Lisboa antiga (57)


Pedro Correia,

 

LIVRARIA BERTRAND

(Rua Garrett)

«Foram descendo o Chiado. Do outro lado, os toldos das lojas estendiam no chão uma sombra forte e dentada. E Carlos reconhecia, encostados às mesmas portas, sujeitos que lá deixara havia dez anos, já assim encostados, já assim melancólicos. Tinham rugas, tinham brancas. Mas lá estacionavam ainda, apagados e murchos, rente das mesmas ombreiras, com colarinhos à moda. Depois, diante da Livraria Bertrand, Ega, rindo, tocou o braço de Carlos:

— Olha quem ali está, à porta do Baltreschi!

Era o Dâmaso. O Dâmaso, barrigudo, nédio, mais pesado, de flor ao peito, mamando um grande charuto, e pasmaceando, com o ar regaladamente embrutecido de um ruminante farto e feliz.»

Eça de Queiroz, Os Maias

Foto: blogue Restos de Colecção

2 comentários em “Lisboa antiga (57)”

  1. Não me lembrava de Eça falar da livraria na rua garret… por coincidência hoje andei por lá a comprar livros e continua a ser a minha livraria portuguesa predilecta.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *