A primeira da época
Rui Rocha,
Prossegue a Taça Davis em pingue-pongue blogosférico. Depois do confronto renhido entre apoiantes de Martim Neves e de Raquel Varela, temos agora uma disputa taco a taco entre os defensores de Vítor Cunha e os de Inês Gonçalves. De tudo, retiro que nem para o Martim nem para a Inês é conveniente permanecerem muito tempo neste campeonato. Se tomarmos a retórica daqueles que, de ambos os lados, se entretiveram a avaliar a conduta de um e de outro, chegaríamos à conclusão de que nem um miúdo de 16 anos pode ter umas ideias engraçadas e fazer umas t-shirts, nem uma miúda de 18 pode ter ideias políticas e uma visão de sociedade que, não sendo a de outros, é a sua, sem que ele seja apelidado de esclavagista e ela de infiltrada. Se virmos bem, quem se arrogou o direito de etiquetar o Martim e a Inês logo que tentaram pôr a cabeça de fora foi gente velha, velha demais. São os mesmos que virão um dia destes queixar-se de que esta juventude de agora não tem iniciativa, não tem ideais, não tem vontade de intervenção política. É por estas e por outras que, em Portugal, não há cidadania nem empreendedorismo. O espaço está tomado por quem, de um lado e do outro da barricada, teima em ler o mundo a partir de uma cartilha que já não serve. Eu, se fosse ao Martim e à Inês, marcava um encontro e fazia uma parceria. Juntava o melhor que um e outro certamente têm e procurava aliar num único projecto empreendedorismo e cidadania. E não me deixaria envelhecer antes de tempo, escolhendo o meu caminho longe de soluções cansadas, chavões e frases feitas. Quanto à Taça Davis em pingue-pongue, creio que será decidida, como normalmente acontece nestas competições, numa partida de pares.
Sabemos que compreender e pensar são as actividades através das quais estruturamos o mundo e lhe atribuímos significado. O pensamento é a figuração lógica dos factos. Assim, a lógica do mundo e a lógica da linguagem correspondem-se (no sentido de trocarem correspondência), delimitando-se mutuamente em factos e proposições, tal como sublinharam Wittgenstein ou Leibnitz. Entretanto, o tempo segue o seu caminho de forma inexorável até ao dia em que Tó Zé será indigitado primeiro-ministro de Portugal. Gostava de vos poder dar uma palavra de esperança, mas creio que é algo que nenhum de nós está em condições de impedir. Todavia, se é certo que a efeméride vai mesmo acontecer, e contra isso batatas, está ao nosso alcance prepararmo-nos o melhor que pudermos para a circunstância. Também não será caso de reforçar a reserva de conservas, água, bolachas, pilhas e lanternas, como fizemos nos tempos da Gripe A. Mas, por outro lado, importa estarmos conscientes da gravidade real da situação. O problema reside, sobretudo, no facto de não termos categorias lógicas e de pensamento que nos permitam enquadrar um mundo em que o primeiro-ministro é o Tó Népias. Por isso, é importante limitar os danos que isso pode causar. Proponho-me contribuir de imediato, de forma modesta mas empenhada, para que tal aconteça. De momento, apresento duas categorias que, espero, nos ajudarão a interagir com a acção governativa do Tó Nickles. As To-lices e as To-lérias. Parecem a mesma coisa, mas não são. As To-lérias têm como objectivo enquadrar todas as propostas do Tó Nada em que este não se perde com detalhes ou com explicações. Estão na categoria das To-lérias os chavões, as frases feitas, as manifestações de intenção não desenvolvidas e o wishful saying (obviamente, o thinking não é para aqui chamado). Coisas eminentemente vazias como austeridade inteligente, apostar no crescimento ou as pessoas em primeiro, vão direitinhas para a categoria das To-lérias. Já naquelas situações em que o Tó Coiso investe algum tempo não só a formular a parangona, mas também a proporcionar-nos alguns detalhes, estaremos perante To-lices. É o caso das medidas propostas para 2020 sobre o desemprego acima da média ou da conversão das dívidas ao Estado em crédito a empresas. Posso estar enganado, mas pelo que tenho visto as duas categorias serão mais do que suficientes para enquadrar o pensamento político do Tó Nulo. E sim, é verdade que gosto muito de concluir os meus textos com um oxímoro.
Duas intervenções duas que devem ser objecto de reflexão. Uma de Passitudes Coelho que eu próprio aqui trouxe na passada sexta-feira. E outra de Tó Népias que o José Gomes André já hoje examinou em detalhe:
Passitudes Coelho:
Tó Népias:
“Proponho que a UE estabeleça como objetivo para o ano 2020 que nenhum país possa ter uma taxa de desemprego superior à média europeia“.
Teremos então motivos para recear o pior, entregues que estão o presente e o futuro a estes produtores inveterados de armas argumentativas de destruição maciça da sagacidade e da inteligência? Digo que não. Se tudo isto prova alguma coisa, é que Portugal é a verdadeira terra das oportunidades. Um tipo distrai-se um bocado e até corre o risco de tropeçar nelas. Afirmações desta natureza são a prova evidente de que num país assim, qualquer um pode ser ou chegar a primeiro-ministro. Não é necessário, sequer, ser-se alguém acima da média. Pelo contrário. O ideal é mesmo passar por cima dela, atropelando-a. Por isso, nada temamos. E rejubilemos.
A primeira nota muito relevante das eleições no Irão diz respeito ao nível de participação. Depois dos acontecimentos traumáticos de 2009, uma abstenção na ordem dos 25% (apenas) significa uma vontade profunda dos iranianos de não cederem a qualquer tipo de intimidação e de terem uma palavra na condução política dos destinos do país. A segunda nota sublinha a vontade de mudança. A escolha à primeira volta de Rohani é, antes de mais, um claro sinal para Khamenei e Amhadinejad que se conjuga com o pobre resultado obtido pelo candidato da linha radical Saed Jalili. A terceira nota é, todavia, de cautela. Khamanei continua a deter o poder efectivo no país. De tal forma que a pergunta que deve fazer-se é se o resultado destas eleições não acaba por ir ao encontro das suas intenções. A repressão de 2009 deixou profundas cicatrizes na sociedade iraniana. A eleição de um moderado, sem que todavia tenha margem de intervenção significativa, pode constituir-se como uma válvula de escape que permite transmitir uma ideia de mudança, mantendo-se o essencial na mesma, ao mesmo tempo que se renova a legitimidade do regime. Com a vantagem adicional de retirar da cena internacional e das relações com os EUA a carga emocional protagonizada por Ahmadinejad da qual resultava, em última análise, uma justificação para os defensores de uma linha dura do lado americano.
Sejamos justos. A piada da coisa não está bem no facto de o Marcelo continuar a dar uma abada semanal ao Zé Sócrates. O que é realmente de rebolar no chão a rir é “Sara Norte: O Regresso da Vida” ter tido 900.000 espectadores em 8 de Junho contra 600.000 do filósofo itinerante no dia seguinte, no programa que marca o seu regresso à vida política activa. No mesmo canal, mais ou menos à mesma hora e também ao fim-de-semana.
Há um problema muito sério na sociedade portuguesa. Vivemos muitos anos, demasiados anos, provavelmente séculos, num contexto em que o sucesso, o desenvolvimento e a evolução profissionais foram ditados por tudo, menos pelo mérito. O negócio do Luís, a contratação do João, a promoção da Maria, o cargo de direcção do Manel estiveram quase sempre relacionados com o facto de serem primos do patrão, correligionários do Presidente da Junta, sobrinhos do autarca jurássico ou, na melhor das hipóteses, com o decurso do tempo (parece que a isto se chama carreira). Isto foi assim no sector privado, foi ainda mais assim no sector público. E, na falta de um sistema de avaliação sério e credível, ainda é. Tal como sucede nos países socialistas, ainda que Portugal tivesse o melhor sistema de educação do mundo, os resultados profissionais continuariam a ser medíocres. Falta-nos a cultura de valorização, reconhecimento e promoção do mérito. Veja-se o caso dos professores. Todos nós tivemos professores sofríveis. Uns eram cientificamente impreparados. Outros faltavam. Muitos não tinham qualquer competência pedagógica. A tantos faltava interesse e motivação. Por cada professor digno desse nome, tive dois que não mereciam estar numa sala de aula. E, todavia, estavam. E continuaram a estar. E se hoje as coisas estiverem melhores, não são, decerto, perfeitas. A questão é que chegámos aqui sem um mecanismo sério que nos permita distinguir. No sistema público de ensino, tanto vale ser competente como baldas, vale tanto ser inspirador como dizer umas lérias. Em momentos de vacas gordas, em que há lugar para todos, a iniquidade sente-se menos. Lourenço é professor do quadro sem ensinar a ponta de um dos cornos usados pelos viquingues nos seus capacetes. Palmira é cientificamente preparada, sabe motivar a turma, é tão interessada. É professora contratada, precária, salta de terra em terra. Mas, pelo menos tem um emprego. O problema surge quando se dá o recuo das águas. O Lourenço continua lá na escola, a queixar-se. A Palmira está em casa, a torrar a depressão. Não embarco na conversa de que esta “é a geração mais bem preparada”. Há em todas as gerações os que são e os que não são. Devíamos ter maneira de os identificar. No ensino fala-se há anos e anos de uma prova de ingresso. Não é preciso inventar muito. É pôr os professores a responderem aos exames a que são submetidos os seus alunos. E, a partir dos resultados, extrair as devidas consequências. Defendo a escola pública. Só quem vive fora da realidade pode desconhecer a importância estruturante que tem na sociedade portuguesa. Mas defendê-la é também exigir que o Lourenço saia e que entre a Palmira. Certo. Tratar-se-ia de uma dança de cadeiras. Não resolveria o problema do desemprego, nem da economia. Mas contribuiria para preparar o futuro. E daria algum sossego ao nosso sentido de justiça.
Enquanto três milhões de portugueses batem diariamente com os ossos contra o limiar de pobreza, os excelentíssimos senhores deputados não se deixam perturbar e continuam a sua jornada, intransigentes na defesa dos interesses colectivos, sempre atentos aos assuntos prioritários da nação.
A 12 de Junho, por exemplo, foi publicada em Diário da República uma resolução em que recomendam ao Governo o estudo e a tomada de medidas específicas de apoio à sustentabilidade e valorização da actividade das empresas itinerantes de diversão.
Faz muito sentido. Tristezas não pagam dívidas e, na impossibilidade de os próprios deputados se deslocarem por esse Portugal fora para animarem o povo com gingajogas e números de trapézio e de malabarismo (meu Deus, o que eu não pagava para ver o Galamba a tirar notas de euro da cartola e o Abreu Amorim a engolir fogo em plena Feira do Cavalo de Ponte do Lima), pois que pelo menos não faltem carrosséis e carrinhos de choque sustentáveis, já seja em Linhares da Beira ou em Trancoso.
Todavia, e isto também se percebe, deve existir um certo equilíbrio entre coisas sérias e regabofe. Compreende-se, por isso, que os incansáveis tenham aprovado hoje legislação que proíbe a utilização de artigos de pirotecnia em reuniões ou manifestações cívicas ou políticas. É, reconheça-se, uma decisão corajosa. Os deputados sabem melhor do que ninguém que, se retiramos o foguetório e o fogo preso aos comícios, não sobra lá grande coisa.
Mas, como diz o outro, em tempos de guerra não se limpam armas. E, se devem ir-se os anéis, que fiquem ao menos os dedos. Nas manifestações políticas (não falo já das cívicas, porque em verdade creio que as não temos), não se podem, a partir de agora, deitar foguetes. Não se proíbe, todavia, que continuem a atirar-se aos sete ventos toda a sorte de promessas eleitorais. E se é verdade que, e passo a transcrever, fica interdita “a distribuição de potes de fumo”, nada impede, ao que parece, que continuem a distribuir-se outro tipo de potes.
Tendo em conta que género é um substantivo masculino, pergunto-me se, quando nos referimos à igualdade do dito, não estaremos a incorrer em discriminação.
1 – Utilize a dotação orçamental do mês de Junho para adquirir três copos completamente opacos e berlindes.
2 – Converta o valor líquido do subsídio de cada um dos funcionários do serviço em moedas de 2€.
3 – Chame o funcionário ao seu gabinete e peça-lhe para colocar a primeira moeda do respectivo subsídio debaixo de um dos copos.
4 – Utilize as mãos para fazer com que os três copos mudem de posição com muita rapidez. Para assegurar a eficácia da operação, esta é uma tarefa que não pode ser objecto de delegação de competências.
5 – Quando o funcionário estiver completamente baralhado, peça-lhe para indicar o copo debaixo do qual ele pensa que está a moeda.
6 – Se o funcionário acertar (coisa que é muito improvável que aconteça) entregue-lhe a moeda. Caso contrário, remeta de imediato a moeda para o ministério das finanças.
