Um agradecimento sincero a Passos Coelho


Rui Rocha,

Tinha o governo prometido há três semanas que não teríamos aumento de impostos? Tinha. Temos aumento de impostos? Temos. Defende agora Passos Coelho que a substituição de cortes por impostos é “amiga” do crescimento em contradição com tudo o que afirmara até à data? Defende. Existirá uma designação adequada para estes comportamentos. Existem, na verdade, várias. Desde eleitoralismo torpe até desfaçatez desbragada, há um sem número delas que cumprem de forma cabal o desígnio de descrever adequadamente a realidade. Não devemos, todavia, afastar-nos daquela que melhor traduz o que temos visto: Passos Coelho mentiu com todos os dentes e o pouco cabelo que lhe resta. Mas será isto motivo para o criticarmos? Longe disso. Um cidadão zeloso da preservação do espírito democrático recorda nestes momentos os ensinamentos de Hannah Arendt. As mentiras dos políticos devem ser toleradas porque substituem meios mais violentos. E, perante tamanha falta de vergonha, é de crer que as mentiras de Passos Coelho substituam acontecimentos de uma violência verdadeiramente inaudita para os quais não estávamos obviamente preparados. A verdade é que nos safámos de boa e essa é que essa. Obrigadinho, Passos Coelho.

Nihil obstat


Rui Rocha,

Já está. O Papa Francisco declarou hoje santos João XXIII e João Paulo II perante centenas de milhares de fiéis de todo o mundo. Pelo visto, à cerimónia assistiram 98 delegações de Estados e organizações internacionais, incluindo 24 chefes de Estado e monarcas, do Rei de Espanha a Robert Mugabe. Sei como são tortuosos os caminhos do Senhor, mas talvez fosse caridade cristã informar o Presidente do Zimbabué que o Vaticano ainda certifica santos mas já não vende indulgências. São tradições que se perdem e é pena. Imagine-se, por exemplo, o jeito que não daria por estes dias às crianças do Corno de África aquela coisa da multiplicação dos pães. O certo é que houve milagres, embora de outra natureza. São João Paulo II fez, só à sua conta, dois. E São João XXIII cometeu um. Temos portanto dois Papas e milagres temos três que é, como se sabe, a conta que Deus fez. Pelo que, se recorrêssemos à estatística que é uma outra forma de produzir milagres (veja-se a já estafada questão dos dois frangos comidos por um só mas que estatisticamente divididos por dois dão um frango a cada um), sairia a coisa à média de milagre e meio por Papa hoje santificado. Mas a manipulação, de números ou outra, não é para aqui chamada. Os milagres agora certificados em folha azul de vinte e quatro linhas foram devidamente analisados, estudados, escrutinados e finalmente reconhecidos por uma comissão de sábios e peritos lúcidos e independentes que aplicou no processo, Deus me perdoe, verdadeiro rigor científico. Veja-se o caso, por exemplo, de um dos milagres de São João Paulo II. Floribeth Mora Dias tinha um aneurisma que a medicina não podia curar. A 1 de maio de 2011, às duas da manhã na Costa Rica, esta católica acompanhou pela televisão a beatificação do Papa polaco, apesar de habitualmente não conseguir “acordar normalmente” e voltou a adormecer. “Às oito da manhã ouviu uma voz no quarto que lhe dizia “levanta-te”, recordou. Apesar de estar sozinha, voltou a ouvir “levanta-te, não tenhas medo” e identificou a origem do apelo numa revista comemorativa da revista de João Paulo II, com o Papa polaco na capa, com as mãos levantadas. E pronto, macacos me mordam se não estava curada sem necessidade daquelas mezinhas que o Bruxo de Fafe obriga os seus clientes a emborcar. Natureza diferente têm os outros dois milagres papais. Para que não se diga que santos da casa não os fazem, a cura dirigiu-se desta vez a membros da própria Igreja. João Paulo II curou a freira Marie Simone Pierre que sofria de Parkinson. E João XXIII salvou a religiosa  Caterina Capitani de morrer devido a uma perfuração gástrica hemorrágica. Ora aqui confesso a minha decepção. Apesar de maravilhosos, estes dois milagres, não desfazendo, parecem-me poucochinho. Noto que João Paulo II e João XXIII conseguiram curar as religiosas das suas doenças mas, apesar dos seus imensos poderes, foram incapazes de as fazer celebrar missa.

