Ai, o amor…


Cristina Almeida,

Já não se diz cabeleireiro, nem salão. Agora diz-se hair dresser. Apesar disso, a família conservadora, feita de oficiais da Marinha e glórias do antigo regime, ficou em choque com a decisão da mais nova.  De facto, o brilhantismo da licenciatura da Luisinha e o namoro com um jovem e promissor jurista não deixavam adivinhar uma opção deste género. 

Mas nem a vergonha das tias velhas nem o falatório demoveram a Luisinha que, assim que se livrou da magistratura, começou a estudar os folículos capilares. As tias suspiraram nos salões vazios, os irmãos reuniram-se para discutir a sanidade mental da Luisinha e o namorado trocou-a por uma Sofia.

Um dia encontrei a avó. Durante os breves minutos de conversa de circunstância tentei não fixar os caracolinhos rosa-choque que a senhora ostentava na nuca, em vez do eterno carrapito. Dias depois, cruzei-me com o irmão mais velho, sempre tão solicitado e nesse dia estranhamento solitário. Percebi depois que ninguém queria encarar a rígida e estranha franja que lhe luzia no topo da testa.

Um baptizado reuniu a família no mais extravagante conjunto capilar que a igreja do Campo Grande alguma vez acolheu. À chegada, fui recebida em euforia. Com severos cortes à garçonnette em cabelos platinados e exóticas melenas coloridas por cima das pérolas e das rendas, a família exultava: "A Lusisinha passou no exame para cabeleireira!".

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