Get Lucky


Rui Rocha,

Não vale a pena perder tempo a discutir se Get Lucky dos Daft Punk é a música do ano. É. E pronto. Vais ouvi-la tantas, tantas vezes como ouviste Paradise dos Coldplay. Até não poderes mais. Mais cedo ou mais tarde vais chegar a odiá-la. Depois, passados um ou dois anos, quando a ouvires ocasionalmente, vais voltar a tomar-lhe o gosto. A questão do momento é, então, a de saber se o novo disco dos Daft Punk, Random Access Memories, é, no seu conjunto, um disco brilhante. Digo que não. Tem, é verdade, momentos excepcionais, bem para lá de Get Lucky. Lose Yourself To Dance e Give Life Black to Music são alguns deles. Todavia há algumas faixas que sobram. Instant Crash é soporífero e corta a onda do disco. Doin´t it Right e Fragments of Mine também nada acrescentam e parecem ter sido metidos a martelo, para perfazer o número de faixas e de colaborações desejado. Nada a fazer. Os homens, como bons franceses que são, desconhecem os benefícios da contenção. Temos assim momentos brilhantes num disco irregular. Já não é pouco dizer. Uma nota adicional: alguns dos nomes dos temas foram deliberadamente trocados. Foi só para ver se estavas atento e se és tão conhecedor do assunto como os comentários que te preparavas para fazer pretendiam dar a entender. Agora, admitindo que ainda não estás tão fartinho como vais chegar a estar, aproveita que não vai durar para sempre.

 

Sondagens para as autárquicas


Rui Rocha,

A Norte, as próximas eleições autárquicas prometem ter alguma piada. Em Braga, onde voto, o delfim de Mesquita Machado pode afogar-se. De momento não há esquina da cidade, acto público ou notícia do pasquim do PS em que Vítor Sousa, o escolhido do dinossauro bracarense, não apareça em pose de nababo. Só falta termos a fotografia do dito nos autocarros dos TUB (Transportes Urbanos de Braga) mas algo me diz que esse risco não corremos. Apesar de todo o investimento na imagem de Vítor Sousa (e meu Deus, como ele precisa) é capaz de não ser suficiente. Oxalá. Ricardo Rio, que se candidata pela 3ª vez pelo PSD, parece ser um tipo em quem se pode votar sem necessidade de recorrer às reservas de Alka Seltzer.  No Porto, Menezes, essa espécie de Sócrates regional do PSD, não tem vitória assegurada. O PS, honra lhe seja feita, contribui como pode para que Rui Moreira tenha algumas hipóteses, apresentando um candidato em forma de nulidade. Em Gaia, o nórdico Carlos Abreu Amorim parece ter o bilhete de regresso a lugar nenhum, onde mais ou menos se encontrava, razoavelmente assegurado. Mais tarde ou mais cedo, com os dotes que se lhe vão conhecendo, acabará por colocar o cabelo louro e os olhos azuis ao serviço da comunidade, substituindo Manuel Serrão num programa de análise de incidências futebolisticas. A propósito de futebol, o Fernando Moreira de Sá que não tem profissionalmente, como se sabe, nada a ver com tudo isto, acordou hoje mais cedo para reflectir sobre sondagens, estabelecendo um magistral paralelismo entre as previsões que surgiram para Porto e Gaia e as que foram apresentadas para as  eleições no Sporting. As guerras são assim  e quando um tipo está no campo de batalha acorda à hora a que for preciso. No que a isto diz respeito, recolhamo-nos em silêncio que há por aqui gente a lutar pelo seu modo de vida. E esperemos, entretanto, pelo evoluir da situação. A política não é o lugar ideal para darmos consolo ao nosso sentido de justiça. Mas, por uma vez, nas autarquias que, por um motivo ou por outro, me são mais próximas, as coisas não parecem estar completamente desencaminhadas.