Pode este cacilheiro ser considerado uma obra de arte?


Rui Rocha,

De todas as discussões possíveis, política, futebol, costumes, há uma e uma só de que qualquer tipo sensato foge como Jorge Jesus das regras gramaticais elementares. Trata-se, já adivinharam, de qualquer tentativa de estabelecer critérios que permitam decidir se determinada produção ou objecto é ou não uma obra de arte. Mas há momentos em que é preciso arriscar. E não é todos os dias que um objecto de discussão deste calado dá à costa. Costa, o presidente da edilidade lisboeta, como Gepeto dentro da barriga da baleia, já teve oportunidade de se pronunciar afirmando que esta é uma oportunidade única de viajar dentro de uma obra de arte. Aconselha todavia a prudência que avancemos um pouco mais devagar, que os cacilheiros não se fizeram para grandes velocidades. Ora vejamos. Um cacilheiro, este cacilheiro, dificilmente poderia ser considerado uma obra de arte no sentido clássico. Mas as coisas evoluem e devemos a nós próprios a obrigação de não nos tornarmos uns completos botas de elástico. Arejemos pois mesmo os cantos mais recônditos das nossas mentes. E admitamos o passo seguinte.  O de saber se este cacilheiro tem os requisitos mínimos que parece serem exigidos às obras de arte nos nossos dias (notaram por certo a elegância com que evito os termos moderna ou contemporânea e outras designações do mesmo calibre). Este cacilheiro cumpre, isso é certo, a regra da transversalidade dos suportes: qualquer coisa serve para fazer arte, desde atacadores de sapatos até cafeteiras. Por outro lado, responde também ao imperativo da diluição dos significados inteligíveis. Na verdade, caríssimos, hoje em dia um bom indício de que estamos perante uma obra de arte resulta de existir um catálogo, um guia, uma tabuleta, um jornalista, um Presidente de Câmara vá, que nos diga que aquilo é de facto uma obra de arte, conclusão a que não chegaríamos simplesmente olhando para ela. Em decorrência, verifica-se também a tendência nihilista que toda a produção artística contemp… (raios, quase que caía) deve apresentar: é desejável que o objecto não se possa enquadrar em nenhuma referência sólida ou padrão estético. Da mesma maneira, este cacilheiro cumpre integralmente o desígnio da obliteração da busca do belo que contaminava a arte clássica. Ainda assim, e apesar de todos estes indicadores apontarem para estarmos perante uma obra de arte no sentido modern… (irra, que foi quase), o certo é que lhe falta ainda qualquer coisa. Falta-lhe, como poderei dizer, o sentido do efémero que por estes dias é absolutamente indispensável. Isto é, este cacilheiro não é ainda uma obra de arte, mas pode bem vir a sê-lo. Basta torná-lo perecível. Para que este cacilheiro possa ser considerado um objecto inquestionavelmente artístico é preciso afundá-lo.

