Do mal o menos: os jacarandás já floriram
Cristina Almeida,
– O monitor de matemática é mesmo estranho…
– Então não era fixe, vegan e com uma banda?
– Sim, mas defende o sexo com amor…
– Isso é esquisito.
– Que tal o novo monitor de matemática?
– Muito fixe. Tem uma banda e é vegan.
– Aposto que é do Bloco de Esquerda.
– Não, acho que é da EDP. Não há um partido EDP?
– Praticamente.
Acho lindamente. Não calha nada nos objectivos comprar um banco com 1,8 mil milhões de euros de passivo. Depois avisem-me quando a compra estiver concluída para eu dar um saltinho ao balcão do BPN. Queria comprar o duplex do meu prédio, mas não me convinha aumentar a dívida do crédito à habitação e preciso de um banco que me compreenda.
A professora de Espinho merece um castigo severo. A descrição que faz de um bacanal romano é inaceitável; do que li, não é verdade que só comessem e vomitassem: iria jurar que também havia sexo envolvido. Nos meus tempos do Liceu Pedro Nunes, os professores com esta falta de rigor levavam logo com bolinhas de papel na cabeça quando se viravam para o quadro.
São coisas como esta que nos fazem acreditar que, de repente, o planeta começa a rodar ao contrário e nada está garantido. A notícia de que as abelhas estão a desaparecer teve um impacto inesperado em mim. Como é um mundo sem abelhas? Custa-me imaginar. Preocupo-me. Afinal, o que é que está a acontecer às abelhas? Ninguém sabe. Um apicultor chegou um dia ao campo onde tinha 400 colmeias e não estava lá nem uma abelha. Procurou no chão e não havia cadáveres de abelhas. Viu dentro das colmeias e os favos estavam intactos, a pingar mel. Em circunstâncias normais, se as abelhas tivessem abandonado a colmeia, outras estariam a aproveitar aquele mel, explica ele, angustiado. O fenómeno do desaparecimento das abelhas está a acontecer em toda a parte. Há cientistas que julgam tratar-se de um virus que ataca as abelhas mestras e as fez perder a orientação e a memória. Há quem diga que são os pesticidas. Outros defendem que é o stress. Claro que sem abelhas há menos polonização. Há menos frutas, legumes e flores. Não sei prever como será um mundo sem abelhas, mas imagino que seja semelhante a um mundo sem infância.
O Festival da Eurovisão é há muitos anos um acontecimento imperdível. Quando o transexual israelita Dana Internacional ganhou prometi a mim própria que não iria falhar mais nenhuma edição, mas este ano fui apanhada de surpresa e ia passando ao lado deste fenómeno georgiano chamado Stefane & 3G. Recordo que a canção "We dont wanna put in" foi eleita por um júri e pelo público da Georgia, mas acabou por não integrar o festival; parece que Putin não achou graça à letra. Vale a pena descobrir a invenção georgiana: "disco soud" de intervenção. Espero que inspire a nossa fantástica Verônica Larrenne.
… com saudades da Jade Goody e a achar que o Bernardino Soares nem está mal de todo. Dêem-me já uma garrafinha de tamiflu sff.
O que terá levado a rapariga gaga a pôr uma bomba que matou uma pessoa no posto dos correios? A angústia atormenta o pai, cidadão sem mácula, filho de imigrantes, fruto perfeito do american dream. Angustia-me a mim, a tentar ler a Pastoral Americana numa praia deserta, se não contar com aquela família tão barulhenta. O pai revê momentos da infância da filha, os esforços, os efeitos, e tenta encontrar a culpa que terá tido no desfecho brutal da vida da criança, criada para ser perfeita. Mas os gritos da família na praia sobem de tom e desisto do Philip Roth para os observar. Um pai joga à bola com dois filhos pequenos. Pai pesado, sedentário, num esforço gigantesco de corrida pelo areal em simultâneo com um relato histriónico dos passes e dos remates. Pai finge sempre que falha, filhos pequenos estão convencidos de que ganham, nem respiram de felicidade. Pai cai muitas vezes na areia, com a barriga dilatada a arfar, sem nunca deixar de gritar as vitórias dos filhos. Amanhã vai pagar caro este esforço desumano. Sei o que o vai consolar: a ideia do "tempo de qualidade", lido nas crónicas de pedopsicólogos bem intencionados. Serão os filhos cidadãos perfeitos, pela esforço deste amor? Serão os filhos imperfeitos porque os revolta tão parco intervalo de felicidade numa rotina quase sem pai? A dúvida podia não ser relevante, podíamos ficar pelo quadro do pai que joga à bola com os filhos pequenos, não fosse a nota de desespero na estridência da sua voz.
Estou desiludida com o novo diário, "i". A manchete "Sindicatos, patrões e governo: todos querem menos imigrantes" provoca-me a pergunta: E….? Não sei se era essa a ideia. É claro que o primeiro número vai ser comprado por toda a gente, não precisam de se esforçar muito, mas caramba, não havia lá uma noticiazita? Uma, mesmo pequena? O formato, o papel, o agrafo, é tudo muito agradável para quem procura lifestyle num jornal. Chamem-me antiquada, mas eu sou do tempo das notícias…
Já me estava a enervar a musiquinha doce de novela da TVI, as imagens a imitar o cinema, a autenticidade mediatizada que está tão na moda e fica tão cara (o velho com muitas rugas na cara olha com os seus olhos muito azuis o voo perfeito de uma águia sobre a barragem onde se "projecta o futuro"), o fraseado óbvio. Sempre que vejo o anúncio penso para que é que serve, revejo a conta da luz e calculo quanto daquilo é que é pago por mim, por esta ordem.
