O Expresso acertou


Cristina Almeida,

Parece-me evidente que uma pessoa que tem um espaço de opinião que assina com o seu nome tem todo o direito de falar ou escrever sobre o que bem entender. Esse direito não diminiu se resolver empenhar-se numa causa em que tenha interesse pessoal – directamente ou por via do primo, da namorada, da participação accionista, sei lá eu. A opinião não está sujeita às regras do jornalismo, como se sabe.

No entanto, a opinião – e o interesse do seu autor na posição que defende – também podem ser objecto de notícia. Só faltava não se poder revelar que fulano que "veste a camisola" de uma situação concreta tem uma ligação afectiva ou familiar ao assunto! Este conhecimento não retira força aos argumentos do opinion maker, mas dá ao leitor a possibilidade de os digerir como bem entender. Arrepia-me constatar que há quem defenda a criação de cortinas de silêncios politicamente correctas, excluindo o público  mas alimentando o can-can das redacções.

Para o Rei da Machamba


Cristina Almeida,

 

O negro velho fez milagres naquele triângulo que nasce debaixo da curva de um IC. De canavial seco, o bocado de terreno atrás do sinal de perigo passou a um pedaço de paraíso. O velho fez nascer alfaces milimetricamente ordenadas, de um verde que cega os olhos; agriões de folhas simétricas; batatas em quadrados perfeitos.

Todos os dias, enquanto faço a curva rápida do IC,  passo naquela plantação durante cinco segundos e vejo o velho a trabalhar: cinco segundos: o velho finca uma cana no chão; outro dia, cinco segundos: o velho tira uma folha que seca; mais um dia, cinco segundos: o velho estica uma mangueira. Decidi chamar-lhe o Rei da Machamba, dada a óbvia superioridade da sua horta ao pé das outras do IC.

Um dia estava um trânsito insólito e tive direito a dez segundos do Rei da Machamba. Pude vê-lo, pela primeira vez, a endireitar as costas e a olhar o horizonte como se, em lugar dos blocos de cimento das habitações sociais, visse uma plantação sem fim.

Há poucos dias, cinco segundos: o velho não estava. Foi ao médico, pensei. No outro dia, cinco segundos, nem sinal. Está de cama, inquietei-me. Ao fim de pouco tempo a Machamba parecia despenteada, sinal evidente de desgraça. Hoje de manhã, confirmei o pior. Cinco segundos: uma mulher jovem – filha? – vestida de preto, despe do espantalho as roupas que o negro velho com ele partilhava. Princesa da Machamba, consola-te porque, no pedaço de terra que abraça, o Rei vai fazer nascer alfaces viçosas como nunca se viram em Massamá.

Vai ser rápido e cómodo fugir daqui


Cristina Almeida,

O endividamento aumenta? Bora lá fazer uma nova travessia do Tejo. O desemprego dispara? Nada melhor do que um do TGVzito. Os portugueses estão a empobrecer? Faça-se um novo aeroporto. Até que nos sintamos a visita indelicada, a quem os donos da casa mostram a porta da rua. A verdade é que, com estes investimentos, fugir daqui para fora vai ser rápido e cómodo.

Pensem comigo…


Cristina Almeida,

 

Em consequência da gravação divulgada sexta-feira pela TVI, José Sócrates emitiu um comunicado dizendo que vai processar os autores da difamação. Metade dos meios de comunicação social entendeu que ele ia processar a TVI, a outra metade decidiu que ele ia processar Charles Smith. A quem interessa a falta de clareza? José Sócrates quer que pensemos que ele admite que a TVI forjou a gravação? Que foi a polícia inglesa? Que é Charles Smith o autor da difamação? Ou que não lhe compete a ele decidir? Aproveitando a confusão, Charles Smith veio declarar que nunca injuriou nenhum político e que tudo isto é uma campanha antiga. Ao não negar ser o protagonista da gravação e ao lançar esta declaração no vazio, Charles Smith pretende o quê? Que pensemos que a gravação é forjada? Que, sabendo que não é considerada prova na investigação, pensemos que também ele é vítima da campanha negra? Colar-se a Sócrates para não ficar como o mau a fita? Estou confusa. Sinto-me parva. Deve ser esse o objectivo.

A estatística é uma cadeira diferente


Cristina Almeida,

Na análise ao relatório anual sobre segurança interna que anuncia um aumento de 11% nos crimes violentos, o  ministro Rui Pereira diz que "Portugal continua a ser um país relativamente seguro". Quer isto dizer que Portugal é um país "mais ou menos" seguro? Depende do ponto de vista? Mais coisa menos coisa? Em comparação com o Burundi? O advérbio de modo mata-me, confesso. Quer dizer, mata-me um bocadinho. Sei lá, podia ser pior.