Desfile comemorativo em 25 de Abril de 2014


Rui Rocha,

Freitas do Amaral à direita. Também à frente Mário Soares. Soares a falar sempre de Mário Soares, ainda que pareça falar de outros. O coiso era meu amigo. O tal um democrata. Que passou uns dias em minha casa. E por aí adiante. Um pouco atrás Cavaco, arrastando as botas. Passos Coelho preso ao casaco de Cavaco por uma guita. Vai pronunciando frases vazias. Freitas do Amaral ao centro. Passos Coelho dizendo umas coisas sobre a iniciativa privada. Outras em murmúrio sobre o estado social. Um exército de formigas cede logo às primeiras palavras. As formigas retrocedem, desmotivadas. Alegre proclama. Alegre declama. Alegre exclama. Alegre rima: o tiroliro está la em cima. Jorge Sampaio ouve e toma notas. No próximo discurso dirá o mesmo em mais cinco mil e quatrocentas palavras. O exército de formigas acelera a marcha em sentido contrário. Sócrates tem um cartaz com a fotografia de Sócrates. Pinto Monteiro tem um cartaz com a fotografia de Sócrates. Freitas do Amaral está agora à esquerda. Já teve um cartaz com a fotografia de Sócrates. Teixeira dos Santos vai lá mais para trás. Tenta contar os participantes no desfile. E falha. Eanes foi convidado mas imperativos morais impedem-no de participar. Relvas está ao telemóvel. Vitor Gaspar ouve Alegre e toma notas. Há-de dizer dois ou três dos versos de Alegre demorando o mesmo tempo que levará Jorge Sampaio a ler o seu discurso. Seguro promete que quando chegarem ao fim da rua farão o percurso inverso. Aliás, indigna-se, deviam ter feito o desfile numa rua paralela. Freitas do Amaral está agora do seu lado direito. Perdão. Acabou de colocar-se do seu lado esquerdo. O exército de formigas já desapareceu completamente do campo de visão. Passos Coelho tem uma visão. Comprou-a ontem no quiosque. Comprou também a Caras e a Guia do Automóvel. Aguiar Branco vai de braço dado com Poiares Maduro. Otelo cumprimenta a filha de Marcello Caetano com um beijo. Jerónimo de Sousa distribui doces às criancinhas. Ajuda-se com uma bengala de cego. Nunca soube, nunca viu. O Bloco de Esquerda optou por participar na modalidade de 400 metros estafetas. Assim ficam representadas todas as tendências e sensibilidades. O desfile começou há exactamente quinze minutos. Relvas fechou três negócios e concluiu duas licenciaturas nesse período de tempo. Sócrates concluirá mais uma no próximo Domingo. Marques Mendes prevê chuva. Acerta em cheio. Freitas do Amaral abriga-se com o guarda-chuva de Vasco Lourenço que desfila em representação do Grande Oriente Lusitano. Perdão. Freitas está agora debaixo do guarda-sol de Eduardo Catroga que desfila em representação de si mesmo. César das Neves vergasta-se enquanto caminha. Mas mantém o sorriso. Compraz-se na mortificação do cilício. Isabel Jonet entrega um quilo de arroz carolino a um professor tornado indigente enquanto diz umas palavras a um repórter. Armando Vara segue às cavalitas de José Lello. Cavaco fala do mar. Soares fala da subida dos oceanos. Nomeadamente daqueles que desaguam à porta de sua casa. Passos Coelho fala de submarinos. Portas de contribuintes, agricultores, militares e pensionistas. Marcelo Rebelo de Sousa fala. Jorge Sampaio discursa. Freitas do Amaral adapta o discurso enquanto inicia um movimento em diagonal. O bispo que representa a Igreja Católica tem andado sempre atrás dele. Eanes, que por imperativo moral afinal sempre veio, cala. Guterres dialoga. Durão Barroso abandona. Santana Lopes fica. Oliveira e Costa aproveita um momento de distracção do professor indigente e abifa-se com o quilo de arroz carolino que Jonet lhe tinha dado. Desta vez, Armando Vara foi menos veloz. D. Januário é o único que desfila armado. Otelo distribui beijinhos. Jerónimo de Sousa leva uma criancinha às cavalitas. Ricardo Salgado segue com as mãos nos bolsos. A direita no de Passos Coelho. A esquerda no de Seguro. O exército de formigas recolheu há muito ao formigueiro.

Quanto vale um secador de cabelo?