7 – Repita a operação para o mesmo funcionário tantas vezes quantas as necessárias até ter utilizado todas as moedas do respectivo subsídio.
Nota adicional: se tiver oportunidade e para assegurar uma maior eficácia na concretização desta instrução, substitua, sem que o funcionário dê por isso, a moeda por um berlinde. Se o funcionário escolher o copo debaixo do qual está o berlinde (coisa que é muito improvável que aconteça), dê-lhe o berlinde. Caso contrário, remeta de imediato o berlinde para o ministério das finanças.
Cumpra-se.
O ministro das finanças, Vítor Louçã Rabaça Gaspar, em 13 de Junho de 2013
Não sei se vos acontece o mesmo, mas a verdade é que procurei informar-me na televisão, nos jornais e nos blogues e continuo sem perceber exactamente o que se passou. E não, não me refiro à questão do pagamentos do subsídio de férias. Confesso que quanto a isso também cheguei a estar baralhado com aquela coisa do não há dinheiro que passou depois a há dinheiro mas a lei foi revogada pelo acórdão que tinha um parágrafo que colocava em vigor uma alínea de um decreto que suspendeu a vigência de já não sei bem o quê. Foi precisamente nesta parte do já não sei bem o quê que se fez luz no meu espírito: balelas! O pagamento do subsídio está dependente é do estado do tempo. O ministro Gaspar já explicou isto muito bem explicado a propósito do investimento. Se estiver bom tempo, o estado paga. Se chover, nada feito. O problema é que os franceses previram, há não muitos dias, que este Verão vai ser frio e chuvoso. E o ministro Gaspar não quer incorrer em qualquer tipo de precipitação. O certo é que já tínhamos a chuva molha-tolos. Agora temos ainda o tipo de explicação que também só os molha a eles. De qualquer forma, aos funcionários públicos só resta aguardar. Enquanto o ministro Gaspar vai ver se chove. Longe vão os tempos em que as remunerações eram postas à disposição dos seus destinatários de acordo com um ciclo pré-definido de pagamentos. Agora está tudo indexado ao ciclo da água. A verdade é que a este nível está tudo clarinho como… pois, adiante. E adiante para dizer que aquilo que realmente ainda não percebi é aquela coisa do insulto ao presidente. De entre todas as versões disponíveis, fico-me pela do I, até porque algum dia o I teria de servir para alguma coisa que não fosse apenas manter a Ana Sá Lopes ocupada e impedida de ir ao cabeleireiro. Ora, de acordo com o I, o Tribunal de Elvas terá dado como provado que Carlos Costal terá proferido insultos contra o chefe de Estado, tendo dito que Cavaco Silva era “malandro” e que devia ir “trabalhar”. “Gatuno”, “chulo” e “ladrão” foram outros dos qualificativos que o arguido procurou atribuir ao Presidente. Por tudo isto, a multa aplicada foi de 1300€. Confesso que, à primeira vista, não me parece muito. Vamos lá ver. É preciso ter em conta que se trata do mais alto magistrado da nação, caramba (a propósito, talvez esteja na altura de abandonar este tipo de designação porque com a sorte que temos um dia o Marques Mendes ainda chega a Presidente e depois vai ser o caraças para descalçar a bota). E depois, foram 5 (cinco) insultos. Assim numa conta rápida, à moda do ministro Gaspar, sai a coisa a pouco mais de 200€ por cada um. Se isto é assim, quanto será para um deputado? Quanto custará, por exemplo, chamar nórdico ao Carlos Abreu Amorim? Deve sair baratíssimo, não é? Note-se que a coima por fumar em recintos fechados pode ascender a 750€. E que a de circular com velocidade entre 90 e 120km/hora fora das localidades pode chegar aos 300€. Ora, por muito que um tipo goste de fumar ou de carregar no pedal, digo que não deve dar o mesmo gozo. E, se quisermos ter uma ideia deste tipo de situação lá fora, basta termos presente que o cidadão espanhol Amadeo Martínez Inglés, militar retirado, foi condenado a pagar uma multa de 6.480€ por se ter referido a D. Juan Carlos como “último representante en España de la banda de borrachos, puteros, idiotas, descerebrados, cabrones, ninfómanas, vagos y maleantes”. Isto é, coisa de oito insultos que saem à razão de 800€ cada um. E ainda há quem diga que a vida é mais barata em Espanha. Em todo o caso, há aspectos em que não me sinto suficientemente esclarecido. A medida da multa é mesmo determinada à peça? Existe uma bandeirada mínima? Há insultos mais caros de que outros? Isto é, “gatuno” e “malandro” valem o mesmo? A partir de determinado número de insultos o preço mantém-se? É que se for assim, já estão a ver o potencial que isto tem… Imagine-se, por exemplo, que a partir de 10 insultos não se paga mais. Assim tipo 1500€ por 10 insultos e daí em diante bar aberto… Ora tudo isto são pontos que é urgente esclarecer. É que, para além do mais, estão a chegar as férias e um tipo tem de ter dados que lhe permitam escolher entre ir passar uns dias ao parque de campismo da Caparica ou, por uma vez, ter um gosto na vida.
