Os pudores do engenheiro Sócrates


Cristina Almeida,

Sócrates diz "só me faltava" (comentar a divulgação de escutas de conversas privadas) como se lhe estivessem a pedir um gesto de educação menos primorosa. Mas a evidência, a fotografia da evidência, da forma como Sócrates se serve do poder e do país não revela estes pudores. Vêmo-lo em sandálias havaianas e camisolas de alças pelos corredores dos ministérios e das empresas de capital público, a coçar os sovacos, a fazer apostas sobre o tempo que levará a derrubar este,  o custo de comprar aquele, a necessidade de controlar o outro. Ouvimo-lo em concursos de arrotos, a empurrar os amigos e aos risinhos como num balneário de adolescentes depois de mais uma conquista, de preferência na comunicação social. Já vimos demais. Não lhe estamos a pedir, engenheiro, que coma com os cotovelos em cima da mesa; estamos à espera que explique o canibalismo do menu.

Buraco espaço-temporal


Cristina Almeida,

Estive uns tempos distraída, eu sei, mas hoje, quando olhei para a televisão, apanhei um choque: o Sérgio Sousa Pinto já não parece um jovem! Quantos anos se passaram nestes últimos tempos, afinal? Aumentei o som da TV, e apanhei um choque: discutem a lei das finanças regionais! Quanto tempo andámos para trás, afinal?

You may say I’m a dreamer


Cristina Almeida,

Quando penso no ano que entra e no que desejo para mim e para Portugal sou assaltada pela imagem das apreensões de drogas e armas da PSP. Sobre uma mesa, armas automáticas, pistolas e carregadores em perfeita simetria. Ao lado, notas altas estão dispostas em leque. No centro da mesa, os pacotes de haxixe e os sacos de cocaína formam a sigla PSP. Imagino a pessoa que se encarrega deste arranjo, sem cromas, sem efeitos especiais, sem outros materiais além dos da apreensão, orgulhoso do cumprimento anónimo do dever, a dispor as notas em leque e a droga em letras da corporação. 

Quero o ano de 2010 como aquele decorador anónimo, que não leu livros de design nem sabe nada sobre os truques de marketing, se atira ao essencial. Quero o dever cumprido, as coisas básicas que nos competem dispostas com aquele brio para chegar ao fim, sacudir as mãos e dizer: "mais um dia chato no escritório. Prendemos os maus, defendemos os bons, vamos para casa". Podem dizer que sou uma sonhadora. Espero não ser a única.

Breve e curto acesso de indignação


Cristina Almeida,

O encontro de José Sócrates com blogueres acordou-me violentamente da minha letargia noticiosa. Lá estavam eles, todos contentes, a trocar apertos de mão e cumprimentos, a prometer emitir coisas em directo – enquanto eu só tenho rede no telemóvel se me pendurar na varanda. Lá estava José Sócrates, com o tom que o caracteriza, a dizer que, sendo os blogueres pessoas que tanto prezam a sua própria opinião (sarcasmo) certamente também respeitam a dos outros (paternalismo um pouco básico). Lá estavam os blogueres com os seus piores fatos (arrogância). Lá estava o cenário, a Cantina do Lx Factory, até hoje um lugar simpático e aprazível e a partir de agora mais um insuportável templo dos modernos. E isso, isso, meus amigos, não posso perdoar. Sítios giros para jantar, onde se coma bem e em conta, não há assim tantos.

Temos pena


Cristina Almeida,

No Abrupto, Pacheco Pereira incluiu uma frase minha (qualquer coisa do tipo "soltar o pequeno taxista que há em todos nós") na lista de enxovalhos de que foi vítima em resultado do seu primeiro programa televisivo. Pacheco Pereira deixa-me numa posição difícil. Não quero ser desmancha-prazeres mas a minha apreciação sobre o programa é, repito, positiva. Nem há, aliás, naquele agradável espaço, razões para qualquer reacção mais acalorada. Temos pena…

Obrigada, Ronaldo


Cristina Almeida,

Hoje o rapaz que veio da Madeira encheu-me de orgulho. No meio daquela bizarra cerimónia no estádio do Real vejo-o dar a volta à arena cheia com milhares de pessoas ao som do seu cântico de guerra:

 

"Ja sei que vou arder na tua fogueira

Mas será sempre, sempre à minha maneira

E as forcas que me empurram

E os murros que me esmurram

Só me farão lutar

À minha maneira"

 

A maneira do miúdo é esta. Matar ou morrer. Contra tudo e contra todos. É má literatura? Talvez, mas depois do lambe-botismo de Saramago, ouvir um estádio cheio de castelhanos a cantar Xutos e Pontapés soube-me a Dostoyevsky.