A pergunta de Job e os boys


Rui Rocha,

O mal. Qual a sua origem? De onde vem e porque vem? Em busca de uma resposta, aproveitemos. Em tempos de relativismo ninguém se despenteará se a resposta for um pós-moderníssimo depende. Do tempo, do lugar e da circunstância. Tomemos um tempo. O nosso. Ainda que seja de espanto, de raiva ou de lamúria . E um lugar. Este do buraco em que estamos. E uma circunstância. A da política portuguesa. Essa onde ecoam ditos e dichotes de magrebinos, palhaços, chantagistas e demissões morto ou vivo. Porque não temos outra.  Como não temos, até ver, outro primeiro-ministro. Passos, o pequeno Passos, é mula. Sobre todas as outras coisas, é mula. Mula na acepção que lhe dava o meu pai: a de alguém que leva a água ao seu moinho, sem levantar muitas ondas, ouvindo e sempre calando, seguindo indiferente o seu caminho. Passos, o pequeno Passos, tem toda a sua proposta política reflectida numa folha de Excel. Quanto ao resto, cala-se. Cala-se quanto à necessidade de um país com estas características ter 308 municípios. Cala-se quanto ao facto de ter bulido nas freguesias mas não ter abanado os fregueses. Da mesma maneira que preserva os fregueses do lobby do ensino superior que continuam sentados nas suas cátedras. E todos os outros fregueses que se vão acomodando. Passos, o pequeno Passos, sabem-no todos, é a melhor aposta para que tudo fique na mesma. Passos, o pequeno Passos, o Passos das viagens em turísitica, do discurso da inevitabilidade, do incentivo à emigração, Passos, o pequeno Passos que não cumpriu uma única das suas promessas eleitorais e que acusa os pensionistas da incoerência suprema de quererem receber o que não descontaram, esse Passos empunha a folha de Excel e segue o seu caminho. Mas há perguntas que devem ser respondidas. Como é possível que em tempos como este, Passos, o pequeno Passos, tenha feito nomear 4463 pessoas para gabinetes ministeriais, cargos dirigentes e grupos de trabalho? Isto tem explicação? Admito que tenha. Mas preciso de a conhecer. Passos não pode fazer de mula e continuar calado o seu caminho. Tem de explicar isto de fio a pavio. Porque já temos quase 1 milhão de desempregados e outros tantos precários. Porque o Excel não conhece a ética mas a política tem de a reconhecer. E porque há uma coisa que é evidente. Na nossa política, há resposta para a pergunta de Job. A origem do mal, de muito do nosso mal, está nos boys.

O espanto de o mundo continuar a não ser plano


Rui Rocha,

Vivo num mundo cada vez mais plano. Horas e horas por cada dia num computador, num tablet, num smartphone. Um mundo assim não tem cheiro. As imagens não têm profundidade. O som não reverbera. Penso nisso enquanto a noiva entrega um ramo à mãe dela e o noivo um outro à mãe dele. Aqui as paredes têm manchas de humidade. As estatuinhas dos santos têm rugas. Amolgadelas. Falta-lhes tinta.  Tão certo como os santos terem pecados. As notas do piano arredondam-se contra as paredes da nave principal. A voz da Sara, chamemos-lhe assim porque quem canta desta maneira há-de ter um nome e convém-nos que seja bíblico, reencarna em torrente nos nossos ouvidos. Choro. Choramos todos quando a noiva entrega o ramo à mãe e o noivo outro à mãe dele. O templo, este compasso de espera, as orações, a homilia, o ritual do casamento, dão-me tempo. Tempo para os meus pensamentos, tempo para retomar o uso de faculdades sensoriais que trago tão embotadas.  Nesta igreja, Bom Jesus, não reencontro o caminho para Deus. Mas estabeleço uma ligação para lá deste mundo plano, directamente ao mundo real, às sensações. E choro. Porque é impossível não chorar quando o filho ou a filha de alguém casam e se despedem da sua mãe. E porque só é possível chorar quando regressamos aos nossos sentidos.