A notícia da chegada para breve da electricidade mais barata da espanhola Endesa deu-me um certo prazer, confesso. A pequena padeira de Aljubarrota que havia em mim há muito comprou uma carrocinha para vender churros nas praias da Andaluzia.
… mas vai fazer uns bons três meses que não percebo nada do que Pacheco Pereira escreve. Mas é mesmo nadica.
Sócrates olha em volta, furioso:
– É asneira sobre asneira. Apre! E depois eu é que tenho que escrever aos pais das criancinhas para limpar a porcaria que vocês fazem!
Sentados em cadeiras baixas, os membros do pequeno grupo estão de olhos pregados no chão.
– E agora? Digam lá, alguém tem alguma ideia para abrir o jornal da TVI?
Silêncio constrangido.
– Sempre eu a ter que fazer tudo, não é? Muito bem. Mandem o Vital Moreira para o desfile da CGTP.
– Mas…
– Mas o quê? Têm uma ideia melhor?
– Se faz favor, para o Pingo Doce?
– A senhora vai sempre em frente. Quando chegar à rotunda vira à esquerda e depois é passando o "porreiro pá" logo à direita.
– Ora bolas, tinham-me dito que era depois do Vital Moreira e já tive que dar uma volta enorme…
– Isso foi alguém que não é de cá e fez confusão, de certeza. O Minipreço é que é logo a seguir ao Vital Moreira. Mas é o Minipreço…
Tinha enviado um mail às Finanças com uma dúvida sobre o IRS e responderam-me hoje. O mail de resposta – chamo a V. atenção novamente – tem a data de hoje, 25 de Abril. Feriado. Eles estão lá dentro, no feriado, a fazer continhas. Essa é que é essa.
Confesso que não me lembro bem de como era a vida antes do 25 de Abril. Lembro-me dos padres operários que iam lá a casa, do disco do Zeca Afonso que o meu pai ouvia baixinho, dos sussurros sobre o padre Alberto, que tinha sido preso porque tinha armas debaixo da cama. Lembro-me que não fui à escola num dia que não era feriado, já íamos a sair quando a porteira sussurrou qualquer coisa ao meu pai e voltámos para casa. Ouvimos rádio todo o dia, mas eu não percebi nada. No dia seguinte voltei à escola e a oração da manhã tinha passado a incluir um pedido de atenção a Nossa Senhora para este "nosso Portugal". Não percebi nada. O meu catequista deixou crescer o cabelo e a barba, cantávamos "toco-te e respiras" na missa das sete de Santa Isabel e o catequista, agora cabeludo, pedia assinaturas para a legalização do PSR. Alguns padres continuaram a ir lá a casa mas falavam de outros países, davam missa na sala de jantar, repartiam carcaças e vinho tinto entre os presentes e, percebi mais tarde pelos sussurros, acabaram por casar-se. O meu tio Manuel voltou da Suiça, onde tinha estudado num seminário, e foi dar aulas de História Económica e Social na Universidade Clássica, até ser saneado porque tinha entrevistado Marcelo Caetano em Paris. O 25 de Abril teve a turbulência que tem sempre a infância, pensava eu. Só muito tempo depois percebi que nem todas as infâncias têm um 25 de Abril. Só muito tempo depois percebi que estava a espreitar pela porta das traseiras da igreja católica, através do chamado catolicismo progressista. Tive mesmo sorte, acho eu agora.
José Sócrates vitimiza-se e processa Manuela Moura Guedes, José Eduardo Moniz, jornalistas da TVI e do Publico e Charles Smith.
It bleeds, it leads: Manuela Moura Guedes e José Eduardo Moniz vitimizam-se e processam o Primeiro-Ministro. Falta Charles Smith processar alguém ou, pelo menos, vitimizar-se. Se não fizer nada disso fica com ar de culpado. Ou de estrangeiro que ainda não apanhou os tiques pavlovianos da sociedade portuguesa.
Sem me querer vitimizar, começo a ficar envergonhada. Lá fora, nos outros países, estão pessoas a ver. É embaraçoso…
Estou um pouco lenta, só agora percebi. Vou já cancelar tudo o que marquei para sexta à noite, comprar umas pipocas, fazer um xi-xi e sentar-me no sofá. Não me telefonem nem incomodem a partir das 20:00. Fica já marcado, encontramo-nos aqui por volta das 21:30. Sexta-feira.
O Presidente só disse coisas certas, mas disse-o fora de tempo, a meu ver. Deveria ter dito tudo muito mais cedo. Depois, quando o disparate atingiu proporções de TGV’s, de travessias do Tejo e de auto-estradas, o Presidente deveria ter demitido o Governo. Por muito menos que isto Santana Lopes foi mandado para casa.
Já sei o que estão a pensar: depois Sócrates fazia-se de vítima e voltava a ganhar a maioria absoluta. É um risco, mas que não se compara ao risco de ver o país ficar cada vez mais curto, mais pobre, mais triste e mais barato para as construtoras.
Já sei outra coisa em que estão a pensar: não se demite o governo numa altura de crise porque não se pode ficar sem governo o tempo necessário para novas eleições. Mas para isso há também uma solução. Chama-se governo de iniciativa presidencial. Não cai bem? Pois, mas acredito que o Bush também nunca terá pensado que um dia ia fazer nacionalizações. A verdade é que, para grandes males, é preciso grandes remédios, e não grandes palavras.