Rui Rocha,

 

Gabo já tinha publicado algumas obras. Apesar disso, a vida corria-lhe com aperto, restrições e penúria. Naquele ano de 1967, consumia-se no esforço de encontrar editor para o novo livro. As portas, todavia, mantinham-se fechadas. Que era demasiado longo. Que não era aquilo que as pessoas procuravam. Por essa altura, na Argentina, Luis Herss concluíra um ensaio sobre os dez escritores mais representativos da, assim se dizia, Nova Literatura. É possível que no mesmo momento em que Herss abriu a porta do gabinete de Paco Porrúa para lhe apresentar o seu trabalho, a milhares de quilómetros dali mais uma porta de um editor se estivesse a fechar na cara de Gabo. Servir-lhe-ia certamente de consolo saber que alguma coisa, chamemos-lhe providência, se tinha já posto em marcha para alinhar os cordelinhos que vão tecendo o futuro em proveito do seu enorme talento. Todavia, esse ainda não era o tempo de Gabo. Para já, a única certeza que tinha era que aquele livro tão grande era um grande livro. Tudo o resto, era angústia. Paco Porrúa, esse conhecia já nove dos dez escritores referidos por Herss. Quis conhecer o décimo. As rodas dentadas da engrenagem que levariam Gabo ao sucesso continuavam a mover-se lentamente. O contacto com Porrúa foi estabelecido, apesar das dificuldades. Os trâmites burocráticos foram vencidos. A certa altura, a luta de Gabo pela publicação do novo livro estava à distância do envio do manuscrito pelo correio. Uma e outra vez tomamos o sucesso pela sua manifestação no momento em que se concretiza. Como se não houvesse caminho, pedras para desviar, dúvidas, escolhas dolorosas, fracassos e redenções. Para um escritor a quem a roda da fortuna ainda não tinha favorecido, o envio de um manuscrito com centenas de páginas pode constituir um escolho quase insuperável. O custo do correio, do México para a Argentina, pode ser bem mais do que aquilo que alguém pode pagar quando no bolso tem apenas a fórmula mágica que permite dar sentido às palavras e desorganizar o mundo. Foi preciso escolher. Para reduzir o custo, o manuscrito seria dividido em duas partes. Seguiriam os primeiros dez capítulos num primeiro envio. Depois, logo se veria. Mesmo assim, era maior o peso da encomenda do que os pesos mexicanos que Gabo tinha na carteira. Mercedes ficaria sem secador, vendido em estado de necessidade a alguma vizinha para completar a importância necessária. À saída dos correios, Mercedes não pode evitar um comentário: olha, Gabo, agora só faltava que a novela não prestasse… Ao que parece, com a atrapalhação própria de quem pressente um encontro com a história, no momento do envio Gabo trocou os volumes e acabou por seguir, por engano, a segunda metade do livro. Tal não impediu que Porrúa assumisse definitivamente as rédeas do futuro e que acelerasse os passos necessários à publicação. O que lera bastara para se convencer de que estava perante uma obra prima. Agora que Gabo perdeu a memória,  podemos até duvidar que as coisas se tenham passado exactamente assim. Mas, se apreciamos o realismo mágico da escrita, não há motivo para não acreditar que a magia da realidade tenha sincronizado o espaço, o tempo e estas circunstâncias nos dias que precederam a publicação de Cem Anos de Solidão. E que o facto de o livro não se ter perdido com a memória do seu autor se deve, em boa parte, ao valor em pesos mexicanos do secador de Mercedes. 

 

* republicado.

Sócrates, a mulher barbuda da política portuguesa


Rui Rocha,

No circo da política nacional não faltam anões, malabaristas, palhaços e equilibristas. Sócrates, o grande proscrito, encontrou finalmente o seu lugar. Quando tudo levaria a crer que ficasse prisioneiro do seu passado recente, permanentemente suspeito, conseguiu encontrar a brecha que lhe permite voltar ao palco. Cabe-lhe agora, embora (só) ele não o saiba, o papel de mulher barbuda. Semana atrás de semana é exposto à audiência na RTP, assim se resgatando a um destino de marginalização. Vai despertando alguma curiosidade, mas o certo é que só provoca verdadeiro entusiasmo na populaça quando lhe atiram pedras, como aconteceu há dias com José Rodrigues dos Santos. Ontem, em contrapartida, o sabor pícaro da coisa esteve no facto de a mulher barbuda ter respondido, arremessando com inegável pontaria um ou outro seixo. Mas, num caso ou noutro, a exposição pública semanal nada diz sobre a viabilidade de um regresso à política, votado em qualquer circunstância a um inexorável fracasso. Neste decadente espectáculo, Sócrates é exibido apenas e só na sua qualidade de aberração. 

