Confissões de uma mulher perdida


cronicasnofeminino,

Descobrimos que só pensamos no mesmo quando até nos momentos tranquilos do quotidiano encontramos marcas, indícios, evidências da nossa nova condição de depauperados e humilhados. E não, não se pense que foi quando passei por uma montra decorada de Natal cheia de bolas reluzentes e pais natais pachorrentos e me impus o treino forçado para combater o próximo Natal e o outro, talvez ainda o outro e quem sabe todos os Natais doravante. A recusa determinada em não ver, não entrar sequer, ignorar por completo e não ter a mínima das tentações. Assim como quando acabamos uma relação e cortamos com tudo o que faça lembrar o dito cujo, um vai morrer longe enérgico um chega pra lá catártico, quero mas é esquecer que existes, ó Natal. Nada disso. Foi quando num fim de tarde batido pela chuva e numa conversa em alemão sobre o Outono comecei a achar que o Rilke era um visionário e que aquele poema que se me entrava pela alma estava prenhe de referências a esta triste sina lusa. Enquanto a discussão decorria dei por mim a fazer associações ao encontro deste fado lusitano de desgraçados e enjeitados. Podem chamar-lhe intemporalidade, que sim, que quando um poema é lido vive outra vez, muito bem, apelar à estética da recepção e nomear-me como co-autora do texto, perfeito. Nada me convencerá. Quando num insuspeito poema de Rainer Maria Rilke sobre o Outono, o défice, a ajuda externa e a Troika  estão presentes já não me resta mais nada. Estou perdida.

19 comentários em “Confissões de uma mulher perdida”

    1. Dia de Outono

      Senhor, foi um verão imenso: é hora.
      Estende as tuas sombras nos relógios
      de sol e solta os ventos prado afora.

      Instiga a sazonarem, com dois dias
      a mais de sul, as frutas que, tardias,
      conduzes rumo à plenitude, e apura,
      no vinho denso, a última doçura.

      Quem não tem lar já não terá; quem mora
      sozinho há de velar e ler sozinho,
      escrever longas cartas e, a caminho
      de nada, há de trilhar ruas agora,
      enquanto as folhas caem em torvelinho.

      (Tradução: Nelson Ascher)

      1. Não tenho palavras para classificar a atenção e a rapidez com que satisfez o meu pedido. Não estou nada habituado a isto. Muito agradecido (agora vou dar atenção ao poema). Bem haja.

    2. Uma outra tradução:

      Senhor: é tempo. O Verão foi muito longo.
      Lança a tua sombra sobre os relógios de sol
      e solta os ventos sobre os campos.

      Ordena aos últimos frutos que amadureçam;
      dá-lhes ainda dois dias meridionais,
      apressa-os para a plenitude e verte
      a última doçura no vinho pesado.

      Quem agora não tem casa, já não vai construí-la.
      Quem agora está só, assim ficará por muito tempo,
      velará, lerá, escreverá longas cartas
      e vagueará inquieto pelas alamedas acima e abaixo,
      quando caírem as folhas.

      – Rainer Maria Rilke
      (tradução de Maria João Costa Pereira)

      1. É fascinante o pode mudar de um tradutor para outro, sem que nenhum deles tenha atraiçoado o espírito do poema. A segunda versão é menos negra, mas, por outro lado, presta-se menos a segundas leituras. Na segunda leio o Outono, na primeira leio a Vida.

        Seja como for, enquanto tiveres o Rilke não estás perdida, Leonor.

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