 

Chuis


Cristina Almeida,

A Avenida Duque de Loulé é um símbolo de um Portugal que eu rejeito. Durante o dia é uma rua normal de escritórios, com um estacionamento difícil mas ordenado. A partir da onze da noite transforma-se numa república das bananas, com descapotáveis topo de gama de cores garridas largados em terceira fila nas paragens de autocarros. O foco de atracção dos lustrosos proprietários destes bólides, e dos igualmente lustrosos seguranças privados que lhes abrem as portas dos veículos, é a correnteza de bares de alterne de um lado da rua. Não me move nada contra o negócio – cada um paga as contas como pode – mas repugna-me a presença constante e submissa de dois polícias – contratados, com serviços pagos à parte – que zelam para que ninguém incomode os autores das infracções. Como moro ao lado e qualquer rodita em cima do passeio perto da minha casa me custa um ror de dinheiro, considero seriamente a hipótese de trocar de carro para um Z3 amarelo e começar a deixar as chaves ao porteiro do Night and Day. Claro que, à hora a que saio de casa, já as meninas dos clubes dormem a sono solto e o meu Z3 amarelo fará uma triste figura abandonado no meio da avenida, mas sempre tiro a limpo a que horas é que a lei muda em Portugal.

Expliquem-me devagar


Cristina Almeida,

Granadeiro queria comprar 30 por cento da TVI. O governo não deixou. A explicação veio de Sócrates: "É por causa de umas coisas que eu cá sei, para depois não virem dizer: ah, e tal…" (sic). Desiludido, como é natural, Granadeiro ataca… Manuela Ferreira Leite. Pois.

Na passadeira com Pacheco


Cristina Almeida,

Hoje vi o programa de Pacheco Pereira no ginásio enquanto corria na passadeira. Ciente do facto de que estar a suar frente à imagem de Pacheco Pereira não diz nada de bom sobre mim, sinto que o código deontológico me obriga a esta pequena humilhação, que tem por vantagem poderem os mais cépticos descontar os efeitos das endorfinas na minha apreciação. A verdade é que gostei. Claro que tive que vencer a resistência natural que me ataca sempre que vejo alguém tentar ser Deus – que também pode ser devida a ter aumentado o ângulo de inclinação da maquineta. Fui ainda assolada pelas imagens do banco no Jardim de Santo Amaro  e de todo o país a fazer chuva e sol (tentativa de controlar o espaço e o tempo, obter o dom da ubiquidade), que venci com mais um momento de humildade: não era o que eu fazia, no fundo, a correr parada para lutar contra o tempo? Já pequena como uma formiga numa enorme passadeira negra, dei por mim a pensar que aquilo é até muito saudável (o programa) e que a democracia passa também por desancarmos em nós próprios até doer. Quando comecei a ficar sem fôlego e com os músculos das pernas em puré e Pacheco Pereira continuava fresquinho, tive uma epifania. Num clarão, percebi que, ao fazer um programa de televisão, Pacheco Pereira dera mais um passinho no sentido de se tornar objecto de si próprio. Percebi que pouco falta para o ver correr ao meu lado na passadeira, suado, a ver televisão e a pensar umas coisitas sobre tudo e nada. No fundo, soltar o pequeno taxista que há em todos nós. Bem vindo.

Raparigas, organizem-se!


Cristina Almeida,

Às vezes é mesmo difícil combinar um jantar. Dizemos, por exemplo: "Às nove na Cantina do Lx Factory".

– Ao pé da igreja do Calvário? (pergunta a amiga beata)

– Na rua do Lolipop? (quer saber a amiga noctívaga)

– Seguindo pela estrada do Morna (explica a amiga gastrónoma)

– No sítio onde o Sócrates queria pôr os contentores? (interroga a amiga jornalista)

– Na antiga gráfica Mirandela? (pergunta a amiga paginadora)

– Vejo no Google Maps.

Diz o amigo homem. Perceberam? É nisto que eles nos ganham!

 

Quero ver Portugal na CEE


Cristina Almeida,

Laurinda Alves é muito simpática, sem dúvida. O que me incomoda é a história da "campanha positiva", que acaba por parecer uma campanha ligeirinha. A candidata do Movimento Esperança Portugal não está disposta a fazer cedências . "Eu sou como sou", parecem dizer os colares e outros adereços exóticos de que Laurinda não prescinde. Se conseguir ser eleita, tenho que rever algumas ideias-feitas que tenho sobre os portugueses.

 

Na campanha televisiva, o PP não consegue deixar de esmagar o seu candidato com a qualidade cinematográfica das imagens. Travelings pelas escadarias do parlamento e contra-picados em formato cinemascope distraem o eleitor amante de cinema, mas não agigantam a figura de Nuno Melo. Não, mesmo.

