Quando o merceeiro, o Sr. Hildefonso, partiu para a terra na sua carrinha Ford a deitar fumo pelo escape, as velhas da rua comportaram-se como viúvas. Já tinha reparado no à-vontade com que desfiavam os rosários das suas vidas enquanto o Sr. Hildefonso pesava a fruta, sempre de olhos na televisão durante a missa, ou de ouvido na Renascença durante o terço. Apesar desta surdez, e a avaliar pelo desprezo com que as velhas passaram a exibir os tróleis de compras frente ao novo lugar de fruta do chinês, alguma coisa lhes faltava.
Mas Deus sabe que é difícil ignorar o chinês. Começou por impressionar a rua com a diversidade de fruta, tudo entre 20 e 40 cêntimos o quilo. Depois, foi visto várias vezes a encher os sacos dos mais necessitados com quilos de fruta que não cobra. Eu própria vi a albanesa com o miúdo ranhoso e o paquistanês sairem da loja às vénia e arrecuas, a protestar em linguajares estranhos, com os sacos carregados de laranjas. Oferta do chinês.
Aos poucos, as velhas foram-se chegando à frutaria e hoje já as vi lá dentro, agarradas aos tróleis, a gesticularem os rosários da suas vidas com o chinês. Este, entretanto, passou a ter nome: é o Sr. Chow. O Sr. Chow não percebe uma palavra de Português, mas acena que sim com a sua cara bondosa. Tal e qual como o Sr. Hildefonso, mas com a fruta muito mais barata.

Belo texto, bela reflexão.
Obrigada, João.
Estou à espera da aparição!
🙂
🙂 Este é um largo sorriso, Cristina. Assim se resume, e muito bem, vidas iguais a outras tantas que há por aí a cada esquina, em cada rua. Com a mesma inevitabilidade e a mesma resignação tão portuguesa, uma mistura de fatalismo e capacidade de adaptação. Gostei muito.
Em vez de resignação prefiro chamar pragmatismo, Ana.
Esse pragmatismo é a tal capacidade de adaptação às circunstâncias, que os portugueses têm, felizmente. Mas também há muita resignação na nossa índole, e isso já não é tão bom…
A questão que te deixo, Cristina, é esta: qual dos dois – Hildefonso, ou Chow – se integrará mais facilmente numa terra que não é a deles?
Boa pergunta.
Hum… Bairro dos Anjos … Sinceros Parabéns pelo Texto e Bom fim-de-semana
Obrigada anónimo.
Um bom texto representativo da nossa realidade!
O Snr. Chow vai continuar a vender fruta barata, até entender que o lucro não chega para pagar a renda da loja, luz, água, impostos… aí vai aumentar a preço da fruta ou fechar a loja!
Receio bem que seja isso que o espera, Virgínia, ambora o homem – reconheça-se – trabalhe um número de horas semanal arrasador.
É verdade, Cristina, os chineses são escravos dos seus negócios e vivem num mundo muito fechado.
Em Moçambique, o filho do dono da mercearia teve uma grande paixão por mim, com a benção dos pais, ambos chineses!
Nem imaginas, Cristina, como me soube bem ler este texto pela manhã. Num país que esconde a sua xenofobia genética por trás de pias esmolas e onde o chinês é visto com desconfiança e causa dos males do pequeno comércio, poucas são as pessoas que têm coragem de lhes fazer um elogio.
Os anos que vivi por aquelas paragens permitiram-me conhecer e ganhar admiração por aquele povo. Convivi com muitos, tenho alguns afilhados chineses,mantenho amizade com bastantes. A última vez que estive em Macau, por exemplo, não tive um único amigo português a esperar-me em Hong- Kong, mas foram vários os chineses que lá se deslocaram.
Obrigado por este texto lindo!
Partilho a tua admiração, Carlos. Sinceramente, dos chineses que conheço aqueles de que menos gosto são os que estão em Portugal há tanto tempo que ficaram iguais a nós 🙂
Curiosamente, a aparente integração do Chow é porque o negócio fala mais alto, visto que os chineses são, regra geral, os que mais dificuldade sentem e menos vontade têm, no que concerne a integração fora das suas origens. As “china towns” não são fruto do acaso: nascem pela vontade deles, que preferem viver em guetos onde possam dar continuidade aos seus costumes e modo de vida.
Talvez não se queiram integrar, João, porque não admiram os nossos “valores”(?) e fazem eles muito bem!
O negócio falará amis alto, mas o sr. Chow não se esquece de ter os gestos de solidariedade que a Cristina exalta. A solidariedade dos srs. Hildefonso limita-se, muitas vezes, a roubar no peso do fiambre e da fruta. Atenção, que sou defensor do comércio tradicional e raras vezes entrei numa grande superfície. Eu nem sequer sei onde fica o IKEA!
Não era uma crítica, Carlos. Era uma constatação de facto: não têm a nossa capacidade de integração; nem a nossa nem a dos outros povos. Mas não considero que isso seja necessariamente criticável: não te esqueças de que também fiz muitos amigos entre os chineses.
Nem mais, Cristina!
Excelente crónica, Cristina.