Abreu, Abreu, assim não levas o meu


Rui Rocha,

Decorre, com ampla divulgação e direito a referência em espaços noticiosos, a Feira de Viagens Abreu. Prometem-se, durante dois dias, descontos até 60%. Um bom português dificilmente resiste a uma campanha que junta duas coisas a que é especialmente sensível: descontos e viagens. E este vosso servidor não é excepção. Se tivermos em conta que as campanhas promocionais de duração limitada activam no nosso cérebro a noção de escassez e o sentimento de perda identificados por Cialdini, compreende-se o estado de predisposição para investir com que uns milhares largos de portugueses se deslocam às agências da Abreu ou entram no seu site. Eu, pecador me confesso, imaginava-nos já aos 4 membros da família, em finais de Agosto, sibaritas debaixo de um coqueiro, com as calosidades dos pés acariciadas por água tépida e azul-turquesa, apenas interrompendo a fruição da pechincha para fazer selfies com que afagaríamos o nosso ego publicando-os no facebook. Sucede que a divulgação dos preços da campanha faz-se, desde logo, sem que se indique nos suportes informativos disponibilizados (prospectos ou site), qual o preço antes da promoção. Da mesma maneira, não existe qualquer indicação nesses suportes, para cada destino e período, de qual a percentagem de desconto aplicada. Acresce que, nas agências, a única forma de obter informação adicional é esperar largos minutos até se ser atendido por um dos técnicos de viagens. Por último, apesar da escassa informação prestada nos suportes promocionais, fico com a ideia de que a generalidade dos descontos são muitíssimo inferiores a 60% e os preços estão em linha com aquilo que se pode obter normalmente noutras agências ou sites. Fiquei assim, embora não tenha toda a informação por ter perdido a vontade de esperar até ser atendido (peço aos leitores que a tenham que contraponham o que for conveniente) de que estamos perante uma campanha a que na melhor das hipóteses falta transparência e que poderá estar muito próxima de constituir publicidade enganosa. Nestas condições, tanto pior para as calosidades, a Abreu jamais levará o meu.

De partir o côco


Rui Rocha,

De acordo com o Correio da Manhã, a Polícia Judiciária do Porto foi chamada para investigar o caso de uma mulher que fez explodir um côco, com recurso a pólvora e a mando de uma suposta vidente. Pelo visto, a detonação do côco tinha como objectivo reverter um feitiço de que o marido teria sido alvo. Um jornal normal poderia ter-se ficado pela simples divulgação do facto noticioso, relevante por si mesmo. O Correio da Manhã não. Para cabal informação dos seus leitores, decidiu contactar um especialista. No caso, Fernando Nogueira. Também conhecido por Bruxo de Fafe. O seu parecer não deixa qualquer dúvida. “Trata-se de uma burla” pois “não há bruxaria nenhuma que se resolva com um côco ou com pólvora”. E vai mais longe: “essa falsa vidente devia ser presa por atentado à vida de um ser humano”. Pela minha parte, daria o assunto por encerrado sem necessidade de adicional esclarecimento. Não fosse, confesso, o ligeiro incómodo provocado pela ausência de conhecimentos que me permitam, um dia que falte o Correio da Manhã, distinguir entre verdadeiros e falsos videntes.

O valor do silêncio


Rui Rocha,

Irrita-me que Isabel Jonet fale dos desempregados como uma massa homogénea. Como se a situação de desemprego os tornasse uma categoria sociológica prontinha para lhe colocarmos um rótulo. Os desempregados são isto, os desempregados são aquilo. Ela, Jonet, que tinha obrigação de saber que todas as generalizações são, para quem se encontra especialmente fragilizado, especialmente odiosas. Irrita-me que Jonet atraiçoe aquilo que creio ser o princípio de qualquer voluntário: não julgar, estar sempre, estar apesar dos pesares. Irrita-me que Jonet fale como especialista em pobreza, em desemprego. O voluntariado é acção, não é sermão. Nem cátedra. Irrita-me que Jonet não perceba que o discurso não pode ser o mesmo quando o desemprego é de quinze ou de dezasseis por cento ou quando é de cinco por cento. Irrita-me que Jonet fale. Voluntariado é serviço. Porque sim. Mas não pode conferir um degrau moral a partir do qual seja admissível ditar sentenças sobre a miséria por muito que ela o seja de espírito. Perceberia que falasse para promover a acção do Banco Alimentar. Não percebo que fale para nos dar a conhecer a sua particular mundivisão. Que fale por falar. E que mais tarde ou mais cedo volte a falar. Sinceramente, creio que está na hora de Jonet se calar.