 

 

A melhor banda sonora é a do Partido Operário de Unidade Socialista. Zeca Afonso, julgo eu, a cantar à capela "Ergue-te ao Sol de Verão". Arrepiante. A candidatura é uma oportunidade de rever Carmelinda Pereira. Temos que admitir que os últimos 35 anos passaram por ela sem fazer grande mossa. O que fará Carmelinda Pereira nos quatro anos que separam cada campanha?

 

Frederico Duarte de Carvalho é o candidato mais convincente. Verdadeiro homem do Renascimento, tão depressa publica livros sobre o Caso Maddie como embarca numa traineira para acompanhar os problemas dos pescadores. O impermeável amarelo não é o guarda-roupa que mais favorece o candidato do PPM, mas há que reconhecer que é o único dos pequenos partidos que enfrenta a câmara sem ter o ar de  quem está a pensar noutra coisa.

 

A campanha do Partido Nacionalista Renovador é… como dizer?… já sei: assustadora! Na era digital, o PNR ainda está na fase do VHS. Não sei se o pior são as imagens, se a montagem, se a conversa esquisita de tirar os subsídios às famílias estrangeiras para dar às famílias portuguesas. Medo!

 

 

 (Amanhã: segunda parte de Quero ver Portugal na CEE) 

Óbvio!


Cristina Almeida,

Um dia explicava não sei o quê às crianças quando me saiu a frase "… e como o casamento entre pessoas do mesmo sexo é proibido…". Ia continuar quando os vejo de olhos arregalados: – "É proibido?!? Porquê?!?". Não consegui explicar. A verdade é que também não sabia.

Lembrei-me disso e fiquei orgulhosa quando o meu nome foi projectado no ecran do cinema S. Jorge como uma das primeiras 800 assinaturas de um movimento que pede igualdade de direitos no acesso ao casamento. Até me sinto ridícula de tão óbvia que me parece esta reclamação, mas a verdade é que muitas coisas que nos parecem hoje óbvias tiveram que ser conquistada. Toca lá a assinar, vá.

 

http://www.igualdade.net/

Alexandra, Abraão e Isaac


Cristina Almeida,

 

O juiz que entregou Alexandra à mãe biológica reconhece que decidiu o destino da "menor" com base em relatórios e pareceres, sem nunca ter falado com nenhuma das partes. Nisso, não difere de muitos juízes, nem o seu processo de decisão difere de muitos processos. A única diferença de Gouveia Barros é que, apesar de tudo, se mostrou incomodado com a evolução do caso e falou com os jornalistas sobre a sentença. Estranhamente, é por ter falado que vai responder perante o Conselho Superior de Magistratura.

Não defendo que as decisões judiciais devam ter por base os sentimentos populares sobre cada caso – até porque, ao contrário do que acontece no futebol, não temos um vídeo que esclareça a justeza de cada acordão. Mas acho que a Justiça não pode viver isolada de um compromisso: o dos valores sociais que entendemos serem comuns.

Barack Obama expôs essa necessidade brilhantemente num discurso que gostaria de lincar mas não consigo. Disse ele que se, à saída da Igreja onde discursava, as pessoas vissem Abraão com uma faca na mão para matar Isaac – em resposta à prova de lealdade que Deus lhe pediu – certamente não ficariam à espera da mão de Deus. Denunciariam Abraão e esperariam que a Comissão de Protecção de Menores lhe retirasse a guarda de Isacc. "Faríamos isso porque não ouvimos o que Abraão ouve, nem vemos o que Abraão vê. Então, o melhor que podemos fazer é agir de acordo com aquilo que todos nós vemos e com aquilo que todos nós ouvimos", disse Obama.

Creio que, neste caso, o compromisso de que Obama fala poderia ter feito toda a diferença na vida de Alexandra. 

 

Cantinho do leitor do “i”


Cristina Almeida,

Descubro tarde, mas muito a tempo, que o reparo que fiz à (fraca)  primeira manchete do "i" desagradou a Paulo Pinto Mascarenhas, que pelos vistos trabalha lá, e que este decidiu lançar-me uma fatwa: na sua opinião, eu não sou digna de comentar o jornal.

Preparava-me para uma resposta à altura do ataque – mas menos boçal – quando vi nos comentários que Pedro Correia, João Távora e Nuno Ramos de Almeida sairam generosamente em minha defesa. A generosidade funcionou, aliás, nos dois sentidos: a condescedência que o trio improvável teve para com PPM obriga-me a pensar que se calhar o rapaz não é má pessoa, apenas não percebeu ainda que, de repente, tudo muda.

Aproveito, pois, o Dia do Vizinho e o tom levemente melancólico que vejo no Delito para dizer ao Pedro, ao João e ao Nuno: obrigada, vizinhos.