Do excesso de produção num sistema socialista


Rui Rocha,

A Venezuela enfrenta um problema de escassez severa de papel higiénico. Lida assim, sem o necessário enquadramento, a notícia cheira mal. Felizmente, o poder instalado em Caracas, com a legitimidade reforçada de ter sido democraticamente eleito nas urnas e de Nicolas Maduro ter sido declarado vencedor, ainda antes do acto eleitoral, pelo defunto Hugo Chávez que apareceu sob a forma de um passarinho para lhe anunciar a vitória, já apresentou uma explicação para a situação. Note-se, entretanto, que estas aparições de pássaros, passarinhos, cucos e outras aves de arribação são muito frequentes em países socialistas. Não há muito tempo, creio recordar, um grou voou três vezes em redor da estátua de Kim-Jong-il durante as cerimónias fúnebres do querido líder. E, ainda a propósito, será oportuno notar que a relação do comunismo/socialismo com o papel higiénico é, por assim dizer, algo enrolada, circunstância que também os cubanos têm tido oportunidade de constatar. De qualquer forma, o que importa é que o governo de Nicolas Maduro tem, como já referi,  uma explicação para esta situação incómoda.  Pelo visto, tudo está relacionado com o facto de os venezuelanos comerem agora muito mais, graças aos benefícios da revolução socialista. E como, em princípio, tudo o que entra sai, não é difícil perceber a origem do problema. Digo que temos neste caso, quando menos, fortes indícios de currelação entre as variáveis. É claro que a oposição venezuelana foi lesta a pôr em causa o argumento mas ocorre-me que isso se possa dever…, enfim, a guerras intestinas. Em todo o caso, a situação não deixa de ter a sua ironia. Marx identificou o problema capitalista do excesso de produção. É curioso notar que nos sistemas comunistas/socialistas esse problema também parece existir. O output é que é diferente. Para além disso, no caso do capitalismo, o excesso de produção provoca uma crise. No do comunismo/socialismo o que temos é um desarranjo.  Aqui chegados, creio que existem condições para identificarmos alguns traços comuns dos países comunistas/socialistas. Desde logo, temos sinais evidentes de recorrência de aparições de passarada. Depois, constata-se que o comunismo/socialismo acaba, mais cedo ou mais tarde, por dar…hmmm… o tal output. E que essa circunstância afecta muito o stock de papel higiénico disponível. Por último, mesmo que tomemos por boa a garantia de Jerónimo de Sousa de que os comunistas não comem criancinhas ao pequeno almoço, é justo reconhecer que continuam a ser muito dados a histórias infantis e a argumentos de…hmmm… output.

O Lello não tem paralello


Rui Rocha,

 

Pensar antes de falar, diziam os antigos. Pensar antes de tuitar, dir-se-á por estes dias. É um conselho válido para muitos. De Carlos Abreu Amorim a José Lello. No caso de Abreu Amorim, o que parece verdadeiramente relevante não é o exagero, o descontrolo do momento, o comentário irreflectido, a eventual ofensa. É a natureza tão básica que se revela sob a fina capa de polimento dos cursos e dos discursos. Uma tristeza. No de Lello, a coisa é mais grave. Lello, por natureza, é incapaz de pensar antes de falar. Ou depois.  E, para dizer tudo, o que os portugueses deveriam querer, indepententemente do que possam pensar sobre Passos Coelho, era verem-se livres de Lello e do que ele representa. Verem-se livres dele vivo. Que a morte não se deseja a ninguém. Nem a brincar. Se sobrar um nadinha de vergonha, resta agora ao PS retirar a confiança política a Lello. E demiti-lo de todos os cargos de que possa ser demitido. Se sobrar, repito, um nadinha de vergonha. E se os meandros do financiamento partidário de que Lello foi responsável no PS permitirem uma decisão razoável e independente. Isto é, se o PS não estiver vergado a uma ditadura lellillista.

A indigência de um certo jornalismo


Rui Rocha,

 

O Jornal de Notícias declara hoje na sua primeira página que “Polícias dormem como sem abrigo”. Trata-se, se vejo bem, de uma bela demonstração de indigência. Neste caso, do próprio jornalismo. Vejamos. Desde logo, como a fotografia permite adivinhar, a situação retratada é precisamente a contrária da que é suportada por um sem-abrigo. Pode faltar tudo o mais. Mas, o certo é que existe um tecto. E existem paredes. Por outro lado, na senda do jornalismo declarativo (aquele que, com aparente neutralidade, se circunscreve à enunciação de factos), a notícia não aprofunda o contexto, não investiga, não ajuda a esclarecer. Há perguntas que, perante estes factos, devem ser feitas: devem os locais de trabalho de polícias ter locais para dormir. Porquê? Em princípio, em serviço ninguém deve dormir. Depois do serviço, o normal é que as pessoas durmam em suas casas. Nada tenho contra a polícia e os polícias. Pelo contrário, sublinho o valor do serviço que prestam à comunidade. Agora, se existem razões que justificam a existência de camaratas em esquadras, razões que confesso desconhecer, tenho tudo contra um jornalismo de títulos e de evidências, que não contextualiza e que, mais do que isso, se serve de descontextualizações e comparações deslocadas, sempre ao serviço do ao que nós chegámos. E que, perdendo-se com tudo isso, se demite de me informar que razões são essas.