os Natais doravante. A recusa determinada em não ver, não entrar sequer, ignorar por completo e não ter a mínima das tentações. Assim como quando acabamos uma relação e cortamos com tudo o que faça lembrar o dito cujo, um vai morrer longe enérgico um chega pra lá catártico, quero mas é esquecer que existes, ó Natal. Nada disso. Foi quando num fim de tarde batido pela chuva e numa conversa em alemão sobre o Outono comecei a achar que o Rilke era um visionário e que aquele poema que se me entrava pela alma estava prenhe de referências a esta triste sina lusa. Enquanto a discussão decorria dei por mim a fazer associações ao encontro deste fado lusitano de desgraçados e enjeitados. Podem chamar-lhe intemporalidade, que sim, que quando um poema é lido vive outra vez, muito bem, apelar à estética da recepção e nomear-me como co-autora do texto, perfeito. Nada me convencerá. Quando num insuspeito poema de Rainer Maria Rilke sobre o Outono, o défice, a ajuda externa e a Troika  estão presentes já não me resta mais nada. Estou perdida.

Os pesos e as medidas


cronicasnofeminino,

O Governo lembrou-se de acabar com o desconto de 50% nos transportes a que jovens e pensionistas tinham direito até agora. Nada contra. Paga quem tiver maiores rendimentos. O problema é que ‘maiores rendimentos’ podem ser esses agregados familiares endinheirados que ganham acima de 600 euros por mês, como aconteceu com o anterior (des)governo ou os doidivanas que têm rendimentos anuais brutos entre os 2.934,54 euros e os 5.869,08 euros, e cito a mesma notícia. Alguém me esclarece se os senhores deputados que têm a infelicidade de morar em concelhos distantes situados além de Lisboa, Oeiras, Cascais, Loures, Sintra, Vila Franca de Xira, Almada, Barreiro, Amadora e Odivelas vão continuar a receber a módica quantia de “69,19 euros, a título de ajudas de custo, por cada dia de presença em trabalho parlamentar e, se saírem do Parlamento em trabalho político para o território nacional, mais uma ajuda de 376 euros por mês”? Grata pela atenção.