Sociologia de balneário


Cristina Almeida,

 

De manhã cedo, assim que largam as crianças na escola, chegam as gordas. Vêm já de fato de treino e com o episódio da Oprah ainda na cabeça. "Tu podes ser o que tu quiseres. Basta querer", repetem, baixinho, a boiar na água morna, agarradas a um tubo de esferovite colorido e de olhos postos na professora esguia que esbraceja em seco. À hora de almoço cedem a vez às executivas. O balneário enche-se de mulheres em dieta permanente, de calças masculinas e sapatos de meio salto. Movem-se rapidamente, sabem sempre os horário das aulas, trocam entre si polidos comentários sobre as vantagens do step e do pilates e, assim como chegam, partem em bandos, sem deixar nada esquecido. A meio da tarde chegam as donas das lojas e as profissionais liberais. Bronzeadas, carregadas de pulseiras e brincos, com fatos de treino brasileiros, fazem grande algazarra. Espalham-se pelo ginásio, combinam jantares e falam de sushi e quando partem deixam perfumes exóticos e ganchos da cabelo, meias, cadeados dos cacifos em desordem. É no lusco-fusco que aparecem as fatais. Vestidas de preto, de meias de rede e saltos agulha, puxam intrigantes malas de viagem de onde retiram peças de lingerie de renda negra. Antes de sairem do balneário, sempre maquilhadas,  verificam o telemóvel, mandam o último sms com um sorriso misterioso. Mas para onde é que elas vão?

 

A integração na minha rua


Cristina Almeida,

Quando o merceeiro, o Sr. Hildefonso, partiu para a terra na sua carrinha Ford a deitar fumo pelo escape, as velhas da rua comportaram-se como viúvas. Já tinha reparado no à-vontade com que desfiavam os rosários das suas vidas enquanto o Sr. Hildefonso pesava a fruta, sempre de olhos na televisão durante a missa, ou de ouvido na Renascença durante o terço. Apesar desta surdez, e a avaliar pelo desprezo com que as velhas passaram a exibir os tróleis de compras frente ao novo lugar de fruta do chinês, alguma coisa lhes faltava.

Mas Deus sabe que é difícil ignorar o chinês. Começou por impressionar a rua com a diversidade de fruta, tudo entre 20 e 40 cêntimos o quilo. Depois, foi visto várias vezes a encher os sacos dos mais necessitados com quilos de fruta que não cobra. Eu própria vi a albanesa com o miúdo ranhoso e o paquistanês sairem da loja às vénia e arrecuas, a protestar em linguajares estranhos, com os sacos carregados de laranjas. Oferta do chinês.

Aos poucos, as velhas foram-se chegando à frutaria e hoje já as vi lá dentro, agarradas aos tróleis, a  gesticularem os rosários da suas vidas com o chinês. Este, entretanto, passou a ter nome: é o Sr. Chow. O Sr. Chow não percebe uma palavra de Português, mas acena que sim com a sua cara bondosa. Tal e qual como o Sr. Hildefonso, mas com a fruta muito mais barata.

Barqueiros


Cristina Almeida,

A inserção escolar das crianças e jovens ciganos é um assunto muito complexo. O relatório aconselhado pelo antigo Alto Comissário para a Imigração e Minorias Étnicas, Rui  Marques, no Facebook mostra que há outros lados que convém ouvir nesta questão. .: Agrupamento de Escolas Abel Varzim :.

Fonte: www.eb23-vila-seca.rcts.pt

 

Um dos factores que faz ruído na história de Barqueiros é a palavra contentor. Parece uma realidade terceiro-mundista mas, se pensar bem, concluo que passei parte de minha vida em contentores – primeiro, no contentor que a universidade destinou ao meu departamento e, depois, no contentor que acolheu durante muitos anos a redacção da estação de televisão onde trabalhei. Não é perfeito, mas garanto que, lá dentro, nem se pensa nisso. O problema não é certamente esse.

Algumas vozes de condenção à turma separada de Barqueiros não têm em conta que muitos pais não querem colocar os seus filhos pequenos numa turma com marmanjos de 18 anos que, em vez de História de Portugal e Geografia, estudam uma disciplina chamada Mundo Actual.  Mesmo a nível de aprendizagem, veja-se a experiência das Novas Oportunidades e o que dela pensam os professores que são obrigados a leccionar disciplinas do secundário a adultos para os retirar das estatísticas dos Centros de Emprego. Admito, no entanto, que a ideia seja simpática para quem tem os filhos no ensino privado e deixa para os outros – o povo – os custos da integração escolar dos adolescentes e adultos de etnia cigana.

Por fim, é preciso ter em conta que mesmo os ciganos não estão todos do mesmo lado da questão que é saber o tipo de ensino que pretendem. Como em relação a todos os assuntos que envolvem a sua etnia, há muitos que defendem a protecção e reconhecimento das singularidades que lhes é dada até pelas Nações Unidas e há muitos (e, sobretudo, muitas) que querem uma integração plena com direitos  e liberdades iguais. E daí, perguntará o leitor paciente. Nada, só acho que não podemos ter tantas certezas com base em indícios tão fúteis.

 

Paridade que os pariu


Cristina Almeida,

 

As rádios começaram há uma semana a passar um estranho apelo. Num dueto fora de moda, uma voz feminina e outra masculina anunciam que há cem anos Portugal passou a ser uma República, no 25 de Abril veio a Liberdade e agora vivemos em Democracia, temos uma Justiça e acreditamos na Diplomacia (palavra de honra que dizem isto). Serve a coisa para dizer que agora é tempo de as mulheres participarem na política, como se todas estas coisas evoluissem umas a partir das outras.