Não venhas embora sem passar pela aromaterapia


Rui Rocha,

Sabemos que, tal como o lince ibérico, o lobo, a foca-monge ou o saramugo, a classe média corre risco de extinção. É natural, assim, que cresça o interesse pela observação dos últimos exemplares no seu habitat natural. No caso dos linces, por exemplo, não é assim tão fácil. O aspirante a biólogo ou aquele que já exerce como encartado deve estar disponível para uma expedição à Malcata. Ou lá onde é que eles andam. Já a observação da classe média parece envolver menos perigo. Em princípio, basta ir a um SPA. O SPA é o local onde uma população urbana minimamente desafogada e cada vez mais escassa troca a constância da temperatura regulada do gabinete ou do open-space pelas agruras do stresse térmico. Da sauna a 40 graus para o duche gelado? Bem-vindos à vida selvagem. E dali para o jacuzzi. E assim sucessivamente, arrostando o perigo. Sem um grito. Sem medo. Mas em algum momentos verdadeiramente a tiritar. O SPA está para os adultos como a Disneyland está para as crianças. Na Disney, os adultos divertem-se sob o pretexto de fazerem a vontade às crianças enquanto estas sofrem atrocidades na escuridão da montanha-russa. No SPA, as crianças divertem-se na piscina sob o pretexto de terem de acompanhar os adultos enquanto estes sofrem atrocidades suportando o jorro intenso que empurra a barriga contra as costas como se não tivesse nada lá dentro. Como se ontem não tivessem comido sashimi. Na Disney, o momento alto para as crianças é um abraço do Pateta. No SPA, o momento alto do pateta é meter-se num tanque de água gelada. Note-se que tudo isto é feito em nome de uma ideia de saúde e juventude. O SPA está para a vida eterna como o iogurte bífidus está para o trânsito interno. O SPA é o templo onde os que já não frequentam igrejas se consagram a certos sacramentos com evidente religiosidade e uma certa predisposição para aceitar sacrifícios. Incluindo a hipotermia. Num caso e noutro fala-se de purificar e regenerar. Pela água. Com a vantagem de no SPA, supostamente, se tratarem as necessidades da alma e os anseios do corpo. É no SPA que o Rodrigo, com calções azuis e pequenos golfinhos, comprados antes de a Throttleman se apresentar à insolvência, e a Carlota, pais do Salvador e da Benedita, se deviam reconciliar com a vida. Não por acaso as mensagens promocionais dos SPA parecem ter sido todas escritas pelo Paulo Coelho: entre numa viagem de puro prazer onde só energias positivas o esperam. Bem, bem. As energias serão positivas mas, em algum momento do circuito, as temperaturas aproximam-se de zero. E nem tudo são rosas. Até no SPA é preciso fazer escolhas que geram tensão. Será preferível começar pela piscina dinâmica ou pelo duche sensorial? São decisões estruturais que podem marcar o sentido de uma vida. E acabar com um casamento. Defendo então que o momento experiencial em que mergulhas num SPA tem em si mesmo a marca de uma certa inutilidade? Que a transição sincopada entre cascatas, jatos e duches bitérmicos é uma moda a que falta um propósito maior que um selfie no IPAD? Que, de uma forma ou de outra, as coisas podem não acabar exactamente como foi prometido? Longe disso. Aí temos a aromaterapia. Ah e tal, os seus efeitos benéficos não estão suficientemente comprovados, argumentam alguns. Tudo muito certo. Mas, ninguém duvida, traz a não despicienda vantagem de pôr o mais palerma a cheirar bem.