Na passadeira com Pacheco


Cristina Almeida,

Hoje vi o programa de Pacheco Pereira no ginásio enquanto corria na passadeira. Ciente do facto de que estar a suar frente à imagem de Pacheco Pereira não diz nada de bom sobre mim, sinto que o código deontológico me obriga a esta pequena humilhação, que tem por vantagem poderem os mais cépticos descontar os efeitos das endorfinas na minha apreciação. A verdade é que gostei. Claro que tive que vencer a resistência natural que me ataca sempre que vejo alguém tentar ser Deus – que também pode ser devida a ter aumentado o ângulo de inclinação da maquineta. Fui ainda assolada pelas imagens do banco no Jardim de Santo Amaro  e de todo o país a fazer chuva e sol (tentativa de controlar o espaço e o tempo, obter o dom da ubiquidade), que venci com mais um momento de humildade: não era o que eu fazia, no fundo, a correr parada para lutar contra o tempo? Já pequena como uma formiga numa enorme passadeira negra, dei por mim a pensar que aquilo é até muito saudável (o programa) e que a democracia passa também por desancarmos em nós próprios até doer. Quando comecei a ficar sem fôlego e com os músculos das pernas em puré e Pacheco Pereira continuava fresquinho, tive uma epifania. Num clarão, percebi que, ao fazer um programa de televisão, Pacheco Pereira dera mais um passinho no sentido de se tornar objecto de si próprio. Percebi que pouco falta para o ver correr ao meu lado na passadeira, suado, a ver televisão e a pensar umas coisitas sobre tudo e nada. No fundo, soltar o pequeno taxista que há em todos nós. Bem vindo.

44 comentários em “Na passadeira com Pacheco”

  1. O Pacheco Pereira na passadeira, a correr e a suar como se não houvesse amanhã? Bem, a julgar pela barriga do senhor, mal não lhe fazia (isto partindo do princípio que aquela pança é apenas gordura e não um gigantesco ego escondido nas entranhas dele).

  2. Gostei do seu texto.

    E quanto às gralhas, essas marotas:

    O ATRO ABISMO

    Quando o poeta escreveu: “…o atro abismo”,
    Umas vírgulas por ele mal dispostas,
    Irritadas gritaram: “É estrabismo!”.

    Mas um ponto que viveu no dicionário,
    De admiração caíu de costas
    E abismado seguiu o seu destino…

    Alexandre O’Neill, in Poesias Completas, Ed. IN – casa da Moeda, 95

    :))

          1. E eu já vi escrito assim, num grande cartaz de acolhimento: “Benvindo, a casa é sua!”. Presumo que seria uma declaração de amor de uma dona de casa desesperada a um senhor com esse nome.

            Deus me guarde de correr na passadeira com o Pacheco Pereira, sem ele já é suficientemente mau. Ná… prefiro a Oprah, mal por mal.

            Belo texto, Cristina.

          1. Pois era. Dessa BD lembro-me muito bem. A mim a palavra lembra-me o Catitinha, uma personagem emblemática das praias portuguesas e uma figura ternurenta.

  3. tanto comentário inócuo e nem um resumo do texto de que nada percebi. Começo a desiludir-me com tanta masturbação

    1. Vou fazer-lhe então um resumo do texto, Manuel.

      Hoje vi o programa de Pacheco Pereira soltar o pequeno taxista que há em todos nós. Bem vindo.

      Quanto à sua desilusáo por causa daquilo, não conte comigo.

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