Uma das características mais intrigantes do modo de ser lusitano é a busca incessante de casos de sucesso de compatriotas por esse mundo fora. Não há meio de comunicação social que se preze que não tenha uma referência diára a situações tão extraordinárias como a do padeiro do Marco de Canaveses que saiu de casa aos cinco anos e tem agora, quarenta e quatro anos e três meses decorridos, uma considerável fortuna pessoal em Aracaju, no estado brasileiro de Sergipe. É claro que tal sucesso se deve exclusivamente aos 60 meses que o dito passou exposto aos ventos continentais vindos da terra quente transmontana, à proximidade do Douro vinhateiro e, é justo dizê-lo, ao copito de jeropiga que a mãe lhe deu a fazer de mata-bicho e ao par de estaladas diário que o pai lhe propinava para lhe enrijecer o espírito e as carnes. É evidente que os outros 531 meses que passou fora do solo pátrio são um pormenor insignificante. Todos sabemos que é de pequenino que se torce o pepino. E quando, por excepção, passa um dia em que não se destaca um português, logo aparecem mais dois ou três. Se não forem cidadãos portugueses de papel passado, serão sobrinhos de um tio que namorou com a neta de uma portuguesa de Macieira de Rates. Se não for no Panamá, há-de ser mais para lá. Se não for um beirão, pode ser um cão. Quem não sente um calafrio quando houve o ino nacional? Quem não se arrepia quando toma consciência que Obama, esse mesmo, nos momentos em que analisa os registos diários de actividade que o Google lhe envia, tem a seus pés Bo, um cão de água português? Quem não se comove ao imaginá-lo, ao cãopatriota, na nobre tarefa de marcar território pelos cantos da Sala Oval? Nestas coisas, o futebol tem sempre uma palavra a dizer. Veja-se o caso do Chelsea. Para os meios de comunicação social, o Chelsea não é dos sócios, nem do Abramovich, nem dos gasodutos. O Chelsea é de Paulo Ferreira e de Hilário que têm, juntos, mais tempo de banco que o Ricardo Salgado. O Mónaco, por exemplo, não é do Alberto nem da Stephanie. Agora, é o Mónaco de Moutinho. E de Ricardo Carvalho. Que já não vê bola desde que a Nívea deixou de fazer publicidade na praia. E o Traktor é de Toni. Sim, que no Irão mandam os portugueses que lá estão. Significa isto que não há insucessos portugueses na frente internacional? Claro que há. Mas os insucessos são colectivos e as histórias de glória são individuais. Camané Alves de Jesus, algarvio da Foia, emigrou para a Suiça, conquistou nos anos cinquenta a loira Jacqueline Desmarets ao som dos Olhos Castanhos do Francisco José e tem hoje uma rede de lavandarias na região de Grenoble. Em contrapartida, são sempre portugueses não identificados que dormem na estação de Genebra. Jesus ganhou de letra ao Fenerbache, mas foi o Benfica que perdeu com o Chelsea. O que é curioso nisto tudo é que estes portugueses que reluzem nos quatro cantos do mundo e também nos da Sala Oval, eram, antes de emigrarerem, uns sacanas, uns cretinos ou, na melhor das hipóteses, uns borra-botas. Tirando o Ferreira Fernandes, de quem quase toda a gente diz bem, a única hipótese de um português ter sucesso em Portugal é ter feito merda. Veja-se o caso do Futre e da conferência de imprensa dos chineses. Veja-se o caso da Sara Norte. Aliás, a Sara Norte reúne mesmo todas as condições de sucesso. Fez merda e esteve presa no estrangeiro. Veja-se o caso do Jorge Jesus. Repare-se que o Vítor Pereira ganhou o campeonato, mas não serve. Vai para o Al Ahly. O Jesus fica e aumentam-lhe o ordenado. Porque fez merda. O outro vai para o Al Ahly e já vem. Mas quando vier, traz a aura de ter ganho a taça das cidades com praças viradas para Meca, coisa que lhe vai tornar o currículo muito mais valioso. E o mesmo se passa com Cláudio Braga. De