A vida de Tâmara parece uma sucessão afunilada de becos, cada vez com menos saídas: entregue a uma instituição aos quatro anos, pai preso e depois sem-abrigo, abandonada pela mãe, alguns fins-de-semana com uma tia e uma avó.
Aos 15 anos, Tâmara foge e procura o pai. Prefere pernoitar no prédio devoluto, sem água nem electricidade, onde este fica com a namorada – pouco mais velha do que ela – do que voltar para a instituição. E é nesse beco final, o Beco da Galheta, que Tâmara morre carbonizada na noite mais fria do ano.
Não se passa isto na Inglaterra de Dickens mas no centro de Lisboa, ontem. Explica a excelente reportagem do DN que o Tribunal de Menores confiara Tâmara ao Instituto Conde de Agrolongo, na Travessa do Possolo, em Campo de Ourique. Tâmara queria ser educadora de infância, conta o pai, mas preferiu ficar quase ao relento, no meio do lixo, do que voltar para o colégio onde seria maltratada pelas alunas mais velhas.
Não sei o que pensa o Tribunal de Menores fazer. Mas eu, cidadã, contribuinte, bocadinho deste Estado que assumiu a responsabilidade de criar a Tâmara, quero saber como foram os 11 anos que ela passou nessa escola. Quero saber porque é que Tâmara preferiu o Beco da Galheta. Quero saber o que se passa no Instituto Conde de Agrolongo. E depressa.