Mesmo descontado o ridículo do republicanismo e da diplomacia serem os primatas da mulher na política, nada prepara o ouvinte para o apelo que lhe é lançado a seguir: "Apoie a participação das mulheres na política". Como?, pergunta o eleitor preso no trânsito do IC19. As vozes não dizem, mas lançam a sentença final: "Com as mulheres, mais política, melhor política". O texto não está assinado mas, apesar do tom sentencioso, não me parece coisa de Deus; logo, é do Governo.

Na falta de meios radiofónicos, deixo aqui a minha resposta: Senhores do Governo, se acham que com mulheres há mais política e melhor política, toca a encher as listas de mulheres. Ok? E não macem as pessoas que estão a tratar de assuntos sério, tais como a chamada vidinha. Entendidos?

Os ursos têm pulgas?


Cristina Almeida,

Zapo por um programa de futebol e constato que estão a debater a corrupção no futebol português. Verifico se estou a ver a RTP Memória. Não; é o Trio de Ataque, da SIC Notícias. Decorre uma votação para os espectadores e a pergunta é tocante: "Há corrupção no futebol português?" Nas possibilidades de resposta está a hipótese "não". Não tenho forma de saber se este é um programa de informação ou de ficção.

A música de Braga de Macedo


Cristina Almeida,

As noites de quarta-feira do TVI24 são imperdíveis. Num programa sobre economia moderado por António Peres Metello, Jorge Braga de Macedo afirmou não ter a fé no mercado revelada por Joaquim Pina Moura, entusiasta das medidas anunciadas por Obama para promover a procura – he, he – falou seis vezes de Staline a despropósito – hi, hi – e baptizou a gestão orçamental dos países de Leste que aderiram à zona Euro como "uma gestão que é aquilo a que eu chamo "socialista, republicana e liberal"" – (protestos de Pina Moura: "Não exagere, ó Jorge" ) – ha, ha – entre outras observações interessantes, cultas e divertidas. Genial.

A maldição de La Fontaine


Cristina Almeida,

Confesso que ao ver nas imagens da Cimeira Informal Angela Merkel, José Luis Zapatero, Gordon Brown e Nicolas Sarkozy senti um arrepio. Parecia mesmo que estavam a perguntar a Teixeira dos Santos: "- Então e o José? Não veio?"

Ia jurar que vi Teixeira dos Santos fazer um trejeito de desdém enquanto explicava que em Portugal não somos nenhuns pacóvios e temos mais que fazer, sobretudo o José, que teve que ir à festa dos socialistas. E depois, a Angela voltou a cabeça e olhou para o Sarkozy, que ergueu o sobrolho, como imagino que terá feito a  formiga quando viu a vidinha da cigarra durante o Verão. Ou seja, meses antes do Inverno bater à porta. E vi Brown a mexer os lábios e, para meu terror, ia jurar que ele disse : "- Ai cantaste? Pois dança, agora".  

Duelo final


Cristina Almeida,

O congresso do PS serviu para clarificar muito bem os inimigos políticos de Sócrates. Ou seja, os autores da campanha negra. O combate político vai subir de tom e descer de nível. É bom que Manuela esteja preparada porque, aos poucos, vai ficando frente-a-frente com Sócrates. José e Manuela, cada qual com o seu exército. O Primeiro-Ministro e a pivô do jornal de sexta-feira da TVI. 

Boas notícias


Cristina Almeida,

 

 

A TVI24 já está no cabo. O som baixo demais em relação aos outros canais cabo e os pivôs engravatados (só camisa e casaco, no caso dos homens, acho que chega bem e dá um aspecto mais solto e irreverente), bem como um relógio que aparece e desaparece do ecrã sem explicação não tiram a emoção de termos mais uma alternativa à Sic Notícias e RTPN. A mesa redonda com Vasco Pulido Valente, Rui Ramos e Vital Moreira promete. Francisco Louçã e Bagão Félix fizeram o pleno nos canais de notícias, provando que os temáticos são bons para os partidos pequenos. Parabéns!

Toca a doar o corpinho à ciência


Cristina Almeida,

Descobri o fenómeno na revista de Domingo do Correio da Manhã, numa coluna ao lado do consultório sexual do Dr. Quintino. Uma jovem actriz dos Morangos com Açúcar respondia a umas perguntas marotas quando, interrogada sobre se conhecia a localização do seu ponto G, anunciava: "Tenho vários".

Nas semanas seguintes,  diversas actrizes e aspirantes a actriz responderam da mesma forma. Todas se orgulham de terem vários pontos G.

A incidência estatística deixou-me estarrecida.  Felizmente para elas, nenhuma os ostenta em zonas visíveis, o que certamente muito prejudicaria a sua carreira. Por outro lado, percebi a sucessão de gemidos e suspiros que qualquer diálogo simplório nas séries juvenis inclui.

Julgo que se trata de uma geração de mutantes, só não percebo se ataca só jovens actrizes de novela. Para minha revolta, o assunto não tem merecido o devido destaque nos telejornais.