Fora de moda


Cristina Almeida,

Os PSPs de Braga estão completamente out com as tendências da pornografia. Qualquer criança percebe que aquela densidade capilar só pode ser arte. Intemporal, só mesmo a obra de Coubert, incómoda a este ponto mais de 150 anos depois da criação.

À att. de D. José Saraiva Martins


Cristina Almeida,

Julgo que o facto de se achar que a homossexualidade "não é normal" não implica que se conclua que um homossexual não tem capacidade para "providenciar a formação das crianças".

Veja-se o caso dos padres: ninguém pode achar "normal" que um ser humano adulto e livre faça votos de celibato e abstinência. "Normal" não é de certezinha. E, no entanto, entregamos com gosto a educação dos nossos filhos a essas pessoas. Fazemos mal?

Sal e azar


Cristina Almeida,

Pelo vistos ao arrepio do país pensante, adorei a série sobre a vida secreta de Salazar. Achei muito bem filmada, os actores excelentes, os diálogos bons. Achei que Diogo Morgado fez um Salazar difícil e convincente, Soraia Chaves esteve esmagadora – como sempre -, a economia dos episódios foi perfeita, a base histórica satisfatória. À excepção da trapalhona questão banheira versus cadeira, a polémica que se seguiu deixou-me espantada. Recuso-me a pensar que a massa crítica nacional preferia um Salazar assexuado, para o bem e para o mal, porque o sexo torna-nos humanos e o ser de Santa Comba perturba menos se for uma pagela a preto e branco.

Ai, o amor…


Cristina Almeida,

Já não se diz cabeleireiro, nem salão. Agora diz-se hair dresser. Apesar disso, a família conservadora, feita de oficiais da Marinha e glórias do antigo regime, ficou em choque com a decisão da mais nova.  De facto, o brilhantismo da licenciatura da Luisinha e o namoro com um jovem e promissor jurista não deixavam adivinhar uma opção deste género. 

Mas nem a vergonha das tias velhas nem o falatório demoveram a Luisinha que, assim que se livrou da magistratura, começou a estudar os folículos capilares. As tias suspiraram nos salões vazios, os irmãos reuniram-se para discutir a sanidade mental da Luisinha e o namorado trocou-a por uma Sofia.

Um dia encontrei a avó. Durante os breves minutos de conversa de circunstância tentei não fixar os caracolinhos rosa-choque que a senhora ostentava na nuca, em vez do eterno carrapito. Dias depois, cruzei-me com o irmão mais velho, sempre tão solicitado e nesse dia estranhamento solitário. Percebi depois que ninguém queria encarar a rígida e estranha franja que lhe luzia no topo da testa.

Um baptizado reuniu a família no mais extravagante conjunto capilar que a igreja do Campo Grande alguma vez acolheu. À chegada, fui recebida em euforia. Com severos cortes à garçonnette em cabelos platinados e exóticas melenas coloridas por cima das pérolas e das rendas, a família exultava: "A Lusisinha passou no exame para cabeleireira!".

Oh senhor comendador Américo Amorim…


Cristina Almeida,

… não tem forma de segurar os 195 trabalhadores da corticeira Amorim que vão ser despedidos? Caramba, tantos anos de justo e orgulhoso empreendedorismo – que o Estado português reconheceu com uma comenda – não permitiram criar um pé de meia para os momentos menos bons? A consciência social das empresas não pode ser só linguajar do departamento de marketing. Digo eu, sei lá…

A economia na minha rua


Cristina Almeida,

Primeiro foram-se embora os chineses. Partiram de repente, numa noite, deixando ocas as grandes lojas, antes cheias de tarecos coloridos. Depois foi-se embora o merceeiro, numa tarde o senhor Ildefonso despediu-se das velhas chorosas e partiu para a terra na carrinha Ford vermelha a deitar fumo pelo escape. A dependência do Deutsch Bank, que enchia a rua de orgulho com o seu toque cosmopolita, passou a estar de porta fechada; é preciso bater para ver assomar a cabecinha da funcionária que depois vem a chinelar, em soca de descanso, com um molho de chaves a rodopiar na fechadura. Por isso, quando se viu que uma nova loja abrira as cabeleireiras brasileiras pararam de esticar o cabelo umas às outras, as velhas enxugaram as lágrimas pelo senhor Ildefefonso e a rua toda foi espeitar a abertura da boutique dos angolanos. Espero que o facto de ao cabo de uma semana ninguém ter comprado uma capulana sequer não os faça desanimar, porque estou cansada de metáforas.

Tâmara


Cristina Almeida,

A vida de Tâmara parece uma sucessão afunilada de becos, cada vez com menos saídas: entregue a uma instituição aos quatro anos, pai preso e depois sem-abrigo, abandonada pela mãe, alguns fins-de-semana com uma tia e uma avó.

Aos 15 anos, Tâmara foge e procura o pai. Prefere pernoitar no prédio devoluto, sem água nem electricidade, onde este fica com a namorada – pouco mais velha do que ela – do que voltar para a instituição. E é nesse beco final, o Beco da Galheta, que Tâmara morre carbonizada na noite mais fria do ano.

Não se passa isto na Inglaterra de Dickens mas no centro de Lisboa, ontem. Explica a excelente reportagem do DN que o Tribunal de Menores confiara Tâmara ao Instituto Conde de Agrolongo, na Travessa do Possolo, em Campo de Ourique. Tâmara queria ser educadora de infância, conta o pai, mas preferiu ficar quase ao relento, no meio do lixo, do que voltar para o colégio onde seria maltratada pelas alunas mais velhas.

Não sei o que pensa o Tribunal de Menores fazer. Mas eu, cidadã, contribuinte, bocadinho deste Estado que assumiu a responsabilidade de criar a Tâmara, quero saber como foram os 11 anos que ela passou nessa escola. Quero saber porque é que Tâmara preferiu o Beco da Galheta. Quero saber o que se passa no Instituto Conde de Agrolongo. E depressa.

Óbvio


Cristina Almeida,

A mesma crónica tem por ante-título "Os clientes do BPP que recorrerem a advogados para litigar não terão nenhuma vantagem. Pelo contrário, assumirão custos" (palavra). João Rendeiro defende aí que ninguém perdeu nada, as pessoas deixaram foi de ter acesso ao seu dinheiro. Mais uma vez, estou de acordo. João Rendeiro não deixa de ser um banqueiro de sucesso, lá porque não tem sucesso.