acordo com o JN, trata-se de um treinador português que faz carreira nos melhores clubes da Holanda. Nada mais, nada menos. Da Holanda, esse país com um campeonato interno verdadeiramente portentoso em que o jogos costumam acabar com resultados que, por cá, só vemos no hóquei em patins. Pois bem, se lermos a notícia, veremos que o homem treina os sub-17 do Utrecht. Uma espécie de Marítimo lá do sítio. Ora, o treinador dos sub-17 do Marítimo cá do sítio nunca merecerá tal destaque. Porquê? Porque está cá e não está na Holanda. A única hipótese de ter reconhecimento é sair. Ou ficar a fazer merda. Ir a Marrocos buscar um carregamento de droga ou beber uns copos antes de uma conferência de imprensa. É por isso que a diáspora portuguesa não é bem isso. É muito mais uma síndroma de internodeficiência congénita que só se cura com várias doses de os portugueses pelo mundo. O Benfica, por exemplo, tem sofrido muito com a doença. Sabendo que os portugueses internamente não têm sucesso a menos que façam merda, constitui a sua equipa à base de brasileiros e de sérvios. Todavia, fica com um treinador português com muito sucesso no país (isto é, que fez merda) e por isso não ganha nada. Quando chega lá fora, faltam-lhe portugueses para ter sucesso (e sabemos como os portugueses são bons a ter sucesso lá fora) e por isso continua sem ganhar. É claro que tal situação está muito mais ligada com o modo de ser português, do que com qualquer maldição do pobre do Bela Guttman que, se bem se recordam, era estrangeiro.
Sóbrio e estruturado o discurso de Cavaco Silva nas comemorações do 10 de Junho. Só ainda não percebi se o fez na qualidade de Comissário para as Pescas e Assuntos Marítimos ou de Comissário da Agricultura e do Desenvolvimento Rural.
Leio que por especial deferência e iniciativa de António Costa, Lisboa conta agora com uma Avenida Álvaro Cunhal. Não se trata de uma excepção, uma vez que outros municípios já cometeram ou preparam-se para perpetrar iniciativas de idêntico calibre. É bem verdade que o país tem muito mais ruas do que filhos que mereçam distinção, pelo que devem aceitar-se como normais a massificação e a erosão de sentido do destaque toponímico. Todavia, uma coisa é colocar, à falta de melhor, o nome de um qualquer patarata numa placa de uma rua. Outra coisa é atingir o nível de cretinice necessário a que se promova a glorificação por instituições democráticas de quem nunca quis a democracia. Álvaro Cunhal combateu, é certo, o regime salazarento. Mas devemos ser capazes de distinguir ainda que os tempos sejam propícios à confusão. Uma coisa é combater uma ditadura para promover a liberdade. Outra coisa é combatê-la para a substituir por uma outra forma de opressão. A liberdade e a democracia são um valor em si mesmas. E porque é assim, é inaceitável o raciocínio daqueles que por acção ou omissão contribuem para que prolifere uma distinção entre ditaduras boas e más. As ditaduras, de direita ou de esquerda, de cima ou de baixo, são o que são. E são más. Execráveis. É por isso que uma certa aragem de politicamente correcto que desemboca numa atitude de tolerância perante o comunismo não pode ser admitida. É certo que, contrariando o pessimismo de Adorno, depois de Auschwitz podemos ainda voltar à poesia. Mas não podemos permitir que volte o nazismo. Pelo mesmo motivo, é realmente lamentável que depois dos milhões de vítimas provocados pelo comunismo e de o sistema não ter levado a outros resultados que não a colectivização da violência e da fome, aqueles que o defenderam e nunca o renegaram acabem não só por beneficiar de um julgamento histórico injustificadamente benevolente como ainda vejam o seu nome inscrito numa avenida, em claro desafio à dignidade democrática da cidade e do país.